23 de junho de 2011

O Paradoxo do Altruísmo

O Exercício do Bom Senso
Torna Viável a Solidariedade

Carlos  Cardoso Aveline




É comum ler e ouvir dizer  que no caminho espiritual devemos “pensar em primeiro lugar no que é bom para os outros, e só depois pensar naquilo que é bom para nós”.

Essa ideia é correta. E ela é uma chave para o nascimento de uma civilização planetária baseada na lei da fraternidade universal. Ao mesmo tempo, os ensinamentos teosóficos precisam ser administrados com atenção e cuidado na vida diária, e o preceito do altruísmo está longe de ser uma exceção. A filosofia esotérica ensina que, a longo prazo, não há conflito entre o que é verdadeiramente bom para os outros e o que é verdadeiramente bom para nós.

Por outro lado, o que é bom nem sempre  parece “agradável”, e o que parece muito “agradável” nem sempre é bom, de fato.

Uma  razoável percepção do que é verdadeiro e falso permite compreender que nem sempre o que é bom para os outros é aquilo que eles querem. Um mendigo, por exemplo, pode querer dinheiro para gastar em cachaça. Da mesma forma, nem sempre o que é bom para nós é aquilo que desejamos. É por isso que existe aquele ditado oriental: “Cuidado com o que tu desejas, porque corres o risco de obtê-lo”. 

Isso torna indispensável um bom discernimento. Para desenvolver a capacidade de ver a diferença entre verdade e ilusão, é necessário aprender com a calma observação dos nossos próprios erros.

A prática real do altruísmo ensina que, embora  priorizar o bem-estar dos outros seja correto, isso não significa dar todo o nosso dinheiro para o primeiro pobre ou mendigo com quem cruzarmos  na rua. Nem trazer  para casa todas as crianças abandonadas que olharmos na calçada. Tampouco é correto ajudar ou participar de ações erradas, só porque alguém pede nosso apoio. Marco Túlio Cícero estabelece três condições para ser altruísta: 

1) Nossa ação solidária não deve ser injusta para com ninguém, ou seja; ao ajudar uma pessoa, não devemos prejudicar outra, nem fazer nada que não seja correto;  

2) Devemos ser solidários dentro do justo limite das nossas possibilidades;

3) Devemos ajudar a alguém que merece ser ajudado. [1]

Para ser inteligente e eficaz, um projeto altruísta deve saltar acima dos casuísmos isolados e ser sistêmico, ser global, e deve levar em conta todas as coisas. Em outras palavras, ele deve atacar mais as CAUSAS do sofrimento do que as suas consequências. E as causas estão sobretudo na alma humana. Um projeto de vida deve ser solidário e não solitário; apesar disso, a independência de cada um é sempre fundamental. No mistério da sabedoria, independência e cooperação são os dois pratos de uma balança cujo equilíbrio é essencial.   

Como podemos alcançar o Discernimento que nos capacitará a agir com real eficácia, no caminho do altruísmo, e nos possibilitará eliminar as Causas do sofrimento humano?    

Esse discernimento é espiritual. Ele depende do grau de autoconhecimento de cada buscador da Verdade. Ele depende de que cada cidadão estabeleça uma relação mais direta e mais forte com sua alma imortal, com seu eu superior, com a “voz do silêncio” em sua consciência. Para isso, o cidadão terá de trilhar o caminho iniciático, que é ao mesmo tempo o caminho do altruísmo e do autoconhecimento. 

No caminho da sabedoria, ao alcançar algo verdadeiramente bom para si, o cidadão está de algum modo beneficiando os outros - assim como a ajuda aos outros é inevitavelmente benéfica para si. Essa é a contrapartida filosófica da chamada solução “ganha-ganha”, hoje popular.

Visto em um plano mais elevado da realidade, esse antigo princípio da ajuda mútua corresponde à Lei Universal.

NOTA:

[1] “De Officiis”,  Marcus Tullius Cicero, Loeb Classical Library, Harvard University Press, 2005, Book I, p. 47.    

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