29 de janeiro de 2013

O Portugal do Futuro

Uma Terra Que Será
Iluminada Pela Sabedoria Divina

Joaquim Duarte Soares



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Joaquim Soares é um dos fundadores da
Loja Independente de Teosofistas e coeditor de
nossos websites associados. Faz parte do conselho
editorial das publicações eletrônicas mensais 
The Aquarian Theosophist” e “O Teosofista”.

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Todo aquele que ousa desenvolver por mérito próprio o seu potencial divino é um inovador, e Helena Blavatsky escreveu:

“A coroa do inovador é uma coroa de espinhos.” [1]

O processo pelo qual cada um vai estabelecendo o contacto com a alma imortal não é isento de dor e dificuldade. As forças atávicas dos hábitos pessoais, do jogo de relações familiares, das convenções sociais e culturais da comunidade onde o indivíduo se insere, vão constituir os desafios a serem superados. Neles o aprendiz encontra um amplo campo de testes e aprendizado, porque a ignorância coletiva organiza-se de inúmeras formas diferentes.

Portugal é um país marcado por engrenagens autoritárias de controle dos cidadãos. Este fato fica notório cada vez que surge um impulso inovador ou transcendente.

Ainda está enraizada nos hábitos do povo português a trilogia de prioridades promovidas durante a Ditadura, “Deus, Pátria e Família”, ou, dito de outra forma, “Pátria, Família e Propriedade”. Esta é a face escura do Portugal medieval. Uma face que, embora já sem vida, permanece em pé a atrapalhar os cidadãos durante a primeira metade do século 21.

Desde as práticas educativas equivocadas ao centralismo burocrático, desde o conservadorismo no seio familiar até o cultivo de “status social”, passando pela submissão ao poder religioso e pela subserviência aos interesses materialistas, muitos são os aspectos onde é possível perceber a ação limitadora das facetas autoritárias do Portugal medieval, com a sua concepção de normalidade sem alma e de civilidade baseada em jogos de aparências.

Tudo o que atente contra uma nada santíssima trindade - Deus Patriarcal, Pátria Autocrática e Família Medieval - é considerado um “elemento perturbador da paz”.

Se na idade média os hereges eram condenados à fogueira, no Portugal medieval do presente os inovadores e todos os que buscam a transcendência recebem um certo tipo de condenação, agora de forma mais subtil e menos violenta.

A religião de estado condiciona e manipula as consciências. Um campo da ciência, sem qualquer preocupação ética, trata os cidadãos como cobaias sem alma. Portugal é o segundo país europeu com o consumo mais elevado de antidepressivos. Quais serão as causas de tantos casos de depressão?

A abordagem reducionista sustenta as terapias agressivas da psiquiatria química em Portugal. Tal como acontece em outros países do mundo, a psiquiatria convencional e mercantil é usada como meio de repressão e enquadramento de cidadãos que não se adaptam a uma sociedade de conformismo e de faz-de-conta. 

Em alguns casos, estes meios são usados para controlar e destruir a vida de indivíduos que desprezam a busca de posição social e preferem adquirir sabedoria. Quero relatar o exemplo de alguém que tive oportunidade de conhecer anos atrás.

A História de A.C., o Herege

Quando conheci esse meu amigo, que chamarei de A.C., ele já era uma pessoa comprometida com o caminho espiritual.

Indivíduo idealista, questionador, A.C. lutou pela liberdade e pelo que considerou correto durante os anos finais da ditadura. Adotou um modo de vida simples e despreocupado e em íntima ligação com a natureza. Envolveu-se em causas humanitárias que na altura poucos ousavam defender. Esteve na linha da frente na defesa dos ambientes naturais como espaços sagrados, na luta pela preservação do valioso património cultural imaterial de povoações esquecidas no país profundo, na promoção da simplicidade voluntária como opção de vida, na luta contra a exploração comercial dos recursos naturais que eram o sustento de pequenas comunidades. Durante anos, escreveu artigos e cartas que enviava para amigos, políticos, jornais e revistas, apresentando a sua visão de um novo modo dos cidadãos e os poderes públicos se relacionarem com a natureza e com a vida. O seu exemplo acabou repercutindo positivamente na vida de muitas pessoas.

Mas chegou o momento em que as coisas começaram a complicar-se. A.C. fazia parte de uma família influente e o pai, alguém muito bem colocado na hierarquia social, com relevantes serviços prestados numa antiga colónia portuguesa, não via com bons olhos tamanha “loucura”.

A caminhada de A.C. continuou. Porém, as suas ideias começaram a parecer demasiado “revolucionárias” para o meio onde vivia. A sua honestidade, sua franqueza, seu espírito crítico e sua ousadia tornaram-se ameaçadores para os poderes locais e seus “jogos de interesses”.

Mesmo os seus supostos amigos começaram a julgar que era meio louco, incapazes de perceber algo além dos seus próprios horizontes limitados. A sua bondade natural abriu caminho para todo tipo de abusos. A enorme pressão no local de trabalho, ao nível social e familiar, e a falta de alguém em quem confiar verdadeiramente levou a que ele mergulhasse numa profunda crise, que acabou por se prolongar durante vários anos.  

Incompreendido e instado por quase todos a abandonar os seus ideais, A.C. procurou se restabelecer e prosseguir a sua caminhada, e julgou ser necessário iniciar um distanciamento daquela vida que ele não queria para si. Decidiu cumprir o sonho de viver livre e só, em uma pequena casa situada numa enseada junto ao mar. A ideia era receber sempre quem viesse por bem, acolher os exaustos da vida, os sonhadores, os buscadores e todos aqueles que quisessem retemperar as forças. A sua casa seria a casa deles por quanto tempo necessitassem. Ele dava o seu quarto aos companheiros que o visitavam, pois preferia dormir sob a luz das estrelas, numa velha tenda ao relento.

Por esses dias ele sentia-se intensamente vivo. Aos poucos, tudo voltava a fazer sentido. Começavam a compreendê-lo, principalmente aqueles que sentiam o que ele sentia e também buscavam um ideal elevado.

Certo dia, uma simples ida a uma vila próxima acabou por ser o passo em falso. Estavam à sua espera. Agarraram-no e sedaram-no. O pai de A.C., fazendo valer as suas influências, declarou o filho como “louco”. Alegou que o nome da família não poderia ser assim jogado no ridículo por causa das inconsciências de um herege. A mãe, temendo que alguém pudesse fazer mais mal ao seu filho, aceitou a decisão do pai.

A.C. acabou sendo internado à força na ala psiquiátrica de uma instituição. Foi catalogado como esquizofrénico e com mais não sei quantas patologias. Passou a ser fortemente medicado. Encarcerado, ganhou peso, perdeu a forma física e aos poucos deixou de comunicar-se, de raciocinar e de lutar.

Era demasiado doloroso tentar falar com ele ao telefone. A voz arrastava-se. Não se percebia nem uma palavra. Lentamente foram destruindo-o.

Encontrei-me de novo com ele depois de alguns anos. Não parecia o mesmo, mas lá no fundo era ainda ele. A pequena chama não tinha sido apagada. Seus pais estavam agora idosos e ambos doentes. O pai havia ligado pedindo a sua ajuda, e ele foi. Morava agora temporariamente com os velhos pais. No início de 2013 falámos pelo telefone. Já não falávamos há meses, e A.C. disse-me:

“Perdi tudo, estou pobre, mas feliz. Posso agora consolar meus pais e fazer com que vivam seus últimos dias com dignidade e que sofram o menos possível”.

A Busca da Transcendência

Temos nesta história real vários elementos que merecem ser destacados. A busca da transcendência é algo inato no ser humano. O despertar espiritual contém elementos desafiadores e por vezes dramáticos. O eu inferior pode estar despreparado para administrar uma elevação ou expansão súbita de consciência.

Há na sociedade materialista de hoje uma incompreensão generalizada sobre o que é a caminhada espiritual. A ignorância coletiva organiza-se em volta do aspirante à sabedoria a partir do momento em que este assume ou reforça o seu compromisso interno com a verdade. Os mecanismos de controle e de autoritarismo agem no momento em que determinada rotina social é ameaçada. Todo progresso precisa ser vivido sem pressa, com bom senso, com determinação, realismo e uma boa dose de desapego. A falta de um esquema referencial e pedagógico correto torna a busca da sabedoria mais difícil e mais perigosa.

O exemplo de vida de A.C. não é um caso isolado. Muitos outros tipos de desafios colocam-se diante daquele que decide tomar verdadeiramente as rédeas da sua vida. Qualquer indivíduo que abraça uma causa nobre - seja ela a defesa da ecologia, dos animais, o budismo, a teosofia ou filosofias orientais - pode ser chamado de “louco” pelas pessoas que mais ama e que lhe são mais próximas.

O aspirante à Sabedoria precisa saber administrar as dificuldades que surgem durante o processo de expansão da consciência, seja ela súbita ou gradual. Os desafios devem ser tomados como alavancas para uma aprendizagem mais profunda, para o fortalecimento interior, e para a ação criativa.

No texto “A Consolidação da Vitória” encontramos elementos que permitem compreender a relação dinâmica entre o foco da consciência e a mudança que ocorre na vida do aprendiz. Tudo depende do contato entre a alma imortal e a alma mortal. Sob o subtítulo “Foco Superior, Antahkarana e Mudança”, lemos naquele artigo o seguinte:

“De que modo o templo abstrato e invisível da alma imortal pode expressar-se no mundo? Para isso ele depende da parte inferior de Antahkarana, a ponte entre alma mortal e alma imortal. Quando pensamos em Antahkarana, normalmente o visualizamos como se nossa consciência estivesse situada no eu inferior.  Neste caso a aceleração do contato com o eu superior consiste em abrir uma janela maior para o alto. Mas o que acontece quando a consciência passa a ficar focada com força especial no eu superior, devido a uma expansão mais ou menos súbita de consciência?  O que ocorre quando alguém nasce em condições muito diferentes da vida anterior, durante a qual pode ter expandido poderosamente Antahkarana? Há uma ilustração deste caso nos primeiros capítulos do romance ‘O Idiota’, de Dostoievsky.  O sexto princípio (a inteligência espiritual) atua intensamente, mas há fortes contraindicações no funcionamento do eu inferior. O indivíduo pode ter, inicialmente, dificuldades de autocontrole, a menos que esteja rodeado de seres capazes de compreendê-lo, de acompanhar o seu processo, e de dar-lhe elementos para que desenvolva em paz o seu melhor potencial.”

E ainda: 

“As dificuldades enfrentadas por H. P. Blavatsky em seu eu inferior são exemplos disso.  A ‘loucura’ de São Francisco de Assis durante sua juventude, segundo a lenda da vida dele, é outro exemplo.  A conduta ‘excêntrica’ de pessoas guiadas por seus eus superiores é proverbial em várias tradições. A importância do autoconhecimento, do autorrespeito e do autocontrole, destacada em ‘Cartas dos Mestres  de Sabedoria’, se deve a que estes três fatores são necessários para que a expansão do eu superior e de Antahkarana possa ser apoiada e estabilizada, e seja administrada corretamente,  tanto na alma mortal como nas ações externas da vida.” [2]

O artigo prossegue:

“A pessoa que amplia com força Antahkarana  deve necessariamente simplificar sua vida no plano do eu inferior, para que possa manejá-la mesmo mantendo o foco da vida no plano mais elevado. O peregrino tem força reduzida no eu inferior e nos assuntos externos. Talvez ele seja considerado um fracasso completo nestes departamentos da vida. Ele deve renunciar a estas frentes de batalha ou reduzi-las consideravelmente para concentrar o foco nos planos abstratos e elevados.” 

A vida é aprendizado e a meta é de longo prazo. Ao ampliarmos o contacto com nossa alma imortal, estamos a criar as condições propícias para que outros também o façam. O verdadeiro despertar e a verdadeira regeneração ocorrem de dentro para fora. A criação de um Portugal mais ético surge a partir dos pensamentos, dos sentimentos e das ações corretas feitas a cada dia. Nasce com aqueles que decidem hoje e agora procurar a sabedoria.

O Portugal medieval, em seus aspectos negativos, é o carma de uma ignorância fortalecida ao longo de séculos. Em contraponto, temos o Portugal do futuro. Este é um espaço aberto à sabedoria, ao autodesenvolvimento, à autonomia, à autorresponsabilidade, ao respeito por si próprio e pelo outro, e à adaptabilidade diante do novo. É um espaço de desenvolvimento espiritual, de livre busca da verdade e de sonho de uma civilização fraterna.  

Tanto o Portugal medieval em seu aspecto autoritário [3], como o Portugal do Futuro, que aprende as lições do passado, convivem no tempo presente.

Um deles vai se desvanecendo com rapidez. O outro se afirma a cada dia. Todo cidadão que acorda para a sua responsabilidade perante a sua própria alma imortal, perante o seu país e o mundo, soma a sua força à nova vida que já emerge, lentamente mas de modo triunfante.

NOTAS:

[1] “The Key to Theosophy”, H. P. Blavatsky, Theosophy Co., Los Angeles, 1987, p. 38.

[2] “A Consolidação da Vitória”, Carlos Cardoso Aveline. Disponível em nossos websites associados.

[3] O Portugal medieval também possui numerosos aspectos positivos, que devem ser valorizados.

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Leia também o texto “Meditando pelo Despertar de Portugal” que pode ser facilmente encontrado em nossos websites associados.  

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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