29 de outubro de 2013

A Psicologia do Satori ou Iluminação

A Psicologia do Satori ou Iluminação


Erich Fromm




Erich Fromm (1900-1980)

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O texto a seguir é reproduzido do boletim “O Teosofista”, de
outubro de 2009. Ele foi traduzido da obra  “Zen Buddhism and
Psychoanalysis”, de D.T. Suzuki, Erich Fromm e R. De Martino,
First Evergreen edition, 1963, EUA, 180 pp., ver pp. 115 a 118. Na
edição brasileira da obra, o título é “Zen Budismo e Psicanálise”.

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Se quisermos expressar o que é a iluminação em termos psicológicos, eu diria que ela é um estado em que o indivíduo está completamente em sintonia com a sua realidade interna e externa, em que está plenamente consciente da realidade e a capta de modo integral.  Ele está consciente dela, isto é, não se trata do seu cérebro, nem qualquer outra parte do seu organismo, mas ele, o homem inteiro.  Ele está consciente dela; não como se a realidade fosse um objeto que ele capta com seu pensamento, mas ele capta a flor, o cachorro, o homem, em sua realidade completa.

Aquele que desperta está aberto e é capaz de responder ao mundo, e ele pode ser aberto e ser capaz de responder ao mundo porque renunciou a agarrar-se a si mesmo como uma coisa, e assim tornou-se vazio e capaz de perceber.  Estar iluminado significa “o completo despertar da personalidade total diante da realidade.”

É muito importante compreender que o estado de iluminação não é um estado de dissociação ou de transe no qual o indivíduo acredita que está desperto, quando na verdade está profundamente adormecido. O psicólogo ocidental, naturalmente, terá uma tendência a acreditar que satori [a iluminação] é apenas um estado subjetivo, e mesmo um psicólogo tão simpático em relação ao Zen quanto o dr. [Carl] Jung não consegue evitar o mesmo erro.  Jung escreve: “A própria imaginação é uma ocorrência psíquica, e portanto, não faz diferença alguma se uma iluminação é qualificada de real ou imaginária. O homem que tem a iluminação, ou alega que a tem, pensa em qualquer caso que é iluminado  (......) Mesmo que ele estivesse mentindo, a sua mentira seria um fato espiritual.” [1] 

Isso faz parte, é claro, da posição geral de relativismo adotada por Jung em relação à “verdade” da experiência religiosa. Ao contrário dele, eu acredito que uma mentira nunca é “um fato espiritual”, nem qualquer outro fato, na verdade, exceto o fato de ser uma mentira. Mas, de qualquer modo, a posição de Jung certamente não é compartilhada pelos zen budistas. Bem pelo contrário. Para eles é de crucial importância saber a diferença entre a experiência autêntica de satori, na qual a aquisição de um novo ponto de vista é real, e portanto verdadeira, e uma pseudo-experiência que pode ser de natureza histérica ou psicótica, na qual o estudante Zen está convencido de haver obtido satori, enquanto o mestre Zen tem que demonstrar que ele não obteve. Uma das funções do mestre Zen é, precisamente, estar vigilante em relação à confusão que o seu aluno faz entre a iluminação real e a iluminação imaginária.

O completo despertar para a realidade significa, falando em termos psicológicos, ter alcançado “uma orientação completamente produtiva”. Isso significa não relacionar-se com o mundo de modo receptivo, explorador, acumulativo, ou mercantilista; mas sim criativamente, ativamente (no sentido de Spinoza).  No estado de completa produtividade não há véus que separem o eu do “não-eu”. O objeto não é mais um objeto; ele não fica contra mim, mas está comigo. A rosa que eu vejo não é um objeto para o meu pensamento, da maneira pela qual, quando eu digo “vejo uma rosa”, apenas afirmo que o objeto, rosa, cai na categoria “rosa”; mas da maneira em que se diz que “uma rosa é uma rosa é uma rosa”. 

O estado de produtividade é ao mesmo tempo o estado da mais alta objetividade. Eu vejo o objeto sem as distorções provocadas pela minha cobiça e pelo meu medo. Vejo-o como ele é, e não como eu quero que ele seja, ou que não seja. Neste modo de percepção não há distorções paratáxicas [através do  uso das palavras] .  Há completa vitalidade, e existe uma síntese de objetividade e subjetividade. Eu tenho uma experiência intensa --  e no entanto é permitido ao objeto que ele seja como ele é. Eu trago o objeto à vida, e o objeto me traz à vida. O satori parece misterioso apenas para a pessoa que não está consciente de até que ponto a sua percepção do mundo é puramente mental, ou paratáxica.  Se o individuo estiver consciente disso, ele também perceberá uma consciência diferente, que se pode chamar de consciência completamente realista.  O indivíduo pode ter experimentado apenas vislumbres dela: no entanto, ele pode imaginar como ela é. Um garoto pequeno que estuda piano não toca como um grande mestre. No entanto a performance do mestre não é um mistério: trata-se apenas da perfeição da experiência rudimentar que o garoto tem.

O fato de que a percepção não distorcida e não-cerebral da realidade constitui um elemento essencial da experiência Zen é expressado muito claramente em duas histórias Zen.  Uma delas conta a conversa de um mestre com um monge:

“Você faz algum esforço para tornar-se disciplinado na verdade?”
“Sim.”
“Como você se exercita nisso?”
“Quando tenho fome, eu como; quando estou cansado, eu durmo”.
“Isto é o que todo mundo faz; podemos dizer então que todos estão fazendo o mesmo exercício?”
“Não.”
“Por quê?”
“Porque, quando eles comem, eles não comem, mas estão pensando em várias outras coisas, e assim permitindo-se ficar perturbados; quando eles dormem, eles não dormem, mas sonham com mil e uma coisas. É por isso que eles não são como eu.” [2]

A história dificilmente precisa de alguma explicação. O indivíduo comum, levado pela insegurança, pela cobiça, pelo medo, é constantemente imerso em um mundo de fantasias (e nem sempre é consciente disso), no qual ele vê o mundo como se tivesse qualidades que ele projeta sobre o mundo, mas que não estão lá. Isso era um fato quando esta conversa ocorreu; e continua sendo um fato verdadeiro hoje, quando quase todos veem, ouvem, sentem e saboreiam mais com base em seus próprios pensamentos, do que com base naquelas funções dentro de si que são capazes de ver, ouvir, sentir e saborear.

A outra história, igualmente cheia de significado, é a afirmação de um mestre Zen que disse: “Antes que eu alcançasse a iluminação, os rios eram rios e as montanhas eram montanhas. Quando comecei a ficar iluminado, os rios não eram mais rios, e as montanhas não eram montanhas. Agora, desde que estou iluminado, os rios voltaram a ser rios e as montanhas são montanhas.” 

Outra vez, temos o novo enfoque da realidade. O indivíduo comum é como o homem na caverna de Platão, que olha só as sombras e pensa que elas são a substância. Quando reconhece este erro, ele sabe apenas que as sombras não são a substância. Mas quando se torna um iluminado, ele troca a caverna e a sua escuridão pela luz do dia. Então ele vê a substância e não as sombras. Ele está desperto.  Enquanto permanece no escuro, ele não pode entender a luz. (Como diz a Bíblia: “Uma luz brilhou na escuridão e a escuridão não a entendeu.”[3] )  Uma vez que está fora da escuridão, ele compreende a diferença entre a sua visão anterior do mundo como sombras, e a sua visão atual do mundo como realidade.


NOTAS:

[1] Do prefácio de Carl Jung para a obra de D.T. Suzuki intitulada “Introduction to Zen Buddhism”, London,  Rider, 1949, p. 15.

[2] D.T. Suzuki, “Introduction to Zen Buddhism”, p. 86.

[3] Evangelho segundo João, 1: 5. (Nota do editor de “O Teosofista”.)

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