4 de fevereiro de 2017

O Despertar da Amazônia

Região Amazônica é um Livro de Saber
Atemporal, um Tesouro Que Pertence aos Povos

Emanuel Tadeu Machado




A Amazônia abrange boa parte do continente sul-americano. Atravessa nove países, e o seu relevo diversificado inclui planícies, planaltos e montanhas. A intensidade da vida se expressa através do calor equatorial e da constante umidade, decorrente da presença de um grande volume de água.

A água é um fator preponderante na região, desde o subterrâneo até o ar. A grande bacia de rios, que por vezes possuem centenas de metros ou até alguns quilômetros de largura, irriga o corpo florestal, transportando vida e energia.

O curso dos rios é um espetáculo deslumbrante, que nos leva a refletir acerca da grandiosidade da vida com seus movimentos de fluxo e refluxo. A umidade da floresta também contribui para um resfriamento sazonal na época das chuvas.

A floresta não distingue quatro estações do ano, para ela o tempo é dual, e essa dualidade se reflete em seus ciclos. Chuva e Sol, maré baixa e maré alta, vento e calmaria, céu e rio, tudo é duplo. O homem amazônico, ou amazônida, vivencia essa dualidade em seu quotidiano. Por vezes tem consciência da dualidade, mas na maioria das situações deixa-se levar pelos ciclos naturais de vida da região.

A intensidade da floresta se traduz por suas árvores fortes, que possuem raízes relativamente superficiais espalhando-se por dezenas de metros, mesclando-se às raízes umas das outras, sejam grandes ou pequenas, e formando um enorme corpo vegetal que se manifesta como um só ser e espírito. As raízes da floresta são seu cerne. Nelas está concentrado o potencial de desenvolvimento da vida. É surpreendente a capacidade de reação da floresta ante as ações de degradação, como queimadas ou desmatamentos.

Sua fauna é rica e diversificada. Seus animais exóticos, por vezes ainda desconhecidos pelo homem, expressam a sabedoria da natureza enquanto cumprem com o seu Dharma, vivendo e evoluindo integrados à floresta.

Manter um contato vivo com a floresta, em meio à mata ou na margem dos rios, é um exercício de percepção de um mundo mais sutil e de reencontro com as aspirações sagradas. É perceptível uma atmosfera espiritual diferente, que começa a fazer sentido à medida que se sossega a mente. Alguns habitantes da floresta e da margem dos rios conseguem essa percepção sublime, expressando profunda espiritualidade em seus singelos deveres quotidianos.

A floresta pode fornecer de tudo. Alimento, abrigo e sabedoria são o básico que os povos amazônicos têm à sua disposição. O simples ato de observar as águas fluírem, com a luz solar espraiando-se sobre as ondas densas da água doce e barrenta, com o vento úmido que canta aos ouvidos, é um convite para se esquecer de si, ouvindo a profusão do silêncio na alma. Contemplar um rio é imergir a mente no silêncio.

Aqueles que habitam o interior da mata, longe dos centros urbanos, das grandes rotas de navegação, dos grandes e pretensiosos projetos de desenvolvimento, que contemplam e dialogam com a sabedoria da floresta, podem ter um vislumbre da vida circundante, sendo partícipes de uma corrente multidimensional.

A sabedoria disponível no livro da floresta pode ser interpretada por todos, basta abraçar a atmosfera vibrante que permeia o ambiente da floresta. A percepção do ambiente se modifica. Tudo é observado como vivo e dinâmico. A exemplo das palavras de um velho amazônida que vive às margens de um grande rio, “as águas estão vivas, o rio está vivo, se for entrar lá, sempre peça permissão para entrar e tirar de lá o seu sustento. O respeito à natureza e ao seu espaço deve ser refletido no homem que deseja viver neste território sagrado.

A experiência de conviver com uma floresta é benéfica e pode proporcionar importantes lições de ordem intuitiva. Conforme escreveu Carlos Cardoso Aveline:

“Se o amor por uma árvore ou floresta é recíproco, deve haver um processo de reconhecimento e aceitação mútuos. Como pode dar-se isto? Em primeiro lugar, para sermos aceitos por uma floresta, devemos aproximar-nos dela tranquilamente, deixando de lado preocupações de ordem pessoal. Ao entrar nela, é bom mover-se pouco e avançar cumprimentando-a silenciosamente com nosso coração. É correto conversar com ela em pensamento. Aos poucos, os seus cheiros e sons nos envolvem, e somos recebidos e incluídos pela comunidade complexa de animais e vegetais que constituem o local. É isto que nos dá a sensação de sentir-nos à vontade em uma floresta, e não o fato de passarmos mais ou menos tempo nela. Há gente que mora em florestas, mas, por falta de sintonia, procura passar a maior parte do tempo longe delas, em ambientes urbanos. Outras pessoas moram em cidades, mas buscam as florestas por uma necessidade de renovação interior: não veem a floresta como madeira a ser derrubada, mas como uma comunidade da qual podem fazer parte espiritualmente”. [1]

A Amazônia, assim como qualquer bioma do planeta, guarda um livro de saberes atemporais, imprescindíveis aos seres, em suas jornadas de evolução espiritual. Ela é um tesouro legado aos povos, para auxiliar em sua realização histórica.

Por séculos, muitos povos habitaram a região. Os povos indígenas que floresceram e morreram ao longo da Amazônia conforme as leis dos ciclos históricos, preservando a perfeita integração com a floresta, souberam evoluir tomando as leis naturais como referencial em suas vidas. A cultura de tais povos e sua visão de mundo merecem ser estudadas e aprofundadas. 

A cultura indígena pode parecer inadequada ao modo de pensar moderno, remetendo a uma ideia de atraso civilizatório, porém devemos lembrar que o verdadeiro avanço é espiritual e se dá com o cultivo ao desapego e através do aprendizado com a natureza em suas manifestações sutis.

Cardoso Aveline afirma:

Os indígenas (…) tinham uma visão relativamente estreita do mundo. Vemos com facilidade os erros do pensamento indígena tradicional, porque é sempre fácil enxergar os defeitos alheios e nossas limitações são outras. Mas apesar das cegueiras culturais, dos tabus e nacionalismos tribais, havia nas sociedades indígenas - como há hoje na nossa - uma tradição de sabedoria transcendental. Ela permanecia à disposição dos que estavam prontos e eram capazes de erguer os olhos para ela. Quando o aprendiz está pronto, a sabedoria aparece - em qualquer tempo e lugar.”[2]

Para viver na Amazônia, o homem deve se integrar a ela. Deve reconhecer que ela é um grande ser vivente, um componente importante ao equilíbrio do planeta. Antes de viver na região, o homem deve intentar viver com a região, integrando-se às suas leis ecológicas. Assim, deve respeitar os espaços e cursos naturais, não impedindo suas transformações, nem espalhando alterações artificiais que têm consequências desastrosas ao delicado equilíbrio da região.

Muitos veem a Amazônia como uma terra exótica, com uma fauna e uma flora exuberantes, com uma cultura ainda primitiva, pronta para ser explorada e atender os anseios consumistas de uma sociedade doente e ignorante.

A exploração desmedida da floresta, do solo e dos rios causa impacto direto no ser humano. Os grandes projetos barragistas e de exploração mineral e agropecuária carregam consigo mazelas sociais causadoras de grande sofrimento. Quanto mais se degrada a região, mais o povo é afetado, pois, mesmo sem saber, ele possui uma ligação sutil com tudo o que o cerca. As energias da vida que permeiam o espaço amazônico vibram conforme os ataques que sofrem, e isso se reflete no microcosmo de cada ser vivente, causando debilidade moral e física.

Podemos nos referir a uma civilização amazônica, que transcende as fronteiras estaduais brasileiras e nacionais. Essa civilização está hoje permeada pelo medo e pela incerteza. A destruição da floresta e de seus valores tem impacto direto na identidade do homem amazônico, que sofre inconscientemente junto com a floresta. Os problemas sociais decorrentes são fruto desse distanciamento entre o homem e a sabedoria da floresta. É imprescindível que haja um exercício de despertar, fazendo com que seja reconhecido o valor da floresta, desde as esferas físicas até as mais sutis.

Cabe empreender esforços para que seja promovido o resgate dos valores culturais da Amazônia, o resgate de seus rios e florestas, das tradições dos seus povos, não somente dos indígenas, mas do que de melhor os que aqui chegaram têm a oferecer. Assim nascerá uma comunidade integrada a um ideal de ecologia humana e profunda. Cabe reconhecer a ligação de espírito entre os seres que participam desse enorme bioma, tratando o homem como um deles.

Por si só a Amazônia evolui. Cabe ao homem reconhecer tal realidade e verificar a necessidade de evoluir em conjunto.

O Dia da Amazônia

Em 5 de setembro de 1850, D. Pedro II, o imperador-filósofo [3], criou a província do Amazonas, por meio da Lei nº 582, desmembrando-a da província do Grão Pará.

O dia da Amazônia, estabelecido por lei em 2007, surgiu como uma homenagem à criação da Província do Amazonas, por D. Pedro II.

O objetivo da data é chamar a atenção para a necessidade de preservação do bioma amazônico, alertando o Brasil e o mundo para a adoção de medidas de combate à destruição da floresta, e para que sejam pensadas soluções de desenvolvimento regional sem que seja necessária a exploração desmedida da biodiversidade. Pretende-se também fomentar o debate sobre os problemas atuais da Amazônia, bem como promover a educação de jovens, acerca da importância da preservação da floresta.

A visão humanista do Imperador o levava a preocupar-se com a ecologia. Em 1862, quando não se falava em questões referentes a preservação ambiental, o Imperador adquiriu no Rio de Janeiro uma fazenda, que abrange o atual parque nacional da Tijuca, e promoveu o seu reflorestamento com mata atlântica nativa.

Outro fruto da consciência ecológica do Imperador é a criação do Museu Botânico de Manaus, em 1883, por esforços do naturalista João Barbosa Rodrigues. A Princesa Isabel foi a maior responsável pela criação do museu.

A Amazônia é vital para o planeta. Sua preservação constitui um desafio para a humanidade. O nascimento de uma consciência ecológica resultante da redescoberta de tradições e valores esquecidos é vital não só para o bioma amazônico, mas para a humanidade, em sua biodiversidade planetária.

NOTAS:

[1] “A Vida Secreta da Natureza”, Carlos Cardoso Aveline, terceira edição, editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007, p. 25.

[2] Ver o texto “A Sabedoria Ecológica dos Indígenas”, de Carlos Cardoso Aveline, disponível em nossos websites associados

[3] Ver o texto “A Filosofia de Dom Pedro II”, de Carlos Cardoso Aveline, disponível em nossos websites associados.

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Veja o texto “Meditando Pelo Despertar da Amazônia”, de Carlos Cardoso Aveline, que está disponível em nossos websites associados.

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Em setembro de 2016, depois de cuidadosa análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas, que tem como uma das suas prioridades a construção de um futuro melhor nas diversas dimensões da vida.

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