11 de novembro de 2020

Construindo um Templo Interno

Cada um Pode se Transformar
Num Pequeno Centro de Boa Vibração

Emanuel Tadeu Machado

 
 
 
Um dos primeiros passos na caminhada do peregrino teosófico rumo à autoconsciência passa por uma misteriosa deferência por tudo o que é grandioso e desconhecido.
 
Esse é um passo importante. O assombro com a vastidão da natureza, do universo e da vida inclina o buscador da verdade ao desejo de escrever acerca do que aprende, fazendo uso de sua percepção das coisas. A reflexão sobre o mundo é intuitiva, manifestando-se, depois, por palavras.
 
O sistema da natureza, que o estudante começa a compreender graças ao estudo da teosofia clássica, contém em potencial todo o conhecimento acerca da evolução do universo, de suas leis e da sua finalidade.
 
A verdadeira paz interna dispensa o que é destruído pelo tempo. O peregrino passa a ter seu foco em sua própria substância essencial, que em si é duradoura. Os edifícios religiosos se tornam desnecessários. Não será nos altares de mármore que o Ser Imortal surgirá, mas no átrio dourado do coração do buscador da verdade.
 
O mesmo silêncio encontrado nos templos de pedra pode ser encontrado na vastidão dos mares e campos, no pôr do sol, no brilho prateado da lua e dos astros no firmamento. Existe um templo à nossa volta, tão grandioso que se estende desde a imensidão do universo até o centro invisível da consciência de cada ser vivo.
 
Em algum momento de seu caminho o estudante começa a olhar para dentro de si. Começa a perceber que ele mesmo é um templo. Que é composto de muitas moradas, as quais são habitadas por faces diferentes de si mesmo. Cabe adentrar em cada um destes cômodos, e afastar as cortinas que impedem que a luz limpe e ilumine tudo. Esta luz surge de dentro, de seu Eu Real e Superior, que é o habitante do templo interno. Esta é a verdade, partilhada por todos os seres e que pode ser amadurecida por um processo de autoconstrução.
 
Avançando o estudante pelo caminho do ensinamento contido nas obras clássicas, bem como no esforço interno por cultivar e preservar a verdade, o processo de aprendizado se consolida.
 
O sistema ético que o estudante aos poucos constrói se torna um modo natural de conduta no dia a dia. Aos poucos se vai afastando de coisas inúteis e preferindo a companhia do bem e da verdade.
 
Os semelhantes interagem e cooperam entre si. O bom magnetismo acaba por congregar aqueles que têm por norma o cultivo da ética e do altruísmo. Se cada um se torna um pequeno centro de boa vibração, ocorre uma transmutação na sociedade como um todo, que passa a cumprir corretamente o seu papel histórico.
 
Mahatma Gandhi, como tantos outros, ensinou pelo exemplo, e definiu normas de conduta ao seu Ashram, que são a expressão de um profundo amor ao ideal sagrado de cumprir com os deveres apontados pela natureza humana:
 
“Com toda humildade me esforçarei
para ser amigo, verdadeiro, honesto e puro,
para nada possuir de que não tenha necessidade,
para merecer o salário do meu trabalho
e ser eternamente vigilante
naquilo que bebo e como,
e para ser intrépido sempre,
procurar ver sempre o bem no meu próximo,
seguir fielmente o svadeshi [1]
e ser um irmão para todos os meus irmãos.” [2]
 
Por pequeno que seja, cada esforço rumo à meta correta da justiça interna e externa contribui para fortalecer o caráter interior.
 
Cultivar o hábito da meditação proporciona expansão da consciência e uma sintonia com o que é duradouro.
 
O contato frequente com a natureza e suas expressões (ventos, rios, florestas, terra e céu) favorece e amplia a percepção interior, que se torna capaz de absorver as mensagens ocultas da natureza. Também é possível ter um vislumbre da harmonia sagrada existente no fluxo do tempo e nas muitas dimensões do espaço que nos circunda.
 
Aos poucos, em meio aos nossos erros e fracassos, aquilo que há de mais interno e superior em nós é reconhecido como um pequeno templo; um precário espelho do universo; uma  limitada expressão da Lei Universal na escala da consciência humana imperfeita.
 
Nesse sentido, Carlos Cardoso Aveline escreveu:
 
“O verdadeiro templo está no centro da consciência do indivíduo. O estudante sabe que pode visitar a cada dia esse santuário, e que para isso deve deixar do lado de fora da porta de entrada os sapatos das preocupações materiais.” [3]
 
Para viver como um templo, é preciso ter foco nas ações corretas, abandonando ou combatendo os males do mundo. É correto auxiliar a evolução dos demais seres, nossos irmãos de caminhada.
 
Quanto mais nos conhecemos, mais podemos conhecer aos outros, sendo possível dialogar diretamente com suas almas e mentes por intermédio da linguagem sutil e intuitiva, de Buddhi-Manas.
 
Cada um é uma fortaleza em construção. Não somos, porém, como uma dura e alta muralha. Guardamos tesouros em nossos corações à medida que vamos acumulando experiência dentro de um processo de discipulado leigo. A vida do aspirante à sabedoria passa a servir de exemplo impessoal. Há nela um tesouro interno que se expande e acaba por influenciar os seres aptos a partilhar do mesmo magnetismo.
 
Podemos ler no mesmo texto:
 
“Aqueles que se reúnem diariamente com suas consciências constroem a única base firme para a busca da felicidade. A verdadeira bem-aventurança é incondicional. Ela independe de fatos externos de curto prazo. Nela está o alicerce durável do movimento esotérico autêntico.”
 
“O movimento teosófico tem sua base primeira no plano celeste e na alma imortal de cada estudante. O mundo externo é o campo de testes e a lavoura a ser trabalhada pelos que plantam o bem através da vivência da sinceridade.” [4]
 
A Loja Independente de Teosofistas se apresenta como um convite. Dentre todos os seres, aqueles que se aproximam dela ampliam a digna oportunidade de convívio e cooperação na construção do futuro. A eles oferecemos o nosso trabalho. 
 
NOTAS:
 
[1] Svadeshi: serviço altruísta aos que estão perto de nós, compromisso com a produção independente de bens econômicos, autonomia econômica e social da comunidade local. (Nota explicativa do texto “Voto dos Membros Do Ashram de Gandhi”)
 
[2]Voto dos Membros Do Ashram de Gandhi”.
 
[3] Um Confronto Diário no Templo”.
 
[4]Um Confronto Diário no Templo”.
 
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O artigo acima foi publicado nos websites associados dia 11 de novembro de 2020. Sua publicação inicial ocorreu na edição de junho de 2019 de “O Teosofista”, pp. 12 a 15.
 
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