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26 de outubro de 2016

A Bússola e o Norte

Afonso Lopes Vieira



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Nota Editorial:

Nos versos a seguir, a agulha que aponta
para o Norte corresponde a antahkarana, a ponte
entre eu superior e eu inferior, sempre voltada para o
Norte que é a evolução a caminho do mundo divino.
A estrela corresponde a Atma. Mas cabe perguntar-se
sempre a esse respeito, porque a verdadeira resposta, o
conhecimento direto, ocorre além do pensamento. O
ensinamento transmitido através de palavras pode apenas
apontar para a sabedoria, como a bússola aponta para o
Norte. O perguntar-se abre o caminho para a percepção.

(Carlos Cardoso Aveline)

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O Norte, que é? Acaso sabê-lo-á
a agulha que se vira para lá?

Que simpático rumo é o rumo dela?
Por que ama, assim constante, aquela estrela?

E para além da estrela, para além…,
quantas ainda a nortearão também?

Não o sabe, decerto, a agulha: e indica
uma coisa que sente, e que lá fica…

Assim em nós, recôndita, a indicar,
é a alma uma agulha de marear.

Não sabe, como a outra, o rumo incerto
que, todavia, marca, largo e aberto.

E, como a ela, a simpatia funda
para além nos conduz e nos afunda.

A agulha diz que lá - onde?, - brilha
um ponto, uma atração de maravilha.

A alma, como a agulha a nortear-se,
de si mesma se aparta e em si se ajunta,
para fixar-se, para perguntar-se…

A nossa vida toda, é uma pergunta.

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O poema acima foi reproduzido da obra “Ar Livre”, de Afonso Lopes Vieira, Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso, Lisboa, Portugal, 1906, 211 pp., pp. 151-152. A ortografia foi atualizada. O poeta Afonso Lopes Vieira viveu de 1878 a 1946 e esteve ligado ao movimento cultural Renascença Portuguesa, na cidade do Porto, no início do século 20.

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24 de outubro de 2016

O Ninho

Afonso Lopes Vieira




Subiu àquela árvore perfeita,
- que dá flor e dá fruto e os ramos deita
para espalhar a sombra e ser o abrigo
de toda a ave que vem ter consigo, -
subiu àquela árvore a criança:
e aqui fincou a mão, e ali ajeita
o pezinho no tronco, e sobe, e avança,
e treme, e deita a mão devagarinho
e rouba um ninho!...

O homem roubou a ave. - Ainda não sente,
ele, o do sofrimento, o da Razão,
o laço que anda, carinhosamente,
ligando o seu destino ao da criação.

Ainda rouba, e caça e, com furor,
espanca o animal que, no caminho,
mais para trás ficou, - como uma flor
mais longe está do olhar de um passarinho…

Ainda é aquele homem, o cocheiro
que por essa ladeira eu vejo rir
quando despede o pingalim certeiro
sobre os cavalos mortos de a subir!

Ele ainda é: a fera que anda em pé.
O tigre, às vezes santo. O malfadado
que é mau, quem sabe?, por que foi criado!

Quanto tempo levou na alminha clara
das aves, este instinto a germinar,
até que adquirissem a ciência rara
de saberem seu ninho arquitetar?

Quanto passado e longo sofrimento,
que primitiva dor, aflita ânsia,
(assim se formam asa e pensamento)
quantas fugas de rojo esvoaçadas
nessa medrosa e mal voada infância,
sem saberem fazer, desabrigadas,
os ninhos que, depois, já amorosos,
são a paga dos dias dolorosos!

Quanto passado e longo sofrimento
viveram elas, até que enfim, um dia,
de pais a filhos este entendimento
herdassem, como o canto e a alegria…

Igual amor aprendem homem e asa,
na mesma evolução, igual carinho:
o homem sorri, e já levanta a casa,
a ave gorjeia, e já constrói o ninho.

Ah, como a Vida acaba de sofrer,
ó criancinha rústica e suave!

Não pode haver Beleza enquanto houver
um homem que destrua um ninho de ave.

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Da obra “Ar Livre”, de Afonso Lopes Vieira, Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso, Lisboa, Portugal, 1906, 211 pp., pp. 47-50. A ortografia foi atualizada. O poeta Afonso Lopes Vieira viveu de 1878 a 1946 e esteve ligado ao movimento cultural Renascença Portuguesa, na cidade do Porto, no início do século 20.

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18 de outubro de 2016

Bolas de Sabão

Cada Indivíduo é um Resumo do Universo Inteiro 

Afonso Lopes Vieira



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Nota Editorial:

A obra “A Doutrina Secreta”, de Helena
Blavatsky, descreve o universo como uma
série infinda de globos, todos impermanentes
mas dotados de aparente realidade e válidos
durante fragmentos significativos do tempo eterno.
Cada indivíduo é um resumo e um centro do universo
inteiro, e contém em si um aspecto da consciência cósmica.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Assenta-se no chão a criancinha
Cruza as pernitas,
… e na ponta do tubo incham e crescem
aqueles vagos, pequeninos mundos
que, como todos os mundos,
evolucionam e desaparecem.

Já profundos, os seus olhos
contemplam nessas quebradiças bolas
a sua aérea evolução etérea.

Débeis, de uma ideal fragilidade
tão frágil que, suspensa e receosa,
ainda mais leve, mais, que suspirando,
com vago sentimento de ansiedade
é que o contido bafo as vai lançando…

São corpos cuja alma vaporosa
apenas é um sopro de criança.

E continua, absorta; o rosto sério,
como de quem trabalha e não descansa:
cresce uma…, e parte-se; outra…, e já soçobra.

E brincando, embebido no mistério,
esse poeta cria a sua obra…

Mas o Sol, que ali vem do céu distante,
trespassa-as, colorindo-as reverbera:
e então a luz cintila deslumbrante
em cada efêmera esfera.

Cada raio de Sol que ali vem pôr
o seu divino ser, vai, glorioso,
criando com poder maravilhoso
a maravilha da Cor!

Assim por elas, em um deslumbramento,
canta, perpassa, brilha à claridade,
este abismo infinito de um momento:
um pouco de Eternidade.

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Reproduzido da obra “O Pão e as Rosas”, de Afonso Lopes Vieira; Livraria Ferreira Editora, Lisboa, Portugal, 1908, 169 pp., pp. 27-29. A ortografia foi atualizada.

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16 de outubro de 2016

Nuvens

Afonso Lopes Vieira



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Nota Editorial:

O poema a seguir é um pequeno tratado
sobre a arte de olhar para o céu como um
espelho da alma. Constitui um estudo
sobre o lado transcendente do ciclo das
águas, e aborda a roda da reencarnação como
algo presente em todos os aspectos da natureza.  

(Carlos Cardoso Aveline)

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Nuvens errantes, chusmas vaporosas,
que, nestas tardes do fecundo outono,
pelo ar viajais e, ansiosas,
o vento leva a exílios de abandono:
convosco vão meus olhos, encantados
na cor que o Sol, de longe, ainda vos deu,
ó êxodo de povos desgraçados,
procurando uma pátria pelo céu!

Fostes, na terra de onde vos contemplo,
o rio, a onda, a poça, a fonte aos ais;
para depois, com imortal exemplo,
ascenderes para onde agora estais…

E nos altos do céu, onde, pairando,
lá ides de longada caminhando
por esses campos ermos e vazios,
ainda terrestres sois, no céu profundo,
e povoais o céu com o nosso mundo,
com esculturas de fontes e de rios.

Quem sabe se a preguiça em que se envolve
vosso rosado ser, será saudade
da vossa alma, que ainda à terra volve
os seus olhos mortais da imensidade?

Que bem se entende a vossa nostalgia…

E andais devagarinho, como a gente
que uma vez parte, e volta, e quereria
não partir, - mas tem de ir, forçosamente.

Essas remotas, pálidas viagens
que vos afastam, que vos evaporam,
são as tristes, justíssimas imagens
das almas que de longe vos namoram.

Nós somos, como vós, nuvens…, que apenas
se logram condensar, perdidas vão
efêmeras morrer, menos serenas
do que vós, - borboletas da amplidão…

Nós, homens, somos igualmente feitos
dessa errante matéria vagabunda
desprendida da terra, que aos seus peitos
nos amamenta e embala e leva e afunda.

Por isso os nossos olhos, embalados
na cor que o Sol, de longe, ainda vos deu,
partem convosco e andam, desterrados,
procurando uma pátria pelo céu!

Águas da terra, na maré das vidas,
já da terra partis vaporizadas,
mas embora vos saiba transformadas,
eu vejo-vos entanto enardecidas… [1]

Como vós, que já longe e mal diviso
no cinzento do céu, todo indeciso,
por sobre o mundo aonde vos criais:
como vós, a passar na asa dos ventos,
irão estes nublados pensamentos,

ó nuvens que partis, e não chegais…

NOTA:

[1] “Enardecidas”: do espanhol, “fervorosas, ardentes”.

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Reproduzido da obra “Ar Livre”, de Afonso Lopes Vieira, Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso, Lisboa, Portugal, 1906, 211 pp., pp. 55-58. O poeta viveu de 1878 a 1946 e esteve ligado ao movimento cultural Renascença Portuguesa, na cidade do Porto, no início do século 20. A ortografia foi atualizada.

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15 de outubro de 2016

Uma Semente

Memórias da Reencarnação de uma Planta

Afonso Lopes Vieira




No gesto de amor
que a terra semeia,
na loura mancheia
do semeador,
- rolei para o fundo.

No escuro profundo
da sombra pesada
que lá me envolvia,
fiquei desmaiada;
julguei que morria.

A treva pesava,
húmida, dormente:
e eu, vagamente,
sofria, abafava.

Já quando, a cuidar
que ia assim ficar,
pensava em morrer,
senti-me acordar,
- reviver…

Do meu ser,
outro ser saía:
e da minha vida
perdida na sombra,
mais vida nascia…

Meu corpo engrossava
e, lá dentro, inchava
a minha alma toda…

Já também à roda
de mim, acordavam,
como eu murmuravam
outras que, como eu,
morriam num sono
de frio abandono…

Tudo, em volta tinha
lento respirar:

E havia um calor,
um vago esplendor,
um bafo que vinha
de cima, do ar!
que a terra furando
nos ia chamando,
com luz norteando
nosso germinar!...


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Da obra “Ar Livre”, de Afonso Lopes Vieira, Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso, Lisboa, Portugal, 1906, 211 pp., pp. 111-113. O poeta viveu de 1878 a 1946 e esteve ligado ao movimento cultural Renascença Portuguesa, na cidade do Porto, no início do século 20.

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Sobre o lado místico do simbolismo da semente, veja em nossos websites o artigo “O Novo Paradigma”, de Jerome Wheeler.

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14 de outubro de 2016

Canção da Candeia Acesa

Um Poema Sobre o Poder da Simplicidade

Afonso Lopes Vieira




Humilde candeia acesa
em casa do cavador:
luz da pobreza, - bendita! -
luz infinita do Amor!

Vem pela noite negra adiante
um homem que se perdeu:
vê no escuro uma estrelinha,
lá tão distante…,
mas na terra, não no céu.

E diz-lhe a vaga luzinha:
- Olha para mim, e caminha,
vem onde a mim, que sou eu.

E ele chega àquela porta,
nela bateu…

Abre-se a porta, e ei-la acesa,
- parece o Sol!, -
em casa do cavador:
luz da pobreza - bendita!, -
luz infinita do Amor!

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Da obra “O Pão e as Rosas”, de Afonso Lopes Vieira, Livraria Ferreira - Editora, Lisboa, Portugal, 1908, 169 pp., pp. 81-82. O poeta viveu de 1878 a 1946 e esteve ligado ao movimento cultural Renascença Portuguesa, na cidade do Porto, no início do século 20.

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