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11 de maio de 2026

Bom, Mas Não Muito

Uma Lenda do Folclore Russo,
Contada Por Um Escritor Brasileiro
 
Malba Tahan


 
Nota Editorial:
 
Durante décadas a história a seguir circulou no Brasil como piada popular, com adaptações livres a cargo de cada narrador do povo. A moral da narrativa - a sua lição prática - é a seguinte:
 
“Os acontecimentos externos oscilam o tempo todo e seus resultados são complexos. Não vale a pena catalogar automaticamente como desejável ou indesejável este ou aquele fato da vida diária. Tudo traz lições. Uma vitória cria perigos, e uma derrota pode tornar-nos mais sábios. Cada um deve fazer o seu melhor, plantando bom carma diante do que parece agradável, e fazendo o mesmo diante do que parece desagradável.”
 
Uma palavra sobre o personagem principal e narrador do conto. Cabe a ele desenvolver a paciência e a impessoalidade, para não ficar a pé na estrada. Sempre é possível aprender, e isso é que é bom.
 
(Carlos Cardoso Aveline)
 
Bom, Mas Não Muito
 
Malba Tahan
 
A diligência, entre nuvens de poeira, rolava aos trancos pela estrada. Alguns passageiros, de braços cruzados, meditavam em silêncio. Ouviam-se, de quando em vez, os gritos estridentes do boleeiro. Na minha frente dois camponeses conversavam. Um deles, que parecia o mais velho, falava desta sorte:
 
- Tenho agora um magnífico pomar em minha casa.
 
- Isso é que é bom! - ajuntou o outro com um sorriso de vulgar e lorpa amabilidade.
 
- Bom, mas não muito - respondeu o velho - pois tenho tido, com o pomar, um trabalho excessivo.
 
- Isso é que é mau!
 
- Mau, mas não muito. Graças ao novo pomar ganhei algum dinheiro e com esse primeiro lucro comprei um porco.
 
- Isso é que é bom!
 
- Bom, mas não muito. O porco fugiu-me de casa, e foi para o quintal do vizinho que se apoderou dele e o matou.
 
- Isso é que foi mau!
 
- Mau, mas não muito. Dei queixa ao juiz e o meu vizinho foi obrigado a me pagar uma boa indenização.
 
- Isso é que foi bom!
 
- Bom mas não muito, pois o tal vizinho, em represália, soltou os cabritos no meu pomar.
 
- Isso é que foi mau!
 
- Mau, mas não muito. Matei os cabritos e vendi as peles na feira.
 
- Isso é que foi bom!
 
- Bom, mas não muito…
 
Aquela conversa já começara a fazer-me mal aos nervos. Resolvi descer da diligência mesmo em movimento; fui, porém, tão infeliz que tropecei numa pedra e caí.
 
Isso é que foi mau! - dirá naturalmente o leitor.
 
Mau, mas não muito. Pois só assim fiquei livre de ouvir, durantes algumas horas, uma história que parecia não ter mais fim.
 
Isso é que foi bom!
 
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O conto acima está disponível nos websites da Loja Independente de Teosofistas desde 11 de maio de 2026.  Ele é reproduzido do livro “Contos de Malba Tahan”, 2ª edição, impresso em dezembro de 1929 em A Encadernadora, S.A., Rio de Janeiro, 236 pp., ver pp. 217-219. Está publicado também, com sua Nota Editorial, na edição de outubro de 2021 de “O Teosofista”, pp. 4-5. A Nota Editorial foi revisada para a publicação de 2026.
 
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Leia mais:
 
 
 
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10 de junho de 2020

O Clube dos Silenciosos

 Buscando a Felicidade na Ausência de Barulho

Malba Tahan





Depois de oferecer-me um de seus deliciosos cigarros egípcios, o silencioso e taciturno filósofo retomou a palavra e contou-me o seguinte:

- Como todos sabem, tenho a velha mania de viver no silêncio. O criado que me serve é mudo, e o único ruído que posso tolerar, por vezes, é o marulhar suave da água no fundo do meu narguilé. Devo dizer ainda que esta casa, erguida no centro de grande parque, foi construída por um notável arquiteto especializado em “habitações sem ruído”. As paredes, portas, tetos, pisos e vidraças são impermeáveis ao som.

Disponho, além do mais, de um apartamento subterrâneo, mobilado com todo o conforto, onde me recolho nos dias de trovoada ou temporal. Bebo água em copos de papel (o cristal é estridente, insuportável!), só uso talheres com cabo de borracha e minhas refeições são servidas em pratos de galalite. Detesto os pássaros que me perturbam com seus gorjeios, mas admiro as borboletas pequeninas que voam sem ruído!

Foi, pois, com grande satisfação que recebi a notícia de que existia nesta cidade um delicioso centro social denominado “Clube dos Silenciosos”, do qual podiam participar todos aqueles que tivessem aversão ao ruído. Era exatamente o meu caso!

Por intermédio de um amigo, apresentei-me, com boas credenciais, candidato a um lugar de sócio, a fim de poder frequentar livremente a confortável e magnífica sede do Clube.

Não sou vaidoso; mas, dada a minha indiscutível paixão pelo silêncio, estava certo, ou melhor, certíssimo de que seria admitido, por aclamação, no “Clube dos Silenciosos” e convidado, no fim de poucas semanas, para um cargo de prestígio na Diretoria dessa notável agremiação.

Em dia previamente marcado fui solenemente recebido, estando os “Silenciosos” reunidos em Assembleia Geral. Ninguém pode avaliar o silêncio que reinava no Clube. Basta dizer que as salas eram forradas de grossos tapetes de veludo e aos sócios não era permitido pronunciar a menor palavra, tossir, espirrar, ou mesmo respirar com entusiasmo fora do normal.

Na parede principal havia um valioso quadro no qual se admirava uma singular “Paisagem polar”. Procura o talentoso artista reproduzir na tela uma região ideal, situada muitas léguas para além da Groenlândia, onde todos os anos, segundo verificou o Prof. Brethazik, reina um silêncio absoluto durante um período de seis meses! Aquela visão inesperada do País do Eterno Silêncio deixou-me deslumbrado.

Ao chegar ao grande salão - sem ferir o profundo silêncio que dominava - senti-me profundamente constrangido ao notar que todos os sócios olhavam para mim, assombrados, os olhos esbugalhados de espanto. Alguns chegaram a levar as mãos aos ouvidos como se os atormentasse, naquele momento, uma algazarra infernal que eles não podiam suportar!

- Esses homens são loucos - pensei. - Aqui entrei sem causar o menor ruído e ainda não pronunciei uma sílaba sequer! Por que insistirão eles em tapar os ouvidos no meio deste silêncio?

Sobre um alto estrado, forrado de cortiça clara, erguia-se uma grande mesa. A poltrona do centro era ocupada pelo impassível Presidente e, a seu lado, tomava lugar o secretário do clube. Procurando exprimir-me por meio de gestos - pois não queria com o som de minha voz perturbar o delicioso silêncio do recinto - dei a entender ao ilustre Presidente que desejaria ter a honra de ser admitido no Clube dos Silenciosos.

Vi repetir-se, com ligeiras variantes, aquela estranha cena que o imaginoso Padre Blanchet descreve em seus “Apóstolos Orientais”.

O Presidente mostrou-me um copo cheio de água, quase a transbordar, querendo de tão simbólica maneira explicar-me que, estando o Clube com o seu número completo, não podia admitir um novo sócio. Tomei, sem hesitar, de uma pétala de rosa que se achava sobre a mesa, e coloquei-a delicadamente sobre a superfície da água que enchia o copo. Todos compreenderam que eu queria, com tal gesto, explicar que, com boa vontade, haveria ainda um lugar para mim naquele ilustre cenáculo! O Presidente, porém, com um olhar cheio de impaciência que me surpreendeu, despejou (e isso sem fazer o menor ruído) toda a água que enchia o copo, deixando apenas no fundo a pétala que eu havia colocado. Isso feito deitou o copo sobre a mesa. Compreendi, no mesmo instante, o que ele queria significar com tal proceder: “A sua aceitação no quadro social acarretaria a saída de todos os outros sócios, e, consequentemente, a queda e o desaparecimento do nosso Clube!”

Retirei-me nessa tarde do Clube sem saber como explicar o meu fracasso, pois seis horas antes eu fora informado de que havia duas vagas entre os associados. A alegação feita inicialmente de que o quadro do Clube estava completo não passava de uma desculpa atenciosa de que a Diretoria havia lançado mão para recusar-me. Havia, portanto, em relação ao meu caso, algum outro motivo muito grave que, por delicadeza, o Presidente se abstivera de declarar na presença dos sócios.

Mas que motivo seria esse, afinal?

Resolvido a esclarecer aquele intrincado mistério, escrevi, nesse mesmo dia, ao Presidente, pedindo, em termos enérgicos, uma explicação, insinuando que para a minha recusa não podia existir pretexto ou desculpa que fosse aceitável. Desafiei que houvesse no Clube, apesar da severidade de seus estatutos, um “silencioso” que fosse mais apaixonado e mais intolerante do que eu na nobre campanha contra o ruído que avassala o mundo.

O meu criado mudo (com sapatos de sola de seda) levou a carta, escrita, aliás, com uma pena de fabricação especial, que desliza sobre o papel liso ou áspero sem fazer o menor ruído.

Uma semana depois, recebi do Secretário do “Clube dos Silenciosos” uma resposta, redigida em termos cheios de cativante gentileza, cuja leitura fez desmoronar todas as ilusões da minha vida de silencioso. Dizia o ilustre missivista que eu não podia ser aceito no “Clube dos Silenciosos” por ter provado, perante todos os sócios, ser um apaixonado apreciador do detestável ruído e que, portanto, nessas condições, jamais seria um apologista do silêncio ideal. “Pois o senhor - acrescentava o digno Secretário dos Silenciosos - teve a coragem de vir à sede de nosso Clube trazendo, no bolso, um desses barulhentos e infernais relógios europeus!”…

Só então compreendi tudo. Lembrei-me dos gestos desagradáveis de espanto e de horror com que os “silenciosos” haviam acolhido a minha chegada ao salão de honra.

É que entrara comigo, sem que eu pudesse perceber, o ruído, a barulhada - a tortura enfim!

Sim, meu amigo, é espantoso!

Para aqueles homens habituados ao silêncio absoluto, o tique-taque do meu minúsculo relógio de algibeira era um barulho ensurdecedor.

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O conto “O Clube dos Silenciosos” está publicado nos websites associados desde o dia 10 de junho de 2020. Foi reproduzido do livro “Maktub!”, de Malba Tahan, 11ª Edição, 1964, Ed. Conquista, Rio de Janeiro, 220 pp., ver pp. 111-116. A ortografia foi atualizada.

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Examine a lista de títulos de Malba Tahan em nossos websites associados. 

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Leia mais:

* “O Silêncio”.

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30 de dezembro de 2019

O Juiz e o Ovo

O Critério Para Nomear  
Juízes da Suprema Corte

Malba Tahan


O conto faz parte de um livro clássico de Malba Tahan (1895-1974)




Achando-se vago o ambicionado lugar de primeiro juiz da Suprema Corte de Justiça, apresentaram-se três doutos candidatos.

A fim de fazer uma escolha acertada, capaz de consultar os altos interesses do país, resolveu o Rei submeter os três magistrados a prova de competência. Chamou-os, pois, à sua presença, e mandou que um pajem colocasse a pequena distância uma casca de ovo, por um orifício da qual já haviam previamente extraído a clara e a gema.

- Que é aquilo? - perguntou o Rei dirigindo-se ao primeiro candidato.

- É um ovo! - respondeu o interpelado sem hesitar um segundo.

- Não me serve para juiz - declarou peremptoriamente o soberano. - O senhor é muito precipitado em seus julgamentos!

O segundo pretendente, ao ser submetido à prova, foi mais cuidadoso; antes de responder à pergunta - “Que é aquilo?” - aproximou-se da casca, tocou-a de leve com a ponta de um bastão, virando-a e revirando-a de um lado para o outro; depois, voltando-se para o monarca, asseverou:

- É uma casca de ovo!

- Muito bem! - acudiu pressuroso o Rei. - Vejo que a sua prova foi muito melhor que a do primeiro. Vejamos, entretanto, que poderá dizer, sobre o caso, o terceiro pretendente.

Sendo convidado a proferir a sua sentença, o último candidato tomou a casca na mão, quebrou-a e examinou-a minuciosamente por dentro e por fora; retirou dela um pequeno fragmento que foi levado, com os necessários cuidados, a um microscópio moderno para o indispensável exame dos tecidos; fez, com auxílio de preparados químicos, uma análise completa das principais substâncias contidas na preciosa casca; consultou, em seguida, vários livros, dicionários, revistas e tratados sobre aves e ovos. Depois desse longo e apurado estudo apresentou ao Rei um relatório que terminava do seguinte modo:

“Do estudo feito posso concluir, com absoluta certeza, que o objeto submetido a exame é uma casca de ovo de pata. (Seguiam-se indicações sobre a idade da pata e do ovo.) Se, porém, convier aos interesses particulares de Vossa Majestade, serei capaz de jurar publicamente que aquilo não era um ovo e sim um espeto!”

- Admirável! - exclamou o Rei, cheio de alegria. É este exatamente o homem que me convém para juiz!

E nomeou-o.

* * *

E, ainda hoje, há reis que de outra forma não escolhem os seus juízes…

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O conto “O Juiz e o Ovo” foi publicado nos websites da Loja Independente de Teosofistas dia 30 de dezembro de 2019. 

Reproduzido da obra “Lendas do Oasis”, Civilização Brasileira Editora, 1933, Rio de Janeiro, 211 pp., ver pp. 133-137.  A ortografia foi atualizada.

A reveladora história de como surgiu a narrativa “O Juiz e o Ovo” é contada no texto “Uma Conversa com Malba Tahan”, de Silveira Peixoto. 

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A respeito do uso de fábulas para transmitir verdades, veja o conto “Uma Fábula Sobre a Fábula”.

Clique para ver outros escritos de Malba Tahan. Leia também “O Mundo de Malba Tahan”.

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4 de dezembro de 2019

Os Três Amigos do Homem

Preparando-se para o Dia do
Julgamento no Tribunal do Carma

Malba Tahan




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O conto a seguir é reproduzido de
“Lendas do Céu e da Terra”, Malba Tahan,
Ed. Conquista, RJ, 12a. edição, 1956, 222
páginas. Ver pp. 61-62. Acrescentamos notas.

(CCA)

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Era uma vez um homem que tinha três amigos. A todos dedicava grande interesse e não os esquecia um só momento.

Um dia o homem foi chamado a comparecer ao Tribunal, perante o grande Juiz.

Assustado, na incerteza do que poderia acontecer, procurou o primeiro amigo e pediu-lhe auxílio.

- Nada posso fazer em teu favor - respondeu o primeiro amigo. - Pagarei, apenas, as despesas da tua viagem!

O homem recorreu ao segundo. Este lhe disse:

- Tenho muito medo desse Juiz que vai decidir sobre o teu destino. Só posso levar-te, meu caro, até à porta do Tribunal.

Diante do embaraço em que se achava apelou o homem para o último amigo que lhe restava.

O terceiro amigo atendeu sem hesitar ao pedido do homem; acompanhou-o até à presença do Juiz e esforçou-se, com dedicação e carinho, pela sua absolvição.

Sabe quais são os três amigos do homem?

O primeiro é o Dinheiro; o segundo a Família e o terceiro, as Boas Ações.

Quando o homem morre e é levado ao tribunal de Deus [1], o Dinheiro não o acompanha; a Família vai levá-lo até ao cemitério; as Boas Ações é que vão com ele ao Supremo Julgador.[2]

NOTAS:

[1] As inteligências divinas são muitas e não uma só. Portanto não é correto imaginar um deus monoteísta, cuidando individualmente da vida de cada árvore, de cada animal, cada estrela, de cada galáxia e cada ser humano. Há, porém, sem dúvida alguma, uma lei universal. Ao morrer, cada indivíduo passa por um processo de recapitulação ou “julgamento” da encarnação que termina. Esta recapitulação é feita de acordo com a Lei do Carma e define o rumo da alma e a qualidade do pós-morte, que preparará a reencarnação. A duração do intervalo entre duas encarnações varia - salvo exceções - entre 1.000 e 4.000 anos. Leia o artigo “O Processo Entre Duas Vidas”. (CCA)

[2] Supremo Julgador: A Alma Espiritual, Atma, Mônada, o Eu Superior, o Eu que Reencarna. (CCA)

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O conto “Os Três Amigos do Homem” foi publicado nos websites associados dia 03 de dezembro de 2019.  

Clique para ler o artigo “O Mundo de Malba Tahan”, de Carlos Cardoso Aveline.

Examine um texto dialogado em que Malba Tahan explica como criou sua obra. Veja outros contos de Malba Tahan.

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2 de dezembro de 2019

Os Três Obreiros

Trabalhando Numa Construção Sagrada

Malba Tahan


A catedral ortodoxa de São Basílio, em Moscou




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Nota Editorial de 2019:

A história a seguir, de autor desconhecido mas em
versão preparada por Malba Tahan, possui uma clara
dimensão maçônica e teosófica. É reproduzida do volume  
“Lendas do Céu e da Terra”, de Malba Tahan, Ed. Conquista,
Rio de Janeiro, 12a. edição, 1956, 222 pp., ver pp. 13-14.

(CCA)

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Três operários preparavam pedras para a construção de um grande templo.

Aproximei-me do primeiro e perguntei-lhe, fitando-o com simpatia:

- Que estais fazendo, meu amigo?

- Preparo pedras! - respondeu-me secamente.

Encaminhei-me para o segundo, e interroguei-o do mesmo modo.

- Trabalho pelo meu salário! - foi a resposta.

Dirigi-me, então, ao terceiro e fiz a mesma pergunta com que já havia interpelado os outros dois:

- Que estais fazendo, meu amigo?

O operário, fitando-me cheio de alegria, respondeu com entusiasmo.

- Pois não vê? Estou construindo uma catedral.

Reparem, meus amigos, no modo tão diverso como cada operário cumpria o seu dever. O primeiro desobrigava-se de uma tarefa para ele material e grosseira; o segundo não visava senão o dinheiro a receber pelo trabalho e o terceiro contemplava o ideal.

Escravos seremos se, à semelhança do primeiro operário, limitarmos a nossa vida à luta diária.

Entre os ambiciosos nos incluiremos se contemplarmos somente o lucro imediato de nossos esforços.

Felizes serão, porém, aqueles que vivem, lutam e sofrem por um grande ideal.

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O conto acima foi publicado dia 02 de dezembro de 2019 nos websites associados. Clique para ler outros contos e lendas de Malba Tahan.


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26 de novembro de 2019

Uma Fábula Sobre a Fábula

Lenda Oriental: Quando a Verdade
Quis Apresentar-se Diante de um Soberano

Malba Tahan


Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta
lua de Ramadã, o chefe dos guardas perguntou-lhe: Quem és?




Allahur Akbar! Allahur Akbar! [1]

Quando Deus criou a mulher criou também a Fantasia. Um dia a Verdade resolveu visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harum Al-Raschid.  

Envoltas as lindas formas num véu claro e transparente, foi ela bater à porta do rico palácio em que vivia o glorioso senhor das terras muçulmanas. Ao ver aquela formosa mulher, quase nua, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem és?

- Sou a Verdade! - respondeu ela, com voz firme. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Raschid, o Xeique do Islã!

O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao grão-vizir:

- Senhor, - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar ao nosso soberano, o sultão Harum Al-Raschid, Príncipe dos Crentes.

- Como se chama?

- Chama-se a Verdade!

- A Verdade - exclamou o grão-vizir, subitamente assaltado de grande espanto. - A verdade quer penetrar neste palácio! Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Verdade aqui entrasse? A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que uma mulher nua, despudorada, não entra aqui!

Voltou o chefe dos guardas com o recado do grão-vizir e disse à Verdade:

- Não podes entrar, minha filha. A tua nudez iria ofender o nosso Califa. Com esses ares impúdicos não poderás ir à presença do Príncipe dos Crentes, o nosso glorioso sultão Harum Al-Raschid. Volta, pois, pelos caminhos de Allah!

Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou muito triste a Verdade, e afastou-se lentamente do grande palácio do magnânimo sultão Harum Al-Raschid, cujas portas se lhe fecharam à diáfana formosura!

Mas...

Allahur Akbar! Allahur Akbar!

Quando Deus criou a mulher, criou também a Obstinação. E a Verdade continuou a alimentar o propósito de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harum Al-Raschid…

Cobriu as peregrinas formas de um couro grosseiro como os que usam os pastores e foi novamente bater à porta do suntuoso palácio em que vivia o glorioso senhor das terras muçulmanas.

Ao ver aquela formosa mulher grosseiramente vestida com peles, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem és?

- Sou a Acusação! - respondeu ela, em tom severo. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Raschid, Comendador dos Crentes!

O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu a entender-se com o grão-vizir.

- Senhor - disse, inclinando-se, humilde, - uma mulher desconhecida, o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar ao nosso soberano, o sultão Harum Al-Raschid.

- Como se chama?

- A Acusação!

- A Acusação? - repetiu o grão-vizir, aterrorizado. - A Acusação quer entrar neste palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse! A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que não, não pode entrar! Dize-lhe que uma mulher, sob as vestes grosseiras de um zagal, não pode falar ao Califa, nosso amo e senhor!

Voltou o chefe dos guardas com a proibição do grão-vizir e disse à Verdade:

- Não podes entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, próprias de um beduíno rude e pobre, não poderás falar ao nosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Raschid. Volta, pois, em paz, pelos caminhos de Allah!

Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou ainda mais triste a Verdade e afastou-se vagarosamente do grande palácio do poderoso Harum Al-Raschid, cuja cúpula cintilava aos últimos clarões do sol poente.

Mas...

Allahur Akbar! Allahur Akbar!

Quando Deus criou a mulher, criou também o Capricho.

E a Verdade entrou-se do vivo desejo de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harum Al-Raschid.

Que fez a Verdade?

Vestiu-se com riquíssimos trajes, cobriu-se com joias e adornos, envolveu o rosto com um manto diáfano de seda e foi bater à porta do palácio em que vivia o glorioso senhor dos Árabes.

Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta lua do mês Ramadã, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem és?

- Sou a Fábula - respondeu ela, em tom meigo e mavioso. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o generoso sultão Harum Al-Raschid, Emir dos Árabes!

O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu, radiante, a falar com o grão-vizir:

- Senhor, - disse, inclinando-se, humilde, - uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita audiência de nosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Raschid, Emir dos Crentes.

- Como se chama?

- Chama-se a Fábula!

- A Fábula! - exclamou o grão-vizir, cheio de alegria. - A Fábula quer entrar neste palácio! Allah seja louvado! Que entre! Bem-vinda seja a encantadora Fábula: Cem formosas escravas irão recebê-la com flores e perfumes! Quero que a Fábula tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!

E abertas de par em par as portas do grande palácio de Bagdá, a formosa peregrina entrou.

E foi assim, sob o aspecto de Fábula, que a Verdade conseguiu aparecer ao poderoso califa de Bagdá, o sultão Harum Al-Raschid, Vigário de Allah e senhor do grande império muçulmano!

NOTA:

[1] Allahur Akbar - Deus é Grande! (Malba Tahan)

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Reproduzido do livro “Minha Vida Querida”, de Malba Tahan, Ed. Conquista, RJ, Brasil, 1956, 205 pp., ver pp. 93-98. Uma outra versão da fábula - essencialmente igual mas com numerosas frases diferentes e dez notas explicativas, está publicada no volume “A Arte de Ler e de Contar Histórias”, Malba Tahan, Ed. Conquista, RJ, Brasil, 1957, 340 pp., ver pp. 9-12. A imagem com que ilustramos o conto é uma adaptação da imagem usada no livro “Minha Vida Querida”.

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O conto “Uma Fábula Sobre a Fábula” foi publicado nos websites associados dia 25 de novembro de 2019.

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Leia outros escritos de Malba Tahan.

Examine o artigo “O Mundo de Malba Tahan”.

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