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10 de junho de 2025

O Outro Brasil Que Vem Aí

 
Eu Ouço as Vozes, eu Vejo as Cores, eu
Sinto os Passos, de um País Mais Brasileiro
  
Gilberto Freyre
 



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Nota Editorial de 2025

Este poema profético foi publicado em livro em 1980 e
portanto durante o período da ditadura militar. Os versos
anunciam uma nova etapa histórica em que o Brasil viria
a ser governado por trabalhadores, e não já por membros
das velhas elites. No entanto, devemos evitar conclusões
apressadas. O governante-trabalhador poderá liderar o
país “contanto que seja digno do governo do Brasil”, isto é,
que seja honesto, íntegro e fale a verdade, “que tenha olhos
para ver pelo Brasil, ouvidos para ouvir pelo Brasil, coragem
de morrer pelo Brasil”. Em outras palavras, o governante
deve sacrificar-se  pelo país, ao invés de ser corrupto e usar
a corrupção como forma de se manter no poder. O cidadão
do povo poderá governar o país contanto que tenha “ânimo de
viver pelo Brasil, mãos para agir pelo Brasil”. E isto não surge
por obra do Espírito Santo apenas. É preciso fazer por merecer. 

A preparação ética do povo deve ser realizada. Cada brasileiro
pode alcançar o privilégio de compreender as vantagens de ser
honesto e honrado. Mas, para alcançar o privilégio de ser íntegro
e sincero ele deve educar com calma a sua própria vontade, tanto no
plano consciente como no plano subconsciente. Esta tarefa é mais
complexa e mais difícil do que alguns pensam, e requer um longo
esforço individual e coletivo de autoconhecimento e autoeducação.

O momento de começar o fortalecimento moral de um país está
disponível sempre agora, neste exato momento, porque é a força
moral e ética que permite a um povo não só existir de modo organizado,
mas também construir um futuro. A mesma força interior sustenta
individualmente cada um de nós - e merece ser cultivada a todo instante.

(Carlos Cardoso Aveline)

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O Outro Brasil Que Vem Aí 

Gilberto Freyre


Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e das regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar)
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí.

(Gilberto Freyre)

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O poema “O Outro Brasil Que Vem Aí” está disponível nos websites da Loja Independente de Teosofistas desde o dia 10 de junho de 2025. Os versos são reproduzidos do livro “Poesia Reunida”, de Gilberto Freyre, Edições Pirata, Recife, 1980, 107 pp., ver pp. 15-17. O poema faz parte também da edição de junho de 2020 de “O Teosofista”, pp. 10-11.

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Leia mais:




* Corpo e Alma, Cavalo e Cavaleiro (texto de Theodoro D’Almeida).

* Regra da Vida Honesta (tratado estoico clássico de Martinho Bracarense)


* João de Deus, Louco, Santo, e Sábio (Como a Ruptura da Rotina Psicológica Pode Abrir as Portas Para a Vida Mística).

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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 

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20 de março de 2018

A Propósito de José Bonifácio

Ciência, Humanismo e Ação Política

Gilberto Freyre

 José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838)



Randolph Bourne criticou uma vez nos seus compatriotas o quase nenhum entusiasmo que punham no culto dos seus Edgar Poe, dos seus Whitman, dos seus artistas mais valorosos, enquanto se revelavam os maiores peritos do mundo no reclame de seus sabonetes, das suas Kodaks, dos seus automóveis. Crítica a meu ver muito exata.

Não se passará atualmente coisa semelhante, no Brasil, da parte dos brasileiros com relação a algumas das figuras em quem melhor tem se exprimido a inteligência criadora, a capacidade intelectual, a perícia artística, o tino político, o saber científico, a que pode elevar-se a nossa gente pelas suas expressões máximas de talento e de cultura, enquanto nas revistas, nos cartazes de rua, nos programas de rádio e televisão, no cinema, são anunciados, com uma técnica propagandística nada inferior à dos americanos dos Estados Unidos, os produtos alguns na verdade admiráveis da indústria brasileira, como certos remédios, certas bebidas, certos tecidos? É a situação que se apresenta aos olhos do observador da vida nacional, interessado em surpreender as diferentes ênfases que o brasileiro de hoje, através de técnicas de publicidade já bastante desenvolvidas entre nós, está pondo nos seus diversos valores nacionais, com grande vantagem dos apenas físicos, e imediatamente úteis, sobre os mais sutilmente intelectuais e os mais altamente éticos.

José Bonifácio, que talvez tenha sido o maior brasileiro de todos os tempos pelo que nele foi combinação de ciência com humanismo e de humanismo com ação política - ação política construtiva e animada de sentido social - é uma das vítimas do atual desdém dos brasileiros por valores nacionais que não sejam produtos de novas, vigorosas e triunfantes indústrias do País; nem correspondam a interesses apenas imediatos do desenvolvimento nacional. Nem sequer o fato de ser paulista - filho de um Estado, para o Brasil superindustrializado e fabricante de uma multidão de artigos valiosos cuja propaganda é realizada com notáveis engenhos e arte, e que facilmente poderia estender um pouco dessa propaganda ao grande valor humano que foi e continua a ser para o Brasil o Andrada de Santos [1] - tem valido a José Bonifácio: figura imensa de estadista, de sábio, de homem de ciência cada vez mais na sombra entre seus compatriotas. É a São Paulo que mais cabe exaltá-lo como valor brasileiro de sempre. Pois foi São Paulo que o deu ao Brasil e à América.

Nunca foi mais necessário ao Brasil e à América do que nos dias difíceis que atravessamos o culto a José Bonifácio. Nunca. Pois ele representa para nós o principal idealizador e quanto possível construtor - construtor de bases - da grandeza brasileira, dentro do complexo americano; e essa grandeza como um todo, de tal amplitude, ao mesmo tempo diversificada e unificada que nenhuma outra nação, dentre as modernas, supera o Brasil neste particular.

O serviço que José Bonifácio prestou ao Brasil, dando à independência da Colônia de Portugal um sentido de todo diferente das independências das colônias da Espanha, foi imenso. Sua grandeza cresce com o tempo.

Haveria o Brasil, tal como existe hoje, tão plural e tão uno, se no momento justo não tivesse agido, máscula e decisivamente, sutil, e quase femininamente, juntando a arte dos grandes políticos à firmeza de ânimo dos grandes homens, contra os radicais da sua época, contra os desvairados “nacionalistas” do seu tempo, contra os furiosos antieuropeus dos seus dias, esse brasileiro tão da sua Província, e dentro da sua Província, tão do seu burgo sem que tais apegos o impedissem de considerar o futuro nacional, considerando, em seu vasto conjunto, a nova pátria, por ele organizada?

Para assegurar-se a unidade desse conjunto, impunha-se a solução monárquica; e o sagaz Andrada, mais desdenhoso do que ninguém, de títulos e de comendas, foi a solução por que se bateu. Soube fugir à tentação das popularidades fáceis, entre os radicais mais ruidosos, que o cercavam: radicais então simplistamente republicanos, sem se aperceberem de que o seu simplismo ideológico de imitadores dos vizinhos da já fragmentada América Espanhola, era para o perigo que nos conduzia: o da fragmentação. O da desunião: brasileiros contra brasileiros. O do separatismo: em vez de um Brasil só, vários Brasis Estados. Uma América Portuguesa ainda mais dividida que a Espanhola em repúblicas inimigas umas das outras.

Houvesse educação cívica no Brasil de hoje, e o culto a José Bonifácio seria o maior culto nacional. Pois deveria haver no Brasil um dia de J. Bonifácio tão civicamente significativo como o dia da Independência ou o dia da Bandeira. Ou antes: o dia da Comemoração da Independência deveria ser principalmente no Brasil o dia de José Bonifácio.

Não se compreende que a sua vida não esteja dramatizada num filme que ao valor artístico juntasse o cívico e através do qual crianças, adolescentes, adultos se inteirassem do que houve de mais expressivo nessa vida de autêntico grande homem, tão a serviço do Brasil. Não se compreende que suas ideias, suas iniciativas, seus projetos inspirados num lúcido amor pela pátria que organizou sem repudiar Portugal, nem aguçar-se em detrator dos portugueses não sejam temas mais frequentes para composições escolares, teses universitárias, ensaios que as universidades, as academias, os institutos consagrassem com seus melhores lauréis. Tão pouco se compreende que o Itamarati deixe de projetar no estrangeiro figura tão completa de estadista, salientando-se, em publicações em várias línguas, ter sido o patriarca da Nação brasileira, como só depois dele o da República Chinesa, o da Tchecoslováquia, o da União Indiana, um homem de ciência, um humanista, um sábio, um “scholar”, embora, em dias difíceis, soldado. Mas como homem público eminentemente civil. Como homem público, a negação do caudilho. Também a negação, do politiqueiro, do demagogo, do adulador, quer de ricos, quer de multidões com sacrifício da “sã política”. Aquela “sã política” que só se sente comprometida com os grandes interesses gerais; nunca com os simplesmente privados ou de facção.

NOTA:

[1] José Bonifácio nasceu na cidade de Santos, SP, em 13 de junho de 1763. (CCA)

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O texto acima reúne dois artigos publicados no “Diário de Pernambuco” de 10 de janeiro de 1965 e 17 de janeiro de 1965 e no “Jornal do Comércio” (de Recife), nas mesmas datas, sob os títulos “A Propósito de José Bonifácio” e “Ainda a Propósito de José Bonifácio”. É aqui reproduzido do livro “Pessoas, Coisas & Animais”, de Gilberto Freyre, edição especial para MPM Propaganda, 1979, 244 páginas, ver  pp. 130-131. Título adotado neste livro: “Ciência, Humanismo e Ação Política: O Exemplo de José Bonifácio”. O volume consiste de ensaios e artigos reunidos e apresentados por Edson Nery da Fonseca, com exemplares numerados de 0001 a 8000, fora do comércio. Impressão: Círculo do Livro, SP.

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Veja em nossos websites associados os artigos “A História Secreta da Independência” e “O Manifesto da Independência do Brasil”.

Na obra “Conversas na Biblioteca”, de Carlos Cardoso Aveline (Ed. Edifurb, 2007), veja o capítulo 13, intitulado “José Bonifácio, um Patriarca Polêmico”.

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Em 14 de setembro de 2016, depois de uma análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável.

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