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3 de junho de 2026

O Medo, a Coragem e a Vitória

 
Como o Adulto Cura as Feridas da Infância
 
 Joana Maria Ferreira de Pinho
  
Cabanas de Tavira (foto) é uma vila de pescadores
próxima da cidade de Tavira, no Algarve, em Portugal



É preciso coragem para
enxergar as feridas. E uma dose
maior de coragem, para cuidar delas.
 
 
 
Algum tempo atrás, conversamos sobre o tema da coragem em reunião de trabalhadores voluntários da Loja Independente de Teosofistas (LIT). Carlos lançou o desafio resumindo o assunto com as seguintes palavras: “O que é, e o que não é, coragem em Teosofia; como administrar a coragem; coragem versus medo, cautela, e outros fatores.”
 
A palavra coragem, do latim “coraticum”, tem como raiz a palavra latina “cor”. Conforme Carlos destacou, “coração” é um dos seus significados. O sufixo português “agem” indica uma ação. Portanto, podemos olhar para a palavra coragem como significando o coração agindo.
 
A coragem, assim como o coração, tem vários níveis e aspectos. O coração é a sede das emoções. E nós temos emoções inferiores e superiores. O coração também é uma das moradas da alma. O ser humano tem uma alma mortal e uma alma eterna. 
 
Carlos chamou atenção para a importância dos opostos da coragem de forma a torná-la sustentável. Por exemplo, a coragem deve ser equilibrada com um certo nível de cautela. Para que a coragem seja de longo prazo é preciso temperá-la com prudência. Como em tudo na vida do teosofista, é necessário discernimento.
 
Ser corajoso não é avançar destemido sem medir consequências. É preciso pesar e avaliar os fatos e a nós próprios.
 
Para aqueles que estão conscientes da complexidade do Ser, coragem não implica negar o medo ou apagá-lo. Aliás, a coragem para existir precisa do seu oposto. A harmonia e a saúde psicológica e emocional resultam do equilíbrio entre os opostos. Mas a vida está cheia de imprevistos e há momentos em que é necessário exercer grande coragem e calar todos os medos. Em outras situações, mesmo que o medo seja vencido, a cautela deve falar mais alto. Saber esperar é fundamental.
 
A coragem nunca deve colocar o peregrino ou os outros desnecessariamente em perigo; caso contrário, em vez de coragem, o que existe é imprudência e insensatez. Para a Teosofia, a coragem é uma expressão do eu superior. Ela não corresponde à bravura do plano do eu inferior, embora por vezes possa se manifestar dessa forma. É uma qualidade espiritual que envolve agir de acordo com a verdade e os valores espirituais mais profundos, mesmo diante de desafios, medos e sofrimentos.
 
A coragem teosófica é o coração agindo em harmonia com o propósito maior da alma, é o coração transcendendo a personalidade em busca do desenvolvimento espiritual.
 
Para a Teosofia, todos os aspectos da existência são importantes. O eu inferior é valioso como instrumento da Vida Maior. A coragem pode ser vista como uma luz que brilha dentro de nós, iluminando o caminho a seguir. E a luz possibilita ações conscientes e decididas. O medo, por outro lado, é a sombra que acompanha a luz. O medo faz um alerta sobre perigos e riscos. Ele cumpre uma função na defesa da vida.
 
O medo a ser evitado é aquele que ofusca a luz, nos paralisa por completo e não nos permite viver uma série de novas e ricas experiências para o aprendizado da alma.
 
O tímido e o introvertido são muitas vezes vistos como pessoas medrosas. O medo de se expor, o medo do fracasso, do julgamento, o medo de errar, geram ansiedade e inibem os indivíduos. Muito pode ficar por dizer e fazer. O tímido quando é vencido por seus medos deixa de manifestar muito do seu potencial criativo. No entanto, a timidez pode trazer diversos aspectos positivos. Pessoas tímidas tendem a ser mais introspectivas, sensíveis em relação aos sentimentos e necessidades dos outros, empáticas e humildes. Isto não significa que todos os indivíduos introvertidos reúnam essas qualidades, ou que os extrovertidos não as tenham.
 
Falar de coragem implica obrigatoriamente falar de medo. E quantos medos abrigamos? Há medos dos quais somos plenamente conscientes. Há outros que estão bem guardados no subconsciente, e muitas vezes sem percebermos que eles estão lá, determinando nossos passos.
 
Lemos na edição de abril de 2014 de “O Teosofista”:
 
“Os medos subconscientes têm grande influência sobre o estado de consciência do ser humano; exceto quando são conhecidos, e quando são observados do ponto de vista da vida eterna do eu superior.” [1]
 
O autoconhecimento é fundamental. E é fundamental por quê? Será para crescermos em sabedoria? E o que é crescer em sabedoria?
 
Será mostrar para os outros que sabemos muito sobre muitas coisas?
 
Crescer em sabedoria é elevar a consciência, é purificá-la, é transcender a personalidade, para poder servir a vida e ser útil ao trabalho dos Mestres.
 
Mas transcender a personalidade não implica sufocá-la. Para transcender é preciso compreender, olhar para nós mesmos sem os véus e as camadas que fomos colocando como forma de nos protegermos de nós próprios, dos nossos medos, sonhos, traumas e esperanças.
 
Na reunião dos coordenadores da LIT, Carlos citou as obras de Lise Bourbeau e falou das feridas emocionais que geralmente surgem na infância devido à ignorância dos adultos. Muitos carregam a vida toda feridas invisíveis, mas dolorosas. A maioria opta, ainda que de forma subconsciente, por tapar essas feridas, ocultando-as. Mas nem por isso elas deixam de doer e de interferir no dia-a-dia.
 
A Teosofia é a Medicina da Alma, como diz o título de um texto disponível nos websites associados. [2] Nele Carlos escreve:
 
“Ao invés de apenas memorizar um ensinamento, os teosofistas devem curar a si próprios da doença da ignorância e ajudar outros a fazer o mesmo.”
 
A Teosofia tem-me ajudado a enxergar as minhas feridas com mais clareza.
 
O estudo, a contemplação, o trabalho teosófico, auxiliam-me na compreensão da dor e no processo de cura.
 
A Arte de Vencer o Medo
 
Escrever sobre o que sinto e penso sempre foi uma forma de tratar as minhas feridas. Tiro por isso a camada protetora de um ferimento e compartilho com vocês a experiência. Trata-se de um exemplo de fatos que podem acontecer na infância de todo ser humano. Meus pais têm limitações, mas as infâncias deles tampouco foram fáceis. Adoro-os a ambos. A dor passa de geração em geração, segundo Carlos destacou na conversa sobre coragem.
 
****
 
Certo dia, quando tinha cerca de 4 anos de idade, meu pai passeava comigo junto da Ria (baía) Formosa, no Algarve. Ele encontrou uns amigos e começou a conversar. Eu afastei-me, comecei a caminhar e perdi-me dele. A experiência dói até hoje.
 
Existem dias em que o passado está mais presente do que o agora. Cenas surgem dos recantos mais escuros da memória com seus aromas, cores e vozes. Como fica pequeninho o meu coração nesses momentos… é o coração passa de uva: seco, isolado, enrugado, encolhido, envergonhado, pesado e dolorido. Como se alguém o estivesse a apertar com uma mão forte, a esmagá-lo por entre os dedos: mas a mão é a dor das recordações, das mágoas, das humilhações, das esperanças perdidas e do sentimento de culpa.
 
Quem olha para o coração passa de uva pode pensar que já não guarda vida, mas, no seu interior, ele esconde sementes de esperança. Sementes que, quando humedecidas pela água da compreensão e temperadas pelo sal das lágrimas do perdão, começam a germinar. O milagre acontece, e o que parecia morto revela nova vida. Mas não é fácil perdoar. Perdoar não está em dizer que se desculpa. Perdoar não passa por esquecer o que nos magoou. Perdoar está em se libertar da humilhação, da dor, e de toda angústia. É partir as correntes que nos prendem à dor, é derrubar paredes e tetos que nos isolam da luz que brilha lá fora, uma luz que parece existir em todos os lugares, exceto na cave dos meus sentimentos.
 
Dizem que perdoar passa por aprender. E às vezes não consigo fazer nenhuma dessas coisas. Dizem também que é quando se perdoa que se pode começar a viver.
 
Ainda não aprendi que deixei de ser a criança perdida na multidão, desesperada por estar sozinha sem a presença dos meus pais. A criança que chora ao sentir que foi abandonada. A criança que caminha sem norte em busca do que lhe é familiar, de um porto seguro, de um abraço e até mesmo de uma palmada. Não curei a criança que desistiu de vaguear pelas ruas da esperança e se sentou no muro do desespero enquanto era afogada pelas ondas do seu choro.
 
É certo que surgiu um desconhecido - talvez um anjo da guarda vestido de ser humano - que percebeu a minha solidão e o meu desespero, que me consolou por segundos, por mim transformados em pequenas eternidades. Conversou comigo com delicadeza, deu-me a mão e transmitiu-me confiança caminhando na rua movimentada em busca dos meus. Recordo-me que era mulher, de pequena estatura, cabelo curto com caracóis, usava óculos. Lembro-me do sorriso e de como foi tranquilizador esse sorriso. No entanto, não me recordo do reencontro com meus pais. Perdi-os para sempre quando me vi sem eles?
 
O que ocorre na mente de uma criança perdida só ela o sabe naqueles momentos de angústia.  E ela própria deixará de o saber em breve. Como escape, como norma de segurança do seu frágil mundo emocional, cedo ela encaixota o que sentiu e pensou e esconde a caixa de tais recordações no canto mais longínquo e de difícil acesso do seu ser.
 
A ignorância leva os adultos a cometer grandes injustiças contra as crianças. E a agressão não se limita a situações físicas. Há um tipo de injustiça invisível capaz de danos tão ou mais graves do que uma grande surra. Minha mãe seguramente sofreu muito em sua infância. E da sua parte, quando eu era criança, ela me dizia:
 
“A tua irmã quando nasceu era tão linda, tão linda. Branquinha, comprida, parecia a branca de neve. Tu? Tu quando nasceste eras feia, tão feia. Ahahahah. Pequenita, vermelha, gorda.”
 
Só eu sei como a minha mãe parecia alegrar-se ao dizê-lo. Ainda hoje ouço as fortes gargalhadas e vejo aquela faísca agressiva no olhar e as linhas dos lábios traçadas com riscos de ironia. Talvez também ela tenha as suas caixas guardadas algures no labirinto do seu ser e seja ainda uma criança que não se encontrou.
 
“És filha dos ciganos. Passaram por aqui e deixaram-te à porta.” “Parece que caíste do berço quando eras bebê”.
 
Com frases destas, ela tentava educar-me. Queria derrubar a minha rebeldia. Fazia questão de marcar com tais declarações que parecia impossível eu ter sido gerada em seu ventre.
 
Talvez isso explique o fato de em criança eu ter um amor tão grande pelos animais abandonados. Sempre que via um a deambular junto ao portão, alimentava-o, dava muito carinho e tentava levá-lo para dentro de casa. Os cães perdidos eram o meu espelho. Conversava longamente com eles e tentava subconscientemente mostrar aos adultos de que forma deviam tratar o animal ferido, rejeitado e perdido, que havia em mim.
 
Já muitos anos se passaram. Parece que parte do meu ser - uma gigantesca parte - ainda está sentada naquele muro, cansada de procurar por quem ela julga que não a quer encontrar. E os anos têm desfilado assim. Passeiam à minha frente, enquanto eu permaneço sentada no muro junto à Ria (baía) Formosa. 
 
Não foi por acaso que durante largos anos voltava uma e outra vez a vasculhar gavetas em busca de fotografias que provassem que a minha mãe tinha estado grávida de mim.
 
Uma só fotografia foi encontrada e nada provou. Fotografias comigo em bebê havia algumas. “Mas os ciganos podiam perfeitamente ter-me deixado à porta ainda recém-nascida”, pensava eu. “Foi isso, ou então fui dada para adoção por uma família que não tinha meios para me criar.” Foram numerosos os cenários e as hipóteses que criei com a minha dor. Era impossível pertencer àquela tribo.
 
“Pareces a tua mãe quando era nova”; “Tens traços da tia Adriana” - ouvi os mais velhos dizerem por diversas vezes. No entanto, não reconhecia qualquer semelhança física.
 
Não, eu não podia ser dali. Não… meus pais, meus verdadeiros pais e irmã, teriam de estar em qualquer outra parte do planeta. Meu coração segredava que pais verdadeiros nos aceitam como somos e não nos apertam para rebentar como fazem os adolescentes vaidosos quando veem aparecer uma espinha nos seus rostos. Eu estava sobrando ali: deslocada, desorientada, perdida.
 
Meu mundo era diferente do mundo em que a maior parte da minha família vivia.
 
Nossos costumes, linguagem, sonhos, medos, esperanças, avançavam em direções opostas. Jamais desconfiaram que eu lia o mundo deles e falava para eles através do silêncio. Diziam-me mais através dos seus atos do que pelas palavras. E era doloroso ouvir tudo aquilo que era dito pelos olhares, pelos gestos e suas escolhas.
 
Percebi que as suas frases raramente expressavam o que de fato diziam no espaço do silêncio. E vi que as palavras eram para eles como casacos e vestidos usados para evitar a vergonha da nudez.
 
Sempre fui amada e protegida pelo meu pai, embora ele não ousasse fazê-lo abertamente. Mas ele venceu. Hoje tenho orgulho de trabalhar com ele profissionalmente. Ele foi e será sempre um herói para mim.
 
****
 
A narração acima procura ser um testemunho objetivo de um aspecto da minha caminhada na busca da sabedoria. A realidade é complexa, e ela muda e se transforma à medida que muda o nosso ponto de vista. Falo aqui da minha realidade interior. A vida sempre nos mostra novos ângulos da realidade.
 
Perdoar é Resgatar a Paz
 
Perdoar é necessário. Perdoar a mim mesma por me afastar de meu pai no dia em que me perdi na rua, perdoar o meu pai por me perder, perdoar a minha mãe por não me querer e não me desejar, perdoar minha irmã pela recusa de me aceitar, ou pelo que percebo como esta recusa. Perdoar a todos por me rejeitarem como quem rejeita um sapato que faz calo no pé. Só pelo perdão consigo ser senhora dos meus passos e caminhar com liberdade e independência.
 
Insistir em criar uma realidade paralela, ilusória, cujo destino é sempre o ponto de partida - o muro da Ria (baía) Formosa - seria deixar a minha criança interior ao abandono. Já aceitar a realidade tal como ela é, sem mágoa, é pegar a criança e conduzi-la pela mão até o mundo dos adultos. É preciso coragem para enxergar as feridas. E uma dose maior de coragem, para cuidar delas.
 
O relato da minha experiência é uma fotografia, uma ilustração. O teosofista deve estudar a relação viva entre coragem, medo e ânimo de vencer, em sua caminhada como buscador da verdade.
 
Blavatsky escreveu:
 
“É necessária mais coragem para olhar o mundo de frente e sem distorções, do que para entrar num local retirado em que vivem bestas selvagens.” [3]
 
A Coragem de Ser Sincero
 
O mundo que precisamos enxergar está tanto dentro de nós quanto ao nosso redor. A meta é observar sem distorções. Em questões de alma, o principal terapeuta, capaz de nos curar, é o nosso Eu Superior.
 
A Teosofia é para todos, mas aqueles que colocam o coração e a alma no que fazem, no que pensam, no que sentem, são mais beneficiados pelos seus ensinamentos.
 
O mundo precisa de gente que procura aumentar a sua própria coragem, de gente capaz de olhar para si mesma e para o mundo com um olhar direto, de indivíduos com coragem suficiente para ser sinceros, com coragem para sarar feridas, arrancar ervas daninhas e para semear as sementes dos frutos que alimentarão o novo mundo e o ser humano do futuro.
 
A LIT trabalha para curar o sofrimento do passado, e para libertar o hoje e o amanhã. O desenvolvimento gradual e firme da nossa coragem é uma das metas que melhor definem a LIT. A vitória é certa para todos aqueles que são dedicados e sinceros no cultivo do espírito.
 
NOTAS:
 
[1] Do texto “Quando a Coragem Produz a Vitória”, pp. 1-2, de “O Teosofista”, abril 2014.
 
[2] “Teosofia, a Medicina da Alma”, texto de Carlos.
 
[3] “Preceitos e Axiomas do Oriente - 02”, de Helena P. Blavatsky.
 
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O artigo “O Medo, a Coragem e a Vitória” está disponível nos websites da Loja Independente de Teosofistas desde 03 de junho de 2026. Ele também faz parte da edição de novembro de 2024 de “O Teosofista”, páginas 8 a 14. Uma versão inicial do texto foi material de estudo para associados da LIT em novembro de 2024.  
 
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Leia mais:
 
 
 
 
 
Veja outros textos de Joana Maria Ferreira de Pinho.  
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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13 de novembro de 2025

O Vento e a Montanha

 
A Vitória é Certa Para Aquele Que
Não Se Rende ao Desânimo ou à Euforia
  
Joana Maria Ferreira de Pinho
 



O estudante de filosofia esotérica está familiarizado com a ideia de que o caminho teosófico se apresenta como íngreme e acidentado. O ensinamento aponta para o topo, e é nessa direção que o teosofista caminha ao dedicar sua vida ao ideal de progresso e perfeição humanos. No entanto, o caminho que nos conduz até o pico não é feito de uma linha reta.

Para alcançar o cume, o peregrino enfrenta terrenos variados, com altos e baixos. Ele avança por áreas de vegetação densa, mas também percorre zonas desertas. Em alguns pontos da caminhada, ele vê o caminho à sua frente, mas também existem etapas em que se tem de avançar pelo desconhecido. A caminhada reúne momentos que exigem um grande esforço e outros de relativa tranquilidade. O peregrino tem dias de plena expressão de coragem e energia, mas também tem dias de algum receio e cansaço.

São muitas as armadilhas com que o estudante se depara. Coisas aparentemente agradáveis e doces revelam-se posteriormente como lições amargas. Trilhos amplos e cômodos podem levar a becos sem saída, obrigando o peregrino a voltar atrás e a retomar a via acidentada e íngreme.

Os maiores obstáculos não estão nas pedras, na chuva, no vento ou em qualquer outro obstáculo externo. É dentro do peregrino que residem as maiores limitações, e é também dentro do peregrino que está toda a coragem, toda a luz e força necessárias para que ele prossiga e vença a si mesmo.

A jornada espiritual passa inevitavelmente por períodos de crescimento e de estagnação, ou de relativo avanço e relativa espera. Mas para aquele que está comprometido com o ideal, a estagnação é ilusória. Tal como o futuro pássaro se desenvolve dentro do ovo sem que ninguém dê por isso, também o peregrino está em constante desenvolvimento nos momentos de aparente estagnação.

O caminho é complexo e multifacetado. A vitória é certa para aquele que não se rende ao desânimo ou à euforia e persevera no compromisso com o eu superior. Cada passo dado, por mais pequeno que seja, representa um avanço em direção à meta.

O ideal de progresso não é algo que aguarda por nós ao final do caminho. A meta é construída por nós próprios diariamente, através de cada escolha, de cada pensamento, de cada ação nossa que apoie o ideal. A montanha que nos propusemos conquistar está dentro de cada um de nós.

Nos momentos mais desafiantes o estudante deve lembrar que é graças aos desafios e à luta interior que há avanço.

Na natureza vemos que progresso implica vencer desafios. Para uma árvore florescer ela precisa largar as folhas velhas, despir-se daquilo que já não serve o seu propósito. Ela acolhe o frio, os ventos, as chuvas do inverno. O seu tronco é fortalecido à medida que ela resiste às tempestades. A árvore junta-se à canção da primavera, e a cada nota entoada brotam novas folhas. A árvore não se apega a nada que não seja apoiar a roda da vida e por isso consegue transformar em fruto a flor.

Alguns estudantes desinformados pensam que crescimento espiritual significa ausência de desafios e dificuldades. No entanto, a sabedoria chinesa ensina: “Uma grande árvore atrai o vento” [1]. A alma madura não repele desafios, mas lida com eles de maneira sábia e construtiva. “Quando a raiz é profunda, não há necessidade de temer o vento” [2], diz um provérbio chinês. Para o teosofista, as suas raízes estão no Céu, e, como Carlos deixa claro em um texto [3], elas correspondem ao grau de pureza e devoção à verdade eterna.

A sabedoria popular está repleta de ensinamentos que podem auxiliar nossa jornada. Trago aqui outros provérbios chineses que considero úteis para o aprendizado. [4] Acrescento alguns comentários:

* “Um exército de mil soldados é fácil de encontrar; mas, ah, como é difícil encontrar um general.” (276)

Os soldados correspondem aos vários aspectos do eu inferior do peregrino. O general é a alma imortal. Na luta interior temos um batalhão de soldados sempre dispostos a combater. E sem comando firme e lúcido eles acabam por gerar confusão e sofrimento desnecessário, prejudicando o peregrino. É preciso colocá-los sob o comando do eu superior. Só assim o peregrino sai vitorioso da luta interna entre luz e sombra.

* “O ouro puro não teme a fornalha.” (333)

As adversidades que surgem no caminho têm como propósito fortalecer a nossa vontade. O fogo da provação apenas queima as impurezas que o peregrino tem agarradas à sua alma. Aquele que vive para servir o eu superior não receia nem foge das dificuldades e dos desafios, mas é grato por eles.

* “Se você não escalar a montanha alta, não poderá ver a planície.” (362)

Para olharmos para nós mesmos e nos enxergarmos com toda a clareza é necessário fazê-lo a partir do alto, da Alma. A visão ampla e detalhada de nós próprios, dos outros e do mundo só é possível quando subimos até aquele ponto de imparcialidade, rigor e compaixão que pertence ao eu superior.

 * “Um indivíduo sem determinação é apenas uma espada destemperada.” (366)

Como Carlos coloca em um artigo: “Segundo a tradição zen, a mente é a espada da alma imortal. Ela serve para cortar as ilusões do apego ou rejeição à forma externa, e para defender a verdade impessoalmente e sem violência.” [5]

Não há melhor meta do que aquela que surge do compromisso que o peregrino estabelece com o Eu Superior.

* “O que um homem diz em particular, o Céu ouve como a voz do trovão.” (429)

Tudo o que dizemos, pensamos e fazemos tem o eu superior como testemunha e é registrado pelo carma para futuro débito ou crédito.

* “Pessoas apressadas carecem de sabedoria.” (565)

A pressa afasta a lucidez. A sabedoria pertence ao reino divino e para chegar até ela é necessário silêncio, paz e tranquilidade interiores. Na edição de “O Teosofista”, de abril de 2024, lemos que a aceleração do ritmo moderno da vida cotidiana serve para impedir a consciência própria por parte dos cidadãos e a aceleração está vinculada à atrofia da atenção, ao delírio, à histeria e a outros fenômenos doentios. [6]

Aquele que está em contato com a sua própria alma é sereno, confiante e destemido.

* “Coisas baratas não têm valor; coisas valiosas não são baratas.” (107)

É necessário renunciar ao egoísmo e a mil e um objetos sem valor – como hábitos e adereços da personalidade contrários ao caminho – de forma a adquirir o que é realmente valioso: o altruísmo e a sabedoria.

O que é valioso para o aprendizado teosófico custa caro para o eu inferior. Muitas vezes o indivíduo que busca pela sabedoria será visto como um idiota e infeliz por aqueles que se regem pelo egoísmo. Será ridicularizado e marginalizado por quem teme a verdade. No entanto, não há maior riqueza do que a virtude e maior fonte de paz do que seguir a voz da consciência.

“Não importa quão ferozmente o vento possa uivar, a montanha não se curvará diante dele”.[7]

Nenhuma dificuldade pode derrubar aquele que se mantém unido à alma imortal e é leal a ela.

NOTAS:

[1] Do livro “A Collection of Chinese Proverbs”, William Scarborough (trad.), American Presbyterian Mission Press, 1875, Nova Iorque, EUA, 1964, 478 pp., p. 444.

[2] “A Collection of Chinese Proverbs”, William Scarborough (trad.), p. 305.

[3] Ver o artigo “LIT: a Árvore Com Raízes No Alto”, de Carlos

[4] Os provérbios citados são traduzidos do livro “Seven Hundred Chinese Proverbs”, Henry H. Hart (trad.), Stanford University Press, Califórnia, EUA, 1947, 83 pp. Os números dos provérbios estão indicados ao final de cada citação.

[5] Do texto “As Quatro Proteções do Guerreiro”, de Carlos.

[6] Ver o texto “Ideias ao Longo do Caminho”, edição de abril de 2024 de “O Teosofista”, p. 18. 

[7] Do livro “Confucius for today, a Century of Chinese Proverbs”, Gerd de Ley & David Potter, Robert Hale, Londres, 2009, 128 pp., p. 117.

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O artigo “O Vento e a Montanha” está disponível nos websites da Loja Independente de Teosofistas desde 13 de novembro de 2025.  Inicialmente, o texto foi tema de um estudo interno da LIT, em abril de 2024. Faz parte também da edição de maio de 2024 de “O Teosofista”, pp. 15 a 18.

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Leia mais:






* Examine nos websites da LIT a seção temática sobre Cristianismo e Teosofia.

* Veja a lista de textos de Carlos Cardoso Aveline em vários idiomas.

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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 

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15 de outubro de 2025

O Reino Interior

 
Um Território Vasto e Complexo, Que
Cada Um Deve Conduzir com Sabedoria
 
Joana Maria Ferreira de Pinho
 



Minha mente para mim é um reino;
Encontro nela um bem-estar tão perfeito
Que supera qualquer outra bênção,
Venha de Deus ou da natureza.

Sir Edward Dyer no poema



Há várias imagens que podem representar a natureza humana. Desde a abóbada celeste até ao mundo natural à nossa volta, percebemos nelas os elementos e as dinâmicas que compõem o ser humano. O micro está no macro, e o macro ecoa no micro.

Dentro de nós habitam planetas, estrelas distantes e todos os outros corpos celestes, como se o universo inteiro estivesse vivo no espaço da alma. As qualidades e os defeitos da comunidade planetária, do continente e do país aos quais pertencemos, residem igualmente em nosso interior.

O nosso mundo interno é vasto e variado: grutas misteriosas, florestas densas, cidades barulhentas, planícies silenciosas. Rios correm pelas veias, e águias sobrevoam as cordilheiras dos nossos pensamentos. O vento percorre as florestas e sussurra os segredos da alma, enquanto o fogo consome as impurezas. Cada elemento e cada paisagem refletem a complexidade e a riqueza da vida que flui dentro de nós.

Em nossas almas existem mundos inteiros.

Os conflitos mais feios, bem como os ideais mais nobres das sociedades, têm igualmente palco na existência interna de cada um. Temos cavernas que escondem medos, marés de emoções, montes feitos de memórias e de sonhos, e campos cultivados com as sementes de nossas ações.

Tudo isso reside no ser humano, como um território vasto e complexo que cada um deve aprender a conduzir com sabedoria.

Neste reino, a Alma Imortal, ou Eu Superior, é o Rei.

Os elementos da nobreza estão nas faculdades da mente mais elevada, como a razão, a intuição. Os conselheiros do Rei são os instrumentos superiores que ajudam a colocar em prática as decisões do Rei e o auxiliam nas tomadas de decisão através da criatividade, do planejamento, da experiência. Eles informam, orientam e aconselham, tornando possível que as decisões do Rei sejam sábias e que a harmonia se mantenha no reino. O discernimento alerta sobre impulsos que podem gerar desordem; a criatividade encontra caminhos para superar obstáculos; a memória recorda as lições do passado; o planejamento organiza a execução das decisões soberanas.

Quer a nobreza, quer os conselheiros, correspondem àqueles setores que são profundamente leais ao Eu superior e que ajudam o Rei no estabelecimento da verdade e da justiça. 

Os pensamentos, emoções e hábitos são súditos do nosso Reino que precisam de uma liderança forte e equilibrada. As lembranças, os desejos e as experiências correspondem às terras com seus desafios e riquezas.

As batalhas deste reino refletem conflitos internos que precisam ser resolvidos com justiça. O nosso exército e guarda real são feitos de energia, de força de vontade, de autodisciplina, coragem, rotinas saudáveis, vigilância. Enfrentando possíveis impulsos negativos e crises internas, o exército tenta garantir que a vida do Rei esteja protegida e que as suas decisões sejam implementadas.

As leis do reino são os princípios, as normas e o ideal pelos quais devemos governar nossa conduta e nossas escolhas, de forma que haja coesão e paz.

Aprender a governar este reino é, portanto, a arte de integrar cada elemento e de estabelecer uma ordem harmoniosa.

Se o rei (a Alma Espiritual ou Atma) falha no bom governo, o reino interno entra em anarquia. Quando os conselheiros (discernimento) são ignorados, surgem as decisões erradas. Quando o povo (emoções) se rebela, nasce o caos interno. Se o exército (vontade) está fraco ou desordenado, há uma incapacidade para agir. 

Para nós, ainda longe da consciência superior plena, é necessário educar corretamente a nossa Alma.

É precisamente sobre essa arte de educar e disciplinar o governante e de bem governar que refletiu Jerónimo Osório (1506-1580), bispo de Silves, em Portugal. Humanista, conhecido como o “Cícero português”, J. Osório escreveu a obra “Da Instituição Real e Sua Disciplina”[1], publicada em 1572 e dedicada a D. Sebastião, na época rei de Portugal. O tratado oferece conselhos sobre a condução do reino, as virtudes do soberano e a disciplina necessária para governar sabiamente. Algumas dessas lições podem ser aplicadas na arte de governar a nós mesmos.

Jerónimo Osório escreveu:

“…O encargo de reinar não pode prescindir das normas da honestidade. (…) O que tiver como sumamente bela a função de reinar, também terá como eminentemente nobre a prática de honestamente agir.” (p. 7)

No contexto cristão humanista de Jerónimo Osório, e também na perspetiva teosófica, o significado de “honestidade” inclui inteireza do caráter, a coerência entre o bem que se conhece e se pensa e o bem que se pratica.

O governante honesto é aquele cuja conduta se harmoniza com a Verdade, que reina não por si, mas segundo o princípio do Bem.

A verdadeira honestidade nasce do autodomínio. Muitos confundem honestidade com impulsividade, julgando-se sinceros e honestos ao expor, sem ponderação, tudo o que pensam e sentem.

Carlos esclarece no texto “O Poder da Honestidade”:

“A sinceridade deve andar junto com a boa intenção e uma inofensividade essencial. Ser honesto com as pessoas não é o mesmo que dizer a elas a primeira coisa que nos vem à cabeça. A franqueza cega dos impulsivos é um gesto automático, impensado e portanto irresponsável, causando frequentemente mais problemas do que soluções. A sinceridade precisa ser exercida com calma e de modo impessoal. É indispensável um equilíbrio interior.” [2]

Quem age por impulso ainda não governa a si próprio. E, conforme lembra Osório, “como poderá tutelar a liberdade dos seus quem for escravo de suas paixões?” (p. 9). E Carlos acrescenta que “ao lado da honestidade deve haver sensatez”. [3]

Assim como o rei terreno deve dominar suas paixões para governar com justiça, também nós, com nosso rei interno, devemos aprender a reinar sobre os nossos próprios impulsos, para que o território interior possa servir à Lei Universal e vá ao encontro da prosperidade e da bem-aventurança. Se tal não ocorrer o poder poderá ser tomado por um tirano, o que na nossa natureza interna ocorre quando qualquer aspecto inferior da alma humana ocupa o trono da consciência.

Osório faz a seguinte distinção entre o Rei e o tirano:

“É Rei o que obedece à inspiração divina, segue os ditames da reta razão, promove a justiça, reprime os crimes e as fraudes, observando em tudo a devida ordem e medida. É Rei o que consegue impor-se a toda a Nação pelos merecimentos de suas virtudes; o que todos os perigos afronta para salvar a pátria; o que, aspirando à posse da eterna glória, chega a desprezar a morte para alcançar a imortalidade.”

“Será, pelo contrário Tirano, aquele que não atender a Deus [isto é, a Lei Universal], enjeitar os ditames da razão, der guarida à impureza e ao prazer; o que violar as leis divinas e humanas e recorrer ao dolo e à simulação. Será tirano quem trocar a verdadeira dignidade por uma falsa aparência de decoro.” (pp. 9-10)

A tirania não é apenas um fato político, mas um estado de desordem espiritual: quando o eu inferior se apodera do governo, a luz da razão e da inspiração divina é ofuscada, e o reino interior cai em confusão. E bem ensinou José Bonifácio ao escrever: “A verdade, quando fica muda, introduz a tirania.” [4]

Reinar honestamente, no sentido mais elevado que Osório propõe, é manter o trono da consciência sob a autoridade legítima da Alma, estar em sintonia com a Lei Universal que também habita em nós. Somente assim o reino interno reflete a ordem divina.

Lemos em “Da Instituição Real e Sua Disciplina”:

“Reger ou governar é orientar algo para o seu devido fim. Por isso, quem rege ou governa o povo, esforça-se por conduzir os cidadãos, com ordem, medida e disciplina, ao objetivo para que todos devem tender. E esta finalidade consiste no engrandecimento e na prosperidade da república. Ora a prosperidade de um povo está em possuir o bem e livrar-se do mal.” [5]

O devido fim daqueles que se dedicam ao estudo teosófico é cooperar conscientemente com a Grande Lei. Tanto a meta de governar os pensamentos, as emoções, os estados de consciência e os hábitos, como o dever de governar todos os demais cidadãos do nosso reino, requerem autodisciplina. A prosperidade espiritual, assim como a prosperidade de uma república justa, depende da concórdia entre o pensar, o sentir e o agir, e esta concórdia é inseparável da vitória do bem sobre a ignorância, da virtude sobre o vício. 

O governante de si mesmo deve permanecer vigilante, equilibrando discernimento, coragem e prudência. Dessa forma, a paz é estabelecida e a tirania interna é evitada. Este é o propósito do estudo e da prática teosóficos: transformar a vida interna em um reflexo da ordem divina, preparando o terreno para uma plena expressão da consciência superior.

Aquele que pretende exercer um sábio e bom governo do seu reino exige de si mesmo forte atividade nos assuntos internos. A inação leva à derrota espiritual, como alerta Osório:

“Não anda o ócio sozinho; acompanham-no o tédio, a negligência, a timidez e a preguiça. E se for o Rei atacado por estes vícios (…) lá se vai por terra a salvação do povo.” (p. 36)

Numa perspectiva teosófica, ócio e negligência, além de corresponderem a falhas de conduta, são obstáculos à evolução da consciência. Pensamentos, emoções e hábitos devem ser cultivados sob a direção da Alma, o legítimo Rei.

O Rei interior desperto mantém a ordem, dissipa os impulsos cegos e alinha o reino com a Verdade e a justiça. Educar e disciplinar o nosso reino é, portanto, uma prática diária e um exercício refletido, em cada escolha e ato.

NOTAS:

[1] “Da Instituição Real e Sua Disciplina” (De Régis Institutione et Disciplina), de D. Jerónimo Osório, Edições Pro Domo, Lisboa, 1944, 419 pp. O livro está disponível na Biblioteca Nacional Digital de Portugal.

[2] “O Teosofista”, agosto de 2019, p. 4. 

[3] Do texto “O Poder da Honestidade”, publicado em “O Teosofista”, agosto de 2019, p. 4.

[4] Palavras citadas no artigo “José Bonifácio, um Patriarca Polêmico”, de Carlos.

[5] “Da Instituição Real e Sua Disciplina”, de D. Jerónimo Osório, Edições Pro Domo, Lisboa, 1944, 419 pp., pp. 21-22.

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O texto acima está disponível nos websites da Loja Independente de Teosofistas desde 15 de outubro de 2025.

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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 

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