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15 de julho de 2025

Em Nome do Silêncio

 
É Preciso Garantir o Sossego da População  
 
Monteiro Lobato
 




À nossa Constituição falta um artigo de capital importância, que estabelecesse a par da inviolabilidade do domicílio a inviolabilidade dos nossos ouvidos.

Se um cidadão não tem o direito de penetrar violentamente em casa de outro, por que terá o direito de penetrar no seu aparelho auditivo por intermédio do berro descompassado, da charanga tonitruante, da corneta guarda-nacionalíssima, do sino das igrejas, da sereia policial e mais estrondos de maori enlouquecido?

S. Paulo é a vítima permanente dum estupro auditivo organizado em sistema. Seus tímpanos não merecem a consideração de ninguém. São uma espécie de casa da Mãe Joana onde todo sujeito capaz de um som violento sem a menor cerimônia deposita a sua contribuição.
Já tínhamos aqui em certo bairro a Guarda Nacional com as suas cornetas. Os moradores andam com algodão nos ouvidos para prevenir a surdez precoce. Durante horas a fio um magote de corneteiros, na atitude clássica dos trombeteiros da Aida, postam-se na rua estrugindo tá-rá-tá-tás nhambiquaríssimos.

Dizem que o caso, visto não ter uma explicação planetária, tem-na interplanetária. Aqueles sons são mensagens da Terra ao planeta Marte. Na impossibilidade de promover uma guerra intestina onde dê largas à sua belicosidade, a Guarda Nacional desafia os marcianos para um prélio à la H. G. Wells. [1] Mas como Marte, avaliando o formidoloso poderio da nossa milícia pela arreganhada insistência daqueles tá-rá-tá-tás, tem medo, ou pelo menos receio, e não aceita a luva, os derrotados ficamos sendo nós, cujas trompas de Eustáquio andam inflamadas como mão de negro após três dúzias de bolos.

A esse belígero corneteamento vem agora juntar-se a histeria fônica pré-carnavalesca.
Bandos de bípedes passam e repassam pelo infeliz Triângulo, em mangas de camisa, balindo, latindo, mugindo, grunhindo, guinchando, urrando, taralhando, coaxando, crocitando, zurrando, ululando, com grandes risos alvares na cara e ademanes atávicos do pitecântropo ereto.

São seguidos por automóveis com mulheres dignas de fornecer quartos ao frigorífico de Osasco ou tachadas de sabão crioulo. Gordas, mamalhudas, desacreditadoras do terceiro inimigo da alma pela exibição de carnaduras faisandées, esses cetáceos femininos, pintadas a vermelhão na cara, passam irradiando nuvens de espiroquetas pálidos, símbolos vivos da Avaria.

Remata o rancho um bando de homens fardados, produtores de barulhos; malham uns nos bombos; outros assopram trombones, saxofones, flautas, clarinetas e mais instrumentos amarelos de provocar vibrações do ar. Tais vibrações, produzidas dentro de uma rua estreita, com uma muralha de paralelepípedos por baixo e a muralha dos prédios lateralmente, escapam na quantidade de um terço pela estreita aberta superior, e por dois terços são absorvidos pelos tímpanos dos miseráveis seres humanos que têm a desdita de se encontrarem dentro do seu raio de ação.

Caso de habeas-corpus não é. Este remédio só cura do corpo inteiro, não admite a desintegração de um “habeas auricula”. Não havendo remédio jurídico, nem policial, nem higiênico, acho, logicamente, que o povo tem o direito de recorrer à justiça sumária indicada pela legítima defesa dos seus tímpanos. É agarrá-los e atufar aquelas bocas com algodão em rama; é furar o bombo do Zé Pereira; é amarrotar um por um os tais aparelhos amarelos de produzir sons. Quanto ao mulherio não há vacilar a respeito do seu destino: é tangê-las para Osasco. Só assim seremos reintegrados nas incomparáveis delícias do Silêncio.

NOTA:

[1] H.G. Wells, autor do romance de ficção científica “A Guerra dos Mundos”. (CCA)

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O artigo “Em Nome do Silêncio” foi publicado nos websites da Loja Independente de Teosofistas em 15 de julho de 2025. Trata-se de uma reprodução do livro “Ideias de Jeca-Tatu”, de Monteiro Lobato, Ed. Brasiliense, SP, 1959, 275 pp., ver pp. 177-179. O escritor brasileiro Monteiro Lobato nasceu em 1882 e viveu até 1948.

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Leia mais:

* A Música do Silêncio (texto de CCA).

* Mestre Silêncio (um poema de Hermes Fontes).

* Elogio ao Silêncio (texto de Malba Tahan).

* O Clube dos Silenciosos (um conto de Malba Tahan).

* A Ciência das Lágrimas (de Manuel Bernardes).


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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 

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1 de junho de 2012

O Que Deve Ser o Governo

Uma Reflexão Sobre Responsabilidade Ética

Monteiro Lobato


O escritor Monteiro Lobato
  

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Nota Editorial:

A luta pela ética na administração pública
não ocorre só no Brasil, e não começou ontem. Há
milênios, ela tem estado ligada às filosofias de Platão,
Aristóteles, Confúcio, Cícero, Sêneca e tantos outros.  

O padre Antônio Vieira lutou duramente pela ética na
política no Brasil e no Portugal do século 17. Ruy Barbosa,
José do Patrocínio e  outros fizeram o mesmo mais tarde no
Brasil. O escritor Monteiro Lobato (1882-1948) foi um dos
escritores  mais populares do mundo lusófono do século 20,
e o curto e incisivo texto a seguir é oportuno no século 21.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Uma nação é o conjunto organizado das criaturas humanas que habitam um certo território. Para promover a ordem e a justiça essas criaturas delegam poderes a certos indivíduos para a aplicação de uma coisa chamada lei, a qual não passa da vontade coletiva aceita por  consenso unânime. Tais homens constituem o governo. O governo é, pois,  um delegado, uma criatura da Nação. Só esta é soberana, porque só esta é a força e a verdade.

Quando os delegados fogem aos seus deveres e voltam contra a Nação os  aparelhos defensivos que ela lhes entregou para salvaguardar a sua soberania das agressões externas, esse governo deixa de ser governo. Cessa de funcionar legalmente e – ou rei como Luís XVI, ou ministro, ou presidente, ou congresso – deve ser incontinenti varrido por todos os meios, a guilhotina como na França, ou a processo criminal como nas repúblicas livres.

O dever mais elementar dos delegados da Nação é aplicar sensatamente os dinheiros públicos. O povo dá o imposto para receber em troca um certo número de benefícios de caráter geral. Para fiscalizar esse emprego existe a imprensa, plenário onde se ventila o abuso, o qual abuso, competentemente autuado, sobe à Opinião Pública para o julgamento supremo. Se a opinião pública, por vício incurável, não toma as providências do caso, paciência. A imprensa não tem culpa disso. Seu papel limita-se a esclarecer o público.

Assim, todo jornalista, ou todo cidadão, tem o dever de agarrar pela gola os funcionários relapsos, sejam reis ou ministros, e expor os seus crimes na grande montra [vitrine].

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Reproduzido do livro  “Mundo da Lua e Miscelânea”,  Monteiro Lobato,  Ed. Brasilense, SP, 339 pp., 1968, pp. 106-107.

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