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19 de outubro de 2018

O Exemplo de Sória Lima dos Santos

Os Teosofistas Alcançam às Vezes a
Plenitude da Amizade e do Respeito Mútuo

Ailton Santoro

Sória Lima dos Santos (1930-2018)



O que torna uma pessoa marcante na vida de alguém?

A resposta é a medida da influência positiva que ela exerce sobre o caráter do outro, de tal forma que possa mudar para melhor a sua ação no mundo.

Conheci Sória Lima dos Santos em 1988, quando visitei pela primeira vez a Loja Rio de Janeiro. No grande salão da antiga sede da Sociedade Teosófica no Rio de Janeiro, eu a ouvi discorrer sobre “O Culto da Árvore, da Serpente e do Crocodilo”, conforme abordado em “A Doutrina Secreta”. A voz pausada e firme daquela pequena mulher, com o sotaque nordestino já enfraquecido pelos anos vividos no Rio de Janeiro, levava até mim, pela primeira vez nesta encarnação, os ensinamentos de H.P. Blavatsky.

Levado pela timidez a me sentar em uma das últimas fileiras de poltronas do auditório, eu sabia que algo importante acabara de acontecer: tinha tomado contato com ideias que transmitiam uma filosofia profunda, essencial, embora tivesse entendido muito pouco do que fora dito. Eu tinha sido tocado pelo Eu Superior. Tinha então 26 anos. Naquele mesmo ano me tornei membro.

Havia na Loja, naquela época, um grupo de jovens, e sob a condução de Sória tornamo-nos todos grandes amigos. Esta era a sua diretriz de trabalho: a amizade no trabalho teosófico é fator fundamental, e deve ser estimulada sempre. Cada visitante da Loja, cada membro deve se transformar em um amigo. E os membros da Loja deveriam tratar-se como se fossem uma família, onde o respeito mútuo e a sinceridade prevaleceriam.

Rigorosa e detalhista, exigia o máximo de nós em cada trabalho a ser realizado, quer fosse uma ata de reuniões ou um evento de estudos. Embora de temperamento alegre e brincalhona, tudo se transformava se o assunto fosse a teosofia; nesses momentos, sua seriedade era total, e a dedicação, completa. Sua devoção a H.P.B. e aos Mahatmas era impressionante.

Dona de uma intuição e sensibilidade poderosas, sabia extrair dos textos os significados mais profundos. Estudiosa da tradição maçônica, orientou inúmeros aprendizes a penetrar o significado mais profundo da sua simbologia.

A mesa redonda com tampo de vidro de sua sala foi testemunha silenciosa de inúmeras tardes e noites de estudos, trocas e aprendizados que marcaram minha vida. Forjou-se ali a alma de mais de um estudante teosófico.

Juntos, fomos percebendo a inconsistência dos ensinamentos dos instrutores teosóficos da segunda geração, e, abandonando-os completamente, mergulhamos no estudo da teosofia autêntica de H.P.B. e dos Mahatmas. Foi nesta época e por sua iniciativa que a Loja Rio de Janeiro, utilizando o espaço da Loja Augusto Bracet, convidou o irmão Carlos Cardoso Aveline a expor o conteúdo dos dois volumes das Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett em língua portuguesa, num encontro marcante em 2002.

Sória era uma pessoa especial, e corajosamente fez da teosofia a nota-chave de sua vida. Seu temperamento forte não era incompatível com a delicadeza e a dedicação ao próximo que encantavam quem a conhecesse. Ninguém que fosse à sua casa pela primeira vez saía de lá sem que recebesse um presente, por mais simples que fosse. Ninguém que demonstrasse alguma necessidade deixava de ser auxiliado, na medida de suas poucas posses. Seu ombro sempre estava disponível para acolher as lágrimas de tristeza de quem nele buscasse consolo, ou seu abraço para saudar e comemorar as alegrias.

Sória nasceu em Parnaíba, no Piauí, no dia 3 de fevereiro de 1930.

Completou sua encarnação em 2018. Abandonou o plano físico em 15 de setembro, e avançou em paz para os níveis superiores da vida.

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O artigo acima foi publicado em nossos websites associados em 19 de outubro de 2018. Ailton Santoro é membro da Sociedade Teosófica de Adyar no Brasil desde 1988 e atualmente preside a Loja Rio de Janeiro.

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18 de fevereiro de 2018

A Força da Teosofia Original

Por Que Abandonei as ‘Obras Fantásticas’ Para
Estudar os Ensinamentos dos Mestres e de H.P.B.

Ailton Santoro




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Ailton Santoro é membro da Sociedade
Teosófica de Adyar no Brasil desde 1988. 
Atualmente preside a Loja Rio de Janeiro.

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Quando o aspirante ao estudo da filosofia esotérica chega a alguma loja da Sociedade Teosófica em busca de respostas aos seus questionamentos, é invariavelmente apresentado a uma literatura “introdutória” de autores da chamada “segunda geração”.

A finalidade declarada é familiarizar o iniciante com as ideias básicas do pensamento teosófico a fim de que, mais tarde, seja possível a leitura dos livros de Helena P. Blavatsky, principalmente de A Doutrina Secreta, a obra-prima da Teosofia, considerada pela maioria dos membros “difícil” ou “hermética”. 

Naturalmente, esta condução inicial é vista como a melhor a ser oferecida ao principiante, que é sempre tratado com carinho e respeito. Não há aqui nenhuma crítica pessoal a este processo: apenas a constatação da aplicação de uma didática consagrada pelo tempo, que posterga indefinidamente o estudo das obras fundamentais da verdadeira teosofia, rotulando-as de excessivamente difíceis.

Minha chegada à Loja Rio de Janeiro seguiu o mesmo roteiro. Li obras de autores consagrados na Sociedade. Destes, os mais prolíficos foram Annie Besant e Charles Webster Leadbeater. Através de seus livros, frutos de alegadas investigações clarividentes, conhecemos temas tais como iniciações, religiões orientais, Mestres de Sabedoria, hierarquias planetárias, química oculta, corpos e planos sutis, espíritos da natureza, vidas passadas e muito mais, tudo com tamanha riqueza de detalhes que temos a impressão de que não há nenhum assunto para o qual não haja resposta.

O universo do fantástico, do sobrenatural e do inusitado foi apresentado a nós, e a ele foi dado o nome de “Teosofia”.

Passado algum tempo, e considerando que tinha suficiente familiaridade com os conceitos aprendidos, passei a analisar as obras de HPB, acreditando a princípio que tudo o que lemos previamente encontraria endosso e aprofundamento em seus escritos, principalmente na Doutrina Secreta.

Mas, para minha surpresa, o que encontrei nelas foi bem diferente. Tinha diante de mim uma cosmovisão baseada em diversas tradições filosóficas milenares, tanto orientais quanto ocidentais, sem espaço para opiniões pessoais extravagantes, descrições de experiências psíquicas ou assemelhados. Da mesma forma, os conceitos básicos apresentados na teosofia clássica eram diferentes dos conceitos de Leadbeater e Annie Besant; alguns, como os princípios humanos, estavam em clara oposição. Assuntos que eram detalhadamente descritos na “teosofia de segunda geração” encontravam ali pouca ou nenhuma menção. Eu tinha encontrado uma explanação da realidade espiritual que exigia esforço e dedicação para ser apreendida. E mesmo esta apreensão era processada aos poucos, organicamente, de modo que os ensinamentos se desdobram em outros, mais completos, mais sutis. Tinham vida. Eram transformadores. Entendi então que ali estava a Teosofia, e não no que eu tinha conhecido antes.

Na Doutrina Secreta não há apelo à nossa credulidade, mas um convite a ir além do significado das palavras e enxergar nas entrelinhas da linguagem mítico-poética dos slokas e dos comentários. O enfoque do estudo tem que ser intuitivo, não dialético; interior, não intelectual e discursivo. A partir daí, sucedem-se os insights e a consciência se expande. Principia o contato com níveis mais profundos do ser.

Outro momento importante neste processo foi a publicação das Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett em língua portuguesa pela Editora Teosófica. Fomos apresentados a elas pelo irmão Carlos Cardoso Aveline em 2002, quando o convidamos para uma exposição de seu conteúdo em um encontro de dois dias na Loja Augusto Bracet, no Rio de Janeiro.

Seu estudo demoliu em nós outra ilusão, a dos “Santos Mestres”, com toda a carga devocional que a imagem deles possuía para nós e que nos fora transmitida anteriormente. Tínhamos as Cartas dos Mestres de Sabedoria, editadas por Jinarajadasa, mas estas, ainda que importantes, não possuem a força da sabedoria sempre crescente que a cronologia das Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett oferece. Suas páginas dão o testemunho da sabedoria não de santos, mas de homens sábios, filósofos eminentes, transmissores de uma ética superior que conhecem a natureza humana por inteiro, sem segredos. Ensinam as possibilidades de seus aspectos superiores, mas não negam as limitações de seus aspectos inferiores; antes, ensinam como tais limitações podem ser transmutadas em forças úteis ao progresso da Alma.

Eles se esforçaram por transmitir e adequar uma mensagem atemporal de sabedoria às formas limitadas das linguagens ocidentais, representadas pelos dois ingleses que foram seus correspondentes, deixando um tesouro inestimável de conhecimento para o mundo.

A partir de então chegamos a um novo patamar na busca do conhecimento sagrado.

Decidi que a literatura teosófica original, tal qual deixada por Helena Blavatsky e pelos dois Mahatmas, seria o meu objeto de estudo. A decisão não foi um fato isolado. Graças a circunstâncias cármicas inspiradoras, faço parte de uma loja que desde o ano de 2002 vem estudando apenas a teosofia clássica.

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O artigo acima foi publicado originalmente na edição de dezembro de 2017 de “O Teosofista”, pp. 5-6.