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22 de agosto de 2018

A Ética Humana e os Terremotos

Há Uma Secreta Ligação Entre a Psicologia
Dos Humanos e os Ciclos Geológicos da Terra

Damodar K. Mavalankar


Um templo do Nepal, após um terremoto em 2015 



Nota Editorial:

O artigo a seguir apareceu pela primeira vez em “The Theosophist”, na Índia, em setembro de 1885, p. 285. Assinado com as iniciais “K.D.M.”, o texto foi seguramente escrito por Damodar K. Mavalankar (D.K.M., ou K.D.M.), que era um colaborador imediato de Helena Blavatsky.  Título original: “Terremotos”.  

Em um artigo publicado em 1933, o teosofista norte-americano C. J. Ryan confirma a ideia de que Damodar é o autor.[1]  

A nota sobre terremotos foi publicada alguns meses depois que Damodar deixou a Índia, abandonando os aspectos visíveis do movimento teosófico. Em setembro de 1885 Damodar já estava segundo tudo indica vivendo em um dos ashrams dos Mestres de Sabedoria.[2] Pouco tempo antes dele,  Helena Blavatsky havia deixado a Índia para não mais voltar. Ela viajara para a Europa em março de 1885.

A importância deste pequeno artigo  é grande no século 21. Todos os aspectos da vida humana são magnéticos, assim como a vida geológica e planetária em geral. A relação direta entre microcosmo e macrocosmo é inevitável. A Kundalini de cada indivíduo está ligada à Kundalini planetária.  Portanto, o artigo de Damodar não aborda apenas terremotos. Explica também a correspondência entre o nível médio de ética dos seres humanos e a mudança periódica de orientação dos polos magnéticos,  e do eixo do nosso planeta.

(Carlos Cardoso Aveline)

A Ética Humana e os Terremotos

Damodar K. Mavalankar

As teorias formuladas atualmente pelos cientistas em relação aos terremotos não são satisfatórias.

Os hindus têm uma superstição segundo a qual a grande serpente Basuki leva a Terra sobre sua cabeça, e quando a Terra se torna demasiado pesada devido a seus pecados, esta serpente move sua cabeça, provocando terremotos.

Se tratarmos de ir ao fundo desta superstição poderemos ter um vislumbre do que os antigos pensavam sobre  a causa dos terremotos.

De acordo com a filosofia tântrica da ioga, a Terra é sustentada por uma força chamada  Kundalini shakti. Esta força é a vida da Terra. Ela é simbolicamente representada por uma cobra entrelaçada em três voltas e meia em torno do linga-sharira da Terra.[3] No microcosmo, esta força é um estado de tensão que produz uma corrente, cujo movimento ocorre ao longo de um caminho em espiral.

De acordo com o professor Maxwell, a eletricidade é um estado de tensão no éter luminífero, e todos os fenômenos da força magnética são observados quando a eletricidade flui ao longo de uma bobina em espiral. Com base nisso podemos pensar que  o que se chama de magnetismo na ciência moderna é uma forma da Kundalini shakti dos iogues hindus. Os cientistas comprovaram o fato de que esta Terra é um grande ímã. E penso que a perturbação interna no magnetismo terrestre é representada simbolicamente pela superstição citada acima em relação à causa dos terremotos.

Os cientistas modernos não veem qualquer conexão entre a causa dos terremotos e acontecimentos no plano mental da Terra. Mas quando eles compreenderem que não há qualquer coisa parecida com casualidade no universo, que cada acontecimento visto como aparente casualidade é o efeito de uma força no plano mental, eles poderão perceber por que os hindus supersticiosos olham para os terremotos como efeitos dos pecados acumulados que os seres humanos cometeram.[4]

Compreendida adequadamente, a superstição dos hindus significa o seguinte: que o efeito acumulado dos maus Carmas dos seres humanos na Terra, impressos no fogo astral, é produzir uma mudança na posição do centro de força da vida terrestre. Esse centro de força, a que os hindus dão o nome Padma ou Chakra, é a cabeça de Basuki. Quando para preservar a si mesma a Terra necessita mudar a posição do centro da sua vida ativa, surge uma perturbação no magnetismo interno da Terra e ocorrem terremotos - entre outros fenômenos -, do mesmo modo que acontecem tremores nervosos no corpo de um ser humano.[5]

Só um Adepto, alguém que conhece profundamente todos os departamentos das forças naturais, pode saber até que ponto esta visão dos hindus está correta. Que o leitor busque obter a ajuda de um adepto para esclarecer suas dúvidas; e, tendo dito isso, nada mais tenho a dizer.

(K.D.M.)

NOTAS:

[1] “Scientific Notes and News”, artigo de C. J. Ryan, em “The Theosophical Path”, Outubro 1933, p. 220. (CCA)

[2] Veja a Carta  29, primeira série, em “Cartas dos Mestres de Sabedoria” (Ed. Teosófica, Brasília), e os comentários a ela. (CCA)

[3] Linga-sharira - o terceiro princípio da consciência, a estrutura astral que acolhe e dá uma forma ao princípio da vitalidade. Veja em nossos websites associados a segunda metade do artigo “Os Sete Princípios da Consciência”. A ideia de “três voltas e meia” é simbólica. “Três e meio” é a metade de sete. Céu e Terra, ou o divino e o terrestre, combinados, têm sete níveis de consciência. “Três e meio” aponta para o ponto intermediário, a ligação entre o céu e a Terra. Esta relação entre o alto e o baixo, o espírito e a matéria, deve ser equilibrada - e é regida em cada detalhe pela rigorosa Lei eterna. (CCA) 

[4] O aumento periódico da cobiça humana causa devastação ambiental e mudanças climáticas. (CCA)

[5] Uma mudança no eixo do planeta. (CCA)

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O artigo acima foi publicado dia 22 de agosto de 2018. Ele apareceu pela primeira vez em inglês, na edição de maio de 2016 de  “The Aquarian Theosophist”, pp. 9-10. Mais tarde foi publicado como texto independente e agora está disponível em nossos websites associados: “Human Ethics and Earthquakes”.

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15 de julho de 2018

Sobre a Prática da Oração

Percebendo a Relação Entre a Prece e a Vontade

Damodar K. Mavalankar




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Nota Editorial:

O texto a seguir é traduzido do volume  
“Damodar and the Pioneers of the Theosophical
Movement”, obra compilada por Sven Eek e
publicada por Theosophical Publishing House,
Adyar, Índia, 720 pp., 1978, ver pp. 405-406.

(CCA)

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Agimos com base no princípio de que aquilo que é alimento para um é a morte para outro. Assim, enquanto algumas pessoas não conseguem desenvolver suas capacidades psíquicas latentes sem a oração, há outras que podem fazer isso.

Não atribuímos qualquer valor às palavras proferidas. Se as palavras tivessem algum efeito, como é que diferentes religiosos, embora usando diferentes formas de expressão, conseguem obter o mesmo resultado? Além disso, aqueles que rezam em silêncio e intensamente alcançam seu objetivo, enquanto que aqueles que simplesmente balbuciam alguma fórmula, sem entendimento do significado, não alcançam respostas às suas orações.

Como foi dito em “Ísis Sem Véu”, estamos convencidos de que a oração é uma expressão do desejo, que gera a Vontade. E esta VONTADE é todo-poderosa; seu efeito depende, é claro, das condições do ambiente que a envolve.

Os filósofos são necessariamente poucos. Eles não precisam de cerimônias externas ou de um objeto para focar e concentrar a força de Vontade.

Não podemos esperar que mortais comuns, cujas ações e percepções sensoriais não os permitem ir além da máscara, consigam agir sem o auxílio de algum processo externo. O que lamentamos é a degeneração desta oração real - a expressão externa de um sentimento interno - o que a transforma em um emaranhado de palavras sem sentido.

A oração do filósofo é a sua contemplação (tema sobre o qual será encontrado um artigo na última edição de “The Theosophist”). [1]

NOTA:

[1] Aqui Damodar se refere ao seu próprio artigo intitulado “A Contemplação”, que está disponível em nossos websites associados.  

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O texto acima está publicado também em “O Teosofista”, novembro de 2008, pp. 10-11. Foi publicado como artigo independente em 15 de julho de 2018. 

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2 de setembro de 2017

A Organização do Movimento

Escrita por Ordem de um Mestre, a Carta
14-A Examina a Ação das Lojas Teosóficas

Damodar K. Mavalankar

 Visão parcial de uma foto do início dos anos 1880, com vários teosofistas.  Damodar - discípulo
altamente avançado dos Mahatmas - está aos pés de Helena Blavatsky no lado esquerdo da imagem.



Nota Editorial de 2017:

O texto a seguir reproduz a Carta 14-A de “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett” [1], escrita em fevereiro de 1881.

Um comentário editorial explica:

“A carta 14A foi escrita por Damodar Mavalankar, uma figura importante nos primeiros dias da Sociedade Teosófica. Ele era um chela do Mahatma K.H. e mais tarde foi trabalhar com o Mestre permanentemente.”

“Sinnett, que estava sinceramente interessado no bem-estar da S.T., havia pedido algumas sugestões. A carta 14A contém as sugestões de Damodar.”

Uma nota de Damodar para Sinnett, acompanhando a carta, revela que o texto foi escrito de acordo com instruções de um Mestre. O teosofista escreveu:

“Respeitosamente submetida à consideração do sr. Sinnett, sob ordens diretas do Irmão Koot Hoomi. Damodar K. Mavalankar.”

A esta mensagem o Mestre acrescentou as seguintes palavras dirigidas a Sinnett:

“Com a exceção da taxa - muito exagerada - os pontos de vista dele são completamente corretos. Essa é a impressão causada na mente dos hindus. Espero, meu caro amigo, que você inclua um parágrafo mostrando a Sociedade como ela é. Escute a sua voz interna, e obrigado mais uma vez. Sempre atenciosamente, K.H.” [2]

Embora o texto de Damodar não possa ser aplicado de modo literal ao movimento teosófico do século 21, ele possui grande valor por várias razões.

* A carta foi escrita sob as ordens de um Mahatma, o que significa que as suas camadas internas de significado são permanentes.  

* Ela esclarece a relação entre ética, altruísmo impessoal e conhecimento. Estes três fatores alquímicos não podem ser separados.

* A terceira razão é que a carta descreve os dois níveis principais do movimento: a ação humanitária e o treinamento esotérico.

* Finalmente, Damodar mostra que os membros da confortável classe média que não conseguem fazer qualquer doação monetária ao Movimento são simplesmente egoístas em sua atitude e não estão qualificados para aprender em suas almas a filosofia esotérica.

Em relação a este último ponto, cabe lembrar que os aspirantes ao discipulado que ingressavam na Escola Esotérica fundada por Helena Blavatsky faziam um voto em nome dos seus eus superiores que inclui este item:

“Eu me comprometo a dar todo o apoio que puder ao movimento em tempo, dinheiro e trabalho.” [3]

Os Mestres não pensam que todo dinheiro é necessariamente impuro. O esforço teosófico deve existir no mundo material, e várias das “Cartas dos Mahatmas” mostram que os Adeptos tentaram ajudar Alfred Sinnett a obter recursos financeiros para criar um jornal na Índia, cujo nome teria sido “Phoenix”.

No entanto, o modo como as questões de dinheiro são resolvidas é rigorosamente honesto de uma maneira que as mentes superficiais nem sempre conseguem ver ou compreender: a preguiça mental não tem utilidade em filosofia esotérica.

Este é um texto inspirador de Damodar K. Mavalankar. Ensina a atitude correta diante do esforço teosófico, tal como ele existe em nossa civilização. Para facilitar uma leitura contemplativa, alguns parágrafos mais longos foram divididos em parágrafos menores.

(Carlos Cardoso Aveline)

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A Organização do Movimento

Damodar K. Mavalankar

(A Sociedade Teosófica)

Com referência ao Regulamento e à Estrutura da Sociedade, peço permissão para fazer as seguintes sugestões. Os pontos que enfatizo parecem-me bastante necessários, pois tenho conversado com muitos hindus e julgo conhecer melhor o caráter hindu do que qualquer estrangeiro.

Parece prevalecer uma impressão geral de que a Sociedade é uma seita religiosa. Essa impressão tem a sua origem, penso, na crença comum de que a Sociedade é totalmente devotada ao Ocultismo.

Até onde posso julgar, esse não é o caso. Se assim fosse, seria melhor tornar a Sociedade secreta e fechar as suas portas para todos, exceto àqueles, muito poucos, que possam ter demonstrado uma determinação para devotar as suas vidas inteiras ao estudo do Ocultismo. Caso não seja assim, e ela esteja baseada sobre o princípio amplo e humanitário da Fraternidade Universal, o Ocultismo, uma das suas várias ramificações, deve ser um estudo inteiramente secreto.

Desde tempos imemoriais esse conhecimento sagrado tem sido guardado do público vulgar com grande cuidado, e só porque alguns de nós tiveram a grande felicidade de entrar em contato com alguns dos guardiões desse tesouro inapreciável, será correto de nossa parte abusar da bondade deles e vulgarizar os segredos que eles consideram mais sagrados até mesmo que as suas vidas?

O mundo ainda não está preparado para ouvir a verdade sobre esse assunto. Colocando os fatos diante do público despreparado nós só fazemos parecer ridículos aqueles que foram tão bondosos conosco, e que nos aceitaram como seus colaboradores no trabalho pelo bem da humanidade. Ao falarmos demais sobre este assunto, nos tornamos, até certo ponto, alvos do ódio público. Chegamos ao ponto de, inconscientemente, levar o público a acreditar que a nossa Sociedade está sob a direção unicamente dos Adeptos, quando toda a direção está nas mãos dos Fundadores, e os nossos Instrutores nos dão conselhos só raramente, em casos excepcionais e de grande emergência. O público viu que os fatos estavam sendo mal compreendidos, já que os erros na administração da Sociedade - alguns dos quais poderiam ter sido muito bem evitados pelo exercício de um simples bom senso - eram expostos de tempos em tempos. Assim, o público chegou à conclusão de que

(1) Ou os Adeptos não existem, de modo algum, ou

(2) Se existem, eles não têm conexão alguma com a nossa Sociedade, e portanto, nós somos impostores desonestos, ou

(3) Se eles têm qualquer ligação com a Sociedade, devem ser de um nível muito inferior, pois, sob a sua orientação, tais erros ocorreram.

Com as poucas e nobres exceções daqueles que têm inteira confiança em nós, nossos membros hindus chegaram a uma dessas três conclusões. É portanto necessário, na minha opinião, que medidas sejam adotadas rapidamente para eliminar essas suspeitas. Para isso, vejo somente duas possibilidades: (1) ou a Sociedade toda deve dedicar-se ao ocultismo, e nesse caso deveria ser tão completamente secreta como uma loja maçônica ou rosacruz, ou, (2) ninguém deveria saber nada sobre ocultismo, exceto aqueles poucos que, pela sua conduta, mostrassem determinação de se devotar a esse estudo. Como a primeira alternativa foi considerada desaconselhável pelos nossos “Irmãos” e claramente proibida, resta a segunda.

Uma outra questão importante é a da admissão de Membros. Até agora, qualquer um que expressasse o desejo de se filiar e pudesse conseguir dois padrinhos que o recomendassem podia filiar-se à Sociedade, sem que pesquisássemos mais profundamente sobre a sua motivação. Isto levou a dois maus resultados. As pessoas pensaram ou fingiram pensar que queríamos Membros apenas para receber as suas Taxas de Ingresso, com as quais vivíamos; e muitas se filiaram por simples curiosidade, pois pensaram que, pagando uma Taxa de Ingresso de 10 rúpias, poderiam ver fenômenos. E quando perderam a ilusão neste ponto, elas se voltaram contra nós e começaram a insultar a nossa CAUSA, pela qual temos trabalhado e à qual decidimos dedicar nossas vidas.

A melhor maneira de superar este problema seria excluir esse tipo de pessoas. Surge, naturalmente, a questão de como isso pode ser feito, já que o nosso Regulamento é tão liberal que qualquer um é admitido. Mas, ao mesmo tempo, nosso Regulamento determina uma Taxa de Ingresso de 10 rúpias. Isso é muito pouco para manter do lado de fora os buscadores de curiosidades que, pela possibilidade de serem satisfeitos, sentem que podem facilmente gastar essa soma tão insignificante.

A taxa poderia, portanto, ser aumentada o suficiente para que somente se filiem os que são realmente sinceros. Necessitamos homens de princípios e de propósitos sérios. Um homem assim pode fazer mais por nós do que centenas de caçadores de fenômenos. A taxa deveria, na minha avaliação, ser aumentada para 200 ou 300 rúpias. Pode argumentar-se que assim talvez excluíssemos pessoas realmente boas, sinceras e interessadas, mas incapazes de pagar essa taxa. Porém penso que é preferível arriscar a perda de uma boa pessoa do que admitir uma multidão de preguiçosos, um só dos quais pode desfazer o trabalho de todas as pessoas sinceras. E, no entanto, mesmo esta situação pode ser evitada. Pois, assim como agora admitimos alguém como membro, quando parece merecê-lo especialmente, sem a necessidade de pagar a sua própria taxa, a mesma coisa pode ser feita após a mudança proposta.

Damodar K. Mavalankar, M.S.T. [4]
Respeitosamente submetida à consideração do sr. Sinnett.


NOTAS:

[1] “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, Editora Teosófica, Brasília, Vol. I, 2001, pp. 90-92. (CCA)

[2] As duas notas acima, uma de Damodar e a outra do Mestre, estão publicadas como Carta 14-B em “Cartas dos Mahatmas”. (CCA)

[3] Veja em nossos websites associados o artigo “O Significado de um Compromisso”, de Autor Anônimo. (CCA)

[4] M.S.T. - Membro da Sociedade Teosófica. (N. da edição brasileira das Cartas)

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Em 14 de setembro de 2016, depois de uma análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável. 

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23 de abril de 2010

O Conhecimento Verdadeiro

Quanto Mais Ensinamos, Mais Aprendemos  

Damodar K. Mavalankar

Damodar Mavalankar
  
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Nota Editorial:

Damodar K. Mavalankar (1857- ?)  foi um
discípulo avançado dos Raja-Iogues dos Himalaias
e um colaborador direto de Helena Blavatsky.   

(CCA) 

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A importante questão sobre “o que é conhecimento verdadeiro” deve receber uma resposta. Muitas pessoas confundem a visão física com o conhecimento. Elas não pensam com profundidade suficiente para perceber que podemos ver uma coisa e não conhecê-la, e, ao mesmo tempo,  conhecer uma coisa que não vemos.

A percepção verdadeira é o verdadeiro conhecimento. A percepção é uma atividade da alma; é a visão da inteligência mais elevada, cujo olhar nunca erra. E isto pode ser exercido na verdadeira serenidade mental, como o Mahatma K. H. observa:

“É sobre a serena e plácida superfície da mente imperturbada que as visões captadas do mundo invisível encontram uma representação no mundo visível.” [1]  

Em poucas palavras – segundo a descrição da alegoria hindu – “É na escuridão da noite que Krishna nasce.”

Em Ocultismo, Krishna representa o princípio Crístico; o Atma ou sétimo princípio  dos vedantinos; o Logos dos cristãos – o Espírito Divino, que é o Filho manifestado do Pai imanifestado. Na escuridão da noite, isto é, quando há completo repouso físico e mental, quando há uma perfeita paz e quietude na mente. É só então que a individualidade do homem - sua natureza mais elevada - torna-se um veículo adequado para a manifestação da Palavra. Isso é o que se pretende dizer na Bíblia, quando se afirma que devemos tentar obter “redenção através de Cristo”. O Princípio Divino no homem é indivisível. A alma humana é universal. Aquele que quiser desfrutar da vida eterna deve viver no Princípio Divino e unir a alma humana com ele. Portanto, um sentido de isolamento pessoal produz morte e aniquilamento, enquanto que a filantropia autêntica e altruísta coloca o indivíduo em contato com o Espírito Divino, e assim dá a ele vida eterna. 

O Espírito Divino permeia tudo o que existe, e cada um que se coloca em contato com o Espírito Divino está, necessariamente, em contato com todas as outras entidades que também estão em contato com ele. Portanto, os Mahatmas, que são conscientes do Logos, estão em constante relação magnética com aqueles que conseguem libertar-se da natureza animal inferior; e que, expandindo Manas superior (a mente, o quinto princípio dos ocultistas), tentam unir a mente permanentemente com Buddhi e Atma, o sexto e sétimo princípios mencionados na doutrina oculta.  

É desta maneira que os Mahatmas devem começar a ser conhecidos. O que é um Mahatma? Ele é o seu corpo físico? Não! O corpo físico deve perecer, mais cedo ou mais tarde. O Mahatma vive em sua individualidade mais alta e, para conhecê-lo verdadeiramente, ele deve ser percebido a partir daquela individualidade em que ele se concentra. O corpo é apenas um ponto de apoio da alavanca através da qual devem ser produzidos resultados físicos. Para ele, o corpo é como uma casa. Ele o habita enquanto o corpo for útil para o seu propósito.

O conhecimento aumenta na proporção direta do seu uso. Isso significa que, quanto mais ensinamos, mais aprendemos. Do mesmo modo, quanto mais um órgão for exercitado, mais aumentará a sua atividade funcional - uma vez, naturalmente, que não haja expectativas excessivas ou imediatas. Assim também a vontade se fortalece à medida que é exercida; e quando o indivíduo enfrenta tentações - o que só é possível quando ele convive com seus companheiros - mais oportunidades haverá para que ele exercite e portanto fortaleça sua vontade. Neste processo, surge um momento no qual a estrutura do indivíduo mudou tanto que ele fica incapacitado para trabalhar no plano físico. Ele então deve trabalhar sobre sua estrutura desde planos mais elevados, para os quais ele deve retirar-se. Mas até a chegada deste momento ele deve estar com a humanidade, e trabalhar inegoisticamente pelo real progresso humano. Só isso pode produzir a verdadeira felicidade.

[Fevereiro de 1885]

NOTA:

[1] Veja “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, Transcritas por A. T. Barker, Editora Teosófica, Brasília, 2001, dois volumes. Ver a Carta 65, volume I, p. 270.

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O artigo acima foi traduzido da obra “Dâmodar and the Pioneers of the Theosophical Movement”, compilada e anotada por Sven Eek, The Theosophical Publishing House, Adyar, Índia,  720 pp., 1978, pp. 515-517.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”. 

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22 de abril de 2010

A Contemplação

A Verdadeira Meditação Ocorre nas 24 Horas do Dia

Damodar K. Mavalankar

Esta foto, dos anos 1880, reúne vários dos pioneiros
do movimento teosófico. Damodar Mavalankar está sentado no chão,
aos pés de Helena Blavatsky, à direita dela (à esquerda de quem olha para a foto).



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Nota Editorial

A trajetória do autor de “A
Contemplação”,  Damodar Mavalankar, é um
caso único na história do movimento esotérico.
A parte visível da sua carreira foi curta e brilhante.
Em 1885, ainda jovem, ele era um dos principais
líderes e pensadores teosóficos quando foi convidado
pelos Mestres de Raja Ioga  que  inspiram o  movimento
teosófico  para viver em seus Ashrams nos Himalaias –  e
desapareceu do mundo. Seus escritos, que não são muitos,
têm um longo alcance e grande profundidade.  O  primeiro
texto a seguir foi publicado em fevereiro de 1884  na revista
“The Theosophist”, cerca de um ano antes da transferência
de Damodar para os Himalaias. Na época, a publicação era
dirigida por H.P. Blavatsky. Em seguida, nas edições de abril
e agosto daquele ano, cartas ao editor levantaram questões em
torno deste texto, e as  duas respostas de Damodar são incluídas
aqui  na continuação do texto inicial.   Todo o material foi
re-publicado pela revista “Theosophy”, edição de  janeiro de
1948, pp. 119-128,  de onde é feita essa tradução. Os textos
também estão incluídos no volume “Theosophical Articles and
Notes”,  The Theosophy Company,  Los Angeles, EUA, 1985,
314 pp., ver pp. 39-48  –  e na obra “Damodar”, de Sven Eek,
TPH, Índia, 1978, 720 pp. O título original  é  “Contemplation”.

(Carlos Cardoso Aveline)

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A Contemplação.


Parece haver uma falta de compreensão generalizada sobre o significado deste termo. A ideia popular é que se trata de ficar imóvel, confinado durante meia hora, ou no máximo duas horas,  em uma sala determinada; e  olhar fixamente para o próprio nariz,  para um ponto na parede, ou talvez para um cristal. Se supõe que esta seja a verdadeira forma de contemplação usada em Raja Ioga.

Essa visão não leva em conta que, para o verdadeiro ocultismo,  os desenvolvimentos “físico, mental, moral e espiritual” devem ocorrer em linhas paralelas.  Se a concepção estrita de contemplação se aplicasse a todas estas linhas de desenvolvimento,  não haveria uma necessidade tão urgente de que este artigo fosse escrito.  O presente texto é dirigido especialmente para beneficio daqueles que não parecem ter compreendido o real significado de Dhyan,  e  que devido às suas práticas equivocadas atraíram e ainda atraem dor e sofrimento para si mesmos.

Em Bareilly [cidade do Norte da  Índia, NT ],  o autor destas linhas encontrou um certo teosofista de Farrukhabad, que narrou suas experiências e derramou lágrimas  amargas de arrependimento pelas loucuras que fez, segundo a expressão usada por ele. A partir desse relato, parece que cidadão, tendo lido o “Bhagavad Gita” cerca de 15 ou 20 anos atrás, e mesmo sem compreender o significado esotérico da contemplação abordada naquela obra, dedicou-se à prática e perseverou nela vários anos. No início experimentou uma espécie de prazer, mas sentiu ao mesmo tempo que estava perdendo autocontrole; até que alguns anos mais tarde ele descobriu, com grande assombro e sofrimento, que não era mais senhor de si mesmo. Sentia que seu coração estava ficando pesado, como se uma  carga tivesse sido colocada sobre ele.  Não tinha controle sobre suas sensações;   na verdade, a comunicação entre o cérebro e o coração estava como interrompida. Como a situação piorava cada vez mais, ele abandonou  amargurado a sua “contemplação”.  Isso aconteceu sete anos atrás; e embora desde então ele não tenha se sentido pior,  nunca recuperou o estado saudável original em  termos de corpo e mente.

Outro caso ocorreu em Jubbulpore. Um cidadão, depois de ler Patañjali e outras obras semelhantes, começou a sentar-se para praticar “contemplação”.  Pouco tempo depois, começou a ter visões anormais e a ouvir sinos musicais, mas não podia exercer controle algum sobre estes fenômenos,  nem sobre suas próprias sensações.  Ele não podia produzir tais efeitos por vontade própria, nem conseguia pará-los quando estavam ocorrendo. Exemplos como estes são inúmeros. Enquanto escreve estas linhas, o autor tem sobre sua mesa duas cartas sobre este assunto,  uma de Morabad e a outra de Trichinopoly. Em resumo, todo esse problema é devido a uma compreensão equivocada do significado da contemplação tal como é recomendada por todas as escolas de Filosofia Oculta. Com o objetivo de permitir um vislumbre da Realidade através do denso véu  que encobre os mistérios desta Ciência das Ciências,  foi escrito um artigo, “O Elixir da Vida” (“The Elixir of Life”) .  Infelizmente, em muitos casos, a semente parece haver caído em solo árido. Alguns dos leitores do artigo só deram atenção a esta frase no texto:

“Deve ser praticado e encorajado  o raciocínio que vai do conhecido para o desconhecido – a meditação.”

Mas, lamentavelmente,  as concepções prévias deles impediram que compreendessem o que se queria dizer com “meditação”.  Eles esqueceram de que, como mostra a frase seguinte,  meditação “é a inexprimível ânsia do homem interior por ‘sair em direção ao Infinito’, o que nos tempos antigos constituía o real significado da adoração”.  Uma boa quantidade de esclarecimento será obtida,  nesse assunto,  se o leitor examinar o trecho anterior do mesmo texto, e ler atentamente os seguintes parágrafos na  página 141 de “The Theosophist” de Março de 1882 (Vol. III, número 6):

“Assim, então, chegamos ao ponto em que decidimos  romper – literal e não figuradamente – a casca externa  conhecida como espiral mortal, ou corpo, e sair dela vestidos com a nossa casca seguinte. Essa ‘casca seguinte’ não é uma forma espiritual, mas apenas uma forma mais etérea.  Tendo alcançado uma adaptação para viver nesta atmosfera através de longos treinamento e preparação, durante os quais gradualmente fizemos com que a casca externa morresse através de um certo processo . . . temos de nos preparar para esta transformação fisiológica.”

“Como vamos fazer isto? Em primeiro lugar, nós temos  que lidar com o corpo real, visível, material – o SER HUMANO,  embora na verdade essa seja  apenas a sua casca externa. Devemos lembrar que,  segundo a ciência, a cada sete anos, mais ou menos , nós trocamos de pele tão literalmente como uma serpente; e isto de maneira  tão gradual e imperceptível  que, se a ciência não nos afirmasse isso depois de anos de estudo e observação incessantes, ninguém teria a menor ideia a respeito. . . . portanto, se um homem que perde parte da sua pele pode às vezes sobreviver e ser coberto por uma nova pele,  – assim  também o nosso corpo astral, nosso corpo vital . . . . pode ser levado a endurecer as suas partículas diante das mudanças atmosféricas.  O segredo para isso está em conseguir fazer com que ele saia, separando-o do corpo visível; e, enquanto os seus átomos geralmente invisíveis passam a concretizar-se em uma massa compacta, deve-se gradualmente deixar de lado as velhas partículas do nosso corpo visível de modo a fazer com que morram e desapareçam antes que o novo conjunto tenha tido tempo de surgir e substituí-las . . . . Não podemos dizer mais a respeito.”

Uma  compreensão correta do processo científico mencionado acima dará pistas para o significado esotérico da meditação ou contemplação. A ciência ensina que cada homem troca continuamente seu corpo físico, e esta mudança é tão gradual que é quase imperceptível. Por que deveria ser  diferente com o homem interno?  Este último também  está constantemente desenvolvendo-se e trocando átomos a  cada momento.  E a atração destes novos conjuntos de átomos depende da Lei de Afinidade: os desejos do homem atraem à sua moradia corporal apenas as partículas que estejam em relação com eles ou mais precisamente que estejam dando a  eles sua própria tendência e colorido.

“Porque a ciência mostra que o pensamento é dinâmico, e que a força do pensamento liberada pela ação dos nervos que se expande para o exterior deve afetar as relações moleculares do homem físico. O homem interno, por mais sublimado que possa ser o seu organismo, ainda está composto por partículas reais, não hipotéticas, e ainda está  sujeito à lei segundo a qual uma ‘ação’ tende a repetir-se; há uma tendência a estabelecer uma ação análoga na ‘casca’ mais grosseira em cujo interior as partículas se ocultam  e com a qual têm contato. (‘O Elixir da Vida’ ).”

O que é que o aspirante à Yog Vidya [Sabedoria  da Ioga] busca, exceto obter Mukti,  transferindo-se gradualmente do corpo grosseiro para o próximo corpo mais etéreo, até que todos os véus de Maya sejam eficientemente removidos e seu Atma se torne um com  Paramatma?  Será que ele supõe que este grande resultado pode ser  alcançado por uma contemplação de duas ou quatro horas?  Durante as vinte ou vinte e duas horas  restantes, em que o devoto não se fecha em seu quarto para meditar – estarão interrompidos o processo de emissão de átomos e a substituição deles por outros? Caso não estejam interrompidos, então como ele pretende atrair, durante todo o tempo, apenas os que são adequados para o seu objetivo? A partir das considerações feitas acima, é evidente que, assim como o corpo físico requer uma  atenção incessante para prevenir a entrada de uma doença, do mesmo modo o homem interno requer uma constante vigilância, de modo que nenhum pensamento consciente ou inconsciente possa atrair átomos inadequados para o seu progresso. Esse é o real significado da contemplação.  O fator primordial na orientação do pensamento é a VONTADE.

“Sem isso, todo o resto é inútil. E, para que tenha eficácia, é preciso que não seja meramente uma decisão passageira e momentânea, um simples desejo intenso de curta duração, mas um esforço estabelecido e contínuo, e tanto quanto possível concentrado e continuado sem um só momento de interrupção (relaxamento).”

O estudante fará bem em reparar na parte colocada em itálico na citação acima.  E ele também deve manter registrado de modo indelével em sua mente que –

“É inútil  fazer jejum enquanto se necessita comida . . . . O essencial é deixar de lado o desejo interno, e fazer uma imitação da coisa real é pura hipocrisia e uma escravidão inútil.”

Se não compreender a importância deste fato extremamente significativo, qualquer um  que em determinado momento encontra motivo para discordar de algum membro da sua família  ou que vê a sua vaidade ferida, que tem algum impulso sentimental ou que sente um desejo egoísta de usar sua força divina para propósitos grosseiros – imediatamente se apressa a praticar contemplação, e se lança desastrosamente sobre a dura rocha que divide o  conhecido do desconhecido.  Chafurdando no lodo do exoterismo, ele não sabe o que é viver no mundo e não ser do mundo.  Em outras palavras, defender o eu contra o eu é um axioma incompreensível para quase todos os profanos.  Pelo menos os hindus deveriam ser capazes de compreender isto,  ao lembrar da vida de Janaka, que,  embora fosse um monarca exercendo o poder, era considerado raja-iogue e se dizia dele que havia alcançado o Nirvana. Ouvindo falar sobre sua vasta fama, alguns fanáticos sectários foram à sua Corte para testar os seus poderes de Ioga.  O rei leu seus pensamentos – um poder que todo chela desenvolve em certo estágio  –  e assim que eles chegaram ao salão da corte, deu instruções secretas para que em uma certa rua da  cidade fossem colocadas garotas dançando e cantando as canções mais sensuais.  Ele mandou que alguns gharas  (potes)  fossem enchidos com água até o limite, de modo que  a menor oscilação derramasse o seu conteúdo.  Os  indivíduos pretensiosos receberam então ordens de caminhar  pela rua  tendo um ghara (pote) cheio sobre a cabeça, rodeados de soldados com espadas desembainhadas que seriam usadas contra eles se uma só gota de água se derramasse.

Quando os pobres coitados voltaram ao palácio depois de passar exitosamente pelo teste, o Rei-Adepto perguntou a  eles o que haviam visto na rua que tiveram que percorrer. Com grande indignação, eles responderam que a ameaça de serem cortados em pedaços havia tido tamanho impacto sobre suas mentes que não pensaram em coisa alguma exceto na água sobre suas cabeças; e a intensidade da sua atenção não havia permitido que tomassem conhecimento do que estava  acontecendo ao redor deles.  Então Janaka explicou-lhes: com base no mesmo princípio,  eles poderiam entender que,  embora externamente engajado na administração dos assuntos de estado do seu reino, ele podia ao mesmo tempo ser um Ocultista. Também ele,  embora estivesse no mundo, não era do mundo.   Em outras palavras, suas aspirações internas haviam-no levado continuamente para a frente,  em direção àquela meta na qual todo o seu ser interior estava concentrado.

A Raja Ioga não  encoraja qualquer fingimento, e não requer posturas físicas  de espécie alguma. A Raja Ioga diz respeito ao homem interno, cuja esfera está no mundo do pensamento. Manter diante de si o mais elevado ideal e esforçar-se incessantemente para erguer-se até  ele – essa é a única verdadeira concentração reconhecida pela Filosofia Esotérica, que lida com o mundo interno dos númenos, e não com a casca externa dos fenômenos.

A primeira exigência da filosofia esotérica é uma completa pureza de coração. O estudante de Ocultismo bem poderia dizer, como Zoroastro, que a pureza de pensamento, a pureza de palavras e a pureza de ações são os fatores essenciais para alguém que pretenda erguer-se acima do nível comum e  unir-se aos “deuses”. O  caminho que deve ser  percorrido para alcançar essa meta é o cultivo do sentimento de  filantropia inegoísta.  Só isso pode levar ao Amor Universal, cuja compreensão constitui o progresso em direção à libertação dos grilhões construídos por Maya em torno do Eu Superior.  Nenhum  estudante pode alcançar isso de repente, mas, como o nosso VENERÁVEL MAHATMA afirma no livro “O Mundo Oculto”:

“Quanto maior o progresso em direção à libertação, menos ocorrerá isso, até que, na culminação de tudo, os sentimentos humanos e puramente individuais,  os laços de sangue e amizade, o  patriotismo e as predileções  raciais  irão todos ceder e transformar-se em um sentimento universal, o único Amor verdadeiro e sagrado, o único Amor inegoísta e eterno, um Amor Imenso pela Humanidade como um todo.”

Em resumo,  o indivíduo se une com o TODO.

Naturalmente, a contemplação tal como entendida usualmente não é destituída de algumas pequenas vantagens.  Ela desenvolve uma série de aptidões físicas, assim como a ginástica  faz em relação aos músculos. Para o propósito de mesmerismo físico,  é bastante eficaz; mas não serve para ajudar de modo algum o desenvolvimento de aptidões psicológicas, como o leitor atento pode perceber. Ao mesmo tempo, mesmo para propósitos  comuns, todo cuidado é pouco.  Alguns supõem que o praticante tem  que estar completamente passivo e perder-se no objeto que está diante dele,  mas eles deveriam lembrar que, ao praticar deste modo a passividade, eles estão na realidade permitindo o surgimento de funções mediúnicas em si mesmos.  Como temos afirmado repetidamente – o Adepto e o Médium são os dois Pólos.  Enquanto o primeiro é intensamente ativo e, assim, capaz de controlar as forças elementais,  o segundo é intensamente passivo, e assim corre o risco de tornar-se vítima do capricho e da malícia de germes enganadores de futuros seres humanos – e também de Elementários [NT: Elementários são restos astrais de uma pessoa egoísta que já morreu]. 
   

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Correspondência Sobre o Texto “A Contemplação”
  

I

Lamento que todo o artigo tenha sido inteiramente mal compreendido. Tudo o que quis  dizer é que o afastamento temporário da família ou amigos não constitui uma qualificação essencial para fazer  progresso em ocultismo. Isso deveria ficar claro para qualquer um que considere cuidadosamente a história de Janaka.  Trata-se de, mesmo estando no mundo, não ser do mundo.  Muitas pessoas, sem compreender o significado deste importante ensinamento, se apressam movidas por um desprezo sentimental pelas coisas mundanas – que surge provavelmente de uma decepção naquele nível – e começam  a praticar o que consideram uma forma autêntica de contemplação.  O próprio fato de que esta é a motivação  que leva estas pessoas a adotar esta prática  . . . . –  este fato é uma indicação suficiente de que tais pessoas não sabem como é a “contemplação” de um Raja Iogue. É, portanto, impossível que essas pessoas possam seguir o método correto; e a prática física, que necessariamente realizam, as leva aos resultados desastrosos assinalados no artigo.

Qualquer leitor com intuição suficiente para ser um estudante prático de ocultismo verá de imediato que alcançar a perfeição é o ideal mais elevado que um ser humano pode ter diante de si. Essa não é a tarefa de um dia ou de alguns anos. “Alguém se torna um Adepto, ninguém É TRANSFORMADO em Adepto” – esse é um ensinamento que o estudante deve compreender desde o início.  O aspirante trabalha por sua meta ao longo de uma  série de vidas.  O coronel Olcott diz em seu livro “O Catecismo Budista”:  . . . “Incontáveis gerações são necessárias para transformar um homem em um  Buddha, e a vontade de ferro de tornar-se um Buddha percorre igualmente todos os renascimentos sucessivos.”

Esta vontade de ferro de tornar-se perfeito deve estar operando incessantemente, sem um só momento de relaxamento, como ficará claro para alguém que leia cuidadosamente o artigo todo. É  dito claramente que durante o tempo em que esta contemplação não é praticada, isto é, que a vontade de ferro não está sendo exercida, o processo de emissão e atração de átomos não pára, e que os desejos,  instintivos ou não, devem ser regulados de modo a atrair apenas átomos que possam ser adequados a seu progresso. Portanto, não entendo por que meu correspondente pergunta o que ele deveria fazer em  uma hora específica da manhã. Ele deve cultivar apenas os pensamentos que não sejam incompatíveis com o mais alto ideal em função do qual ele trabalha.

Devo acrescentar que entendo por perfeição –  que deveria ser o seu ideal mais elevado – aquela divina condição humana que a Filosofia Oculta prevê para a sétima raça da sétima Ronda.  Isso,  como todo  principiante sabe, depende em grande parte do cultivo de um sentimento de Amor Universal;  portanto, um desejo intenso de fazer algum trabalho filantrópico prático é o primeiro  requisito. Mesmo este estado, admito, não é absoluta perfeição: mas o limite máximo de perfeição Espiritual suprema está além da nossa compreensão, atualmente.  Aquela condição só pode ser compreendida intelectualmente como um ideal prático por homens divinos  como os Dhyan-Chohans.  Para estar identificado com O  TODO, devemos viver nele e sentir através dele. Como isto poderia ser feito sem a compreensão do sentimento de Amor Universal? Naturalmente, o Adeptado não está dentro do alcance fácil de todos.   De outro lado, o ocultismo não atribui nenhum lugar ou localidade desagradáveis para aqueles que não aceitam as suas doutrinas. Ele apenas reconhece evoluções mais e mais altas de acordo com uma cadeia de causas e efeitos que trabalha sob o impulso da lei imutável da Natureza. O artigo sobre “Estudo Oculto” no último número [“The Theosophist”, Março de 1884, pp. 131-133] dá a explicação necessária sobre este ponto.

É desagradável para mim descobrir que exatamente aquilo que tentei assinalar naquele artigo como prejudicial em seus resultados é, novamente, apresentado como um atributo desejável ou como um suplemento da verdadeira contemplação. Eu pediria a quem escreveu a carta que lesse novamente o artigo, com esses comentários adicionais, antes de pensar sobre a necessidade de qualquer postura determinada para o propósito da contemplação. Eu, pelo menos, sou incapaz de indicar qualquer postura específica para o tipo de contemplação incessante que recomendo.

— D.K.M.

  
II

Apesar do artigo sobre o tema acima, publicado em “The Theosophist” de fevereiro, muitos dos seus leitores ainda imaginam que a “contemplação” é uma determinada forma de olhar fixamente para alguma coisa, um processo que, sendo realizado durante um número estabelecido de horas durante o dia,  dará poderes psicológicos. Aparentemente essa compreensão equivocada se deve ao fato de que se perdeu de vista o ponto principal discutido. Em vez de compreender que há apenas uma ideia principal sendo transmitida naquele artigo, e que ela é defendida em muitos dos seus trechos, parece que imaginou-se que quase cada frase expressa uma ideia completamente diferente.  Talvez não seja  desinteressante nem inútil, portanto, voltar ao assunto e colocar a mesma ideia desde outro ponto de vista e, se possível, sob uma luz mais clara. Primeiro, deve ser levado em conta que o autor do artigo, ao usar a palavra “contemplação”,  não queria de modo algum  referir-se ao ato de olhar fixamente para algo. Se essa fosse a ideia, ele teria usado a expressão “olhar fixamente”.  O Imperial Dictionary of  the English Language (1883) define a palavra contemplação da seguinte maneira:  

(1) O ato da mente de considerar com  atenção; meditação; estudo; atenção continuada da mente para um assunto determinado.  Especificamente – (2) Meditação sagrada; atenção a coisas sagradas.

O dicionário Webster’s, edição revista –  também dá o mesmo significado. 

Vemos assim que contemplação é a “atenção continuada da mente para um assunto determinado”, e, no plano  religioso, é a “atenção a coisas sagradas.”   É difícil imaginar, portanto,  como a ideia de olhar fixamente possa ter sido associada com a palavra contemplação, a menos que seja porque, geralmente, quando um indivíduo está profundamente absorvido em seus pensamentos, ele parece estar olhando fixamente para alguma coisa no espaço vazio.  Mas este tipo de olhar é o efeito do ato da contemplação.  E, como acontece com  frequência, aqui também o efeito parece ser confundido com a causa. Só porque a atitude de olhar fixamente acompanha o ato da contemplação, já se conclui que o olhar fixo é a causa que produz a contemplação!  Tendo isso claro em nossas mentes, vejamos agora que tipo de contemplação  (ou meditação) o texto “O Elixir da Vida”  recomenda para os aspirantes. Ele diz: “Deve ser praticado e encorajado  o raciocínio que vai do conhecido para o desconhecido – a meditação.”

Isto significa  dizer  que a meditação de um chela deve ser “o raciocínio que vai do conhecido para o desconhecido”.  O “conhecido” é o mundo dos fenômenos, que é cognoscível pelos nossos cinco sentidos. E tudo o que vemos neste mundo são os efeitos, cujas causas devem ser buscadas no mundo dos númenos, o imanifestado,  “o mundo desconhecido”: isto deve ser conseguido através da meditação, isto é, pela contínua atenção ao tema.  O Ocultismo não depende de um só método, mas emprega  tanto o método dedutivo como o método indutivo. O  estudante deve aprender primeiro os axiomas gerais.   Durante algum tempo, ele terá naturalmente que adotá-los como hipóteses de trabalho, se ele preferir chamá-los assim. Ou, como “O Elixir da Vida” coloca:

“O  que podemos dizer é que se você  está ansioso para beber do Elixir da Vida e viver durante mil anos ou algo semelhante,  você deve aceitar neste momento o que dizemos a respeito, e avançar com base nesta hipótese. Porque a ciência esotérica não dá a menor esperança de que o  objetivo desejado será alcançado de qualquer outro modo; enquanto a ciência moderna, a chamada ciência exata, ri  diante do assunto.”

Estes axiomas já foram suficientemente expostos nos artigos sobre o Elixir da Vida e em vários outros que tratam sobre ocultismo, nos diferentes números de “The Theosophist”. O  que o estudante tem que fazer primeiro é compreender estes axiomas e, empregando o método dedutivo, avançar do universal para o específico.  Ele deve então raciocinar “do conhecido para o desconhecido”, e ver se o método indutivo de avançar do específico para o universal confirma estes axiomas. Este processo forma o  primeiro estágio da verdadeira contemplação.  O estudante deve primeiro captar o assunto intelectualmente, antes que possa ter a esperança de realizar as suas aspirações. Quando isto é alcançado, vem então o próximo estágio da meditação, que é  “a inexprimível ânsia do homem interior por ‘sair em direção ao Infinito’.”  Antes que qualquer ânsia desse tipo possa ser adequadamente direcionada, a meta que o estudante deverá ser levado a buscar deve ser determinada durante os estágios preliminares.  O estágio mais alto, na verdade, consiste em compreender na prática aquilo que os primeiros passos colocaram dentro do campo da nossa compreensão.  Em resumo, a contemplação, no seu verdadeiro sentido, consiste em reconhecer a verdade da afirmação de Eliphas Levi: – “Acreditar sem saber é fraqueza; acreditar porque sabemos, é poder.”

Ou, em outras palavras, trata-se de saber que “CONHECIMENTO É PODER”.  O texto “O Elixir da Vida” não só dá os passos preliminares na escada da contemplação, mas também diz ao leitor como realizar as concepções mais elevadas.  Ele investiga,  em certa medida pelo processo de contemplação, a relação entre o ser humano – “o conhecido”, o manifestado, o fenômeno – e  “o desconhecido”, o imanifestado, o númeno.  Ele mostra ao estudante que ideal ele deve contemplar e como poderá erguer-se até ele. O texto coloca diante do estudante a natureza das potencialidades interiores do ser humano e diz como desenvolvê-las.  Para um leitor superficial, talvez isto possa parecer o máximo do egoísmo.  A reflexão ou a contemplação, no entanto, mostrarão que na verdade o que ocorre é o oposto. Porque o texto ensina ao estudante que, para compreender o numenal, ele deve identificar-se com a Natureza.  Ao invés de olhar para si mesmo como um ser isolado, ele deve aprender a ver a si mesmo como parte do TODO INTEGRAL. Isso porque, no mundo imanifestado, pode ser claramente percebido que tudo é controlado pela “Lei da Afinidade”, pela atração entre um e outro.  Assim, tudo é Amor Infinito,  entendido em seu verdadeiro sentido.

Talvez seja apropriado recapitular agora o que já foi dito. A primeira coisa a ser feita é estudar os axiomas  do Ocultismo e trabalhar com eles pelos métodos dedutivo e indutivo, o que constitui a real contemplação. Para colocar isto em função de um propósito útil, aquilo que é compreendido teoricamente deve ser compreendido e realizado praticamente.  É de se esperar que esta explicação torne mais claro  o significado do artigo anterior sobre este assunto.

— D.K.M.      

(‘The Theosophist”,  Índia, edições de fevereiro, abril e agosto de 1884.)


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Para conhecer a teosofia original desde o ângulo da vivência direta, leia o livro “Três Caminhos Para a Paz Interior”, de Carlos Cardoso Aveline.


Com 19 capítulos e 191 páginas, a obra foi publicada em 2002 pela Editora Teosófica de Brasília.   

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