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11 de novembro de 2018

A Máquina Ameaçando o Ser Humano

Os Objetos Materiais Devem
Servir a Vida, e Não o Contrário

C. Jinarajadasa

Uma fábrica de carros de brinquedo, em torno de 1930
  


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Nota Editorial de 2018:

Este pioneiro artigo dos anos 1930 aponta para
a questão central  da desumanização da vida. O
desafio é antigo, e no século 21 parece atingir o auge.

O texto transcreve palestra de C. Jinarajadasa
 feita durante uma visita de mais de três meses ao Brasil.
C.J. mostra a necessidade de re-humanizar a civilização e
 de colocar a vida mais claramente acima das coisas. O
perigo não está na máquina, nem no progresso tecnológico,
em si, mas no desrespeito pelos seres humanos. O  texto é
reproduzido de “O Teosofista”, maio-agosto de 1934, pp.
158-159. Título original: “A Máquina ou o Homem?”.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Quão confortáveis são as nossas vidas, hoje em dia, comparadas com aquelas que viveram nossos avós? Temos em casa água corrente, gás e eletricidade; fora das habitações temos bondes, ônibus e trens. Podemos hoje ouvir Londres, Paris e Nova York pelo rádio; e, se tivermos pressa, podemos transportar-nos à Europa em cinco dias. Por todos os lados temos dispositivos e mais dispositivos para nos proporcionarem conforto.

Mas, porventura pensastes já quanto custou a obtenção destas coisas que nos proporcionam conforto? Terá já passado por vossa mente que, nesse febril desenvolvimento da civilização para produzir mais objetos para nosso conforto e conseguir maior rapidez nos transportes, o espírito do homem vai sendo vagarosamente aniquilado?

Observai por vós próprios: olhai ao vosso redor na sala em que vos achais. Quantos, dos objetos que vos cercam, foram produzidos por máquinas? Sabeis que as pernas da cadeira em que vos sentais foram feitas por um carpinteiro, os braços por outro e o espaldar por um terceiro? Se penetrardes numa fábrica moderna onde trabalham centenas de homens, notareis que o capitalista verifica que pode ganhar mais dinheiro especializando seus trabalhadores em grupos, cada um cuidando da confecção de uma parte de determinado produto. Vereis um homem produzindo, por meio de uma máquina, somente uma determinada peça - como, por exemplo, somente pernas de cadeiras - durante oito horas por dia, e isto por semanas e semanas. O carpinteiro moderno, numa oficina, nunca terá a satisfação de construir uma cadeira completa. E assim é com todas as coisas.

Estamos cercados de objetos feitos por máquinas. A mão do homem representa bem pouco na sua confecção. O mais poderoso ditador do mundo, hoje, é a máquina. O espírito criador do homem acha-se acorrentado.

O gramofone é semelhante a música enlatada


Os Estados Unidos da América do Norte especializaram-se na produção de laticínios e no acondicionamento, em latas hermeticamente fechadas, de quase todas as nossas iguarias: eles enlatam todos os legumes, o peixe e a carne. Ninguém compreendeu inteiramente como as vitaminas são quase totalmente destruídas nesse processo, exceto no caso do tomate. Desse processo universal de enlatar, tiraram eles a frase “Música enlatada”, para descrever música produzida nos teatros e cinemas por meio de uma máquina que veio substituir o artista vivo da orquestra.

A máquina é o ditador. E não avaliamos quanto temos perdido das delicadas belezas da vida por meio desse processo de mecanização. Não sentimos, a não ser que sejamos muito sensitivos, a diferença entre a cadeira entalhada por uma máquina e aquela outra que foi entalhada por um carpinteiro, pelas suas próprias mãos. Não conhecemos a diferença entre um aposento onde os seus vários objetos foram criados pela mão do homem, e um outro onde foram feitos simplesmente por meio de máquinas sob o controle do homem.

Entretanto, quanto mais culto um homem se torna, tanto mais anseia pelo espírito do homem.

Por que será que homens e mulheres das Américas vão à Europa - à Itália, à França, à Alemanha - e visitam monumentos, igrejas e catedrais? Porque compram velhos objetos entalhados, esculturas e pinturas? É porque a mão do homem, nesses monumentos, transmite ainda a mensagem do espírito do homem.

Se tivésseis de colocar a torre de Giotto, em Florença, ao lado do edifício Martinelli, em S. Paulo, feito de cimento armado, compreenderíeis imediatamente como a torre de Giotto fala da grandeza do espírito do homem, e o vosso arranha-céu da grandeza do poder da máquina.

Como podemos salvar o espírito do homem do regime ditatorial da máquina? Há somente um caminho: é submetermo-nos todos a uma cultura artística para nos tornarmos artísticos. Devemos cantar, e não apenas ouvir discos de gramofone. Devemos representar no palco, e não ficar satisfeitos apenas com os cinemas. Devemos aprender a criar poemas - não importa que sejam pequenos - e não limitarmo-nos a ler somente os jornais. Devemos exercitar nossas próprias mãos no entalhe da madeira, na modelagem do barro, transformando-os em coisas belas com os nossos dedos.

Devemos cercar-nos pouco a pouco, em nosso lar, de objetos dos quais se irradie a delicada influência de um criador humano.

Nossos artistas poderão auxiliar-nos a contrabalançar o regime ditatorial da máquina. Precisamos da máquina, não para sermos seus escravos, mas para que seja nossa servidora. Mas, é preciso que os artistas nos ajudem, saindo dos seus ateliers e ensinando o povo. Eles devem, não só criar obras artísticas, mas ensinar aos outros a produzi-las. Devem ensinar as massas a cantar, a dançar e a representar no palco. Precisam organizar concertos e dramas, ensinar as crianças a criar pequenos poemas, pequenas estátuas, e também a pintar quadros, admirar um pôr de sol ou ouvir música grandiosa.

Dessa maneira, pouco a pouco, vós, no mundo ocidental, volvereis a possuir o grandioso mundo do espírito que haveis perdido quase por completo. Nós temos ainda esse mundo em nossa velha Índia: penetrai ali no casebre de qualquer pobre e examinai sua cozinha: vereis que ali os poucos vasos de barro foram modelados pela mão do oleiro, segundo os lindos modelos da antiguidade.

Quem será o vencedor: o homem, ou a máquina? - Esta é a pergunta que a civilização ocidental deve responder. No momento, a resposta é: a máquina.

Porém não sereis jamais um grande povo no Brasil, enquanto a vossa resposta não for esta:

“O homem é quem rege, e não a máquina.”

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O artigo “A Máquina Ameaçando o Ser Humano” foi publicado dia 11 de novembro de 2018.

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Em 14 de setembro de 2016, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável.

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27 de outubro de 2018

O Futuro da América do Sul

Examinando o Dever e a Tarefa
do Movimento Teosófico no Brasil

C. Jinarajadasa

O teosofista brasileiro Caio Lustosa Lemos
(à esquerda) e C. Jinarajadasa (1875-1953)



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Nota Editorial de 2018:

O texto  seguir é reproduzido da revista
“O Teosofista”, maio-agosto de 1934, pp.
110 a 112. Foi escrito por C. Jinarajadasa
 em Belém do Pará, quando encerrava uma
visita ao Brasil. Embora partilhasse das ilusões
pseudoteosóficas criadas por Annie Besant, C.J.
sempre manteve respeito por Helena Blavatsky
e pelos ensinamentos diretos dos Mestres de
Sabedoria. Além disso, ensinou ética e altruísmo,
dois aspectos centrais da filosofia esotérica autêntica.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Passei três meses e meio no Brasil, um espaço de tempo muito longo consagrado a um só país, em minhas viagens teosóficas. Concentrei-me no Brasil, não visitando nenhum dos outros países como o Uruguai, a Argentina ou Chile, onde existem lojas teosóficas. Porque consagrei tanto tempo ao Brasil?

Por depender da pujança da Sociedade Teosófica no Brasil o crescimento da Sociedade em todos os outros países da América do Sul. Em razão da instantânea resposta que no Brasil encontram todas as expressões de Fraternidade; e em virtude de sua gentileza de caráter, que ama a beleza, as forças sutis do Mundo Oculto mais rapidamente se podem manifestar no Brasil do que nos outros países. Por muitas razões que não posso explanar aqui, o Brasil e, especialmente, o Rio de Janeiro, sua capital [1], são centros distribuidores de inspiração oculta para toda a América do Sul.

Os teosofistas do Brasil muito têm a fazer. Um dos seus muitos trabalhos é mostrar a toda a América do Sul o que é um Ocultismo puro. Já existe muito Ocultismo impuro; este é preconizado por todos os ensinamentos que inculcam o desenvolvimento de poderes ocultos e omitem qualquer referência ao dever, para o homem, de servir os seus semelhantes. Os teosofistas devem proclamar com voz bem clara que, de certo, existem no homem os poderes ocultos e podem ser desenvolvidos por vários modos, mas, que todos os poderes ocultos, assim como os dons intelectuais ou artísticos, não são para o engrandecimento do eu pessoal e sim para serem usados em benefício e para o soerguimento do Todo. Há milhares de pessoas que se estão voltando para as coisas ocultas, mas, não sabem discernir entre o ensinamento bom e o mau. Os teosofistas devem estabelecer o padrão do verdadeiro Ocultismo, cujos poderes apenas são usados para o serviço do homem.

Os teosofistas do Brasil têm ainda outro importante trabalho diante de si. Li ultimamente as seguintes palavras de Órris Soares no “Elogio de Augusto dos Anjos”:

“Na América do Sul há uma distância clamorosa entre o homem de letras e o público. No Brasil, o caso se extrema - insignificante minoria profundamente culta e um vasto oceano de (…).”

“Além de tudo, entre nós, o homem de pensamentos tem que ser triste porque se educa com livros estrangeiros, ideias estrangeiras, coisas estrangeiras, e vive num meio ainda longe de assimilar os frutos das poderosas civilizações.” [2] 

A serem verdadeiras estas duas asserções, é ao teosofista que cabe mudar esse estado de coisas.

1. - Quanto à distância entre a minoria culta e as massas: ensinai às massas as verdades simples da Teosofia, guiando-as à compreensão do Plano Divino, e elas se tornarão cultas. A maior universidade do mundo, com todas faculdades possíveis das mais altas expressões de cultura - é a Teosofia. Não é o conhecimento de línguas, nem a mera técnica em alguma ciência ou arte, que constitui a cultura. Esta é o conhecimento, pela alma, do Plano de Deus [3] e de suas manifestações no homem e na Natureza.

2. - A Índia e a Grécia deram-nos grandes mensagens, mas, não é preciso ir a estes países para compreender a grandeza da vida. A grandeza está aqui - no Brasil. Porém, o brasileiro somente a descobrirá, quando os olhos lhe forem abertos pela Teosofia. Então não precisará ir à Índia ou à Grécia para descobrir a verdade; descobrirá a Verdade aqui, e apenas irá à Índia ou à Grécia para encontrar EXEMPLOS de como a Verdade foi realizada na vida. Um homem de pensamento não precisa ser “triste”, no Brasil, porque, uma vez que descubra a Teosofia, não mais estará vivendo uma filosofia importada do estrangeiro, e sim uma filosofia nascida em solo brasileiro.

Os teosofistas do Brasil devem ORGANIZAR o Brasil. Devem provar, por meio de seu autossacrifício, de sua visão e de seu idealismo, que são os melhores brasileiros existentes no país.

De nós também deve ser dito que

“Nosso céu tem mais estrelas,
Nossa vida mais amores”

porque o nosso céu não é somente o céu visível, mas também o invisível e a nossa vida tem mais amor em si, porque vemos Deus em todos os nossos semelhantes, em toda flor e em todo pássaro, em todo rio e em toda nuvem, e O amamos e O adoramos.[4]

Essa é a vasta tarefa do teosofista do Brasil.

Belém do Pará, 10 de agosto de 1934,

C. Jinarajadasa

NOTAS DE 2018:

[1] O Rio de Janeiro foi capital do Brasil desde 1822 até o ano de 1961, quando a capital foi transferida para Brasília. (CCA)

[2] Veja o ensaio “Elogio de Augusto dos Anjos”, de Órris Soares, no volume “Augusto dos Anjos - Obra Completa”, Ed. Nova Aguilar, 883 pp., Rio de Janeiro, 2004, p. 72. (CCA)

[3] A teosofia original esclarece: os Deuses “monoteístas” são ilusões muito humanas, que obedecem aos interesses materiais das diversas igrejas e seitas. Veja os artigos “Mestres Ensinam Que Não Há Deus” e “Carta de Prayag - a Dimensão Sutil da Crença em Deus”. Em teosofia, a palavra “Deus” só pode ser usada sem erro no sentido impessoal de Lei do Universo, de Eu Superior, ou com o significado de “coletividade de inteligências divinas”. (CCA)

[4] “Deus”, aqui, significa a lei universal. A personalização de um “deus único” é uma forma infeliz de autoilusão, frequente na pseudoteosofia. Sobre a crença ilusória em deuses monoteístas criados por seitas, veja a nota anterior. (CCA)

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O artigo acima foi publicado em nossos websites associados dia 27 de outubro de 2018. A foto que ilustra o artigo é reproduzida de “O Teosofista”, edição de maio-agosto de 1934, página de abertura.

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Em 14 de setembro de 2016, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável. 

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27 de junho de 2018

Uma Nova Era de Paz Para Todos

Palestra Feita na Amazônia em 1938
Mostra o Caráter Decisivo da Boa Vontade

C. Jinarajadasa

C. Jinarajadasa, falando em Belém do Pará em Março de 1938



Nota Editorial de Junho de 2018

Ninguém está livre de derrotas, mas a honestidade e a nobreza das intenções são dois elementos fundamentais para que o aprendizado da vida seja valioso.

O teosofista C. Jinarajadasa errou bastante por haver confiado na falsa clarividência de Annie Besant e outros desinformados. Porém foi sincero e íntegro e se manteve leal ao ideal elevado do progresso humano. C.J. contribuiu decisivamente para a preservação dos ensinamentos autênticos de teosofia, e defendeu Helena Blavatsky com firmeza e lealdade. [1]

O texto abaixo transcreve uma palestra feita durante uma das visitas de Jinarajadasa ao Brasil. Este é o título original da publicação na revista “O Teosofista” de maio-junho de 1938: “Alocução do Sr. Jinarajadasa aos membros da Federação Espírita Paraense, em sua recepção naquela Sociedade”. [2]

Acrescentamos notas explicativas visando esclarecer o significado de alguns termos desde o ponto de vista da filosofia esotérica.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Uma Nova Era de Paz Para Todos

C. Jinarajadasa

Desde que estive em Belém, há 4 anos, o meu trabalho de propaganda da Teosofia levou-me a muitos países do mundo. Visitei duas vezes os Estados Unidos e a Austrália, tendo também ido até a China e ao Japão; conheço as condições das coisas na França, Itália, Alemanha e Inglaterra, tendo também visitado esses países. O mundo inteiro está perturbado; os homens desconfiam uns dos outros e há mais ódio no mundo do que em qualquer outro período de sua história.

Que podemos nós fazer para auxiliar? Creio que podemos aprender alguma coisa, do que foi dito pelos anjos [3] quando do nascimento do menino Jesus. Eles proclamaram “Paz no mundo aos entes de boa vontade”! Notai que os anjos não prometeram paz a todos os homens, mas somente aos de boa vontade. Porque, a paz que todos nós desejamos - paz em nossos corações e em nossas mentes, paz entre os vizinhos e paz entre as nações - não é um milagre que seja a tarefa que Deus[4] tenha de realizar, mas uma morosa reconstrução do pensamento, do sentimento e da ação, que é, o dever de toda a humanidade.

Aumentar a boa vontade no mundo - é essa a maior necessidade do mesmo mundo. Que se atravessa no caminho? O medo e a ignorância. Os homens temem muitas coisas, especialmente a morte. Os homens têm o conhecimento de muitos fatos e leis da natureza, mas eles ignoram que Deus [a Lei] trabalha nas coisas do mundo, com o Seu plano para melhorar o mundo. Os espíritas de todo o mundo muito têm feito para fazer desaparecer o pavor da morte. Os teosofistas também têm trabalhado nessa seara, mas muito especialmente para mostrar que existe um Plano de Deus para a evolução humana, o qual pode ser compreendido por todos os homens.

Todo o homem ou mulher, que descobriu qualquer verdade, tem o dever de compartilhar essa verdade com outros. Mas nós não podemos convencer e auxiliar os outros a se tornarem melhores, querendo mostrar simplesmente pelas nossas palavras que achamos a verdade; o único meio de prová-lo é pelo exemplo de nossa própria vida. É pelos nossos atos que provamos que caminhamos na verdadeira estrada.

Deveis estar lembrados que Cristo [5] ensinou: “Há dois deveres: o primeiro amar a Deus, e o segundo o nosso semelhante.” No momento atual, o nosso semelhante necessita do nosso auxílio; devemos desenvolver nele a boa vontade. Mas como? Não lhe falando somente, mas servindo-o. Todo o lugar aonde se encontram espíritas e teósofos deve ser um centro de boa vontade em ação. Muito pode ser feito, neste sentido, para com as crianças; reúnam-nas aqui, façam-nas cantar e brincar; façam-nas felizes, e assim haverá mais boa vontade no mundo. Eu não mencionarei outros meios de desenvolver boa vontade. A vossa intuição vos sugerirá esses meios.

Devemos mostrar aos nossos amigos e inimigos que não nos reunimos aqui para pensar em nossa felicidade e salvação, mas sim para saber melhor como servir a Deus e aos homens.

Temos que provar, pelo que fazemos neste salão, que acreditamos numa era de paz para todos os homens; e nos comprometamos que, em cada reunião, trabalharemos para aumentar a boa vontade nos corações de todos.

Nós, espíritas e teósofos, compreendemos melhor que os outros, alguns dos mistérios de Deus. Isso nos obriga a esquecer-nos das nossas necessidades, e a lembrar-nos do Plano de Deus para todos, e trabalharmos dia e noite para esse Plano.

Paz na terra aos entes de boa vontade - esse é o nosso trabalho. Apesar de sermos poucos, assim mesmo podemos fazer muito.

Não disse o Cristo: “Onde duas ou mais pessoas se reunirem em meu Nome, com elas estarei”?

Trabalhem, meus irmãos, com os conhecimentos que tendes, para desenvolver boa vontade entre os homens, e assim tereis paz e felicidade no vosso coração e na vossa mente.

Também descobrireis essa suprema alegria, que o Cristo, vosso Irmão Maior, está sempre convosco, animando-vos, inspirando-vos, e guiando-vos. A paz, que os anjos anunciaram, também pode ser vossa, se trabalhardes pelo sucesso do Plano do Cristo, do plano da boa vontade que Ele veio proclamar, mas que ainda não foi realizado.

Mas pode ser realizado, se cada um de vós for um mensageiro da boa vontade e um centro de paz e amizade onde estiverdes: no lar, na rua, no vosso escritório ou estabelecimento, e neste salão.

C. Jinarajadasa.

Belém, Pará, 29 de Março de 1938.

NOTAS:

[1] Veja em nossos websites o artigo de C. Jinarajadasa intitulado “A Natureza Heroica de H. P. Blavatsky”. (CCA)

[2] Ver pp. 83-84. Trazemos em nota de rodapé as primeiras palavras da transcrição, de caráter mais específico daquele momento: “Senhores e dignos Membros da União Espírita Paraense: Eu vos agradeço cordialmente as saudações com que me distinguistes, e o convite que me foi feito, para visitar-vos e dizer-vos algumas palavras, neste dia festivo, da comemoração que estais fazendo.” (CCA)

[3] “Anjos”. O termo é evitado em teosofia clássica, porque é demasiado vago e pode ter muitos significados contraditórios. Se fosse necessário usar esta palavra, caberia definir “anjos” como “inteligências celestiais de caráter impessoal”. (CCA)

[4] “Deus”. Não existe, nem no cosmo nem fora dele, qualquer coisa parecida com os deuses monoteístas fabricados pelas diversas seitas de religiões. Se quisermos aceitar o uso desta palavra, será preciso deixar claro que o termo significa a lei universal, o conjunto coletivo das inteligências celestes, e o eu superior de cada ser humano, sua alma imortal, cuja substância pertence ao cosmo. (CCA)

[5] “Cristo”: princípio cósmico universal, sexto princípio da consciência humana, símbolo, às vezes personificado, da alma espiritual de cada membro da humanidade. Deste Cristo universal, o Jesus do Novo Testamento é uma manifestação aos humanos. (CCA)

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O artigo acima foi publicado dia 27 de junho de 2018.

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Em 14 de setembro de 2016, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável. 

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14 de junho de 2017

A Natureza Heroica de H. P. Blavatsky

O Importante Não Somos
Nós, e Sim o Nosso Trabalho

C. Jinarajadasa




Nota Editorial de 2017:

C. Jinarajadasa (1875-1953), o terceiro presidente internacional da Sociedade Teosófica de Adyar, seguiu moderadamente a pseudoteosofia fabricada por Annie Besant e seus colaboradores.  

No início da década de 1920, Jinarajadasa já era um líder influente em Adyar. Com uma visão eclética da filosofia, ele desempenhou papel fundamental no processo de restabelecimento de algum verdadeiro contato entre Adyar e os ensinamentos originais da Teosofia.

Jinarajadasa certamente não estudou a verdadeira filosofia esotérica. No texto que se segue, referindo-se a Helena Blavatsky, ele é franco o suficiente para admitir:

“É muito mais a sua personalidade que me tem fascinado e menos os seus maravilhosos ensinamentos...”.

No entanto Jinarajadasa preservou, editou e publicou grande número de cartas dos Mestres de Sabedoria e documentos de Helena Blavatsky. Ele começou, na Sociedade de Adyar, a tendência historicamente importante de prestar pelo menos alguma atenção aos ensinamentos verdadeiros.

Embora tenha sido obediente aos falsos clarividentes e acreditasse nas fraudes deles, nunca desempenhou um papel importante nos absurdos fabricados pela maioria dos líderes de Adyar durante o período entre 1911 e 1934. 

Depois dessa fase, C.J. teve atuação decisiva no caminho de volta para um (modesto) grau de bom senso. Ele sentia real respeito e admiração por H. P. Blavatsky, e tornou mais fácil o trabalho das gerações posteriores de estudantes e pesquisadores da teosofia autêntica.

O presente artigo é traduzido da revista “The Theosophist”, Adyar, agosto de 1965, pp. 293-294.

(Carlos Cardoso Aveline)

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A Natureza Heroica de H. P. Blavatsky

C. Jinarajadasa

Eu tinha apenas catorze anos quando conheci H. P. Blavatsky. Desde então fiquei fascinado por ela. É muito mais a sua personalidade que me tem fascinado e menos os seus maravilhosos ensinamentos, pois sua personalidade demonstra as grandes qualidades de um herói.

Para compreender sua natureza heroica, devemos lembrar alguns fatos que talvez não possam ser todos encontrados em livros publicados. A tradição oculta declara que, depois do treinamento no Tibete sob orientação de seu Mestre, Helena Blavatsky foi enviada para algo que então parecia ser um esforço desesperado. Em 1870, quando Blavatsky começou sua missão, o materialismo era o Evangelho da Vida. A ela foi dada a tarefa de estancar a maré do Materialismo usando o conhecimento oculto que possuía. Não lhe foi dito de que modo o trabalho devia ser feito, exceto em 1874, quando foi informada de que um certo H. S. Olcott iria ajudá-la.

Porém, ao começar o seu trabalho ela sabia dos sofrimentos terríveis que lhe estavam reservados. Estava consciente de que seria difamada, considerada  como autora de uma fraude, de um embuste, e que o seu nome seria arrastado na lama de todas as maneiras possíveis. Sabia que teria de fazer muitas coisas usando forças ocultas e, como não estava autorizada a revelar toda a verdade sobre essas forças, suas ações frequentemente pareceriam suspeitas e fraudulentas. Ela havia feito um voto e, diante desse destino de incompreensão, HPB avançou diretamente para a sua meta de sacrifício.

É esta intensa devoção à Causa da Humanidade e a lealdade inabalável às instruções de seu Mestre que se destacam em seu caráter. Sua saúde estava mal, ela sofria terrivelmente, mas nem por um momento suas angústias a fizeram esquecer do voto de fazer o esforço desesperado.

Ela não esqueceu do seu trabalho nem mesmo em 1885, quando um ataque feito contra ela pelos missionários cristãos provocou sua  agonia e quase a morte. Nessa ocasião o seu Mestre apareceu para HPB e ofereceu-lhe a escolha entre morrer, e assim ser libertada do seu sofrimento, ou viver, com saúde debilitada, para que uma parte significativa do trabalho pela humanidade, a redação de “A Doutrina Secreta”, pudesse ser concluída. Ela optou por sofrer outra vez. O Mestre mostrou-lhe imagens da dor que ainda teria pela frente, mas HPB escolheu esse sofrimento em vez de deixar inacabada uma parte do seu trabalho pela humanidade.

Esta inabalável lealdade de HPB para com uma grande Causa sempre me fascina. Nós que somos menores em desenvolvimento muitas vezes podemos esquecer - quando cercados por dificuldades e particularmente por humilhações - que o importante não somos nós, e sim o nosso trabalho.

O verdadeiro objetivo deve ser dedicar-nos ao trabalho a todo custo. Quando este trabalho é alargado para servir a humanidade inteira, então nosso caráter torna-se de fato heroico.

À medida que mais indivíduos compreenderem os detalhes da sua vida e do seu trabalho, penso que H. P. Blavatsky será crescentemente reconhecida como um dos grandes heróis da humanidade.

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O artigo acima está publicado disponível nos websites da Loja Independente de Teosofistas desde junho de 2017. O seu original em inglês pode ser lido online: “The Heroic Nature of H. P. Blavatsky”. Também está publicado em “The Aquarian Theosophist”, na edição de julho de 2012, pp. 14-15. A tradução do inglês para o português é de Joana Maria Ferreira de Pinho.

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Leia mais:




* Corpo e Alma, Cavalo e Cavaleiro (texto de Theodoro D’Almeida).


* Regra da Vida Honesta (tratado estoico clássico de Martinho Bracarense).

* João de Deus, Louco, Santo, e Sábio (Como a Ruptura da Rotina Psicológica Pode Abrir as Portas Para a Vida Mística).

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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 

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