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10 de julho de 2019

A Construção Invisível

Três Aspectos de uma Obra Sagrada  


António Ramos Rosa




1. O Horizonte  do Operário

A finalidade da construção não é a obra acabada para ser habitada finalmente na tranquilidade de um repouso merecido. O gesto construtivo é um fim em si mesmo, porque é um modo de abrir e habitar o espaço da construção. A obra nunca será uma propriedade mas sim a atividade incessante de um operário que se constrói a si mesmo em cada gesto construtivo.

A matéria obscura e a matéria diurna reúnem-se num gesto inovador que se repercute no construtor amante. A realidade aparece agora à luz desse gesto amoroso e ingênuo que é como um feixe de centelhas que se curva, se eleva e se abate sobre a pedra e a modela tornando-a um astro do instante criativo. Graças a esta ação construtiva, a opacidade da existência é integrada no movimento instaurador da construção e, sem ser suprimida, torna-se uma componente estética da obra em construção. Esta transformação da relação com o real não encerra o ciclo das interrogações, das dúvidas e angústias do construtor. Estas são revividas à luz da gênese construtiva e consagradas como momentos do mistério vivo do real. Todavia, isto não quer dizer que toda a negatividade da existência humana seja reabsorvida e integrada pelo processo construtivo. O núcleo deste é sempre um ponto negro e as suas margens confinam com o silêncio do impronunciável.

O gesto construtivo não suprime ou elide [omite] o negativo, mas o seu ímpeto inadiável e a sua verticalidade erigem-se sobre o fundo negro da existência e criam o horizonte das possibilidades iniciais da construção humana.

2. A Integridade da Ação 

Todo o gesto construtivo tem como objetivo essencial a integridade do ser. A liberdade inteira da construção radica-se na una totalidade de um corpo que se perspectiva e configura a sua energia e a desenvolve em consonância com a sua integridade, que é, ao mesmo tempo, a origem e o alvo incessante da sua realização.

Ser íntegro é sentir o peso inteiro da terra sobre as pálpebras e ter os olhos abertos sobre a amplitude azul do mar. A construção é, assim, o movimento da unificação do corpo e do espaço, da luz e da sombra, da presença e da ausência.

Um círculo se forma em torno do ser e os seus sucessivos anéis possuem a leveza e o fulgor de uma idade que é, simultaneamente, maturidade, adolescência, infância. Este instante é o instante da integridade pura em que o ser é envolvido pela sua construção aberta e transparente. A diferença radical inerente ao ser como fundamento primeiro integra-se na unidade construída da obra e nela reaparece como a pulsação do informulável que nunca pode ser aprendido ou delimitado.

A integridade, com todas as suas raízes imperceptíveis e a sua imperceptível atmosfera, orienta o itinerário da construção que a consagra e a eleva ao plano da totalidade visível e ao seu esplendor inicial. A construção torna-se, então, a esfera do Uno e a habitação viva em que o construtor e a natureza se unem na unidade viva da origem.

3. A Serena Infinidade do Trabalho

Todo o trabalho de construção é feito a partir de uma diferença essencial e o seu objetivo é desenvolvê-la em todos os planos até alcançar a semelhança com o incomparável inerente ao movimento da construção e por isso mesmo oculto e inacessível.

A construção é assim o percurso de uma diferença até ao reconhecimento da identidade dessa diferença. Este movimento não é horizontal mas circular, uma vez que cada gesto do construtor reúne em si a matéria árida e informe e o impulso formador que se origina no dinamismo genético do incomparável.

Cada instante construtivo propõe a semelhança de uma identidade inicial filha da diferença e, sem o revelar, consuma a violência fulgurante do incomparável. A infinidade da construção concentra-se em cada momento construtivo, porque a energia do ser está toda dirigida para o único ponto de aplicação em que o desejo se atualiza e se inaugura na liberdade da sua inocência descoberta.

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Os trechos acima são reproduzidos da obra “O Aprendiz Secreto”, de António Ramos Rosa, Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, Portugal, 2001, 80 páginas. O primeiro é da p. 71. O segundo, da p. 55. Ambos fazem parte da edição de novembro de 2016 de “O Teosofista”, onde estão sob o título de “Dois Fragmentos Sobre a Construção”. O terceiro fragmento está à página 34 da mesma obra e foi publicado em “O Teosofista” de abril de 2017, pp. 9-10, sob o título “A Infinidade da Construção”.


                             Ramos Rosa


O artigo “A Construção Invisível” foi publicado nos websites associados dia 10 de julho de 2019. Do mesmo autor, leia também “O Mistério da Construção”. O poeta português António Ramos Rosa viveu de 1924 a 2013.

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14 de agosto de 2017

O Mistério da Construção

Poesia em Prosa: Examinando a
Tarefa Sagrada do Pedreiro Livre

António Ramos Rosa




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Nota Editorial de 2017:

O poeta português Ramos Rosa nasceu em 17
de outubro de 1924 e viveu até setembro de 2013.

Selecionamos a seguir quatro trechos da
obra “O Aprendiz Secreto”, de António Ramos
Rosa, Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão,
Portugal, 2001, 80 pp. A página de cada fragmento
é indicada ao final do trecho, entre parênteses.

 (CCA)

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1. A Construção Circular

A construção será redonda porque redondo é o ser. Ela será uma frutificação da substância e, na sua multiplicidade, a unidade viva do desejo.

Todas as linhas da morada refletirão os enigmas, os turbilhões, os labirintos e os dilemas do construtor mas o núcleo da construção será uma pequena falha luminosa que a fará elevar-se para o cimo e para além de todas as determinações particulares do construtor.

E, assim, ao ritmo da construção, o sentido se forma num recomeço constante, não como um eco do passado mas como o frêmito novo de cada gesto construtivo que desperta, na materialidade da construção, a nascente viva e unificadora do ser. (p. 20)

2. O Espaço Solar da Realidade

A tranquila exaltação com que o construtor coloca cada pedra é uma consequência da maravilhosa insignificância do seu ato.

Se a morada é uma finalidade, o movimento que determina a construção é em si mesmo uma tentativa incerta que não tem atrás de si um fundamento ou a energia de um princípio. A espontaneidade ingênua de cada gesto liberta e regenera o construtor e cria nele a sua base móvel e o movimento arquitetônico que unifica e reúne em si os elementos esparsos das impulsões caóticas do ser. Num impulso vertical o construtor abre o espaço solar da realidade entre os flancos terrestres e carnais da construção e a vibração silenciosa do invisível espaço. (p. 22)

3. A Lucidez dos Gestos Construtivos

O movimento vertical da construção vem de muito longe, de um fundo sem fundo que a visão não capta mas que é a condição primeira da visibilidade. A noite desse fundo é a força que unifica e propaga preenchendo o vazio da pupila e abrindo-a ao mundo. Essa força é a força da imaginação e a possibilidade de ser o que ainda não se é. O construtor sente a angustiante iminência do por fazer e o vazio de uma suspensão em que o nada é a ruína absoluta de toda a esperança. Mas do fundo desse abismo negativo um movimento ascensional erige o incomparável à torre da sua construção. É então que ele encontra a forma do ser como se o longínquo se tornasse acessível na distância. E assim o ser a si mesmo se junta e todos os gestos construtivos serão como que os frêmitos do ser unido ao alento lúcido e claro do construtor. (p. 24)

4. A Abertura do Espaço Cósmico

A continuidade do tempo é a sucessão de presenças e ausências, de elevações e quedas, de desaparecimentos no seio do aparecer, de enxames de sombras nos círculos luminosos. O conhecimento desta dualidade leva o construtor a ter em conta o vazio e a sombra como condições da densidade e leveza da sua construção. Assim, na materialidade maciça do ser é preciso abrir concavidades e vazios para que o fluir do tempo se atualize na matéria com a musicalidade do ser. A graça e o encanto das formas resulta desse jogo de luzes e sombras, de plenos e vazios, de formas côncavas e convexas, de planos e curvas, de tonalidades suaves e de cores intensas. A morada será como uma concha adormecida com largas e baixas janelas abertas para o mar e os campos monótonos de sobreiros e olivais, e de um terraço liso e vermelho avistar-se-á também o mar e o horizonte e, à noite, o silencioso e cintilante instrumento musical [1] das estrelas como um vasto leque imóvel e rutilante, soberanamente aberto. Esta abertura do espaço cósmico fomentará a unidade que o construtor procura através da dualidade do tempo. A casa terá por isso a flexibilidade vegetal de uma planta e a transparência de um animal aéreo suspenso num voo largo e repousado, interminavelmente aberto à tranquilidade de um puro espaço.  (p. 43)

NOTA:

[1] No original: harmônio. (CCA)

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Em setembro de 2016, depois de uma análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável.

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