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10 de março de 2026

O Anel de Sinete de H.P. Blavatsky


A História do Anel, Ampliada
Com Notas, Mostra Por Que os
Teosofistas Precisam Ser Honestos 
 
Radha Burnier
(Presidente internacional da ST de Adyar de 1980 a 2013)
 
Radha Burnier (1923-2013) e a imagem gravada no anel de sinete HPB



Durante as minhas viagens e com frequência durante as Convenções Internacionais [da Sociedade Teosófica de Adyar] uma ou outra pessoa pergunta sobre “o anel de HPB”, e se ele pode ser visto. A história do anel de sinete [1] de HPB foi contada pelo ex-presidente [da ST de Adyar] C. Jinarajadasa, que a ouviu da sra. Francesca Arundale. Foi publicada na edição especial de The Theosophist de agosto de 1931, o número do Centenário de HPB.

Quando HPB estava vivendo na casa da srta. Arundale e de sua mãe, em 1884, ela quis ter um anel de sinete feito de acordo com um desenho definido por ela mesma, e a srta. Arundale encomendou a feitura do anel. Era de uma pedra ágata verde escura, quase preta [2], tendo gravado o duplo triângulo do símbolo do [movimento] teosófico e a palavra sat escrita no alfabeto Devanagari. Sat significa “Verdade” em sânscrito. Ao mesmo tempo, com autorização de HPB, a srta. Arundale mandou fazer um anel semelhante para si mesma. Mas havia uma diferença: o carimbo de HPB estava num pesado anel de ouro, colocado sobre uma estrutura oval com uma dobradiça e uma tampa cobrindo um medalhão, logo abaixo.

A cópia deste anel, feita para a srta. Arundale, era mais leve e não tinha a tampa giratória nem o medalhão. Jinarajadasa diz que HPB usou o seu anel desde 1884 até o dia da sua morte, despois do qual ele passou, de acordo com a sua vontade, para Annie Besant. A dra. Besant sempre usava o anel, no dedo indicador da mão direita.

A sra. Arundale, também, usava sempre o seu anel, e quando ela morreu, segundo nos contaram, ela o passou para o seu sobrinho G.S. Arundale [3], que o entregou como presente para os Arquivos da Escola Esotérica. Foi este o anel que o Irmão Jinarajadasa colocou no dedo de N. Sri Ram na sessão inaugural depois que este foi eleito Presidente. Muitos membros conhecem a fotografia que registrou a ocasião. O anel passou depois para John Coats quando ele se tornou presidente [da Sociedade Teosófica de Adyar] e está agora comigo. Seria mais correto, portanto, referir-se a ele como anel presidencial, ao invés de “anel de HPB”.  

Quando Annie Besant morreu, George Arundale, que era o seu legatário e se tornou presidente da ST, adquiriu o anel de HPB. Com a morte dele, [sua esposa] Rukmini Devi ficou de posse de todos os seus bens e documentos, e não se sabe o que aconteceu com o anel de HPB, nem quem ficou com ele após a morte de Rukmini Devi.

Estranhamente, os dois anéis especialmente associados a HPB desapareceram do acervo histórico da Sociedade Teosófica [de Adyar].

A origem do outro anel, “o Anel da Rosa”, é descrita pelo coronel Olcott em seu diário Old Diary Leaves [TPH, Primeira Série, pp. 93-97, e, em português, “Raízes do Oculto”, Ed. Ibrasa, SP, 1983, pp. 72-77], e vamos resumir aqui o seu relato. Depois de uma visita à sra. Mary Baker Thayer, de Boston, conhecida como “a médium das flores” porque em sua presença choviam flores, o coronel Olcott passou a HPB uma bonita rosa, semiaberta, mandada pela sra. Thayer “como um presente dos espíritos”. Quando HPB segurou a rosa em sua mão e aspirou o seu perfume, ela tinha aquele olhar distante associado com fenômenos ocultos. Neste momento, o dono da casa, sr. Charles Houghton, um advogado, entrou e pediu para olhar a rosa. Quando HPB passou a ele a rosa, ele subitamente disse, “Como ela é pesada! Nunca vi uma flor como esta. Veja, o seu peso faz com que ela se incline na direção do caule!” Quando ele deu a flor a Olcott para que a visse, HPB exclamou: 

“Tenha cuidado, não o quebre!”

Um ponto de luz apareceu no centro da rosa e saltou dela um pesado, completo, anel de ouro. A rosa imediatamente endireitou-se. Uma noite, um ano e meio mais tarde, a srta. W.H. Mitchell, irmã de Olcott, veio fazer uma visita e quis ver o anel. Depois de olhar para ele, ela esticou o braço com ele na palma da mão, para devolvê-lo a HPB. Em vez de pegar o anel,
H.P. Blavatsky fechou brevemente os dedos da srta. Mitchell em torno do anel. Ao abrir a mão, a srta. Mitchell e todos os presentes viram que três pequenos diamantes, formando um triângulo, estavam agora no que antes era um anel de ouro simples. Este anel perdeu-se em torno de 1979. [4]

No dia 12 de outubro de 1979 foi informado em uma reunião do Comitê Executivo presidida pelo sr. John Coats, presidente da Sociedade Teosófica [de Adyar]: 

“Dois itens foram roubados do armário na Sala da dra. Annie Besant, usado para guardar alguns objetos históricos associados com a Sra. Blavatsky. Dois ou três anos antes, a Medalha Subba Row, dada à sra. Blavatsky, havia desaparecido. Cerca de duas semanas antes da reunião do Comitê Executivo, foi descoberto que o Anel da Rosa havia desaparecido também. Como o armário não era aberto havia mais de um ano, não se sabia exatamente quando o anel foi tirado. A questão havia sido levada à polícia, e uma investigação estava sendo feita.
Desde então, todos os outros itens daquele armário foram colocados em um armário Godrej (de aço) fixo na parede, no Departamento de Arquivos.”

Na ata de uma reunião posterior do Comitê executivo, realizada em 20 de novembro de 1979 e dirigida também pelo presidente John Coats, foi relatado:

“… A polícia está examinando os arquivos de casas de leilão, em busca de informação sobre o Anel da Rosa. O Gerente Geral deve confirmar que uma fotografia do anel foi publicada no boletim da polícia. Um fac-símile da Medalha Subba Row, que havia sido oferecida a HPB, será feito na sede da ST na América do Norte, em Wheaton, onde são guardadas várias medalhas em branco, e o fac-símile será trazido para Adyar.”

Aparentemente o destino não quis que a Sociedade mantivesse nenhum destes objetos especiais [5], nem o anel de HPB com uma tampa cobrindo um medalhão.

NOTAS DE “O TEOSOFISTA” EM 2024:
                                               
[1] Usado há milhares de anos por reis e líderes espirituais, o anel de sinete é um símbolo da posição de poder daquele que o possui, e, além de ser usado em um dedo, funciona como pequeno carimbo para lacrar envelopes com mensagens escritas, usando uma cera vermelha especial (o lacre). (CCA)

[2] Estas são algumas fatias de pedras ágata verde, semelhantes às que pertencem às bibliotecas da Loja Independente de Teosofistas:



As pedras ágata têm várias propriedades ocultas, e afirma-se que protegem as pessoas honestas que as possuem. Em Ísis Sem Véu (Ed. Pensamento, volume IV, pp. 216-217), HPB revela que ela tinha consigo um talismã que “era uma simples ágata ou cornalina”. Um dos nomes históricos da cornalina é precisamente “ágata carneola”, e outro nome histórico é apenas carneola. O talismã tinha um triângulo gravado nele, dentro do qual estavam gravadas algumas palavras místicas. Ver o talismã foi o suficiente para alguns místicos notáveis decidirem imediatamente que ajudariam HPB em qualquer coisa que ela precisasse. Cabe registrar, no entanto, que o talismã de “ágata ou cornalina” não era o anel de ágata verde, cujo histórico é abordado por Radha Burnier no presente texto. (CCA)

[3] George S. Arundale foi eleito e assumiu a presidência internacional da Sociedade de Adyar em 1934. (CCA)

[4] Esta é a foto do “anel da flor”:



Foi publicada por H.S. Olcott na p. 96 de “Old Diary Leaves” (TPH), primeira série. (CCA)

[5] A frase final do artigo é reveladora. Estes roubos de objetos sagrados na sede internacional da Sociedade de Adyar tiraram mais ainda, daquele local, o sentimento do sagrado e a confiança mútua que são necessários para um trabalho teosófico verdadeiro. Neste, como em outros assuntos, Radha Burnier foi franca e honesta. A palavra SAT, VERDADE, gravada no anel de HPB, está lá por uma forte razão. Se trata de um compromisso inevitável. E não se refere apenas à verdade absoluta universal. Afirma a necessidade de absoluta sinceridade e boa vontade em todas as coisas, na vida teosófica. O distanciamento entre a Ética e Adyar começou durante a vida de HPB. A sra. Blavatsky foi forçada a abandonar Adyar durante a década de 1880 e teve de recomeçar o seu trabalho a partir da Inglaterra. Desde 1891, a distância entre a verdadeira teosofia e a Sociedade de Adyar tem sido sempre bastante grande, com algumas exceções aqui e ali. No seu artigo “Por Que Não Volto à Índia”, Blavatsky admitiu: “... E tampouco posso - se eu quiser ser fiel ao meu compromisso e aos meus votos de vida inteira - viver na Sede Geral da qual os Mestres e o espírito Deles foram virtualmente banidos. A presença dos Seus retratos não ajudará. Eles são letra morta.” HPB sabia que a Lei do Carma não pode ser cancelada jamais. Cada erro é completamente corrigido, e compensado, no seu devido tempo. (CCA)

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Nota Editorial Final:

* Nascida em 1923, Radha Burnier presidiu a Sociedade Teosófica de Adyar durante 33 anos, desde 1980 até 2013. 

* Mais informação sobre os anéis de HPB pode ser encontrada no livro “The Judge Case”, de Ernest E. Pelletier, Edmonton Theosophical Society, Canadá, 2004, Parte I, p. 323 (a influência oculta do anel de ágata ajuda William Judge), e Parte II, pp. 115 até 119.

* Henry Cornelius Agrippa discute o assunto dos anéis mágicos na obra “Three Books of Occult Philosophy”, Kessinger Publishing Co., EUA, 288 pp., capítulo XLVII, pp. 141-143.

(CCA)

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O artigo acima está disponível nos websites da Loja Independente de Teosofistas desde o
dia 10 de março de 2026. Ele foi traduzido por CCA da revista “The Theosophist”, Adyar, Índia, edição de junho de 2001, pp. 368-369. Faz parte da seção editorial intitulada “On the Watch-Tower”. Notas explicativas foram acrescentadas. Foi publicado também, com notas, na edição de fevereiro de 2024 de “The Aquarian Theosophist”, e na edição do mesmo mês de “O Teosofista”, pp. 1-5.

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Leia mais: 





* Bispo Católico Visita Plantações em Marte (Viagens Espaciais de um Sacerdote Desorientado).


* Do Ritualismo Para a Raja Ioga (texto de um Mahatma dos Himalaias).

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Vídeos curtos e claros sobre Teosofia no YouTube:





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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 

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22 de outubro de 2023

Uma Raça de Doidos?

 
Quando a Loucura se Torna uma Norma,
a Lucidez é Vista Como Algo ‘Excêntrico’
 
 Radha Burnier




O que alguém considera insanidade ou loucura depende do que a pessoa define como realidade. Na estrutura de uma realidade determinada, certos tipos de pensamento e ação são vistos como sensatos. Mas para pessoas que têm uma outra experiência da realidade, esses pensamentos e ações podem parecer loucura.

As visões do neurótico parecem irreais e anormais para todos os que não compartilham a sua experiência interna. E, claro, ao usar os rótulos de “louco”, de “neurótico” e assim por diante, o que a maioria das pessoas vivencia é considerado um fato comprovado.

Portanto, não apenas os neuróticos e os psicologicamente perturbados, mas todos os que são mais sensíveis e capazes de responder às vibrações mais sutis, são apelidados de loucos. Aqueles que podem testemunhar a realidade dos planos mais sutis de existência são tão poucos que as suas palavras ou não têm peso, ou são todos eles considerados dementes.

A palavra “loucura” é às vezes definida nos dicionários como irracionalidade, presumivelmente de um tipo extremo, já que existe um elemento de irracionalidade em quase todas as pessoas consideradas sensatas. Mas quando as conexões entre uma coisa e outra na mente são muito tênues, a irracionalidade produz efeitos tangíveis e é classificada como anormalidade, ou loucura.

Tal como indicado acima, o padrão aceito de comportamento constitui a “normalidade”, e o comportamento que não se conforma de modo visível com o padrão é suspeito. Deste modo, o gênio, o reformador ousado e o inconformista poderiam ser, e muitas vezes são, “loucos” aos olhos dos medíocres. A palavra ‘loucura’ é relativa.

Muito se tem falado recentemente sobre a doença da vaca louca, causada pela alimentação dos animais com vísceras e outras substâncias não naturais. O comportamento estranho das vacas é induzido pela alimentação artificial, e as pessoas que comem a carne dessas pobres criaturas também apresentam sintomas de um comportamento maluco. A “loucura” aqui é um subproduto das negociações inteligentes de seres humanos famintos por lucros.

Infelizmente, se um número suficiente de pessoas se comportar de uma forma brutalmente irracional, a sua irracionalidade já não será identificada como “loucura”, porque isso representa a “norma”. Os números transformam as atitudes “irracionais” e irrealistas em fatos “normais”. Como exemplo, podemos citar a mentalidade guerreira. Há décadas que acontecem negociações sobre a proibição de armas nucleares, desde que Einstein e Bertrand Russell fizeram a pergunta: “Devemos pôr fim à raça humana ou deve a humanidade renunciar à guerra?”

Durante todo esse tempo, milagrosamente, a destruição em massa não aconteceu na Terra. Em diversas ocasiões a tentação de iniciar uma guerra nuclear foi muito grande, mas isso não aconteceu. Assim, o mundo em geral opta por não dar atenção ao fato de que existe um problema sinistro. Todos estão num estado de indiferença hipnótica, ou satisfeitos na sua crença de que uma política de dissuasão evitará o desastre final. Dissuasão significa olho por olho, significa ter tanto poder quanto os outros, ou mais do que eles. Assim, a corrida armamentista continua, os testes nucleares envenenam o ar e a terra, e todas as nações estão competindo entre si para obter o melhor do acordo.

Sabendo que quanto mais armas a humanidade tiver mais próxima ela estará da autodestruição, caso as pessoas continuem a acreditar nas armas como fonte do seu bem-estar, que sanidade ou lucidez existe? A discussão sobre redução de armas nucleares é sempre irracional e contraditória, porque todas as nações querem manter uma posição de poder.

Aqueles que defendem absolutamente a paz e querem renunciar não só à energia nuclear, mas a qualquer forma de guerra, seja com meios nucleares, químicos, biológicos, laser, psicológicos ou outros - isto é, os pacifistas coerentes do mundo atual - são vistos como “excêntricos”. E podem ser colocados na prisão, durante uma emergência, porque são as únicas pessoas sãs. Aquela confiança absoluta na paz que surge da experiência de um tipo diferente de realidade - a realidade de uma união inquebrantável na origem, no destino e nos interesses dos seres humanos - é considerada algo impraticável, desprezível, ou punível por lei, de acordo com o que for mais conveniente.

Violência é uma Forma de Loucura

Mesmo aqueles que são contra a guerra nem sempre veem a insanidade das outras formas de violência, porque elas fazem parte da maneira de ser da sociedade contemporânea. A venda indiscriminada de armas, ao lado do conhecimento tecnológico que está ao alcance de grande número de cidadãos, coloca poder nas mãos de milhões de pessoas, sem que a população tenha bom senso para saber como usar estes instrumentos. Isso é agravado pelo culto à violência através da televisão e outros meios de comunicação social; através da promoção de esportes brutais como a caça e o boxe, e do encorajamento de formas impiedosas de competição. 

Numa descrição chocante de ‘uma nação que avança para o barbarismo através do entretenimento’, George F. Will cita os comentários dos espectadores que apreciam uma luta de boxe: ‘O dente dele saiu voando para fora do ringue’, ‘Ele vai quebrar o braço do outro, ele quebrou!’ - e assim por diante.

Ficamos sabendo que seis estados nos Estados Unidos permitem tais espetáculos, nos quais rostos são reduzidos a uma massa disforme, e o fluir do sangue faz a felicidade dos espectadores idiotas. A justificação para isso é que as lutas são travadas entre adultos que estão dispostos a elas. Na multidão que assiste há até mesmo crianças, trazidas, talvez, para que se assegure o futuro da prática da violência.

Há outros países do mundo em que os ‘adultos que estão dispostos a isso’ cortam as mãos ou as cabeças de delinquentes, oferecendo assim ‘entretenimento’ a uma multidão de homens, mulheres e crianças. Os terroristas, as audiências deste tipo de show, e milhões de adultos e crianças dedicados aos maus tratos sistemáticos dos animais fazem parte de uma cultura que vai reduzindo a vida da mente até que ela se torna completamente incapaz de ver a realidade.

Uma reportagem no Washington Post, sobre o abuso de crianças órfãs na China, serve para indicar o que está gradualmente se tornando um fato comum. A fotografia mostra uma criança amarrada a uma cadeira, com uma perna de cada lado, com uma bacia por baixo. Para quem está acostumado a ver brutalidade, isso é quase o mesmo que manter animais presos por uma grade de aço para fins de lucro comercial. Basta uma pequena capacidade de raciocinar para que se compreenda: alimentar a violência em qualquer área da vida provoca grandes repercussões no mundo em geral e em cada aspecto da sociedade humana. Será que são loucas, ou são lúcidas, as pessoas dedicadas a converter friamente porcos em seres tão gordos que não conseguem sequer ficar sobre seus próprios pés? Considera-se um fato que tais pessoas são normais porque o uso da tecnologia de transferência genética é algo comum nos dias atuais. A verdade é que uma mente cruel, inclinada para a violência, é mais perigosa que as armas nucleares, biológicas ou outras. Aqueles que não conseguem ver este fato podem fingir que são lúcidos, mas fazem parte de uma cultura que está inclinada a tornar o mundo louco.

Sombra e Luz

O agradável e o desagradável estão tão interligados que na verdade são como os dois lados opostos de uma moeda. É agradável ficar deitado na cama depois de um dia de trabalho, mas não por demasiado tempo; o excesso de prazer se transforma em dor. Cada forma de satisfação chega a um ponto em que provoca tédio e aborrecimento. A moderação parece ser necessária, devido à maneira como os opostos funcionam.

Estamos vivendo uma espécie de primavera em Adyar.[1] As árvores Banyan, os Mognos e as perfumadas árvores Neems (Amargoseiras), estão ganhando vida nova; o tenro verde das folhas é encantador. Esta é também a época em que muitas outras árvores florescem. A vasta Paineira da Índia, com grandes flores vermelhas fazendo contraste no alto com o céu azul, é um espetáculo maravilhoso; por toda a Índia, também, podemos vê-la florescendo nesta estação. Tapetes de flores amarelas foram estendidos no chão pelas muitas Peltophorums (Canafístulas). A árvore nativa Asoka, que tem sido glorificada em numerosas pinturas de artistas indianos, está coberta de flores amarelas (Saraca typengensia), ou de muitas flores vermelhas (Saraca indica). Temos tido a satisfação de conviver com as duas. Várias outras visões gloriosas saúdam o olhar humano, e atraem pássaros. Mas tudo isso acontece enquanto o Sol prossegue na direção Norte, abrindo caminho para a estação quente. O calor do verão é o outro lado das delícias trazidas por esta estação.

Alguns tendem a prestar mais atenção ao que é bom e agradável nas variadas situações da vida, e são felizes. Outros se concentram no que não é agradável, e ficam descontentes. Ao ver um copo de água que está pela metade, nós dizemos que está meio cheio, ou meio vazio? O mundo manifestado é um jogo de opostos. O jogo é maya (ilusão). No Eterno não há opostos, há apenas o supremo bem.

NOTA:

[1] Adyar: a sede internacional da Sociedade Teosófica que foi presidida por Annie Besant. A sede é também um vasto parque natural no centro da cidade de Chennai, na Índia. (CCA)

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A sra. Radha Burnier (1923-2013) exerceu o cargo de presidente internacional da Sociedade Teosófica de Adyar desde 1980 até 2013, durante 33 anos.

O artigo “Uma Raça de Doidos?” foi publicado pela primeira vez em inglês em “The Theosophist”, Adyar, Chennai, Índia, na edição de Abril de 1996, pp. 243-245. Título original: “A Lunatic Race?”. O texto faz parte da edição de outubro de 2019 de “The Aquarian Theosophist”, pp. 8-11, e está publicado em inglês como item independente nos websites da LIT desde 16 de novembro de 2020: “A Lunatic Race?”. A tradução ao português, de Carlos Cardoso Aveline, foi publicada em 22 de outubro de 2023.

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Leia mais:






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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 

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21 de novembro de 2020

Por Que Sou Vegetariana

 Propondo Um Modo Fraterno de Viver

Radha Burnier


Radha Burnier (1923-2013)
 
 
 
O mundo moderno está descobrindo, através de um processo lento e penoso, que todas as formas de vida desta Terra estão interligadas. Quando destruímos florestas ou mesmo insetos, fazemos mal a nós mesmos, porque provocamos sem saber uma mudança climática ou impedimos a polinização, causando assim circunstâncias adversas a nosso próprio bem-estar. Mas lentamente, depois de haver causado muito dano, o pensamento ecológico está voltando-se para a não-destruição e o vegetarianismo.
 
Os povos antigos, no entanto, conheciam a verdade da unidade da vida intuitivamente, e, portanto, de modo claro. Eles defendiam um modo de vida não-destrutivo, indicado pela palavra ahimsa. Eu sou vegetariana, em primeiro lugar, porque sei claramente, em meu coração, que toda vida é sagrada e parte de uma única Existência. Quando alguém sente isto, nada pode persuadi-lo a ferir ou destruir. A razão também nos diz que quando matamos e nos alimentamos de outras criaturas, são criados muitos problemas, não só ecológicos, mas problemas de saúde e outros. Mas estes são secundários.
 
As pessoas que se tornam vegetarianas por razões médicas poderiam retornar à dieta carnívora se as teorias médicas mudassem. Assim, novas ideias poderiam derrotar o atual ponto de vista ecológico. Mas nada pode mudar a percepção intuitiva da natureza preciosa da vida, sob qualquer forma que exista, por mais insignificante que a criatura possa parecer. Isto inspira na mente, de modo espontâneo, um sentido de cuidado, carinho e amor por todas as criaturas de Deus. Para mim, esta é a única razão para ser vegetariana.
 
Os métodos modernos de massacre de animais e produção de carne são tão abomináveis que mesmo uma pessoa sem motivos espirituais para tornar-se vegetariana deveria fazê-lo. Antigamente, quando as pessoas pensavam que precisavam comer carne, matavam o animal. Hoje, os animais são mortos em massa e depois se tenta criar um mercado. As pobres criaturas são mantidas em condições atrozes e antinaturais, miseravelmente confinadas, alimentadas e medicadas artificialmente, e maltratadas de muitas maneiras diferentes. É necessário um coração muito duro para ser um não-vegetariano - quando os fatos da produção de carne são conhecidos. Assim, a pergunta deveria ser na verdade “Como poderia eu não ser vegetariana?”. Se conhecesse as condições e mesmo assim me beneficiasse da dor dos animais criados para a produção de carne, eu seria muito pouco humana.
 
Milhões de pessoas na Índia têm sido vegetarianas por séculos e gerações e sempre com boa saúde - não só fisicamente, mas têm tido pleno poder mental e sabedoria espiritual. O território de ahimsa produziu naturalmente os videntes Upanishádicos, o Buddha, Mahavira, e uma série sem igual de místicos e homens santos, e por esta razão, mesmo agora, embora haja uma decadência perceptível, as pessoas olham para a Índia como a terra natal da espiritualidade. É interessante notar que muitas pessoas notáveis que experimentaram uma elevação mística - frequentemente chamada de expansão de consciência - tornaram-se naturalmente vegetarianas. Neste grupo estão pessoas como Shelley, Wagner e Charlotte Bronté, cujo background era contrário ao vegetarianismo, mas que o escolheram mesmo assim. Porque há uma relação direta entre o fato de não matar e a abertura da visão espiritual ou percepção religiosa. Alguns grandes religiosos como Ramalinga Swamigal expressaram dor até mesmo os verem plantas murcharem.
 
Isto era parte da verdadeira cultura e ethos [1] da Índia, e não o pensamento segundo o qual os animais não têm sentimento. Esta teoria cômoda é uma negação das evidências diretas que os animais dão dos seus sentimentos: a devoção e alegria expressadas quando retorna o dono, a dor e até as lágrimas quando machucados. Tudo isto é visível para toda pessoa que não fechar deliberadamente seus olhos. Como podemos negar ao animal o direito de viver que nós reivindicamos para nós, e a oportunidade de ser livre e feliz que vemos como nosso direito inalienável? Os animais também são filhos da força criativa universal, a mãe única de todos.
 
Acredito que o caminho para o bem-estar não está em promover a nossa própria satisfação às custas dos outros, ou em prolongar a nossa vida causando sofrimento a outras criaturas - seres humanos, animais, pássaros, ou outros. Cada agressão deve ser evitada sempre que possível; nenhum ferimento deve ser causado conscientemente a outro ser. Assim, a Lei da causa-e-efeito da Natureza, o Carma, trará por si mesma o que é bom. Pelo fato de hoje tantas pessoas violarem aquela Lei - há crescente dificuldade e sofrimento. É uma loucura pensar que deveríamos abandonar as verdades e o modo de vida que são parte da nossa antiga cultura e ethos, e aderir ao carnivorismo e outros hábitos para parecer modernos. Kalidasa disse: nem tudo que é antigo é necessariamente bom. E também nem tudo que é novo e moderno é necessariamente bom. A comprovação está nos resultados produzidos. O mundo moderno, cheio de violência e tensões, imoralidade e egoísmo, é o produto de ideias erradas.
 
Hoje algumas pessoas acreditam que ter um coração impiedoso em relação aos animais - e tratar milhões deles como se fossem objetos materiais inertes que podem ser abertos e manipulados numa fábrica produtora de carne - não tem qualquer efeito negativo sobre a sociedade humana, mas, ao contrário, a beneficia. Esta é uma gigantesca falácia. Porque os seres humanos que estão treinando-se a si mesmos para serem indiferentes ao sofrimento e brutais no seu modo de pensar irão agir, inevitavelmente, com grande insensibilidade em relação a sua própria espécie - que é o que estamos vendo atualmente. O modo gentil de viver, a simpatia e a sensibilidade para com o bem-estar de todas as criaturas, e uma capacidade de apreciar o caráter sagrado da vida, são necessários para construir uma civilização boa e pacífica.
 
NOTA: 
 
[1] Ethos: Essência ou espírito de uma cultura. (CCA)
 
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O texto “Por Que Sou Vegetariana”, de Radha Burnier, foi publicado nos websites associados dia 21 de novembro de 2020. Escrito para o público indiano, o artigo foi divulgado inicialmente no “Indian Vegetarian Congress Quarterly”, edição de janeiro a março de 1992. A tradução é de Carlos Cardoso Aveline. A versão em português apareceu pela primeira vez no “Boletim CIBLA - Círculo Blavatsky”, editado pela Loja Dharma da ST de Adyar em Porto Alegre, Brasil, edição de setembro de 1992, pp. 11-12.
 
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Leia mais:
 
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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