8 de julho de 2020

Um Estudo Sobre Sêneca

Sete Trechos Para uma
Abordagem Do Filósofo Estoico

Paul Carton

Uma estátua de Lúcio Sêneca, que nasceu no ano 4 antes da era cristã



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Nota Editorial:

Reproduzimos a seguir sete partes da obra
O Naturismo em Sêneca”, de Paul Carton.
O livro é uma compilação dos escritos de Lúcio
Sêneca e está publicado nos websites associados.

O autor de cada trecho é aqui identificado
antes da sua transcrição. Os números das páginas
estão entre parênteses ao final da passagem.

Nascido a 12 de março de 1875, Paul Carton é um
pitagórico do século 20 e autor de diversos livros
importantes para os estudantes de teosofia. Lúcio
Sêneca  (4 AEC-65 EC) está entre os principais filósofos
estoicos do mundo antigo. É considerado um teosofista.

(Carlos Cardoso Aveline)

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1. A Filosofia da Felicidade

Carton:

Primeiro que tudo, Sêneca admite como princípio dirigente fundamental a necessidade para o homem de viver em conformidade com a natureza, se quer ser feliz. (p.10)

Sêneca:

“Segundo o grande princípio de todos os estoicos, é a natureza que eu pretendo seguir: não nos afastarmos dela, formarmo-nos sobre a sua lei e o seu exemplo, eis a sabedoria.” (p.10)

Sêneca:

“O homem feliz não é aquele que o mundo assim chama, e no qual o ouro aflui em abundância mas aquele que tem todos os tesouros na sua alma, que, altivo e magnânimo, calca aos pés o que os outros admiram; que não vê ninguém com quem se queira trocar; que toma a natureza como guia e as suas leis como regras, vivendo como ela ordena.” (p.10)

“Só temos que purificar a nossa alma e seguir a natureza; quem disso se afastar está condenado a tudo desejar e a tudo recear, a ser escravo dos acontecimentos.” (p.10)

2. O Altruísmo e a Inteligência

Carton:

O altruísmo, o amor ao próximo, a bondade a respeito dos inferiores, a beneficência concedida a todos, tanto amigos como inimigos, encontram-se professados categoricamente por Sêneca numa série de passagens das suas cartas. (pp.80-81)

Sêneca:

“É necessário viver para os outros se queremos viver para nós.” (p.81)

“O benefício vem muito tarde, se vier apenas a seguir ao pedido”. (p.81)

Carton:

Mas a beneficência deve ser praticada segundo certas regras para ser louvável e útil. (p.81)

Sêneca:

“Em matéria de benefícios, a lei das duas partes ordena que aquele que dá se esqueça imediatamente, e aquele que recebe se lembre eternamente. Em nada prejudica a alma, em nada a humilha, a lembrança constante daquilo que os outros têm feito por nós.” (p.81)

3. Filosofia Clássica e Reencarnação

Sêneca:

“No dizer de Pitágoras, uma consanguinidade universal liga todos os seres, e uma transmutação sem fim os faz passar duma forma para outra. A crermos nisso, nenhuma alma morre nem mesmo cessa de atuar, salvo no curto momento em que ela reveste um outro invólucro. Sem investigar aqui quais as sucessões de tempo e quais os domicílios por vezes habitados, ela volta à forma humana (…).” (p.51)

4. A Conduta Correta

Sêneca:

“…A plenitude da felicidade para o homem é sofrear e vencer todos os maus desejos, erguer seus olhos aos céus e devassar os pontos mais recônditos da natureza… Oh! Como o homem é pequeno se não se educar acima das coisas humanas.” (pp. 10-11)

5. O Sábio Pode Ser Visto como Louco

Sêneca:

“O que o homem de bem julgar honesto fazer, fá-lo-á, por mais penoso que seja; e fá-lo-á mesmo em seu prejuízo; fá-lo-á até quando para ele houver perigo. Mas, uma coisa vergonhosa, nunca a fará, mesmo que dela possam resultar riquezas, honras, prazeres, poder.” (p.80)

“Aquele que resolver ser feliz, só deve reconhecer como bem a honestidade.” (p.80)

Carton:

Mesmo com risco de sermos tratados como loucos por certos homens, devemos ter a coragem de nos impormos a mais firme correção e a maior sabedoria. (p.80)

Sêneca:

“Consente em passares por desarrazoado aos olhos de certos homens. Experimenta aqueles que querem contra ti o ultraje e a injustiça; nada sofrerás se a virtude estiver contigo. Sim; se queres ser feliz e abertamente homem de bem, há desprezos que deves aceitar”. (p.80)

6. A Saúde da Alma

Sêneca:

“Cuida, pois, acima de tudo, da saúde da alma; que a do corpo venha em segundo lugar; e esta última custar-te-á pouco, se tu te quiseres portar bem...” (p.54)

7. A Arte de Obedecer à Natureza

Sêneca:

“O que é, na verdade, a razão? A imitação da natureza. E o soberano bem? Uma conduta conforme ao voto da natureza.” (p.11)

“A natureza, na verdade, é o guia que se deve seguir. É ela que observa, que consulta a razão. É, pois, a mesma coisa: viver feliz ou viver segundo a natureza.” (p.11)

Carton:

Mas, seguir a natureza, em que consistirá? Em ser escravo da verdade; em procurá-la antes de tudo e entronizá-la na vida pela obra diária do sábio governo de si próprio, auxiliado pela reflexão e pela meditação; em fazer ato ao mesmo tempo de ciência, de filosofia e de religião. Porque se não se aliassem os princípios científicos aos princípios filosóficos e religiosos, as ligações naturais do homem e o fim da sua vida seriam desconhecidos. Seguir-se-ia então uma concepção falsa dos verdadeiros bens, uma aberração sobre as condições normais da existência material e mental. Foi o que Sêneca compreendera perfeitamente. (p.12)

Sêneca:

“O título de feliz não é consagrado ao homem que está fora da verdade; por toda a parte a vida feliz é aquela que tem por base um critério esclarecido e seguro, que é a base imutável da vida.” (p.12)

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Veja em nossos websites a íntegra do livro “O Naturismo em Sêneca”, de Paul Carton.

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O artigo acima foi publicado como item independente nos websites associados dia 8 de julho de 2020. Uma versão ligeiramente diferente desta compilação está publicada sem indicação do nome do editor, sob o título de “O Estudo de Carton Sobre Sêneca”,  na edição de fevereiro de 2019 de “O Teosofista”, pp. 3-5.

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3 de julho de 2020

O Teosofista - Julho de 2020





O artigo de abertura da edição, “Os Mestres do Céu e as Suas Lições”, afirma:

Quando vemos os planetas do sistema solar como Mestres Espirituais, podemos perceber que eles atuam como num trabalho em equipe.

Plutão traz para cima da mesa os fatores ocultos da alma: tanto os positivos quanto os negativos. Ao mesmo tempo, Saturno impõe a lei da justiça, lenta e implacavelmente.

À página dois, Kahlil Gibran escreve: “Como Me Tornei Louco”. À página três vemos “O Carma do Bom Pensamento”. 

Outros temas abordados nesta edição:

* O Alicerce da Construção.

* Eliphas Levi, Cagliostro e os Templários.

* Ideias ao Longo do Caminho: Quando a Busca da Felicidade Própria é Inseparável da Ajuda Altruísta.

* O Teosofista e o Carma Político-Social.

* A Tartaruga Universal e a Tarefa Periódica de Recriar o Mundo (texto de Henry Normand).

E também:

* Compreendendo o Futuro da Humanidade.

Com 19 páginas, a edição inclui a lista dos itens publicados recentemente nos websites associados.  


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A coleção completa de “O Teosofista” está disponível nos websites associados.

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1 de julho de 2020

Os Estudantes de Blavatsky na Sociedade de Adyar

Por Que um Movimento Teosófico
Legítimo Necessita Ter Independência

Carlos Cardoso Aveline

Escritório de Helena Blavatsky em Londres, 1887-1888: um desenho de William Judge



Ao mesmo tempo que o trabalho dos websites associados e da Loja Independente lentamente se consolida, cresce entre os membros da Sociedade Teosófica de Adyar a percepção de que “é preciso estudar Helena Blavatsky e as Cartas dos Mestres”.

Cabe então examinar uma pergunta:

Os blavatskianos de Adyar têm futuro?

O mero estudo verbal de Blavatsky (e das Cartas) dentro da ST de Adyar serve para um embelezamento decorativo, e para lançar uma ideia de legitimidade sobre o que é ilegítimo, como se bastasse ler alguém para mudar a realidade. É preciso bem mais do que isso. É necessário tirar lições práticas do que se lê.

A teosofia de Adyar sempre tolerou o estudo de Blavatsky, mas rejeitou e continua a rejeitar a ação com base nos ensinamentos de Blavatsky. Esta separação entre o que se pensa e o que se faz é uma das armadilhas mais graves criadas pelos “clarividentes” besantianos.

Para que algo mude para melhor, no movimento controlado por Adyar, é preciso fazer uma autocrítica pelos erros passados e religar a palavra com a ação.

Cabe abandonar a estrutura de poder pseudomaçônica, pseudoesotérica, baseada em falsas fotos de mestres e numa atitude diante do ensinamento segundo a qual “recitar é suficiente”.

H.P. Blavatsky escreveu em “Por Que Não Volto à Índia”:

“… E tampouco posso - se eu quiser ser fiel ao meu compromisso e aos meus votos de vida inteira - viver na Sede Geral [da Sociedade Teosófica em Adyar] da qual os Mestres e o espírito Deles foram virtualmente banidos. A presença dos Seus retratos não ajudará. Eles são letra morta.” [1]

E a situação piorou bastante desde que ela fez esta constatação básica. 

No começo do século vinte, Annie Besant inaugurou o uso político da ideia de “liberdade de pensamento” como desculpa para manter o ritualismo vazio no centro da estrutura de poder, e como justificativa para negar a necessária relação entre conhecimento e ação.

O consenso besantiano consiste em rotular de imediato como “intolerante” e como “radical” qualquer ideia de eliminar as formas de crença cega que pertencem ao período de 1900-1934, em que floresceu a falsa clarividência. A tática é utilizada até hoje. [2]

Nesta perspectiva, as obras Helena Blavatsky são vistas como perfeitamente aceitáveis como algo que se pode memorizar e repetir no plano das palavras. São também úteis como ferramenta de marketing, porque produzem um ar de saber clássico e de legitimidade. Qualquer indivíduo que adote o ensinamento verdadeiro como um guia para a ação, porém, será automaticamente considerado “um radical de ideias perigosas”.

“Cada um pensa o que quer”, diz o mantra politicamente correto. E o compromisso com os fatos, com a investigação da verdade, com a pesquisa, assim como a vontade de rejeitar falsidades são discretamente proibidos, embora isso seja feito com a aparência de uma atitude fraterna e em nome do sentimento sagrado da amizade entre almas.

No reino da superficialidade mental, ler Blavatsky é uma questão de curiosidade limitada ao nível das palavras e ninguém pode ir além disso.

Se as fraudes besantianas forem abandonadas, porém, terá lugar uma mudança abençoada e de longo prazo.

Até que isso ocorra, a primavera e o renascimento da real vitalidade terão de ser preparados em círculos independentes e em associações que estejam livres de interesses burocráticos e institucionais.

Os websites associados interpretam o número crescente de membros da Sociedade de Adyar entre seus leitores como um pequeno sinal dos tempos. A primeira metade do século atual parece ser uma ocasião adequada para deixar de lado os erros do século passado e construir um movimento teosófico mais legítimo.

NOTAS:

[1] Do artigo Por Que Não Volto à Índia”.


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Estes são alguns dos websites associados, que divulgam o trabalho da Loja Independente de Teosofistas:


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O artigo acima foi publicado como item independente nos websites associados dia 01 de julho de 2020.

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30 de junho de 2020

A Filosofia Esotérica e o Amor Pelo Nosso País

A Sabedoria Universal Brilha
Em Cada Povo de Modo Diferente

Carlos Cardoso Aveline




Com frequência as ilusões obtêm grande popularidade por algum tempo.

Graças ao avanço das comunicações eletrônicas, a partir do final dos anos 1990 criou-se a impressão em certos meios de que os estados nacionais deveriam desaparecer o antes possível.

Um determinado número de teosofistas, assim como outros cidadãos, passaram a ver o globalismo como algo muito positivo, e o nacionalismo como uma ideologia retrógrada a ser abandonada em nome da fraternidade universal.

Pouco a pouco, porém, foi ficando claro que o globalismo tal como está colocado na agenda humana hoje é amplamente controlado pelo grande capital financeiro especulativo, aliado de atividades contrárias à lei, protegendo dinheiro de paraísos fiscais e diversos tipos de atividades ilegítimas.

Esta forma de globalização faz ataques especulativos contra países. Sua legitimidade ética e econômica é altamente questionável. Seus procedimentos financeiros atropelam a soberania dos estados e passam por cima de governos eleitos, abandonando a um lado a democracia e o respeito aos povos. 

A teosofia valoriza as nações e considera importante a sua independência. A filosofia esotérica não apoia o globalismo a qualquer preço. Tampouco vê fraternidade nem sabedoria no ato de desprezar os estados nacionais.

As nações não podem ser canceladas artificialmente, porque elas organizam o carma dinâmico dos povos. Os estados dão forma às nações. Eles estruturam um carma coletivo saudável, um processo de aprendizagem de almas que precisa ter uma forma concreta no mundo.

A fraternidade universal constitui uma lei, e funciona em círculos concêntricos. Tendo uma visão positiva da nossa cidade e do nosso país, podemos compreender melhor o planeta em que vivemos.

É preciso amar o seu país para amar a humanidade. E vice-versa. O amor ao seu povo leva a ser amigo de todas nações. A boa vontade em relação ao planeta inteiro permite ser um melhor amigo da sua comunidade.

O respeito à soberania das nações estimula a ajuda mútua nas relações internacionais. O nacionalismo saudável anda ao lado da admiração e do respeito pelos outros povos. Quem ama o seu país sabe que a colaboração entre todas as nações é indispensável.

Assim, no mundo lusófono e desde uma perspectiva teosófica, o nacionalismo angolano deve ser bem-vindo, se for um sentimento sensato; assim como os nacionalismos timorense, moçambicano, português, cabo-verdiano, brasileiro e dos outros países que compartilham o idioma.

Em qualquer lugar do mundo, nacionalismo não é sinônimo de xenofobia, assim como internacionalismo não é sinônimo de fraternidade.

O sentimento nacional é um sentimento comunitário e fraterno que se harmoniza com a vivência da colaboração entre todos os povos e com a prática da fraternidade universal. Este equilíbrio entre o todo e as partes é precisamente o ideal da Organização das Nações Unidas. É uma ideia correta, realista, e indispensável.

A construção de um país soberano e solidário faz parte da construção da fraternidade planetária. Escrito no século 19, o romance utópico de Edward Bellamy “Daqui a Cem Anos - Revendo o Futuro” [1] descreve um mundo ideal baseado na cooperação entre as pessoas. Com um sucesso de público extraordinário, a obra deu lugar a um movimento nacionalista nos Estados Unidos.

Em “A Chave da Teosofia”, Helena Blavatsky escreve:

“Você não ouviu falar dos clubes e do partido nacionalista que surgiram na América [do Norte] depois da publicação do livro de Bellamy? Vão ganhando terreno cada dia e com o tempo irão ganhando muito mais. Esses clubes e esse partido foram criados no princípio por teósofos. Um dos primeiros, o Clube Nacionalista de Boston (Massachusetts), tem teósofos como presidente, secretário e a maioria do conselho executivo. Na constituição de todos os clubes e na do partido, a influência teosófica e da Sociedade [Teosófica] é franca e aberta, porque a base e o princípio fundamental é o da fraternidade humana, tal como a ensina a Teosofia. Na sua Declaração de Princípios dizem: ‘O princípio da fraternidade é uma das verdades eternas que dirigem o progresso do mundo por caminhos que distinguem a natureza humana da natureza irracional’. O que é mais teosófico que isto? Mas não basta: é necessário também imprimir nos homens a ideia de que se a origem da humanidade é uma, deve então haver igualmente uma verdade comum em todas as diferentes religiões…”. [2]

Na página 27 da mesma obra fica claro que a religião judaica, assim como a religião cristã e outras, contém a sabedoria universal.

Referindo-se ao filósofo Amônio Saccas, Blavatsky escreve:

“Podemos provar a origem de cada religião, assim como de cada seita, até a mais insignificante. Não são as últimas mais do que pequenas ramificações nascidas das maiores; mas umas e outras saem do mesmo tronco, a Religião da Sabedoria.”

“Provar isto foi o objetivo de Amônio, que tentou fazer com que cristãos e gentios, judeus e idólatras, abandonassem suas lutas e disputas para que pudessem perceber que todos estavam de posse da mesma verdade, oculta sob diferentes aspectos, e que todos provinham de uma única origem. O mesmo objetivo guia a Teosofia.” [3]

A sabedoria universal brilha em cada povo e tradição cultural de maneira diferente.

Todas as formas específicas de ver a sabedoria eterna fazem erros e acertos. Cada uma delas tem algo a ensinar, e algo a aprender. O progresso não é obtido desprezando esta ou aquela tradição ou nacionalidade, nem acreditando na superioridade de algum povo. Cada povo deve ser valorizado, começando pelos povos que conhecemos melhor.

A arrogância e a vontade de dominar derrotam tanto os países ingênuos como as pessoas desinformadas.

A cooperação e o respeito mútuo são as chaves do progresso na caminhada para a sabedoria. O melhor alicerce do sentimento de fraternidade universal é o amor ao local em que nascemos e ao país em que vivemos.  

NOTAS:

[1] “Daqui a Cem Anos - Revendo o Futuro”, de Edward Bellamy, Ed. Record, RJ, 1960, 204 páginas. Prefácio de Erich Fromm. Em inglês, “Looking Backward”.

[2] “A Chave da Teosofia”, de Helena Blavatsky, Ed. Planeta. Veja a página 61, na edição disponível em nossos websites associados.

[3]A Chave da Teosofia”. Veja a página 27.


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O artigo acima foi publicado como item independente nos websites associados dia 29 de junho de 2020. Uma versão inicial de “A Filosofia Esotérica e o Amor Pelo Nosso País” faz parte da edição de junho de 2020 de “O Teosofista” (pp. 18 a 20). Ali o texto está publicado sem indicação de nome de autor.

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Clique e veja ensaio “Filosofia do Direito e Colonialismo Cultural”,  do Senador  Franco Montoro.

Leia mais:




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22 de junho de 2020

Diferença Entre a Alma Sensível e o Espírito

Segundo Van Helmont

Maine de Biran


 

Maine de Biran (1766-1824) e Van Helmont (1580-1644)

  


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Nota Editorial de 2020

Em seu livro “A Doutrina Secreta”, Helena P.
Blavatsky faz várias referências a Jan Baptista
Van Helmont (1580-1644), discípulo de Paracelso
e um autêntico místico e pensador profundo.

Na mesma obra Blavatsky se refere
dezenas de vezes a Paracelso (1493-1541),
precursor do movimento teosófico moderno.

O texto a seguir é um dos escritos de Maine de Biran
que mostram o seu vínculo com a tradição esotérica.

(Carlos Cardoso Aveline)

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A filosofia de Van Helmont explica melhor que a filosofia cartesiana como se tornou tão difícil para nós esclarecer ou compreender racionalmente as nossas concepções e fazer com que a luz brilhe em nossas trevas. Isso é algo que conseguimos bem melhor através de ações meritórias e com a ajuda da graça divina [1] do que através de especulações estéreis e esforços pessoais.

A contínua mistura dos atos do espírito com as operações e modos da alma sensível nos faz compreender como o amor, que deveria seguir sempre o conhecimento ou a percepção da beleza, impede esse conhecimento e impede esta percepção, na medida em que ele seja apenas uma atração por simpatia ou uma tendência orgânica ou animal. Quanto mais essa tendência da alma sensível domina nossos afetos, mais a mente fica enevoada e se afasta do rumo elevado. [2]

A alma, mergulhada nas trevas exteriores, separou-se da luz eterna e da substância dessa imagem divina perdida em si própria. Deste modo, ela perdeu sua luz natural ao querer apropriar-se dela, como se essa luz estivesse nela ou como se ela fosse a sua fonte verdadeira e autêntica. É por isso que ela não ouve, não quer e não ama nada mais além de si mesma, e só a si própria. (V. Helmont, ver nota [2])

A alma não pode perceber a si mesma nem pela razão nem pela imaginação. O espírito (mens) não é percebido pelas sensações; no entanto, acreditamos na sua presença interior. A fadiga e a doença não podem influenciar o espírito. O sono, a fúria, a intoxicação, não são sintomas de algum ferimento sofrido pela alma imortal; são apenas paixões de uma vida inferior ou da alma sensível. (V. Helmont, p. 708, édit. apud Elzevirium.)

As operações interiores e constantes do espírito são insensíveis, e aquilo que é sensível em si não pode ser espiritual nem puramente abstrato.

Em todas as operações do entendimento e da vontade, há sempre um espírito oculto que opera por sua eficácia insensível. Os místicos pensam que este espírito age tanto mais perfeitamente pelo fato de ele não manifestar-se por nenhum discurso nem ato próprio, e porque, absorvido em sua fé, deixa que a ação seja de Deus.[3]

Eu tenho o sentimento constante desta diarquia [4] em que o equilíbrio, o repouso e a paz são extremamente raros. Ao avançar em idade, sobretudo, parece que a alma intelectual (mens) tende mais que nunca a ficar em sua morada própria, no âmago desta alma sensível em que ela busca em vão - pela pura força do hábito - uma calma, uma base fixa, que ela não encontra em tempo algum, e ainda menos neste período da vida.

Por isso eu confio demasiado nestas disposições da alma sensível, em relação a tudo que tenho que fazer ou empreender no nível intelectual ou moral. Eu espero por disposições melhores para começar ou continuar; eu trabalho conforme estiver disposto, escolhendo os temas de trabalho mais adequados à disposição da alma sensível, enquanto ela com frequência cochila, e se agita ou fica entorpecida por causas internas, alheias à vontade.

Isso explica a persistência e o retorno obstinado das imagens relativas ao objeto de uma paixão [5] dominante. [6]

O Espírito Puro e a Alma Sensível   

No início de um sentimento forte qualquer, enquanto ele não chega ao ponto de absorver o eu, o indivíduo o sente interiormente como uma força estranha a si, que se infiltra gradualmente e tende a dominá-lo ou a colocar-se em seu lugar. É assim que, em ataques de loucura ou de raiva, o infeliz, ainda dispondo de bom senso, pode prever o acesso; sente que ele está chegando, e até define as precauções a serem tomadas, não contra ele mesmo, tal como ele é neste momento, mas contra um outro ser que o substituirá. Ele não tem meios de evitar este fato, que prevê; e o sente como algo necessário.

Van Helmont tratou de descrever os efeitos dessa alma sensível, que ele vê como intermediária entre o espírito (mens) e o corpo. Mas ele considera que o espírito, embora fique retirado em si mesmo e nunca se misture com a alma sensível, jamais pode tampouco estar totalmente separado dela (a menos que isso ocorra por uma graça específica ou talvez em êxtase). Van Helmont considera que o espírito preside todos os atos da alma, na medida em que ele a ajuda ou que se faz presente; e que ele é inteiramente inerente a ela e, portanto, sempre trabalha com ela de uma maneira implícita. Este tem sido o caso desde a queda do ser humano. [7]

Até aquele momento, o espírito (mens) vivificava diretamente o corpo, e não havia alma sensível, ou seja, não existia uma vida intermediária entre os atos intelectuais puros e os movimentos materiais.

Consequentemente, sem qualquer paixão ou afeto sensível, o amor se limitava ao conhecimento do belo e do bom, e não diferia deles. Assim, pode-se acreditar que, de acordo com essa hipótese, não havia atração sensorial no amor dos sexos; Adão sabia o que estava fazendo ao conceber vida; e ele tinha em vista apenas cumprir os decretos de Deus, que o havia encarregado de multiplicar as expressões da beleza que estava impressa em si mesmo.

A filosofia cartesiana, ao ignorar a alma sensível e a vida intermediária, reduzindo o ser humano ao puro espírito e à matéria sensível, nos aproxima do berço da raça humana e desconhece os primeiros efeitos do pecado original. [8]

NOTAS:

[1] Graça divina: a energia do eu superior, da lei divina e da alma universal, a que se tem acesso através da expansão do carma positivo. (CCA)

[2] Quamdiu in carne degimus, vix substantiali ac pure intellectuali intellectu utimur: sed potius potestate phantastica, qualitate scilicet ejus vicaria. In extasi enim sœpe obdormiunt intellectus, voluntas et memoria, solo superstite amoris actu. (Van Helmont, “Imago Dei”, pag. 714, edit. apud Elzevirium.) (Nota de M. de Biran)

[3] Deus, ou melhor, a lei universal (CCA)

[4] Diarquia: governo compartilhado por dois elementos: “duumvirat”, em itálico no original em francês. (CCA)

[5] Paixão: em filosofia clássica, sentimento. (CCA)

[6] Fortis perturbatio nostrœ imaginationis imaginem cudit, eamque imprimit  in sordes aliquas, ………. in ipsum alimentum vel etiam in partem solidam et nostri constitutivam. (id) (Nota de M. de Biran)                   

[7] A queda do ser humano: a diferenciação dos sexos, ocorrida na terceira raça-raiz, segundo a teosofia. Veja a obra “A Doutrina Secreta”, de H. P. Blavatsky: The Secret Doctrine”, volume II,  p. 777. (CCA)

[8] Pecado original: a “queda do ser humano”, a diferenciação dos sexos, a materialização completa da espécie humana, que antes disso era mais espiritual do que física segundo Helena Blavatsky. (CCA)

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O artigo acima foi publicado nos websites associados no dia 22 de junho de 2020. Tradução do francês: CCA. Fonte: Oeuvres Philosophiques de Maine de Biran, publiée par V. Cousin, Tome Troisième, Paris, Libraire de Ladrange, 1841, 345 pp., pp. 342-343. Título e link do texto original: Distinction de L’Âme Sensitive et de L’Esprit.

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