13 de novembro de 2019

Ideias ao Longo do Caminho - 28

A Harmonia é a Lei do Universo e
Desmantela Cada Forma de Amargura

Carlos Cardoso Aveline






* O espaço rodeia os objetos. O silêncio contém o som, e a eternidade envolve todas as contagens de tempo.  

* Os dias que fecham um mês ou completam um ano são oportunidades para revisar e completar tarefas. Cabe reexaminar a agenda e desistir de ações desnecessárias. A paz interior é importante: um ciclo deve terminar bem, para que o próximo ciclo comece de modo correto.

* Os mais diferentes tempos são simultâneos e convivem no momento de agora. A Vida é uma combinação de ciclos muito diversos. Eternidades grandes e pequenas interagem, e ciclos imensos estão presentes em cada segundo.

* Para tornar-se capaz de existir no reino da realidade durável, o peregrino aprende a ser nada. Antes de poder escutar a música da vida interna, é preciso deixar de ouvir o barulho. É quando já não tem ambição alguma, que o peregrino alcança metas valiosas. A ausência de poder no mundo o capacita para mudar a vida de modo significativo.

* O propósito dá significado à vida, fazendo com que possamos aprender e evoluir. Quanto mais experiência a alma tem, mais nobre é a sua intenção. À medida que o seu propósito se eleva, o peregrino se torna mais humilde.

* Quem deseja alcançar um nível elevado de comunhão com outros seres, precisa antes enfrentar a solidão. Renunciando a desejos, podemos tomar providências para merecer aquilo que seria desejável. Quando abandonamos a ilusão de obter isso ou aquilo, começamos a viver no território da transcendência. Silenciando, somos capazes de escutar. Quanto mais profundo o silêncio, maior a capacidade de ouvir o que é valioso.

* Tanto a paz como a violência começam na mente. A fonte de harmonia não está na negação do conflito, mas na compreensão. Quando alguém enxerga as raízes do conflito no eu inferior, a luta com outrem se torna inútil e sem significado, e é colocada num segundo plano. O guerreiro eficaz sabe que a paz profunda da mente é o primeiro passo na direção da vitória.

* A dor é com frequência um resultado da alternância entre apego e rejeição. A paz durável transcende o movimento da gangorra infantil que oscila do prazer para o sofrimento, do contentamento para a frustração, ou vem de volta da tristeza para a alegria. A felicidade está em compreender a vida, e o seu alicerce depende da percepção da unidade entre os pares de opostos.

* Para ter acesso à melhor inspiração possível, o estudante de filosofia deve parar de tempos em tempos toda atividade e pensar naquela que é para si a mais elevada fonte de conhecimento espiritual.

* Com frequência parece desimportante pensar no mais elevado. Aparentemente não tem urgência. Não provoca fortes emoções. No entanto, essa prática é decisiva para o carma individual e coletivo. O seu poder de cura não pode ser descrito. Através dela, podemos nascer invisivelmente no reino espiritual.

* Alguns indivíduos de boa vontade têm como seu dharma e dever a necessidade de renovar o carma coletivo do qual são parte, e fazem isso apontando para horizontes largos e possibilidades mais altas.

* Através de fatos e palavras, os pioneiros do futuro rompem as visões de realidade que expressam o processo médio comum das ilusões estabelecidas. Precisam fazer isso desde uma perspectiva inteiramente nova, na qual não haja lugar para a raiva. Porque o ódio pertence à frustração, que provoca derrota, que resulta da ignorância. E a renovação pertence à confiança na vida, que provoca felicidade, que resulta da sabedoria.

* Há pelo menos um significado maior oculto em cada circunstância que nos rodeia, e frequentemente mais de um. Por isso o velho ditado popular afirma: “Nada é por acaso”.  

* Tudo está em unidade, sob a superfície das aparências. A interação entre todas as coisas aumenta a responsabilidade individual e a necessidade de ser forte.

* As circunstâncias da vida são vistas conforme a motivação que nos anima. E a nossa motivação varia nos diferentes níveis de nossa alma, que nem sempre conhecem perfeitamente uns aos outros. Quando decidimos tirar lições de tudo o que acontece, as circunstâncias se tornam fontes de uma sabedoria que cura todos os males.

* Assuntos fúteis devem ser deixados de lado para que tomem conta de si próprios, enquanto focamos a ação em questões de interesse permanente.

* Uma saudável indiferença aos pequenos altos e baixos do eu inferior é necessária, se quisermos ser capazes de prestar atenção às questões que dizem respeito à alma espiritual.

* O prazer faz parte da vida, assim como a dor, e requer um sentido de desapego. O exagero na busca da satisfação pessoal produz grande quantidade de sofrimento desnecessário. A correlação errada entre estes dois fatores estabelece o sadomasoquismo: o prazer no sofrimento do outro, e a satisfação com o seu próprio sofrer.

* Quantas pessoas têm o costume de lamentar-se? Quantos fazem isso com evidente autossatisfação? Há quem tenha grande apego ao seu próprio sofrimento. Por outro lado, as mesmas pessoas podem ter prazer ao ver a derrota alheia. Exemplos disso ocorrem no futebol, nas lutas político-eleitorais, e nas disputas de poder em cada aspecto da vida. A busca de vingança é um privilégio dos que são espiritualmente cegos. Todo exagero na busca de bem-estar pessoal distorce o princípio do prazer e fere a lei do equilíbrio.

* Em uma sociedade materialista, não faltam formas de decadência moral, surgidas do exagero doentio e cego. O caráter de um ser humano se mostra no modo como ele busca e encontra o bem-estar. A verdadeira paz está fora do território do egocentrismo.

* Um renascimento cármico e cultural no século 21 dependerá da criação de uma nova onda de Vida Contemplativa, nos seus aspectos individuais e coletivos. Isso inclui as artes, a música, a literatura, a filosofia e a psicologia. Mentes estreitas tornam a vida difícil; horizontes amplos produzem bem-estar.

* Uma felicidade secreta está oculta em cada folha de outono e pode ser encontrada nas águas da primavera ou do verão. Ela faz com que se mova o vento do inverno, e à noite olha para nós desde as estrelas no céu. O contentamento eterno atravessa todas as horas do dia e anima as quatro fases da Lua.

* Nada que seja concreto e objetivo é nosso de fato. As coisas e situações são dadas a nós por algum tempo, inclusive aquilo que aparentemente nós mesmos construímos. É melhor cuidar bem daquilo que parece ser nosso, enquanto ainda está perto de nós. Por outro lado, tudo o que aprendemos é nosso para sempre. Recomenda-se confirmar se aprendemos de fato tais lições.

* A harmonia é a lei do universo e desmantela, não sem sofrimento, cada forma de rancor e amargura. A felicidade movimenta o sistema solar sobre a base da bem-aventurança e de acordo com o que é justo e adequado.

* A ética da vigilância cuida principalmente daquilo que deve ser evitado nas ações humanas. A ética da criatividade trata das ações que devem ser estimuladas, porque renovam a vida de modo saudável. Embora a ética da vigilância seja de uma importância decisiva, ela está longe de ser suficiente. Também precisamos daquele tipo de consciência moral que produz esforços belos, que inspira a construção de melhores relações, e espalha o amor pela Vida na sua diversidade e na sua unidade. A ética da vigilância é aquela que mantém as nossas energias vitais longe do erro e permite que elas fluam de modo criador, construtivo e luminoso.

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Ideias ao Longo do Caminho - 28” foi publicado como artigo independente em 13 de novembro de 2019. Uma versão inicial e anônima dele faz parte da edição de dezembro de 2016 de “O Teosofista”, pp. 15-16. Notas curtas das pp. 5, 12 e 14, escritas pelo mesmo autor e publicadas naquela edição, estão incluídas no texto.

Embora o título “Ideias ao Longo do Caminho” corresponda ao título em língua inglesa “Thoughts Along the Road”, também de Carlos C. Aveline, não há uma identidade exata entre os conteúdos das duas coletâneas de pensamentos.

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5 de novembro de 2019

A Política da Histeria

 Uma Psicanálise da Civilização Humana

Carlos Cardoso Aveline


Sigmund Freud e a capa do livro de McGrath (com o nome errado na edição brasileira)




Esquecido por muitos, o livro de 1988 “Política e Histeria”, de William J. McGrath, é uma ferramenta valiosa caso você queira evitar guerras planetárias e impedir formas desnecessárias de destruição. [1]

Atualmente difícil de obter, o livro ajuda-nos a compreender as crises políticas dos tempos atuais e uma doença grave: a doença do desprezo pelas decisões democráticas e pelas instituições públicas.

A enfermidade crônica está presente em muitos países que são formalmente democráticos, lado a lado com a epidemia dos ataques pessoais contra adversários políticos.

Descrevendo a origem da psicanálise durante os anos em que Sigmund Freud fez estudos e pesquisas sobre histeria, o livro de McGrath examina e evolução dos enfoques médicos e psicológicos da histeria e a relação entre esta desordem e a história humana, inclusive na vida política e institucional. 

A enfermidade parece existir há longas eras.

A histeria coletiva faz com que na opinião pública o raciocínio seja substituído pelos slogans e pela mera propaganda. Tão logo isso acontece, surge o processo do ódio organizado. Os bodes expiatórios, políticos ou religiosos, são necessários para que o sentimento coletivo de frustração seja projetado sobre algum objeto externo, o que produzirá uma falsa sensação de alívio.

Embora o hábito de jogar as culpas nos outros - que domina a política de hoje - seja ridículo quando olhado desde um ponto de vista racional, ele constitui uma prática antiga. Foi popular na idade média e nos tempos modernos, assim como é na época “pós-moderna”. 

Este tipo de luta estimula a busca perversa de satisfação sadomasoquista; isto é, o prazer derivado do sofrimento próprio, ou do ato de fazer os outros sofrerem. A perseguição católica contra judeus e heréticos na Idade Média era um processo histérico, assim como as várias formas políticas e sociais de ódio no século 21 - sejam elas “progressistas” ou não.

A dinâmica da histeria deve ser compreendida antes de ser abandonada. O bom senso e o amor pela verdade são suficientes para eliminá-la. No entanto, o livro de McGrath convida-nos à construção de um enfoque intercultural que tenha respeito pelas diferenças. A tarefa pertence à teosofia, à psicologia, à filosofia e outros campos de conhecimento.

Quando se desmascara o caráter irracional da histeria - na família, na política e em todos os aspectos da vida - o carma ou destino humano muda para melhor. É inútil esperar que “aconteça alguma coisa” capaz de curar a doença de fora para dentro. Cada indivíduo tem o poder de tornar-se alguém que cura a si mesmo e regenera o mundo.

A paz da alma será restabelecida conforme as necessidades da evolução, e todos podemos ajudar nisso. Os acontecimentos grandes e pequenos estão unidos. Sementes minúsculas tornam-se árvores adultas. Uma borboleta bate as asas em Taiwan e um furacão ocorre em Londres. O impacto das ondas do mar em uma parte do mundo é sentido pelas ilhas de outros continentes, conforme Victor Hugo escreveu em “Os Trabalhadores do Mar”. [2]

Sempre que a histeria se espalha pela sociedade, o diálogo sincero e a moderação se tornam objeto de desprezo. Devemos observar, portanto, o processo emocional que flui por baixo das formas instáveis, nervosas e automáticas de intolerância.

Psicose e Histeria

Talvez a principal diferença entre psicose e neurose seja que o neurótico sacrifica os seus instintos básicos para preservar uma visão realista dos fatos. Na vida coletiva, essa atitude é essencial para o processo democrático. A renúncia também é necessária em qualquer relação equilibrada entre seres humanos, ou entre os seres humanos e o ambiente natural.

Sacrificamos nossos desejos pessoais para preservar a harmonia na comunidade. Praticamos o autocontrole para beneficiar outras pessoas a quem amamos, para possibilitar a preservação da natureza ou porque respeitamos a realidade da democracia e da ajuda mútua em nossa cidade e nosso país.  

Na atitude psicótica, porém, o indivíduo sacrifica o seu sentimento de respeito pela realidade, para seguir automaticamente os seus próprios instintos e desejos. A verdade, então, é deixada de lado e a moderação cai no esquecimento.  

A psicanálise diz que na neurose existe uma “perda de si mesmo”, um autossacrifício. Na psicose, o indivíduo perde a sua relação com a realidade objetiva. Na neurose, a pessoa tira lições, não sem sofrimento, dos seus conflitos internos. Na psicose, os conflitos são projetados para o mundo externo e o indivíduo pensa que não tem necessidade de obedecer a limites.

Freud escreve:

“… Um dos fatores que estabelecem a diferença entre uma neurose e uma psicose [é] o fato de que numa neurose o ego, em sua dependência da realidade, suprime um pedaço do id (da vida instintiva), enquanto numa psicose o mesmo ego, a serviço do id, afasta-se de um pedaço da realidade. Assim, para uma neurose o fator decisivo seria a predominância da influência da realidade, enquanto para uma psicose seria a predominância do id. Numa psicose, uma perda da realidade estaria necessariamente presente, enquanto em uma neurose, parece que esta perda seria evitada.” [3]

Numa neurose, a visão dos fatos é distorcida, enquanto na psicose a visão da realidade é simplesmente suprimida, e nenhum grau de frustração será aceito. A fantasia rouba o lugar dos fatos: disso surge o processo histérico. Em qualquer psicose, a dissociação domina e a razão tem pouca chance. 

Em acontecimentos sociais como antissemitismo, racismo, terrorismo e intolerância religiosa, as atitudes psicóticas estão presentes e têm forte influência. Todas as formas de ódio sistemático em política tendem a colocar os instintos acima da razão e estão sob a ação da histeria. Devemos lembrar que a histeria significa uma condição infantil da alma. As crianças pequenas ainda não tiveram a possibilidade de reconhecer os limites adequados das suas ações, que a Vida e a Necessidade inevitavelmente impõem. [4]

A relação complexa entre o instinto e a razão nas almas humanas é um fator central para o futuro das civilizações.

Desde as décadas finais do século vinte, o uso ampliado de drogas psicoativas tem estimulado a epidemia de atitudes psicóticas e a perda de equilíbrio na percepção da realidade.

A alternativa, segundo a filosofia esotérica clássica, é restabelecer a capacidade de estar em harmonia com a alma. Aquele que escuta a voz da sua consciência pode escutar os seus semelhantes. Por outro lado, aquele que não consegue prestar real atenção aos outros não é capaz de aprender as lições ensinadas por seu próprio espírito.

Uma alma que desperta faz com que o indivíduo veja a lei do equilíbrio em operação e perceba a unidade cósmica de todas as partes do universo. A alma nos ensina harmonia, e tão logo alcançamos a paz interna nós vemos a unidade e a interação positiva acontecendo entre todos os seres vivos.

A Situação do País e o Estado da Alma

Sigmund Freud documentou a relação direta entre o estado de consciência do indivíduo e o estado do país em que vive. [5]

Há uma influência recíproca. 

De um lado, a paisagem social e política da comunidade é um fator decisivo na definição da geografia da alma. De outro lado, o conteúdo da consciência se projeta naturalmente para o mundo externo, porque nossas emoções e pensamentos subconscientes são as lentes pelas quais olhamos para o mundo.

Vemos com força especial em nossos amigos e adversários as realidades presentes em nosso interior. Enxergamos no país em que vivemos sobretudo substâncias que existem em nossa própria alma. Essa relação direta entre o interno e o externo é algo inevitável. A fantasia da dissociação é uma doença. Neste ponto, sete conclusões parecem ser em grande parte inevitáveis:

1) Precisamos estar contentes com nós mesmos, se quisermos transmitir paz aos outros. A harmonia superficial depende dos ventos instáveis da aparência e portanto dura pouco.

2) A política do rancor não leva a lugar algum, e o mesmo ocorre com a transformação de adversários em bodes expiatórios permanentes. Estes são meros mecanismos de fuga histérica da realidade. Não há necessidade de comentar os exemplos famosos de histeria dados por Adolf Hitler e Benito Mussolini.

3) Não faz sentido que cidadãos e movimentos sociais se comportem como crianças grandes que gritam e choram enquanto se recusam a ser responsáveis por suas próprias ações, e insistem em atribuir a outros - os “adultos” - o poder de decidir sobre suas próprias vidas.

4) Os grupos conservadores devem evitar derrotar a si mesmos comportando-se como pais e mães imorais que não dão importância às suas famílias e preferem enganar os que lhes são mais próximos. Aquele que engana os outros ou prejudica os pobres está apenas iludindo a si mesmo, a longo prazo.

5) Num parlamento, como numa família, se o diálogo honesto se torna impossível e as palavras não ajudam a produzir uma visão comum das metas compartilhadas, chegou a hora de calmamente desmascarar a presença da histeria e do absurdo. Uma firme serenidade é recomendável para que não seja colocada mais lenha na fogueira. O desastre será evitado se o desmascaramento for promovido a tempo, com a quantidade adequada de força e determinação.

6) Líderes eficientes estimulam o respeito mútuo. Eles dão o exemplo da simplicidade voluntária, da atitude construtiva, da boa vontade e da cooperação. É dever de todos ser honestos com os seus adversários. Estes princípios previnem as causas da corrupção e impedem o surgimento da injustiça social, da guerra e do terrorismo.

7) Desde tempos imemoriais, o crescimento da humanidade em sabedoria tem sido o fator central da História. Porém, o aprendizado da alma acontece em espiral. Com frequência doloroso, às vezes agradável, o processo da aprendizagem morre e nasce de novo em ciclos grandes e ciclos pequenos. Os princípios mais básicos da vida são esquecidos de tempos em tempos e devem ser ensinados outra vez em milhares de ocasiões. Por esse motivo um teosofista poderia dizer: ‘Quem não tem a coragem de melhorar a si mesmo não deveria perder tempo fingindo que pretende corrigir os outros. Porque as duas coisas são inseparáveis. É preciso abandonar os seus próprios erros, antes de combater furiosamente os erros que pensa que vê nos outros. Devemos conhecer a nós mesmos, antes que possamos conhecer realmente as pessoas que nos rodeiam. O autocontrole é melhor do que o controle do mundo externo.’

O livro de William J. McGrath nos dá elementos valiosos para compreender que as atitudes histéricas tendem a desaparecer - nas famílias, assim como nas comunidades locais e nos países - sempre que o conhecimento real é alcançado e o equilíbrio interior se torna firme o suficiente para ser transmitido aos outros pelo exemplo.

Minha Mente Para Mim é Um Reino

Paz e paranoia, lucidez e histeria, confiança, medo e fúria são todos estados mentais individuais e coletivos. No entanto, a fonte e a base de qualquer civilização estão na consciência individual. A vida familiar cumpre um papel decisivo na ponte entre a percepção vertical do indivíduo e a visão horizontal da comunidade mais ampla. [6]

É do mundo interno que a vida social surge. Nossos sentimentos pessoais sustentam a felicidade ou infelicidade dos países. Este ensinamento está presente nas obras filosóficas do taoismo clássico. A correspondência entre a vida individual e a vida política é direta e imediata. Séculos antes de Sigmund Freud, Sir Edward Dyer (1543-1607) escreveu:

“Minha mente para mim é um reino;
Encontro nela um bem-estar tão perfeito
Que supera qualquer outra bênção.” [7]

Freud mostra no ensaio “O Inconsciente” (1915) que uma alma humana tem o seu próprio tipo de topografia. A geografia da mente é análoga à geografia física. Muitas inteligências diferentes habitam o ser interior de cada cidadão. Todo indivíduo tem dezenas de vozes e impulsos em sua alma, e eles vivem como cidadãos mais ou menos educados, no reino da consciência. 

No parlamento do espírito, os pensamentos e os sentimentos representam diferentes possibilidades, impulsos, pontos de vista e níveis de consciência. É preciso que haja um sentimento comum e também um governo central que dê um sentido coerente a eles todos.

É indispensável um superego que tome decisões em nome do conjunto. O superego governamental deve agir com equilíbrio e moderação. Deve escutar a voz sem palavras da consciência, e expressar um sentido de justiça em suas decisões.

NOTAS:

[1] Na capa do livro “Política e Histeria” vemos como nome de autor “William J. McGratt”, quando na verdade o sobrenome é “McGrath”, com “th” no final. Apesar do erro na capa e na página de rosto, a edição brasileira de “Política e Histeria” é boa. A tradução de José Octávio de Aguiar Abreu é bem feita. O texto final foi revisado com eficiência. O livro apareceu em 1988, publicado pela editora “Artes Médicas”, de Porto Alegre, e tem 296 páginas. O subtítulo é “A Descoberta da Psicanálise por Freud”.

[2] “Os Trabalhadores do Mar” (1866). Veja-se a parte II, livro III, linhas finais do capítulo três.

[3] Do ensaio de 1924 “The Loss of Reality in Neurosis and Psychosis” (“A Perda de Realidade na Neurose e na Psicose”), de S. Freud, no livro “The Essentials of Psychoanalysis”, Sigmund Freud, Vintage Classics, seleção de textos feita por Anna Freud, Vintage Books, London, 2005, 597 pp., ver p. 568.

[4] Sobre a infantilidade na psicose, veja por exemplo “The Essentials of Psychoanalysis”, Sigmund Freud, Vintage Books, London, 2005, p. 562.

[5] Leia as páginas iniciais do capítulo seis, no livro “Política e Histeria”. 

[6] O capítulo seis do livro de McGrath examina o paralelo feito por Freud entre a “política na alma” e a política externalizada de um país. As mesmas páginas discutem a oposição pessoal de Freud a Theodor Herzl e ao projeto sionista. Freud morreu em 1939 e não viu o Holocausto dos anos 1940. Em parte por esta razão, o pai da psicanálise achava difícil entender a importância de Israel, e não pensava que fosse necessário, ou possível, construir o Estado Judaico como um local seguro para os judeus viverem. Freud também pode ter sentido um pouco de inveja em relação à forte visão de um futuro saudável, que Herzl oferecia. O assunto deverá ser examinado em algum outro artigo. Freud e Herzl estão entre os grandes amigos da humanidade e ambos mudaram para melhor a História. 

[7] Clique para ver o poema “Minha Mente Para Mim é Um Reino”.

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O artigo acima foi publicado nos websites associados dia 04 de novembro de 2019. Trata-se de uma tradução do inglês. O artigo original está publicado no blog teosófico de “The Times of Israel”.


Veja também os artigos A Psicanálise das Religiões e A Civilização Integradora”, de CCA, e a obra A Personalidade Neurótica do Nosso Tempo”, de Karen Horney.

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31 de outubro de 2019

O TEOSOFISTA, Novembro de 2019





A edição de novembro abre com o artigo “O Poder Espiritual do Casamento”, de Pitirim A. Sorokin. Na página dois, Alberto Torres escreve, em 1914, sobre o dever ecológico dos povos.

Na página três, temos “O Passado Como Reserva Moral”, que afirma:

“A falta de ética é míope. Só enxerga o aqui e agora e faz isso de um modo especialmente estreito. A ética está associada a uma visão ampla das coisas e a uma relação correta com o passado e o futuro.”

À página cinco, o clássico  Luís A. Verney questiona a nossa capacidade de aprender.

Mais alguns destaques da edição:

* Ideias ao Longo do Caminho - a voz da consciência está ao nosso alcance, p. 6;
* Os Desafios do Trabalho Editorial, p. 8;
* Limão, um Médico Auxiliar, p. 9;
* A Casa de Helena Blavatsky em Londres, p. 11;
* Ensinamentos de um Mahatma - 30, outras cartas a Ramaswamier,  p. 14; e
* O Joio e o Trigo em Teosofia, p. 18.

Com 20 páginas, a edição inclui uma lista dos itens publicados recentemente nos websites associados.  


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A coleção completa de “O Teosofista” está disponível nos websites associados.

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29 de outubro de 2019

As Árvores

 Firmes, na Solidão dos Verdes Prados

José Leite de Vasconcellos






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Nota Editorial de 2019

A citação de abertura do poema afirma : “L’histoire
naturelle a fourni une conception de l’univers bien autrement
élevée que de l’antiquité.” Ou seja: “A história natural forneceu
uma concepção do universo muito melhor que a da antiguidade.”

O uso desta frase como citação de abertura parece ter
sido feito com ironia por parte do autor, já que o poema
trata as árvores como deusas e como filhas das estrelas, tal
como faziam os antigos, para quem os bosques eram templos.

José Leite de Vasconcellos nasceu em 7 de julho de 1858 e
viveu até 1941. Dedicou a vida inteira a documentar de modo
brilhante a força da sabedoria antiga na vida de Portugal. Uma
das suas obras mais importantes desde o ponto de vista teosófico
é “Religiões da Lusitânia”, reeditada em quatro volumes
em 1998 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, em Lisboa.

(Carlos Cardoso Aveline)

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L’histoire naturelle a fourni une conception de
L’univers bien autrement élevé que de l’antiquité.

A. Langel



Firmes, na solidão dos verdes prados,
Nos montes ou na florida devesa [1],
Por que sois os fantásticos soldados
Que fazem sentinela à Natureza?

Por que, presas ao chão pelas raízes,
E os braços levantados para a glória,
Como saudosas deusas infelizes,
Andais sofrendo a anátema da História?

Pois não tendes acaso, como nós,
Vida, paixões e sentimento e almas?
Quem não escuta uma sonora voz
Nas doces virações das noites calmas?

Quem não entende o pranto que chorais,
Quando o orvalho vos cobre e inclina ao chão,
E não ouve gemer os vegetais
No ramalhar das folhas n’amplidão?

A flor que em vossos peitos desabrocha
É um sorriso de cândida bondade,
Que doma as feras e enternece a rocha,
Como a lira de Orfeu na antiguidade.

Amai, crescei, flori nas várzeas belas,
Ainda que opressas de uma lei tirana…
Ó fantásticas filhas das estrelas,
Ó gloriosas irmãs da raça humana!

NOTA:

[1] “Devesa”- arvoredo. (CCA)

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O poema “As Árvores” foi publicado nos websites associados dia 29 de outubro de 2019. Ele é reproduzido de “O Pantheon”, revista de ciência e letras, Porto, Portugal, Typographia Nacional, 1880, N. 1, p. 12.


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