19 de junho de 2019

Ideias ao Longo do Caminho - 25

  Cada Passo Dado Muda o Conjunto da Caminhada    

Carlos Cardoso Aveline




* Ao comentar a situação do seu país, muitos adotam opiniões rígidas. Lutam pela vitória da sua descrição da realidade como quem torce pelo seu time de futebol durante a partida final de um campeonato. Tomados por um entusiasmo cego, deturpam livremente os fatos e abandonam todo respeito pela realidade.  

* A tendência saudável é que aumente o número dos que pensam com independência. São necessárias mais pessoas que observem seu país com isenção, olhando para ele desde o ponto de vista do seu potencial positivo e sagrado. Só a verdade permanece: as distorções têm vida curta.

* Apesar das dificuldades naturais, não há razão para ficar excessivamente preocupado ao ver um aumento de ignorância espiritual nas camadas sociais mais prósperas do mundo de hoje. Nada é eterno, exceto a Lei do Equilíbrio. Tudo é cíclico, na evolução humana. Apenas a balança da eterna justiça permanece, e nem as mais violentas crises de cegueira moral podem durar muito tempo.

* Adaptar-nos a circunstâncias em constante mutação é tão necessário quanto permanecer ligados à nossa meta central, durável e elevada. Cabe avançar para o objetivo através do método escolhido. A lei do universo funciona com base no princípio da perfeição dinâmica. Tudo se aperfeiçoa. Todos aprendem. Ao fortalecer nossa afinidade com a lei, aumentamos a harmonia no nosso espaço do carma e do tempo.

* As tarefas cansativas e tediosas estão entre as mais úteis no aprendizado de teosofia. Ao realizá-las com inteiro cuidado, o peregrino desenvolve o seu poder de concentração, fortalece o seu contentamento incondicional e se torna mais capaz de observar em seu próprio eu inferior os movimentos ativos da preguiça, do orgulho e outras formas de resistência à sabedoria.

* O verdadeiro sentido de encantamento deve vir de dentro. A grandeza moral pertence à alma e resulta do grau de autoesquecimento com que o peregrino cumpre seu dever nos diversos níveis de consciência.

* Assim na vida em geral como em teosofia, a ajuda mútua é uma lei inevitável. Não pode ser ignorada impunemente. Tudo o que existe, e todos os que vivem ou viveram algum dia, estão em unidade dinâmica.

* Os efeitos daquilo que fazemos voltam para nós. O fato é garantido pelo processo da reencarnação, mas o carma nem sempre espera tanto tempo. As primeiras consequências do que fazemos são imediatas. Outras demorarão mais tempo para amadurecer.

* Não há fatos isolados: toda harmonia é recíproca. Todo sofrimento é compartilhado, talvez secreta e silenciosamente;  e cada erro ou acerto pertence ao patrimônio comum de experiências acumuladas. O apoio mútuo é o caminho da evolução.

* Cada um dos sete níveis principais de consciência humana possui mais de um tipo de silêncio. Um silêncio profundo e vertical incluirá diversas camadas de percepção, gerando uma capacidade de enxergar especialmente durável.   

* A clareza de visão resulta da renúncia às aparências e da concentração na essência das coisas.

* O silêncio desvela a realidade interior e oferece uma visão atualizada do passado e do futuro. É no silêncio que fala o mestre, a nossa alma mais elevada, Atma-Buddhi. Na ausência de ruído, o significado dos fatos se torna claro. A lição nem sempre é agradável, mas liberta o peregrino de suas ilusões.

* A estrada para a sabedoria é simples no sentimento e complexa no plano da mente. Tanto o pensamento como o coração são necessários. O peregrino bem informado combina a simplicidade e a complexidade. Ele usa os dois lados do cérebro: o lado que pensa de modo concreto e o lado que percebe a vida intuitivamente.  

* Cada passo adiante muda a caminhada inteira, inclusive a visão que se tem dos passos já dados. Com cada novo avanço o peregrino deixa algumas coisas para trás e passa a ver outros fatos até este momento invisíveis.

* Para ter eficiência, a busca da sabedoria deve ser amparada por um sentido de equilíbrio. Fatores diferentes podem ser combinados através de uma criatividade em que não há pressa.

* Uma capacidade de identificar beleza moral e feiura moral faz parte do processo de aprendizagem. A cada forma de felicidade corresponde algo doloroso, ou alguma forma necessária de ser austero.

* Uma simetria conecta os gestos e as ações internas e externas. Todas as coisas grosseiras e sutis estão relacionadas entre si. A paz incondicional une as várias dimensões da vida.

* Cada povo possui suas próprias ligações com o reino superior do Espírito. A silenciosa conexão com o mundo mais elevado opera através de pensadores e cidadãos atentos que vivem fundamentalmente em suas almas espirituais, enquanto possuem corpo físico. Tais indivíduos trabalham em uma sintonia de alma com grandes instrutores que viveram em outros povos e épocas diferentes.

* Documentar o trabalho dos sábios de todos os tempos e fazer com que ele seja conhecido é parte do dever teosófico. Numerosos pensadores de compreensão universal caíram no esquecimento, ou suas obras foram distorcidas. Os estudantes de teosofia clássica têm o privilégio de estudar com professores de altruísmo que viveram em tempos e lugares distantes. Ao fazer isso, expandem o diálogo com o seu próprio eu superior - cuja substância é cósmica.

* A harmonia que um buscador da verdade obtém não se baseia na negação dos testes, da provação ou do sofrimento. A paz surge para ele da harmonização dinâmica dos vários aspectos da vida, agradáveis e desagradáveis. A vitória ocorre à medida que ele aprende a reduzir os seus erros, a fazer o bem, e a ajudar os outros seres que lutam para despertar.

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Ideias ao Longo do Caminho - 25” foi publicado como artigo independente em 19 de junho de 2019. Uma versão inicial e anônima dele faz parte da edição de setembro de 2016 de “O Teosofista”, pp. 14-15.  

Embora o título “Ideias ao Longo do Caminho” corresponda ao título em língua inglesa “Thoughts Along the Road”, do mesmo autor, não há uma identidade exata entre os conteúdos das duas coletâneas de pensamentos.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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12 de junho de 2019

Galileu Afirma Que o Sol Gira em Torno da Terra

Em Junho de 1633, Para Evitar a Tortura, Galileu
Humilha-se Perante os Criminosos do Vaticano 

Carlos Cardoso Aveline


Galileu Galilei, nascido a 15 de fevereiro de 1564, e um dos 
inúmeros instrumentos de tortura usados pelos teólogos do catolicismo 


Vencido pelo medo, o cientista Galileu Galilei  declarou dia 22 de junho de 1633 que estava errado e alterou radicalmente a sua posição como cientista. 
Fazendo o que os seus perseguidores queriam, ele afirmou solenemente que, na verdade, a Terra estava fixa, imóvel, no meio do Universo em movimento.
O Sol e os demais planetas e estrelas é que giravam em torno da Terra. 
Assim havia sido decidido e estabelecido, em nome de Deus e das Sagradas Escrituras, pelos teólogos da Igreja e do Vaticano. E eles o torturariam interminavelmente por todos os meios possíveis, antes de assassiná-lo,  a menos que ele dissesse de público tais mentiras. 
Durante anos, Galileu e os copernicanos haviam defendido a tese científica segundo a qual a Terra girava em torno do Sol.[1] Por causa disso, Galileu foi acusado de heresia no ano de 1612. Em 1615, foi denunciado ao Santo Ofício. Só duas décadas depois, no dia 22 de junho de 1633, os  representantes de Deus na Terra finalmente condenaram Galileu.
E anunciaram:
“Dizemos, pronunciamos, sentenciamos e declaramos que tu, o referido Galileu, pelas coisas aduzidas em processo e por ti confessadas como referidas acima, te tornaste para este Santo Ofício veementemente suspeito de heresia, isto é, de haver mantido e crido em doutrina falsa e contrária às sagradas e divinas escrituras, que o Sol seja o centro da Terra e que não se mova do Oriente para o Ocidente, ao passo que a Terra se mova e não esteja no centro do universo (....). E, consequentemente, estás incurso em todas as censuras e penas dos cânones sagrados e outras constituições gerais e particulares impostas e promulgadas contra semelhantes delinquentes. E pelas quais nos contentaremos se, em termos absolutos, mais que antes, com coração sincero e fé não fingida, diante de nós, abjures, maldigas, detestes os referidos erros e heresias, bem como qualquer outro erro e heresia contrários à Igreja católica e apostólica, do modo e na forma que por nós te serão dados (.....).”
Ao contrário de Giordano Bruno e outros perseguidos pela igreja,  Galileu não tinha vontade de resistir diante da arrogância dos cardeais. Sobretudo, não quis morrer enfrentando os sofisticados instrumentos de tortura física desenvolvidos pela tecnologia do terror que o Vaticano usava. 
Galileu optou pela humilhação, e decidiu reconhecer que os sacerdotes e torturadores sabiam mais do que ele de matemática e astronomia. Desta maneira, ao invés de ser assassinado, ele conseguiu passar o resto da vida em prisão domiciliar. No mesmo dia 22 de junho, como exigiam os cardeais, pronunciou oficialmente estas palavras:
“Eu, Galileu, filho daquele Vicente Galileu de Florença, nesta minha idade de setenta anos, constituído pessoalmente em juízo e ajoelhado diante de vós, Eminentíssimos e Reverendíssimos Cardeais, Inquisidores gerais em toda a República Cristã contra a herética maldade, e tendo diante de meus olhos os sacrossantos Evangelhos, que toco com as próprias mãos, juro que sempre acreditei, acredito agora e, com a ajuda de Deus, acreditarei também no futuro em tudo aquilo que a Santa Igreja católica e apostólica mantém, prega e ensina (....). Portanto, querendo eu retirar das mentes das Eminências Reverendíssimas e de todo fiel cristão esta veemente suspeição, justamente concebida em relação a mim, com coração sincero e fé não fingida, abjuro, maldigo e detesto os referidos erros e heresias e, em geral, todo e qualquer outro erro, heresia e seita contrárias à santa Igreja. E juro que, para o futuro, nunca mais direi ou afirmarei, por voz ou por escrito, coisas tais pelas quais se possa ter de mim semelhante suspeita.” 
Para completar sua aparente derrota, Galileu deixa de lado toda dignidade e compromete-se, no plano verbal, a denunciar aos criminosos do Vaticano qualquer “herético” que viesse a conhecer. 
Afirma:
“E, se conhecer algum herético ou suspeito de heresia, o denunciarei a este Santo Oficio, ao Inquisidor ou Ordinário do local onde me encontrar (.....).” [2] 
A História mostra que a violência intelectual contra Galileu não constitui um fato isolado. É  um exemplo entre milhões. Foi sobre a base da coação, da tortura e do assassinato, que se ergueu o poder do cristianismo imperial. Além disso, é possível que a coação não tenha sido apenas verbal.
No seu ensaio sobre o processo de Galileu, o filósofo francês Ernest Renan defende a tese de que o cientista pode ter sido torturado fisicamente pelos assassinos do clero católico, e que talvez só depois disso ele tenha concordado em afirmar que o Sol gira em torno da Terra.
Renan destaca o fato de que, no início do século 19, desapareceu uma parte significativa do processo de julgamento de Galileu no Vaticano, onde poderiam estar o registro e a documentação das torturas físicas. [3]
Passadas centenas de anos, no século 21 a ciência ainda não recuperou sua dignidade. Embora apresente-se como proprietária “neutra” e “objetiva” do conhecimento, continua funcionando majoritariamente a serviço do dinheiro, do poder político e dos fabricantes de armas. Com razão Blaise Pascal (1623-1662), contemporâneo de Galileu, escreveu estas palavras:
“A verdade é tão obscura nestes tempos - e a falsidade está tão estabelecida - que, a menos que amemos a verdade, não podemos conhecê-la.” [4]
Quando os cientistas fingem que não veem a impossibilidade de que haja um deus monoteísta comandando casuisticamente o universo; quando os historiadores se calam diante da óbvia inexistência histórica de um Jesus tal como descrito no Novo Testamento; e quando a Psicologia  (exceto na obra de Freud) faz de conta que não conhece os desastres psicológicos e psicossociais causados pela crença fanática em um deus monoteísta, percebemos que a verdadeira Ciência, a busca da Verdade,  anda longe do atual academicismo.
A Academia de hoje teme dizer a verdade - e teme ainda mais contrariar os seus financiadores.

Os exemplos do fracasso ético da ciência são numerosos e variados. Salvo exceções, a comunidade científica deixou que a influência política dos grandes grupos econômicos impedisse, até a primeira metade do século 21, uma ação mais forte pela preservação do meio ambiente.  Ignorando sua  responsabilidade moral, os cientistas pouco ou nada têm feito para interromper a proliferação atômica.
A autolimitação da ciência, quando se trata de questionar o poder eclesiástico ou a influência dos interesses políticos e econômicos de curto prazo, frequentemente  reduz os pesquisadores científicos a uma condição mental medíocre, em que, mais que buscar a verdade, buscam financiamento. Inclusive nas universidades.
Cresce lentamente o número dos cientistas dignos, que optam por um projeto de vida correto e humanista.
O sofrimento moral e físico de Galileu Galilei, de Giordano Bruno, do pensador luso-brasileiro Antônio Vieira e de outros milhares de vítimas do Vaticano merece a solidariedade de todos, e traz uma lição prática difícil para os tempos atuais.
É necessário resistir ao autoritarismo e à coação no plano do pensamento: inclusive à coação econômica, feita no mundo atual através de financiamentos - e à coação política.  
Cabe colocar todo e qualquer conhecimento a serviço de metas adequadas, e não da falsidade. O verdadeiro cientista não trabalha para a manutenção de fraudes ou injustiças. É dever da ciência evitar o mau uso do conhecimento, fazendo com que todo saber seja compatível com o fortalecimento da alma, da justiça e do respeito à vida.

NOTAS:

[1] A informação vem do mundo antigo e pertence à tradição pitagórica. Veja, por exemplo, “Cartas dos Mahatmas”, Editora Teosófica, Brasília, 2001, Carta 93B, volume II, p. 115, inclusive a nota de rodapé.
[2] “História da Filosofia”, Giovanni Reale e Dario Antiseri, Ed. Paulus, SP, 1990, edição em dois volumes, ver volume II,  pp.  248-290, e mais especialmente pp. 273-274. 
[3] “Nouvelles Études D’Histoire Religieuse”, Ernest Renan, Calmann-Lévy, Éditeurs, Paris, 1884, 533 páginas.  Ver o ensaio “Un Mot Sur le Procès de Galilée”, pp. 443-452, mais especialmente pp. 445-446.    
[4] “Pascal”, um volume da coleção “Great Books of the Western World”, Encyclopaedia Britannica, Inc., London, 1952, 487 pp., ver p.  343. O pensamento citado faz parte de “Appendix - Polemical Fragments”.   
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Uma versão inicial do artigo acima faz parte da edição de junho de 2009 de “O Teosofista”, onde não há indicação do nome do autor. O texto foi publicado nos websites associados dia 11 de junho de 2019.
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Clique para ver o artigo “Como Usamos o Conhecimento”.
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5 de junho de 2019

Ideias ao Longo do Caminho - 24

Quando o Peregrino Tem Um Objetivo
Claro, Suas Diversas Atividades São Coerentes   

Carlos Cardoso Aveline




* Silenciando em sintonia com a alma, alcançamos uma paz ilimitada.

* Trabalho intenso e autorresponsabilidade levam a uma plenitude pessoal. A preguiça, por sua vez, está associada a uma falta de vigilância e produz perigo. O fato pode ser observado tanto no carma individual como no carma coletivo. Em sociedades governadas pelos princípios do Amor à Preguiça e da Adoração do Conforto surge uma cegueira ética cujo resultado é desastroso.

* Há muitos tipos de silêncio. Nosso melhor conselheiro é o silêncio que flui do centro de paz em nossa consciência. Neste lugar não-espacial há um eixo de simetria, e ele nos conecta com a bênção da justiça universal, que é absoluto equilíbrio.

* Aquele que tenta ajudar as estrelas a iluminar a noite humana aprende lições valiosas na arte de enxergar a sua própria insignificância pessoal.

* O silêncio contém a potencialidade de todos os sons. Uma página em branco pode ser vista como um símbolo do nível não-verbal dos ensinamentos. E quando um peregrino aprende a ser nada, ele nasce para um nível mais silencioso e amplo da realidade.

* Dentro dos limites do eu inferior não há espaço para a felicidade. Aquele que pretende sair da prisão estreita do eu “pessoal” deve trilhar o caminho que leva ao horizonte largo do altruísmo. O contentamento incondicional é a primeira indicação de que a nossa Vontade é maior que o desejo. Esse é o bom caminho. A ação impensada provoca dor, enquanto o pensamento correto e a vontade bem orientada nos libertam.

* Aqueles que temem olhar verdades desagradáveis, individuais ou coletivas, estão paralisados pelo medo da Vida e da mudança. É confrontando honestamente a derrota que o peregrino pode vencer. Ao ver os erros, ele os corrige. Compreendendo o sofrimento, eliminamos as suas causas. E é quando aceitamos completamente as circunstâncias que nos tornamos capazes de transcendê-las, e de alterá-las para melhor.

* Desapego significa um sentido de independência em relação às circunstâncias. A alma experiente não se define por acontecimentos superficiais. A moderação surge do conhecimento de que as coisas importantes na vida transcendem cenários de curto prazo. Assim se fortalece uma capacidade de esperar pelo tempo certo e uma paz incondicional passa a proteger-nos da ansiedade e outras formas de cegueira. O desapego permite ter discernimento e enxergar o rumo correto a seguir.

* Esforço e descanso fazem juntos um ciclo completo. A existência altruísta inclui a necessidade de calma. Assim como no ciclo das reencarnações, cada aspecto da vida combina Yin e Yang, contração e expansão, sístole e diástole, ação - e repouso. O esforço correto corresponde à pausa adequada. Se nossa ação é eficiente, temos direito a uma tranquilidade, de acordo com a lei do carma.

* Um sentido interno de dever guia o estudante de filosofia esotérica e faz com que ele questione em mais de um aspecto a ignorância socialmente organizada a seu redor. Em resposta ao seu desafio, a vida e o carma irão bondosamente mandar para ele várias ondas de provações. Um grande número de acontecimentos testará a firmeza da sua decisão de fazer o melhor possível. As situações difíceis se alternarão com os momentos de quietude abençoada. Gradualmente ele compreenderá que os desafios têm vida curta e passam, enquanto as bênçãos - embora breves no tempo cronológico - contêm em si a essência da eternidade.

* Aquele que obtém um vislumbre de ciclos maiores de tempo não vê problema algum na ideia de estudar teosofia durante cinco décadas, com resultados modestos. Ele sabe em primeira mão que o aprendizado da alma é invisível, e que seria desastroso ficar entusiasmado com o seu próprio progresso. Ele também conhece o fato de que cada minuto conta e todo novo pensamento faz a diferença.

* A ideia de uma autodisciplina diária implica a criação e o fortalecimento de hábitos corretos. Ter autodisciplina significa renunciar a ideias espetaculares e seguir noções equilibradas. Ações aparentemente desimportantes são com frequência as mais corretas. Expressões invisíveis de amabilidade costumam ser as mais sinceras. Os heróis anônimos estão entre os maiores: é preciso esquecer o eu inferior, até certo ponto, para poder lembrar da alma espiritual.

* A formação de novos e melhores hábitos nos vários aspectos da vida requer um esforço regular que parece ser pouco agradável. No entanto, os resultados deste empreendimento são multidimensionais. Ele produz força moral, capacidade de renunciar, e moderação.

* “Simples” não é a mesma coisa que “fácil”. A simplicidade externa envolve complexidade interna. Por esse motivo a ação mais simples é com frequência a mais profunda e a mais eficaz. Raramente é a mais fácil. A Raja Ioga nos dá um exemplo disso. A sistemática substituição de ações erradas por ações corretas, e de pensamentos errados pelos seus opostos[1], pode mudar rapidamente o Carma para melhor na vida de qualquer pessoa.

* Pode haver um sentido de organização que corresponda ao mero hábito, à rotina e ao apego à forma. Tais coisas não têm interesse desde um ponto de vista teosófico. É o sentido de unidade de todos os aspectos do mundo que produz, em filosofia esotérica, uma harmonia natural entre diferentes fatores.

* O peregrino só pode tomar decisões corretas, na sua pequena caminhada de cada dia, depois de haver definido com firmeza a meta da sua viagem de longo prazo.

* É quando o peregrino tem um objetivo claro que suas diversas atividades passam a ser coerentes. Então a ordem se torna parte do método, o progresso fica mais fácil e um ritmo estável é estabelecido. Ao mesmo tempo, o indivíduo está preparado para mudanças súbitas quando elas forem necessárias.

NOTA:

[1] Ioga Sutras, Livro II, aforismos 33-34.

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Ideias ao Longo do Caminho - 24” foi publicado como artigo independente em 05 de junho de 2019. Uma versão inicial e anônima dele faz parte da edição de agosto de 2016 de “O Teosofista”, pp. 15-16.

Embora o título “Ideias ao Longo do Caminho” corresponda ao título em língua inglesa “Thoughts Along the Road”, do mesmo autor, não há uma identidade exata entre os conteúdos das duas coletâneas de pensamentos.

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3 de junho de 2019

O Movimento e o Repouso

A Dinâmica de um Paradoxo Eterno  

Gilmar Gonzaga




Os estudantes da Filosofia Esotérica se deparam inexoravelmente com os problemas e dificuldades conhecidos como paradoxos.

Essas situações aparentemente sem solução surgem no caminho dos estudantes com o propósito de estimular o desenvolvimento de uma visão mais completa e integrada da realidade. Elas induzem à transcendência do pensamento linear e do raciocínio polarizado e classificatório.

Sobre os inevitáveis paradoxos que resguardam o verdadeiro conhecimento, Helena P. Blavatsky escreveu:

O paradoxo parece ser a linguagem natural do Ocultismo. Mais do que isso, ele parece penetrar profundamente no coração das coisas, e assim parece ser inseparável de qualquer tentativa de colocar em palavras a verdade, a realidade que está na base das aparências externas da vida.

E o paradoxo acontece não somente nas palavras, mas na ação, na própria conduta da vida. Os paradoxos do ocultismo devem ser vividos, não falados apenas. Aqui reside um grande perigo, porque é muito fácil perder-se na contemplação intelectual do caminho, e assim esquecer-se de que a estrada só pode ser conhecida quando se caminha por ela.” [1]

Um paradoxo central a ser elucidado ou transcendido pelos aspirantes à sabedoria está presente na citação a seguir, extraída dos ensinamentos da tradição cristã “primitiva” ou “gnóstica”:

50 - Disse Jesus: Se os homens vos perguntarem donde viestes, respondei-lhes: Nós viemos da luz, lá onde ela nasce de si mesma, surge e se manifesta em sua imagem. E se vos perguntarem: Quem sois vós? Respondei-lhes: Nós somos os filhos eleitos do Pai vivo.
Se os homens vos perguntarem: Qual é o sinal do Pai em vós? Respondei: É movimento e repouso ao mesmo tempo.” [2]

As “chaves de interpretação” têm sido uma ferramenta utilizada pelos instrutores para abertura gradual dos símbolos sob os quais foi protegido o conhecimento sagrado ao longo das eras.

Uma instrução enigmática aparece entre os ditos iniciais do mesmo pergaminho (códex) onde foi escrita a citação anterior:

5 - Disse Jesus: Conhece o que está ante os teus olhos - e o que te é oculto te será revelado; porque nada é oculto que não seja manifestado.[3]

A tradição hermética, conhecida pela proteção e ao mesmo tempo pela transmissão do conhecimento sagrado, fornece pistas para o entendimento do essencial, a partir da correspondência ou analogia em relação ao aparente. No escrito hermético denominado “A Tábua de Esmeralda”, podemos ler:

O que está abaixo é como aquilo que está acima, e o que está acima é semelhante a aquilo que está abaixo, para realizar os prodígios da coisa única.

Assim como todas as coisas foram produzidas pela mediação de um ser, assim também todas as coisas foram produzidas a partir deste ser por adaptação.” [4]

Na coletânea de textos intitulada “Corpus Hermeticum”, encontramos a seguinte afirmação:

Todo o universo depende de um único Princípio, e esse Princípio depende do UM-Único. O Princípio está em movimento a fim de tornar-se princípio, enquanto que o Um, somente, permanece imóvel e estável.” [5]

A Teosofia ensina que, por meio do estudo da Doutrina dos Ciclos, podemos perceber os aspectos da integralidade e da sucessão dos períodos de movimento e repouso, manifestação e recolhimento, ação e inação.

Para se alcançar a visão integrada desses pares de opostos, os paradoxos “devem ser vividos”, conforme ensinou HPB. No conhecido tratado sobre Ioga denominado “Bhagavad Gita”, ensina-se:

16. Poderás dizer que, às vezes, até os sábios não podem definir o que é a ação e o que é a inação. Eu te explicarei, e te ensinarei em que consiste a ação que te libertará do mal e te tornará livre.

17. É preciso distinguir estas três coisas: ação (isto é, reta ação), inação (ou abstenção) e má ação. É difícil discernir-se o caminho da ação.

18. Quem se adiantou de tal maneira, que é capaz de ver ação na inação, e inação na ação, pertence aos sábios de sua raça, e permanece em harmonia enquanto pratica ações.

19. As suas obras são livres dos vínculos de esperanças egoístas, e sua atividade é purificada das espumas dos desejos, pela chama da sabedoria. Tal homem merece o nome de Sábio.

20. Tendo renunciado aos frutos das suas ações, está sempre contente e confia na força divina do seu interior, e assim está em inação, ainda que trabalhe, porque não age para a sua pessoa, mas deixa agir por si a força Divina.[6]

Essa ideia paradoxal da ação na inação também pode ser encontrada na tradição taoista, e é expressa através do conceito de “wu-wei”.

Carlos Aveline aborda o tema:  

Em seu famoso artigo ‘Ocultismo Prático’ (‘Practical Occultism’), Helena Blavatsky descreve o caminho da sabedoria como ‘o caminho que leva ao conhecimento do que é bom fazer, assim como ao discernimento correto do bem e do mal; um caminho que também leva o ser humano àquele poder através do qual ele pode fazer o bem que deseja, com frequência sem aparentemente mexer um só dedo’. Este princípio da sabedoria esotérica corresponde ao conceito taoista do ‘wu-wei’, agir sem agir.” [7]

No que concerne ao aspecto “movimento”, inerente à fase manifestada do universo, o Budismo enfatiza a impermanência das coisas e a filosofia da Ioga adotada por Patañjali demonstra como a mente presente na individualidade humana permanece condicionada ao identificar-se com aquilo que está sempre em movimento ou mutação.

Um possível exercício experimental para o processo de autoconhecimento, de autodesenvolvimento e de autolibertação consiste em olhar para o mundo material e perceber as formas manifestadas como impermanentes, ao mesmo tempo em que funcionam como revestimentos do permanente ou essencial, sendo necessárias às experiências evolutivas nos diversos planos de manifestação.

Essa percepção pode auxiliar o peregrino no seu trabalho de “autocalibragem”, que contribui para o equilíbrio interno, minimizando a oscilação da mente perante a maré dos acontecimentos, enquanto o indivíduo continua imerso nela. A frase “estar no mundo sem ser do mundo” descreve a conquista.

A vivência da auto-observação e da observação do “que está diante dos olhos” fortalece o discernimento e possibilita a gradual percepção do permanente no impermanente, ou, da união na multiplicidade.

Uma confirmação desta abordagem pode ser obtida tomando-se como premissa o axioma: tudo que é manifestado é impermanente.

Tendo essa verdade em mente, um simples olhar para os registros históricos nos permite afirmar que o que vemos hoje não é o que foi visto há um século.

A partir disso é possível inferir que o que se vê hoje não é o que será visto daqui a mil anos. Mas existe nesse singelo exemplo algo que não muda. Trata-se da verdade com base na qual afirma-se que “tudo que é manifestado é impermanente”. A verdade ou lei que estamos examinando pode ser proclamada daqui a mil anos ou mais, assim como vem sendo afirmada há milênios. A mera aceitação dela representa um ponto de partida para a senda do desapego e um passo para a autolibertação.

A dinâmica que caracteriza o axioma se desdobra de tal forma nos acontecimentos diários que a percepção apurada e o discernimento desenvolvido permitem a sua identificação no mundo cotidiano, e podem funcionar como excelentes balizadores em nossos processos de autodisciplina.

Pela leitura dos trechos do Wen-tzu transcritos a seguir podemos perceber a eterna dança do permanente com o impermanente, do movimento com o repouso, e essa percepção pode ser estendida à nossa experiência na vida diária:

As pessoas verdadeiras sabem de que modo considerar o ser interior como grande e o mundo como pequeno. Elas preferem o autogoverno e desprezam o ato de governar os outros. Elas não deixam que as coisas perturbem a sua harmonia, e não permitem que desejos desorganizem os seus sentimentos.”

Endireite seu corpo, unifique sua visão, e a harmonia do céu chegará. Concentre seu conhecimento, corrija sua capacidade de avaliar, e o espírito virá para ficar. A virtude será receptiva para você, o Caminho estará à sua disposição.”

(...) “Os sábios não substituem o que é celestial pelo que é humano. Externamente eles evoluem junto com as coisas, porém, internamente eles não perdem sua verdadeira condição. Assim, aqueles que compreendem o Caminho retornam à clara tranquilidade. Aqueles que compreendem as coisas se afastam dos artifícios. Eles alimentam a inteligência através da calma, unificam o espírito através da abstração e avançam para o portão do nada.”

Portanto a nobreza deve estar enraizada na humildade, o que é elevado deve estar baseado no que é inferior. Use o pequeno para conter o grande, permaneça no centro para controlar o externo. Comporte-se com flexibilidade, mas seja firme, e não haverá poder que você não possa vencer, nenhum inimigo acima do qual você não possa erguer-se. Responda aos fatos novos, avalie o momento, e ninguém poderá prejudicá-lo.

Aqueles que quiserem ser firmes devem preservar a firmeza com flexibilidade; aqueles que quiserem ser fortes devem proteger a força com fraqueza. Acumule flexibilidade e você será firme, acumule fraqueza e você será forte. Observe o que os outros acumulam e você saberá quem sobreviverá e quem perecerá.

(...) “A nobreza deve estar enraizada na humildade, o que é elevado deve estar baseado no que é inferior. Use o pequeno para conter o grande, permaneça no centro para controlar o externo. Comporte-se com flexibilidade, mas seja firme” (...) [8]

A devida associação com as emanações do mundo espiritual (Céu) permite-nos lidar de modo harmônico com as emanações mais densas da materialidade transitória que nos reveste (Terra). Assim se expande a colaboração entre as instâncias inferiores e superiores - externas e internas - no processo de desenvolvimento que nos integra.

As Tradições apontam o Caminho, mas sempre é importante enfatizar:

(...) “As palavras são na verdade humildes veículos de transmissão da verdadeira mensagem, e agarrar-se excessivamente às palavras anulará o fluxo interno da percepção viva. A própria Vida é a mensagem a ser decifrada.” [9]

NOTAS:

[1] Do texto “O Grande Paradoxo”, de Helena P. Blavatsky.

[2] Excerto do livro “O Quinto Evangelho”, de Huberto Rohden, p. 99, Editora Martin Claret, 190 pp. A tradução adotada foi comparada com outras três versões do texto denominado “O Evangelho de Tomé” e somente nesta aparece a expressão “ao mesmo tempo” ao final do dito 50. Não obstante, considerei que nas outras versões essa expressão está implícita.

[3] Do livro “O Quinto Evangelho”, de Huberto Rohden, p. 22.

[4] Do artigo “A Tábua de Esmeralda”, de Carlos Cardoso Aveline.

[5] Do livro “Corpus Hermeticum - Discurso de Iniciação”, Hermes Trismegistos, p. 48, Hemus Editora, SP, 127 páginas.

[6] Do livro “Bhagavad Gita - A Mensagem do Mestre”, p. 59, Editora Pensamento, SP, 178 páginas.

[7] Nota de rodapé de Carlos Aveline ao capítulo 3 do Tao Teh Ching. Veja a página 9 de “O Teosofista” de maio de 2018.

[8] Do texto “Trechos do Wen-tzu”, traduzidos por Thomas Cleary.

[9] Do artigo “Uma Escola Esotérica de Três Mil Anos”, de Carlos Cardoso Aveline.

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O texto “O Movimento e o Repouso” foi publicado nos websites associados dia 03 de junho de 2019.

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