26 de setembro de 2018

A Pequena Luz Azul

Um Conto Clássico Sobre a
Importância de Respeitar a Verdade

Malba Tahan

“Nunca se vira tanta luz azul!”



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Nota Editorial de 2018:

O conto “A Pequena Luz Azul” deixa clara
a necessidade de cidadãos éticos, para que haja
honestidade entre os que governam um país.

Ambientada no Hedjaz, região da atual
Arábia Saudita, a história traz um alerta válido
para todos os povos. Ela mostra que o futuro
de uma nação é determinado pela força moral
dos seus integrantes. O mesmo ocorre em relação
ao futuro de qualquer agrupamento humano,
de cada núcleo familiar e associação teosófica.

“Malba Tahan” é o nome literário do professor
Júlio César de Mello e Souza (1895-1974).
Suas obras abrem caminho para a ética universal
e a sabedoria inter-religiosa no mundo lusófono.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Certa manhã, depois da prece matinal, o poderoso sultão El-Khamir, rei do Hedjaz, mandou vir à sua presença o prefeito da cidade.

- Prefeito - disse o rei - esta noite, levantando-me casualmente às dez horas, cheguei à janela e avistei ao longe, no meio da escuridão da cidade, uma pequena luz azul, muito viva e brilhante. Estou intrigado com esse caso e desejo vivamente saber quem passou a noite a velar. Ordeno-lhe que abra rigoroso inquérito a fim de apurar a razão dessa vigília.

- Obedeço a Vossa Majestade! - respondeu o prefeito de Jidda, inclinando-se respeitosamente. - Parece-me, porém, inútil esse inquérito! Cumpre-me dizer que aquela luz provinha do oratório da minha casa!

E, diante do espanto indisfarçável do rei, ele ajuntou, modesto, infletindo a cabeça para o peito:

- Eu e minha família passamos a noite em orações, pedindo a Deus Onipotente pela preciosa saúde de Vossa Majestade!

- Obrigado, meu bom amigo - tornou o monarca sinceramente comovido - em muito tenho sua amizade e dedicação!

E acrescentou, solene, com voz sonora e cheia:

- Saberei corresponder aos cuidados que lhe mereço.

Retirando-se o prefeito, mandou o rei chamar o seu grão-vizir Moallin, que acumulava na corte do sultão as elevadas funções de ministro e secretário.

- Meu caro ministro - declarou o rei - resolvi recompensar com mil dinares de ouro o prefeito desta formosa cidade de Jidda!

- Mil dinares de ouro! Por Allah! É muito dinheiro! - atalhou logo o grão-vizir, esgazeando os olhos, tomado de vivo espanto.  - Que teria feito o governador da cidade para merecer tão grande mercê?

- Praticou uma ação nobre e sublime - justificou o soberano.

E narrou com a maior simplicidade o caso da luz, rematando-o com a extraordinária confissão que lhe fizera pouco antes o prefeito.

- Permita-me ponderar - proferiu o ministro - que Vossa Majestade está sendo iludido por esse homem indigno. O prefeito, segundo posso provar, não tem família e só sabe orar nas mesquitas quando a isso é obrigado. Vive miseravelmente, como um avarento, em um sórdido casebre para além do bairro judeu!

- Mas… e a pequena luz azul - insistiu o rei - de onde então, provinha ela?

- Vejo-me obrigado, ó Rei generoso! a confessar a verdade - contraveio o ministro com humildade. - Essa pequena luz azul que feriu os augustos olhos de Vossa Majestade era a lâmpada de azeite que ilumina a minha sala de estudos. Passei a noite acordado cogitando acerca dos graves problemas e das múltiplas questões que Vossa Majestade deve resolver na audiência de hoje! Juro pelo Alcorão que é essa a verdade!

- Grande e esforçado amigo! - tornou, radioso, o ingênuo monarca, abraçando o ministro. - Como admiro esse seu amor ao cumprimento do dever!

E, jubiloso, disse-lhe:

- Palavra de Rei, ó Moallin! Tereis brevemente uma recompensa digna da vossa dedicação!

Mal se retirara o ministro, mandou o rei chamar o general Muhiddin, chefe das tropas muçulmanas do Hedjaz, e contou-lhe que estava resolvido a conceder o título de xeique de Lohéia [1] ao seu digno ministro Moallin; o general deveria destacar, portanto, um corpo de quinhentos soldados que ficariam permanentemente à disposição do novo dignitário do Hedjaz.

E o bom monarca, sem nada ocultar, contou ao general a história da luz azul e a dedicação do bom ministro.

- E Vossa Majestade acreditou nas falsas palavras de Moallin? - estranhou o general, tomado de indizível admiração. - Peço especial permissão para provar que esse audacioso vizir, esquecendo o respeito que deve a nosso glorioso sultão, mentiu como um infiel!

Mentira o prefeito! Mentira também o ministro! Como poderia ele, o rei, apurar a verdade sobre o caso? Como descobrir o mistério da luzinha azul?

- Era minha intenção, ó Rei Afortunado! - confessou, modesto, o general, ocultar a verdade. - Vejo-me agora, porém, obrigado a revelá-la. A pequenina luz que durante a noite passada atraiu a atenção de Vossa Majestade provinha apenas da minha tenda de campanha!

- Da sua tenda, general! - clamou, admirativamente, o soberano árabe, mais uma vez surpreendido.

E o general não hesitou em dar terceira versão ao caso. Os boatos de um provável levante revolucionário, de algumas tribos do interior, haviam-no alarmado. Com receio de que os beduínos e seus aliados revoltosos, durante a noite, viessem atacar o palácio real, ficara ele, para maior garantia da vida do rei, acampado nas cercanias da cidade, com algumas forças de sua absoluta confiança.

Por Deus! Que valentia! Que heroísmo! O poderoso sultão não sabia como agradecer ao chefe de suas tropas aquele serviço extraordinário, aquele zelo tão grande pela Ordem e pelo Trono!

- Que farei? - cogitava ele depois que o general se despedira. - Vou conceder-lhe o título excepcional de príncipe de Hedjaz e uma pensão anual de vinte mil dinares! Não… Ele merece muito mais ainda - salvou-me a vida… a coroa…

Depois de muito refletir, e como não chegasse a uma conclusão satisfatória, o pávido monarca resolveu consultar o judicioso ulemá Ali-Effendi, seu velho mestre e conselheiro.

- Na minha fraca opinião - ponderou o sábio muçulmano - Vossa Majestade não deve acreditar nem no prefeito, nem no ministro, nem no general. Quero crer que a tal luz provinha do novo farol de El-Basin, que indica aos navegantes a entrada do porto, assegurando-lhes o bom caminho em noites de tormenta.

O rei alçou para o sábio os olhos surpresos.

- Era, então, a luz do farol! - exclamou.

O prudente ulemá aconselhou-o a que verificasse, naquela mesma noite, quem falava a verdade.

E assim, três horas depois da última prece, quando já bem adiantada ia a noite, ergueu-se o sultão El-Khamir do régio leito, chegou à varanda e estendeu o olhar sobre o panorama da cidade, que lhe dormia aos pés. Surpresa estranha o aguardava: como já era conhecida de todos a notícia das prometidas recompensas, a cidade surgia, naquela noite, extraordinariamente iluminada. Nunca se vira tanta luz azul! Eram milhares de lâmpadas, lanternas e lampiões! Queriam todos agradar ao poderoso soberano; a casa do ministro parecia até o serralho de um califa [2] em noite de festa do Ramadã!

E o crédulo rei do Hedjaz compreendeu, então, que, em seu rico e glorioso país, para cada súdito honesto e dedicado havia um milhão de mentirosos e bajuladores.

NOTAS:

[1] Xeique: palavra árabe que significa chefe, líder - entre outras acepções, entre as quais está “ancião”. É também um título honroso. (CCA)

[2] Serralho: o palácio de um sultão. (CCA)

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O conto acima é reproduzido do livro “Maktub!”, de Malba Tahan, 11ª Edição, 1964, Ed. Conquista, Rio de Janeiro, 220 pp., ver pp. 5 a 10. Título original: “A Pequenina Luz Azul”. A ortografia foi atualizada. A imagem que ilustra o conto em nossos websites associados é a mesma do livro. A publicação online ocorreu dia 26 de setembro de 2018. 

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21 de setembro de 2018

Vídeo: Rascunho de uma Oração

A Harmonia do Eterno com o Intermitente

Loja Independente de Teosofistas




Um vídeo de 4 minutos e 50 segundos. Clique para vê-lo:



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Veja em nossos websites o texto completo que é a fonte deste vídeo: “Rascunho de uma Oração”. Escute o áudio do mesmo texto clicando AQUI.

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19 de setembro de 2018

A Fonte da Ética na Política

Como Abrir Caminho Para
Uma Primavera da Fraternidade

Carlos Cardoso Aveline

Sigmund Freud e Helena Blavatsky



É inegável a responsabilidade cármica dos administradores públicos que deixam de lado a ética, usando mecanismos de poder coletivo para iludir e manipular os povos. 

A lei do carma não abre exceções. Quanto maior o poder, maior a responsabilidade. Um raja-iogue dos Himalaias escreveu:

“...Para nós um lustrador de botas honesto é tão bom quanto um rei honesto, e um varredor de ruas imoral é muito melhor e mais desculpável do que um imperador imoral”. [1]

Nenhum detentor de poder político, econômico ou “espiritual” está acima da lei do carma. A seu tempo, todos colhem os resultados de suas ações, certas e erradas.

Porém, os dirigentes públicos desonestos não são os únicos responsáveis pelos abusos que cometem. Todos os aspectos da vida se interrelacionam. Não é suficiente combater exclusivamente este ou aquele indivíduo desonesto. Devemos examinar as premissas das quais os “Irmãos Metralha” partem, e ver quem as produziu.

O problema inclui uma dimensão cultural. A desonestidade tem uma causa. A sua fonte está em uma visão falsa da felicidade como se ela fosse produzida meramente pela posse de dinheiro e pelo poder egoísta. A origem da desonestidade está também na ideia de que o ser humano não tem acesso próprio à sabedoria nem à felicidade interior e eterna.    

Há 15 séculos a teologia do Vaticano insiste em descrever o ser humano como um “pecador” que só pode ser salvo por alguma força externa e graças a uma crença cega, mas não por mérito próprio. Cria-se então a farsa do clientelismo divino: a crença em que Deus salvará como um favor pessoal aqueles que obedecerem cegamente a um clero interessado no dinheiro dos fiéis. Este cristianismo falso está hoje desmascarado e vai destruindo a si mesmo, primeiro no plano moral.  

Na mesma linha, desde o século 20, as correntes dominantes da Psicologia descrevem o indivíduo humano como um ser manipulável, sem alma, escravo dos seus instintos, e completamente controlável através de estímulos deste ou daquele tipo. O behaviorismo é a principal destas correntes, e alimenta os mecanismos de marketing e propaganda dominantes na mídia, assim como no mundo político e econômico.

A Psicologia autêntica pretende descrever a natureza interior do ser humano. Ela valoriza os laços humanos profundos. A psicologia convencional, por outro lado, transformou-se em grande parte numa pseudociência mercantil que ignora tanto a existência da alma como a necessidade cármica da honestidade.

O pensador judeu Sigmund Freud formulou uma psicologia ética e profunda, embora impotente diante das forças destrutivas de seu tempo.

Carl G. Jung, por sua vez, teve proximidade com o nazismo e distorceu as descobertas de Freud, levando-as para um território destituído de respeito pela vida.

Quando um psicólogo se apresenta como conhecedor do ser humano e ao mesmo tempo ignora a Ética, inventando meios para manipular as pessoas, está na verdade praticando Magia antievolutiva. No tempo certo, o Carma destruirá as ilusões egocêntricas construídas por tais pseudocientistas.

Os “especialistas da consciência humana” que buscam obter dinheiro de modo egoísta definem implicitamente o cidadão como um ser menor, tão instintivo como os ratos. Veem-no como controlável por um sistema sutilmente autoritário de estímulos e desestímulos dirigidos ao nível involuntário da sua consciência e fabricados pela indústria da propaganda.

Entre as consequências desta falsa visão do processo humano está o surgimento de várias gerações de cidadãos egoístas e de políticos antiéticos. A popularização do consumo de drogas e álcool - estimulada por uma certa elite - é uma forma de inutilizar a juventude, de roubar o discernimento dos cidadãos e boicotar o poder humano de renovar a vida.

A corrupção na política é, portanto, apenas a ponta do iceberg. O mundo das instituições reflete o que vai na mídia e em outros setores da sociedade.

Combatendo a Fonte da Desinformação

Para a filosofia esotérica a ação desonesta deve ser compreendida em suas causas.

A vida se desdobra assim no céu como na terra. A ignorância ocorre tanto no plano do materialismo como na esfera religiosa. Há uma semelhança profunda, portanto, entre a psicologia superficial, que busca a mera adaptação do indivíduo à ignorância coletiva organizada, e a teologia dogmática, que visa dominar as mentes dos seus fiéis reduzindo-as à obediência cega. Ambas tratam o ser humano como simples coisa e como animal instintivo.

O pensamento científico mercantilizado possui pontos fundamentais em comum com as igrejas dogmáticas.

Enquanto a religiosidade superficial define o ser humano como alguém irresponsável, nascido para obedecer cegamente, as escolas de pensamento “científico” que obedecem a interesses monetários descrevem o cidadão como alguém igualmente irresponsável, que pode ser manipulado completamente por mídia, propaganda e promessas de “líderes carismáticos”.

Nos meios chamados “esotéricos”, os seguidores de Carl G. Jung, Annie Besant, Jiddu Krishnamurti e outros preparam o caminho da irresponsabilidade fazendo de conta que a lei do carma pode ser esquecida, e sugerindo que a opção entre sinceridade e hipocrisia tem pouca importância.

Estas várias escolas de pensamento e suas doutrinas devem ser enxergadas com clareza. Para que floresça a paz social, é necessário que os indivíduos conscientes se libertem do relativismo ético.

Do século vinte para cá, Erich Fromm, Viktor Frankl, Pitirim A. Sorokin, Fritz Künkel e Karen Horney estão entre os numerosos pensadores honestos da Psicologia. Seus livros têm afinidade com a filosofia esotérica, assim como as obras baseadas na Análise Transacional. A psicologia, associada à ética, abre caminho para o nascimento da primavera da fraternidade que, segundo H. P. Blavatsky, deve ocorrer antes do final do século 21, resgatando o melhor de cada religião e da tradição cultural de todos os povos. [2]

A teosofia clássica e a psicologia profunda atuam em harmonia com os grandes sábios de todos os tempos. Elas mostram que o ser humano está em evolução. Sua etapa presente, de relativa ignorância espiritual, constitui um momento passageiro.

Nada escapa à ação da Lei do Carma. Tudo tem sua hora.

A fonte do sentimento de boa vontade está na alma imortal do indivíduo. No momento certo da vida dos povos, surgem lideranças capazes de trazer outra vez a ética para a agenda diária da população. Nada pode atrasar o momento em que surge o novo dia. Na hora adequada de cada ciclo, os povos veem a Oportunidade cármica à sua frente, e a ação comunitária e a ajuda mútua passam pelo devido processo de renascimento.

NOTAS:

[1] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Brasília, Volume I, Carta 29, p. 158.

[2] “Collected Writings”, H. P. Blavatsky, Volume XIV, TPH, Wheaton, EUA, 1985, 733 pp., página 27. Em português, veja o subtítulo “O Mestre Mais Severo Anuncia a Vitória” no artigo “O Lado Luminoso de Saturno”.

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Uma versão inicial do texto acima foi publicada, sem indicação de nome de autor, na edição de agosto de 2009 de “O Teosofista”, pp. 1-3. Sua publicação como artigo independente em nossos websites associados ocorreu dia 19 de setembro de 2018.

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12 de setembro de 2018

O Teosofista - Setembro de 2018




A edição de setembro abre com o artigo “O Renascimento Moral do Brasil: a Esquerda Deve Rejeitar o Crime e Começar a Reconstruir-se”.

A ideia da reconstrução inspira também o artigo a seguir, “O Jornalismo Renovado:  Comunicação Social Começa a Mudar Para Melhor”.

A mudança da mídia não ocorre de um dia para o outro.

Perto do seu final, o “Teosofista” apresenta a nota “Teatro Moderno: o Jogo de Acusações Mútuas Entre a ‘Esquerda’ e a Direita”.

Na página cinco, “O Lado Extraordinário da Calma”. À página seis, o poema “Aplauso”, de Ella Wheeler Wilcox.

Estes são outros temas examinados na edição de setembro:

* Quando a Vida Vence a Hipocrisia: o Mundo de Malba Tahan;
* O Diálogo Que Não Faz Barulho;
* Ideias ao Longo do Caminho;
* Ensinamentos de um Mahatma - 16;
* Os Capítulos Vinte a Vinte e Cinco do ‘Tao Teh Ching’; e
* A Ideia Central de Peixes.

A edição possui 19 páginas e inclui a lista dos 18 itens publicados recentemente em nossas bibliotecas online.


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A coleção completa de “O Teosofista” está disponível em nossos websites associados.

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8 de setembro de 2018

Ingratidão Exigida

Para Vencer a Indiferença
Diante das Misérias Humanas

Malba Tahan

“Allah te castigue, velho nojento! Longe de mim, podridão!”



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Nota Editorial de 2018:

“Malba Tahan” é o nome literário do professor
Júlio César de Mello e Souza (1895-1974). Suas
obras abrem caminho para a ética universal e a sabedoria
inter-religiosa no mundo lusófono. Entre os livros mais
famosos de Tahan está “O Homem que Calculava”, também
publicado sob o título “O Homem que Sabia Contar”.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Cumpre-me dizer, antes de tudo, que muito raramente me comovo ou me admiro diante dos espetáculos torvos da vida.

Certa vez, porém, ao passar junto à mesquita de Omar, presenciei uma cena que me deixou impressão indelével.

Velho xeique [1], aproximando-se de um mendigo que esmolava à entrada do famoso templo de Bagdá, atirou-lhe aos pés um punhado de moedas louras e cantantes.

Ao tempo que as arrebanhava com olhos esbugalhados e mãos rapaces [ávidas], o mísero pedinte, ao invés de entregar-se às usuais e surradas demonstrações de reconhecimento, entrou a descompor o generoso ancião em sujo linguajar, chamando, para sobre as suas cãs [cabelos brancos], não as bênçãos de Allah (com Ele a oração e a glória!), mas todas as maldições do inferno, todas as pragas que assolam a espécie humana:

- Allah te castigue, velho nojento! Longe de mim, podridão! Possa o fogo do Maligno livrar-nos de tuas mãos pestilentas, consumindo-te inteiro!

Desta vez não pude seguir indiferente.  Todas as minhas energias se revoltaram, escaldantes de ódio, contra aquele monstruoso mendigo, que assim pagava, com impropérios e pragas, o generoso óbolo do bom passante.

Prestes a desancá-lo com o meu bastão, gritei-lhe com mal contido ódio:

- Cala-te, ó cão, filho de cão! Pelas barbas do Profeta! Não sei porque não te esmago já os ossos, ó torpe criatura! Pois então tens a coragem de ofender àquele generoso ancião que te deu o pão de muitos dias?

- Não me condenes nem me castigues, ó senhor! - respondeu-me o pedinte com brandas inflexões na voz macia e humilde. - Se assim procedo, é porque assim o exigiu de mim aquele meu benfeitor!

Fiquei atônito ao ouvir tão inesperada e cabal defesa de um proceder que parecia não ter nenhuma. Seria, assim, possível que houvesse na Arábia, na Pérsia ou no Egito, um homem que se entregasse a trocar espontaneamente os mais cálidos benefícios pelas mais negras maldições?

Dando livre curso às mais desencontradas cogitações, cheguei a concluir que o velho esmoler estava sendo vítima de alguma implacável demência ou talvez andasse a cumprir algum estranho voto feito, alucinadamente, em terrível dependura.   

Como quer que fosse, não pude dominar a curiosidade, que crescera em mim, de deslindar a meada.

- Allah te castigue, velho nojento! Longe de mim, podridão! Possa o fogo do Maligno livrar-nos de tuas mãos pestilentas, consumindo-te inteiro!   

Pressentindo nisso um caso digno de registro, resolvi correr no enlaço do velho xeique que, indiferente, seguia pela rua afora, no seu caminhar vagaroso e compassado.

- Ó xeique dos xeiques - disse-lhe ao alcançá-lo, saudando-o com respeito. - Allah vos cubra de benefícios e prolongue, por muitos anos, a vossa preciosa existência! Acabo de assistir, surpreendido e revoltado, à conduta indigna daquele vil mendigo da mesquita. Era meu intuito castigar o ingrato de maneira terrível! Disse-me ele, porém, que fostes vós mesmo quem exigiu dele aqueles insultos e maldições. É verdade - ó venerável xeique! - é verdade que tendes por justo pagarem-se benefícios e esmolas com a mais negra das ingratidões?

- É verdade, sim, meu filho - respondeu-me ele, pousando em meu ombro a mão trêmula que tantos benefícios espalhava. - É verdade! Não lhe mentiu o mendigo. Fui eu mesmo que lhe impus não só a ele, senão a todos a quem valho, aquele modo de proceder. E a minha exigência não passa de um egoísmo gerado da minha filantropia. Sou de natureza esmoler e caridoso. Não têm conta as bocas famintas a que dei pão, os lábios sedentos a que cheguei um púcaro de água, os enregelados que se agasalharam nas dobras do meu manto. De todos, porém, passada a fome, estancada a sede, vencido o frio, só recebia as mais cruas provas de ingratidão. Passada a hora da necessidade, passava a lembrança do benefício!

- A princípio, meu filho - continuou o velho - doíam-me as injustiças daquele que eu beneficiava, vinham-me ímpetos de transformar os meus sentimentos de piedade nesse indiferentismo com que a maioria dos homens aprecia as misérias de seus semelhantes. Repudiando, porém, essa fraqueza, esse desânimo, que me assaltava quando me feria uma ingratidão profunda, deliberei habituar-me a receber tais pagas. Allah (com Ele a oração e a glória!) seja louvado pela sábia inspiração que me deu! Comecei a exigir, de todos quantos recebem qualquer auxílio meu, que me deem desde logo o que me iriam dar mais tarde: uma ingratidão como paga.

E, parando um momento, na curva da rua, o original e piedoso velho deixou cair uma moeda de ouro aos pés de um cego, que dormitava apoiado no umbral de uma taverna.

O cego, que reconhecera pela voz o xeique doador, exclamou iracundo:

- O demônio que te persiga, velho imbecil!

O velho sorriu.

Não era de esperar outra coisa. [2]

* * *


Os homens bons e generosos não devem nunca permitir que a ingratidão estiole, ou sequer embace, os sentimentos que o coração lhes dita.

“Esquecei as ingratidões” - dizia Al-Halaj – “e perdoai os ingratos. Allah é justo e clemente. Os bons serão sempre julgados segundo a grandeza infinita da misericórdia de Deus.” [3]

NOTAS:

[1] Xeique: palavra árabe que significa chefe, líder, ancião. É também um título honroso. (CCA)

[2] “Não era de esperar outra coisa”. O conto “Ingratidão Exigida” narra um episódio de “intenção paradoxal” e revela a aguda percepção que Malba Tahan tinha da alma humana. O psicólogo Viktor Frankl, fundador da Logoterapia, escreveu que um grande produtor de ansiedade é “o medo do medo”, o que por sua vez dá lugar aos complexos mecanismos de “fuga do medo”. Para Frankl, “este é o ponto de partida de todas as neuroses de ansiedade” (“The Unheard Cry for Meaning”, Viktor E. Frankl, Touchston Book/Simon and Shuster, 1978, 191 pp., ver p. 116). A técnica da intenção paradoxal consiste em olhar de frente para o pior cenário, evitando o medo do medo. Estando preparado para o pior, fica mais fácil buscar o melhor. O medo da decepção é o despreparo. O medo atrai a situação temida. A técnica da intenção paradoxal, por sua vez, esvazia a ansiedade. Ela gera um desapego maduro diante da vida de curto prazo, uma liberdade interior diante das circunstâncias. A mesma ideia da intenção paradoxal está presente de vários modos na tradição zen e no cristianismo. É aplicada por Francisco de Assis no capítulo nove da obra “I Fioretti” (“São Francisco de Assis, Escritos e Biografias, Crônicas e Outros Testemunhos do Primeiro Século Franciscano”, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1991, 1372 pp., ver pp. 1098-1099). (CCA)

[3] Ingratidão - O símbolo perfeito da ingratidão (pagar o bem com o mal) aparece numa das lendas mais famosas do livro das “Mil e uma noites”. Vamos encontrá-lo na história intitulada “O pescador e o gênio”.

Um pobre pescador ao retirar sua rede encontrou dentro dela um grande vaso de cobre amarelo, cheio e intacto. Tomado de viva curiosidade, o pescador abriu o vaso e viu, com espanto, dele desprender-se uma fumaça azulada que subiu para o céu formando a figura gigantesca de um gênio.

Uma vez em liberdade, disse o pavoroso ifrite [gênio malévolo] ao infeliz pescador: - Pelo bem que fizeste, ó pescador, libertando-me desse vaso, vais morrer!

Respondeu o pescador: Que torpe ingratidão, ó ifrite! - Queira Allah fazer com que o castigo do céu caia sobre ti!

Tornou o gênio com uma voz tremenda que rolava como um trovão pelo espaço: - Medita um instante, mísero muçulmano, e escolhe a espécie de morte que preferes!

- Que fiz eu para merecer a morte? - interpelou aflito o pescador.

- Ainda perguntas, ó insensato! - esbravejou o gênio. - Fica sabendo que eu estava preso, nesse vaso, há mais de três séculos, chumbado com o selo de Salomão, sofrendo torturas incríveis. Não percebes que a minha existência era um verdadeiro inferno? E como fui salvo? Fui salvo por ti, unicamente por ti! E é justamente por esse motivo que eu te quero matar.

- Não me parece justa, ó ifrite! essa forma de proceder - protestou o pescador.

Disse então o gênio:

- Devo dizer-te que sou um gênio rebelde. Revoltei-me contra Salomão, filho de David. Para castigar a minha rebeldia mandou Salomão encerrar-me no fundo desse vaso fechando-o com um selo de chumbo onde se achava gravado o nome de Allah, o Altíssimo! Apesar da minha força e do meu poder eu não era capaz de vencer o encantamento do selo de Salomão. O vaso foi atirado no seio das ondas e rolou comigo para o fundo do mar. Fiquei cem anos no suplício desse cativeiro e dizia de mim para mim: “Darei riquezas eternas a quem me libertar!” Passaram-se, porém, cem anos e ninguém me libertou. Quando entrei no segundo período de cem anos, disse - “Revelarei todos os tesouros da terra àquele que me libertar!” Mas o segundo século decorreu e ninguém me libertou. Ao iniciar o terceiro século formulei novo juramento: “Concederei três coisas a quem me libertar!” Foi tudo inútil; ninguém veio em meu auxílio. Tomado de imenso furor, declarei: “Agora, matarei, sem piedade, àquele que me libertar!” Foi quando tu, pescador, vieste em meu socorro e, graças ao teu auxílio, consegui aquilo que mais ambicionava: a liberdade! Concedo-te, agora, que escolhas a espécie de morte que preferes. (Malba Tahan)

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O conto acima é reproduzido do livro “Maktub!”, de Malba Tahan, 11ª Edição, 1964, Ed. Conquista, Rio de Janeiro, 220 pp., ver pp. 205-210. A ortografia foi atualizada. A imagem que ilustra o conto em nossos websites associados é a mesma do livro. A publicação online ocorreu dia 8 de setembro de 2018. 

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