18 de novembro de 2018

Escutando a Voz do Silêncio

Notas Sobre Uma Palestra Feita no Ano 2000

Brasigóis Felício




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Nota Editorial:

O texto a seguir refere-se a uma
palestra realizada em torno do ano
2000. Foi publicado originalmente
 em 23 de outubro de 2018, no jornal
Diário da Manhã”, de Goiânia.
Título original: “A Voz do Silêncio”.

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As opiniões são como vidraças. Olhamos através delas mas elas nos separam da realidade”. (Gibran Kalil Gibran). A vontade espiritual vence sem derrotar ninguém. Com esta frase é possível sintetizar o conteúdo da palestra proferida em Goiânia, a convite da Sociedade Teosófica, pelo jornalista e escritor Carlos Cardoso Aveline.

O tema de sua brilhante palestra foi sobre o Antahkarana - a ponte entre a mente concreta e a mente abstrata, representando a união entre o ponto mais baixo da mente abstrata e o ponto mais alto da mente concreta, capaz de promover a conexão com nosso Eu Superior. Para Aveline, “Se não tivermos um bom contato com nosso eu imortal teremos problemas em nossas relações com os mestres de sabedoria. Há um centro de paz no coração do Ser.”

O palestrante citou, a propósito do senso de bondade para com os outros e compaixão pela terra, uma frase de Henry David Thoreau: “De nada adianta ter uma bela casa se eu não tiver um planeta saudável e decente, onde possa colocá-la.” Isto é consciência planetária.

Estar bloqueado, nesta busca de conexão com nosso Eu Superior, é ser rigoroso com os outros e indulgente consigo: “A mais dura tarefa é ser rigoroso consigo e generoso com os outros. Esta ponte para o Eu imortal da criatura humana deixa de alcançar seu propósito de elevação da consciência quando a pessoa fica triste com a vitória dos outros, ou se alegra com a derrota de outrem.”

“As leis que regem a distribuição da energia divina não beneficiam as pessoas que só pensam em ajudar a si mesmas. Todos nos imaginamos gênios, só faltando que o resto da humanidade seja avisado de nossa genialidade.”

A conexão com nosso Eu Superior vai bem quando há alegria sem que alguém esteja alegre, e quando há tristeza sem que alguém esteja triste, assinala o teósofo e escritor Carlos Aveline. É quando sentimos amor sem que exista alguém a quem possamos dirigir o nosso amor:

“Ninguém pode dizer que tem a escritura do ar da chácara que comprou, menos ainda que pode possuir a energia da Vida - tal substância inominável transcende toda palavra ou pensamento que tenham origem no intelecto humano.”

“Tudo o que vale a pena ser buscado não é passível de ser propriedade particular de ninguém. A quem pertence a lua? A quem pertence a atmosfera ou o espaço sideral, em que viajam os planetas e as estrelas? Como se pode vender o ar das montanhas e o fluir dos rios e lagos?”

Por toda parte percebe-se a obsessão das pessoas em fugir do silêncio. Em clubes campestres, lugares bucólicos onde a canção dos pássaros seria capaz de lembrar a paz interior, de que tanto precisamos, só se ouve o ruído incessante de ruídos enervantes, a que chamam de música. Por que as pessoas têm tamanha dificuldade em conviver com a solidão e ouvir a voz do silêncio?

Para Aveline, “A pessoa que tem dificuldade em ficar em silêncio e solidão é porque pensa que existe o silêncio e a solidão - isto vem da heresia da crença no eu, e da sensação de separatividade. Não há nada separado no universo, embora haja coisas distintas.”

“A diversidade não nega a unidade. Para se ver se a pessoa está bloqueada em seu Antahkarana basta ver como ela se alimenta - e não está nada bem quando come a sobremesa com gula e avidez.” Como cada um deveria ou quanto poderia ser melhor do que é, se compreendesse que cada aspecto da vida em nosso cotidiano retrata o nível ótimo, satisfatório ou sofrível de nossa caminhada em busca da conexão com nosso Eu Superior.   

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Brasigóis Felício é jornalista e escritor. Ocupa a Cadeira 25 da Academia Goiana de Letras e integra os quadros de outras entidades culturais.

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O artigo acima foi publicado em nossos websites associados dia 18 de novembro de 2018.

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Clique para ler o texto sobre antahkarana intitulado “A Ponte Entre Céu e Terra”. Examine também “Os Sete Princípios da Consciência”.

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14 de novembro de 2018

O Teosofista - Novembro de 2018




A edição de novembro de “O Teosofista” começa com o texto “Não Pergunte Quem Nasce no Natal”.

A primeira frase do artigo afirma:

“A época de Natal traz um reencontro que ocorre no plano da alma, no território da justiça e da bondade.”   

À página dois começa a nota “Opinião, Conhecimento e Sabedoria”:

O ingênuo não sabe conviver com incógnitas, e, para evitá-las, busca refúgio na fantasia infantil de que já sabe tudo.”

As páginas três e quatro apresentam “Magnetismo Dinâmico: a Bússola da Consciência Humana”. A seguir temos o artigo “A Hora da Sinceridade”.

Veja outros temas da edição:

* O Exemplo do Duque de Caxias;

* O Movimento Teosófico e os Problemas do Mundo;

* Ideias ao Longo do Caminho - a Energia do Pensamento Que Emitimos Para Os Outros Virá Outra Vez Até Nós;

* Ensinamentos de um Mahatma - 18, Uma Compilação das Cartas Do Mestre de Helena Blavatsky;

* Os Capítulos Trinta e Seis a Quarenta e Cinco do “Tao Teh Ching”, na versão de Lin Yutang; e

* Algumas palavras de C. Jinarajadasa em Visita ao Brasil em 1934.

A edição possui 19 páginas e inclui a lista dos itens publicados recentemente em nossas bibliotecas online.


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A coleção completa de “O Teosofista” está disponível em nossos websites associados.

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13 de novembro de 2018

Os Sermões Através de Pedras

Elementos Para Uma Disciplina Diária Eficaz

Um Mestre de Sabedoria


Laura C. Holloway (1848-1930)



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Nota de 2018:

O texto a seguir transcreve a Carta II para Laura C.
Holloway, que pode ser encontrada em “Cartas dos
Mestres de Sabedoria”, editadas por C. Jinarajadasa,
Editora Teosófica, Brasília, DF. Ver páginas 146-147.

Para facilitar uma leitura contemplativa, um
parágrafo longo foi dividido em parágrafos menores.

(CCA)

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Como pode você discernir o real do irreal, o verdadeiro do falso? Só através do autodesenvolvimento. Como conseguir isso? Primeiro, precavendo-se contra as causas do autoengano.

E isso você pode fazer dedicando-se, em determinada hora ou horas fixas, a cada dia, totalmente só, à autocontemplação, a escrever, a ler, a purificar suas motivações, a estudar e corrigir seus erros, ao planejamento do seu trabalho na vida externa.

Estas horas deveriam ser reservadas como algo sagrado para este propósito, e ninguém, nem mesmo o seu amigo ou seus amigos mais íntimos, deveriam estar com você naquele momento. Pouco a pouco sua visão ficará clara, você descobrirá que as névoas se dissipam, que suas faculdades interiores se fortalecem, sua atração por nós ganha força e a certeza toma o lugar das dúvidas.

Mas cuidado para não buscar ou confiar demasiado em uma autoridade direta. Nossos métodos não são seus métodos. Raramente mostramos qualquer sinal externo pelo qual podemos ser reconhecidos ou sentidos. Você pensa que _____ e _____ e _____ estiveram aconselhando-a sem nenhuma inspiração nossa? Em relação à U. [1] você a ama mais do que respeita seu conselho. Você não compreende que, quando fala de nós, ou como se viesse de nós, ela não ousa misturar suas próprias opiniões pessoais com aquelas que ela lhe diz que são nossas.

Nenhum de nós ousaria isso, pois temos um código que não deve ser transgredido. Trate, filha, de aprender uma lição através de quem quer que seja que ela possa estar sendo dada. “Até mesmo as pedras podem pregar sermões”. Não seja demasiado ansiosa por “instruções”.

Você sempre obterá o que necessita se o merecer, mas não mais do que merece ou estiver apta a assimilar...

E agora está tudo pronto para a batalha: lute uma boa luta e que você possa ganhar o dia.

K. H.

NOTA:

[1] C. Jinarajadasa esclarece em nota de rodapé que “U.” é abreviatura de “Upasika”, palavra que significa “discípula” e com a qual os Mestres frequentemente se referiam a H.P.  Blavatsky durante o século 19. (CCA)

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O texto acima foi publicado em nossos websites associados dia 13 de novembro de 2018.

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Em 14 de setembro de 2016, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável

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11 de novembro de 2018

A Máquina Ameaçando o Ser Humano

Os Objetos Materiais Devem
Servir a Vida, e Não o Contrário

C. Jinarajadasa

Uma fábrica de carros de brinquedo, em torno de 1930
  


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Nota Editorial de 2018:

Este pioneiro artigo dos anos 1930 aponta para
a questão central  da desumanização da vida. O
desafio é antigo, e no século 21 parece atingir o auge.

O texto transcreve palestra de C. Jinarajadasa
 feita durante uma visita de mais de três meses ao Brasil.
C.J. mostra a necessidade de re-humanizar a civilização e
 de colocar a vida mais claramente acima das coisas. O
perigo não está na máquina, nem no progresso tecnológico,
em si, mas no desrespeito pelos seres humanos. O  texto é
reproduzido de “O Teosofista”, maio-agosto de 1934, pp.
158-159. Título original: “A Máquina ou o Homem?”.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Quão confortáveis são as nossas vidas, hoje em dia, comparadas com aquelas que viveram nossos avós? Temos em casa água corrente, gás e eletricidade; fora das habitações temos bondes, ônibus e trens. Podemos hoje ouvir Londres, Paris e Nova York pelo rádio; e, se tivermos pressa, podemos transportar-nos à Europa em cinco dias. Por todos os lados temos dispositivos e mais dispositivos para nos proporcionarem conforto.

Mas, porventura pensastes já quanto custou a obtenção destas coisas que nos proporcionam conforto? Terá já passado por vossa mente que, nesse febril desenvolvimento da civilização para produzir mais objetos para nosso conforto e conseguir maior rapidez nos transportes, o espírito do homem vai sendo vagarosamente aniquilado?

Observai por vós próprios: olhai ao vosso redor na sala em que vos achais. Quantos, dos objetos que vos cercam, foram produzidos por máquinas? Sabeis que as pernas da cadeira em que vos sentais foram feitas por um carpinteiro, os braços por outro e o espaldar por um terceiro? Se penetrardes numa fábrica moderna onde trabalham centenas de homens, notareis que o capitalista verifica que pode ganhar mais dinheiro especializando seus trabalhadores em grupos, cada um cuidando da confecção de uma parte de determinado produto. Vereis um homem produzindo, por meio de uma máquina, somente uma determinada peça - como, por exemplo, somente pernas de cadeiras - durante oito horas por dia, e isto por semanas e semanas. O carpinteiro moderno, numa oficina, nunca terá a satisfação de construir uma cadeira completa. E assim é com todas as coisas.

Estamos cercados de objetos feitos por máquinas. A mão do homem representa bem pouco na sua confecção. O mais poderoso ditador do mundo, hoje, é a máquina. O espírito criador do homem acha-se acorrentado.

O gramofone é semelhante a música enlatada


Os Estados Unidos da América do Norte especializaram-se na produção de laticínios e no acondicionamento, em latas hermeticamente fechadas, de quase todas as nossas iguarias: eles enlatam todos os legumes, o peixe e a carne. Ninguém compreendeu inteiramente como as vitaminas são quase totalmente destruídas nesse processo, exceto no caso do tomate. Desse processo universal de enlatar, tiraram eles a frase “Música enlatada”, para descrever música produzida nos teatros e cinemas por meio de uma máquina que veio substituir o artista vivo da orquestra.

A máquina é o ditador. E não avaliamos quanto temos perdido das delicadas belezas da vida por meio desse processo de mecanização. Não sentimos, a não ser que sejamos muito sensitivos, a diferença entre a cadeira entalhada por uma máquina e aquela outra que foi entalhada por um carpinteiro, pelas suas próprias mãos. Não conhecemos a diferença entre um aposento onde os seus vários objetos foram criados pela mão do homem, e um outro onde foram feitos simplesmente por meio de máquinas sob o controle do homem.

Entretanto, quanto mais culto um homem se torna, tanto mais anseia pelo espírito do homem.

Por que será que homens e mulheres das Américas vão à Europa - à Itália, à França, à Alemanha - e visitam monumentos, igrejas e catedrais? Porque compram velhos objetos entalhados, esculturas e pinturas? É porque a mão do homem, nesses monumentos, transmite ainda a mensagem do espírito do homem.

Se tivésseis de colocar a torre de Giotto, em Florença, ao lado do edifício Martinelli, em S. Paulo, feito de cimento armado, compreenderíeis imediatamente como a torre de Giotto fala da grandeza do espírito do homem, e o vosso arranha-céu da grandeza do poder da máquina.

Como podemos salvar o espírito do homem do regime ditatorial da máquina? Há somente um caminho: é submetermo-nos todos a uma cultura artística para nos tornarmos artísticos. Devemos cantar, e não apenas ouvir discos de gramofone. Devemos representar no palco, e não ficar satisfeitos apenas com os cinemas. Devemos aprender a criar poemas - não importa que sejam pequenos - e não limitarmo-nos a ler somente os jornais. Devemos exercitar nossas próprias mãos no entalhe da madeira, na modelagem do barro, transformando-os em coisas belas com os nossos dedos.

Devemos cercar-nos pouco a pouco, em nosso lar, de objetos dos quais se irradie a delicada influência de um criador humano.

Nossos artistas poderão auxiliar-nos a contrabalançar o regime ditatorial da máquina. Precisamos da máquina, não para sermos seus escravos, mas para que seja nossa servidora. Mas, é preciso que os artistas nos ajudem, saindo dos seus ateliers e ensinando o povo. Eles devem, não só criar obras artísticas, mas ensinar aos outros a produzi-las. Devem ensinar as massas a cantar, a dançar e a representar no palco. Precisam organizar concertos e dramas, ensinar as crianças a criar pequenos poemas, pequenas estátuas, e também a pintar quadros, admirar um pôr de sol ou ouvir música grandiosa.

Dessa maneira, pouco a pouco, vós, no mundo ocidental, volvereis a possuir o grandioso mundo do espírito que haveis perdido quase por completo. Nós temos ainda esse mundo em nossa velha Índia: penetrai ali no casebre de qualquer pobre e examinai sua cozinha: vereis que ali os poucos vasos de barro foram modelados pela mão do oleiro, segundo os lindos modelos da antiguidade.

Quem será o vencedor: o homem, ou a máquina? - Esta é a pergunta que a civilização ocidental deve responder. No momento, a resposta é: a máquina.

Porém não sereis jamais um grande povo no Brasil, enquanto a vossa resposta não for esta:

“O homem é quem rege, e não a máquina.”

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O artigo “A Máquina Ameaçando o Ser Humano” foi publicado dia 11 de novembro de 2018.

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Em 14 de setembro de 2016, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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10 de novembro de 2018

O Equilíbrio das Pedras

Percebendo a Unidade em Tudo o Que Há 

Gilmar Gonzaga

Parte superior de um trabalho em equilíbrio de pedras
  


A abrangência da Lei do Equilíbrio é ampla e as possíveis abordagens das suas formas de expressão são múltiplas, no plano conceitual e pela experimentação.

Uma primeira ideia pode ser obtida por meio do artigo “O Centro Interno de Equilíbrio”, de John Garrigues:

“Exatamente no centro da Terra há um ponto de perfeito equilíbrio. Vacilar a partir dele em qualquer direção provoca uma perda de equilíbrio e coloca em ação forças instáveis. Este é um fato multidimencional.”

“Cada esfera, desde um átomo até o sistema solar, tem o seu ponto de equilíbrio. É nele que todas as forças têm igual influência e a harmonia reina suprema.” [1]

Partindo para o campo da experimentação, recorro à minha própria vivência na comunhão com o reino mineral para demonstrar alguns aspectos dessa lei fundamental.

Mantenho um hábito que considero saudável e útil enquanto exercício de concentração, que é o hábito de empilhar pedras.

Seja nas trilhas por onde ando ou mesmo no quintal da minha casa, empilho-as. Verticalmente! Pequenas, grandes, arredondadas ou pontiagudas, lisas e onduladas. Não as parto nem acrescento pedaços a elas, apenas as uso como são e obtenho resultados com uma estética singular, própria do reino mineral, cujos formatos mais ou menos rudes refletem o estado de densidade da matéria peculiar a esse reino.

A estética final impressiona pelos desenhos resultantes, exatamente porque as formas se encaixam para produzir um tipo de escultura única não planejada, imprimindo-lhe um caráter original. Mas o que “captura” a atenção dos observadores é o equilíbrio desafiador que induz à percepção de aparentes paradoxos, observáveis na interação com as pedras, que podem ser descritos como: a coesão do diferenciado, a unidade da multiplicidade ou a leveza do pesado. Aqueles que observam em silêncio as formas resultantes são capazes de sentir a tensão equilibrante ou até mesmo alcançar um estado de paz por meio da harmonia do equilíbrio.

O interessante do exercício é que enquanto interajo com os elementos desse reino, percebo o “ponto de equilíbrio” fluindo a partir de mim e se estendendo e envolvendo as pedras.

Carlos Cardoso Aveline escreveu:  

“Na prática do equilíbrio das pedras, (...) o contato com a própria alma permite o diálogo direto com a natureza e a lei do universo.” [2]

De acordo com a Teosofia, a “consciência” ou inteligência está presente em tudo. Helena P. Blavatsky ensina em “A Doutrina Secreta”:

“O Nous que move a matéria, a Alma que tudo anima, imanente em cada átomo, manifestado no ser humano, latente na pedra, tem vários graus de poder; e esta ideia panteísta de um Espírito-Alma geral que permeia toda a Natureza é a mais antiga de todas as noções filosóficas.” [3]

Em outra passagem da mesma obra, a questão da unidade é apresentada sob a perspectiva evolucionária:

“A Respiração se torna uma pedra; a pedra, uma planta; a planta, um animal; o animal, um homem; o homem, um espírito; e o espírito, um deus.” [4]

Esse conhecimento revela a unidade, imanente em tudo que existe. Assim sendo, ao considerarmos o exemplo da nossa interação consciente com as pedras, podemos estender os resultados dessa experiência às nossas próprias vidas, uma vez que a percepção da unidade nos dota de um sentido de equilíbrio.

Com efeito, há que se considerar que o grau de consciência existente nas pedras difere significativamente da consciência presente nas individualidades humanas. O equilíbrio no reino mineral é alcançado pela ação mais direta das leis naturais, incluindo o poder da gravidade. Ou pode ser forjado pela intervenção criativa dos seres humanos. A complexidade desse equilíbrio forjado dependerá do grau de consciência das pessoas a partir do conhecimento das leis naturais. As pedras, percebo, transmitem-nos um efeito “equilibrante”, caracterizado por um sentimento ou sensação de estabilidade e segurança.

Na seara humana manter o equilíbrio torna-se mais complexo, individual ou coletivamente. A dinâmica inerente ao estágio evolucionário alcançado por cada individualidade humana é definida pelo grau do “vacilar” em relação ao ponto de equilíbrio e indica a partir de onde cada indivíduo autoconsciente deve buscar retomar o equilíbrio em si e mantê-lo como um centro de paz.

No caso das pedras ou em outras construções que fazemos, podemos forjar um arranjo equilibrado por meios mecânicos, ou “intuitivamente” através da extensão da nossa própria sensibilidade. Também em nós, individualmente, podemos forjar um equilíbrio interno mecânico ou forçado que só poderá ser mantido à custa de algum tipo de tensão psicológica ou mental.

Para alcançarmos um equilíbrio ou uma paz natural e duradoura, que perdure enquanto agimos ou atuamos no mundo, precisamos promover mudanças significativas em nosso interior e eliminar as fontes de desequilíbrio.

Em todos os casos - a experiência revela - a vida daqueles que buscam estabelecer em si a Paz Interior passa pela necessidade de uma grande mudança que exige continuada dedicação. O essencial desse processo pode ser caracterizado, por um lado, como Simplificação (do ter) e, por outro, como Expansão (do Ser).

A Naturalidade pode ser considerada um fator e uma expressão do Equilíbrio Interno. Vários indicadores sinalizarão se a naturalidade está presente no processo. Entre eles podemos citar o contentamento e a boa vontade perante a vida.

Para promover as transformações necessárias à manutenção do centro de paz e alcançarmos o equilíbrio dinâmico em face da nossa atuação no mundo, precisamos encontrar o ponto de equilíbrio em nós.

Garrigues lança luz sobre essa questão:

“Uma vez que encontramos o ponto de equilíbrio em nós próprios, reconhecemos que ele está em toda parte, e o vemos como Aquilo sobre o qual todos os mundos se apoiam. Não chegamos ao ponto de equilibro indo para um ou outro lugar, mas simplesmente reconhecendo-o.”

(…) Este lugar não é um ‘lugar’ situado no espaço e no tempo. Quando ele é percebido pelo sentimento e pela compreensão, então nós vemos que o nosso dever mais elevado consiste em esforçar-nos com uma firme determinação para permanecer em paz e em contato com o centro de equilíbrio, sem perturbar-nos por coisa alguma que possa acontecer. Nosso dever consiste em agir desde este centro para equilibrar gradualmente todas as causas e efeitos dentro da nossa esfera de ação, mesmo que sejam necessárias várias encarnações para conseguir a meta.”

E finaliza:

“Cada ser humano deve fazer os ajustes adequados dentro da sua própria esfera. Ao fazê-los, ele não trabalha apenas para o seu bem individual, mas para o bem de todos, porque percebe que este centro é o único Centro de tudo o que há. Assim, é inútil arrepender-se ou lamentar-se, ou ter vontade de estar em qualquer outro lugar diferente daquele em que se está. Em algum momento, em algum lugar, cada indivíduo deve realizar esta tarefa. Mantendo uma firmeza de sentimentos, podemos Erguer-nos e dedicar-nos, com uma decisão inabalável, ao cumprimento do nosso dever.” [5]

O Equilíbrio pode ser chamado de Caminho do Meio.

O contato consciente com a Natureza nos leva a uma trajetória em que as atitudes são moderadas em relação aos extremos.

NOTAS:

[1] Do artigo “O Centro Interno de Equilíbrio”, de John Garrigues.

[2] Comentário feito por escrito durante um estudo da Loja Independente de Teosofistas, em setembro de 2018.

[3]A Doutrina Secreta”, Helena P. Blavatsky, tradução passo a passo da edição original, p. 87.

[4]A Doutrina Secreta”, Helena P. Blavatsky, tradução passo a passo da edição original, p. 138.

[5] Do artigo “O Centro Interno de Equilíbrio”, de John Garrigues.

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 Parte superior de um trabalho em equilíbrio de pedras


Gilmar Gonzaga é associado da Loja Independente de Teosofistas, e mora em Brasília, no Brasil. O artigo acima foi publicado em nossos websites associados em 10 de novembro de 2018.

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Sobre as pedras e a filosofia esotérica, clique para ler os artigos “A LIT Como Pedra e Como Sonho” e “O Poder Mágico da Safira”. Com relação a Helena Blavatsky, pedras e ocultismo, vale a pena examinar “Um Parentesco Entre a Índia e os Andes”. Em inglês, o artigo “Mystic Lore of Gems and Crystals”. É importante também o poema “O Reino Mineral”, de Augusto de Lima. 

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Em 14 de setembro de 2016, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável. 

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