7 de maio de 2021

O Teosofista - Maio de 2021

 

 
 
 
Estes são os temas da edição de maio de “O Teosofista”:
 
* Cooperação e Competição na Caminhada Espiritual (p.1).
 
* Meditação Pelos Meus Colegas de Aprendizagem (p.4).
 
* A Força Espiritual de Manuel Bernardes (p.5).
 
* Um Monge Vegetariano Enfrenta Situação Difícil (p.6).
 
* O Místico e o Imperador (p.8).
 
* O Mistério da Confiança na Lei (p.9).
 
* Santo Antônio de Lisboa: O Tabernáculo da Consciência (p.11).
 
* Ideias ao Longo do Caminho: Um Deserto Desagradável Pode Libertar o
Peregrino do Mundo Estreito das Coisas Pequenas (p.12).
 
* O Compromisso dos Jornalistas: Um Juramento Exemplar na Universidade de Blumenau (p.13).
 
* O Caminho Espiritual na Prática: Três Perguntas e Respostas (p. 14).
 
* A Musa do Céu - 04: O Infinito e a Eternidade. O Tempo, o Espaço e a Vida. Os Horizontes Celestes (p.17).
 
* Celebrando o Dia Oito de Maio  (p.22).
 
A edição, de 22 páginas, inclui a lista dos itens publicados recentemente nos websites associados.  
 
 
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A coleção completa de “O Teosofista” está disponível nos websites associados.
 
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28 de abril de 2021

As Lições Que o Sofrimento Ensina

 A Dor Pode Ser Mais Eficaz que
a Alegria Como Meio de Educação

Paul Carton

 
 
 
Como tudo o que existe, a vida humana é regida por princípios superiores que querem a sua progressiva ascensão, e por leis de conduta que lhe guiam as etapas.
 
A vida humana não tem outro fim senão realizar a inteligência e a prática destas leis naturais e sobrenaturais [1], a fim de o indivíduo elevar-se acima das necessidades instintivas, renunciar aos prazeres inferiores da matéria e tornar-se uma potência espiritual, apto a viver a vida celeste.
 
É para atingir este fim de alegria inimaginável que Deus [2] criou o homem, o obrigou a lutar para se engrandecer, a sofrer passageiramente para escolher e querer o bem, a recomeçar muitas vezes a experiência, para o querer claramente e de boa vontade e enfim para merecer gozá-lo numa felicidade eterna.
 
A dor cumpre pois verdadeira missão. Educa e protege avisando do perigo, porque este é sempre o resultado duma falsa direção, duma ignorância ou duma revolta. Purifica fazendo expiar. Engrandece aguilhoando e desmaterializando. Recompensa obrigando providencialmente ao mérito. Ensina, corrige e eleva.
 
Sofre-se por ignorância? Por que nos surpreendemos? Nada se aprende sem custo.
 
O sofrimento aclara. Assim, o sofrimento é o preço da educação, como o esforço é o salário da instrução.
 
Por outro lado, o sofrimento avisa e protege. Faz-nos desviar da chama que queima, do ser mau que fere, da desordem moral que tortura o corpo e o espírito.
 
Em que se tornaria o homem se não tivesse encontrado no seu caminho o aviso e o freio da dor? Teria certamente destruído o seu corpo, gasto a sua vida e perdido a sua alma, em muito pouco tempo.
 
O sofrimento tem ainda o papel de sanção e serve assim de meio de purificação e de elevação. Pune os desvios de regime e de conduta. Castiga cedo ou tarde o comilão, o porco, o preguiçoso, o revoltado, o orgulhoso, o egoísta, o ladrão, o estroina, o imoral. Assim se torna a polícia da Providência. A sanção que parece não existir porque tarda, mais severa será.
 
A que parece injusta, parece-o porque não se sabe distinguir as razões afastadas ou ocultas. Uma desgraça ou uma morte não sobrevém nunca sem razões evidentes ou ocultas. Quer constituam castigo, prova ou sacrifício, o fato é que esclarecem e elevam os que os aceitam com Fé. Tais acontecimentos são dirigidos em última instância pela Providência que tudo situa, encadeia, compensa e repara, com vistas ao progresso espiritual.
 
Em medicina, a doença aparece para esclarecer as falhas de regime e de higiene, para as fazer expiar, para obrigar à purificação orgânica, à reflexão mental, à procura e à prática da vida pura e sã.
 
Compreendendo a Origem das Catástrofes
 
Todas as vezes, pois, que o homem tem a inteligência e a sabedoria de seguir a lei natural e a lei sobrenatural [3] é forçosamente o equilíbrio e a harmonia que reinam no seu organismo.
 
E se os agrupamentos humanos se curvam a estas mesmas obrigações, a saúde, a ordem e a paz manifestam-se nas comunidades (famílias e nações), ao mesmo tempo que o ambiente natural se torna favorável para o seu desenvolvimento. Mas, pelo contrário, todas as vezes que o homem se desvia da lei e a transgride, um aviso doloroso se declara primeiramente leve (simples incômodos), depois mais sério (afecção aguda), para o obrigar a refletir e a corrigir-se.
 
Se ele teima ainda em não querer compreender e escolher melhor o seu caminho, deverá expiar sob formas cada vez mais severas a sua obstinação no pecado. Os avisos sucessivos se produzirão com intensidade proporcional à gravidade das faltas cometidas; traduzir-se-ão por catástrofes pessoais, familiares ou coletivas (afecções crônicas; ruínas; epidemias; fome; guerra), até os homens chegarem ao arrependimento, confessarem as suas faltas, humilharem-se e corrigirem-se. Então, quando conquistarem a clarividência do bem e do mal, expiarem a sua má vontade e adquirirem mérito pelo esforço do justo governo de si próprio, Deus acalma-se, desconta mesmo uma parte das dívidas e perdoa; porque, na sua infinita misericórdia só tem um desejo: o progresso e não a destruição da humanidade.
 
A Lei Universal
 
Estes resultados felizes ou desgraçados que resultam da submissão ou da desobediência às leis da vida humana estão expostos na Escritura em termos surpreendentes:
 
“Se seguirdes as minhas leis, se respeitardes os meus mandamentos e os puserdes em prática, enviar-vos-ei chuvas na estação própria, a terra produzirá e as árvores dos campos darão os seus frutos. Comereis pão com fartura e habitareis o vosso país com segurança! …… Farei desaparecer os animais ferozes e a espada não passará pelo vosso país …… Tornar-vos-ei fecundos e multiplicar-vos-ei, e manterei convosco a minha aliança.”
 
“Mas se não me escutardes e não puserdes em prática todos estes mandamentos, se desprezardes as minhas leis …… eis o que farei: Farei cair sobre vós o terror, a consunção e a febre que tornarão o vosso olhar mortiço e a vossa alma sofredora: e semeareis em vão as vossas sementes; os vossos inimigos as devorarão ……”.
 
“Se, apesar disso, não me escutardes ainda, castigar-vos-ei sete vezes mais pelos vossos pecados. Quebrarei o orgulho da vossa força; transformarei o vosso céu em ferro, e a vossa terra em cobre. A vossa força esgotar-se-á inutilmente, a vossa terra não dará os seus produtos, e as árvores da terra não darão os seus frutos …...”.
 
“Se estes castigos não vos corrigirem ainda e se me resistirdes, eu vos resistirei também e vos ferirei sete vezes mais pelos vossos pecados. Farei cair sobre vós a espada que vingará a minha aliança; quando vos juntardes nas vossas cidades, enviar-vos-ei a peste para o meio de vós e sereis entregues às mãos do inimigo. Quando vos enviar a fome, dez mulheres cozerão o vosso pão num único forno e vo-lo entregarão a peso; comereis e ficareis com fome ……”
 
“Se apesar disso, ainda não me escutardes e se me resistirdes, eu vos resistirei também com furor e castigar-vos-ei sete vezes mais pelos vossos pecados. Comerei a carne de vossos filhos …… Reduzirei as vossas cidades a desertos …… Espalhar-vos-ei pelas nações. O vosso país será devastado …… Aqueles dentre vós que sobreviverem serão feridos de apatia pelas suas iniquidades …… Confessá-las-ão e confessarão as iniquidades de seus pais, as transgressões que cometeram para comigo, e a resistência que me opuseram. E então o seu coração não circuncidado humilhar-se-á e eles pagarão a dívida das suas iniquidades…… Mas, mesmo assim, quando estiverem no país dos seus inimigos, eu não os rejeitarei e não os conservarei em horror até os exterminar, até romper a minha aliança com eles, porque eu sou o Eterno, o seu Deus” (Levítico XXVI, 3 a 45).
 
O sofrimento aparece pois, aqui, como um meio de educação mais eficaz do que a alegria. Em geral, constitui mesmo o mais poderoso estimulante do progresso individual, porque coloca o homem em face de si mesmo, e dá-lhe o justo conhecimento da sua fraqueza, da sua inconsciência, do seu desvario, da sua impotência para se conduzir ao arbítrio do seu único bel-prazer, e a dirigir-se sem o socorro de Deus.
 
Ensina-lhe a vaidade dos bens deste mundo, a fragilidade do seu corpo, as insuficiências da sua ciência, os erros da sua vontade. Atormenta-o duramente em tudo o que deve suprimir, isto é, no seu orgulho e na sua sensualidade.
 
Fere-lhe o coração e os sentidos, porque “pelas coisas em que alguém peca, por estas é também atormentado” (Sabedoria, XI, 17). Fatiga o corpo para que o espírito chegue à clarividência, se abra à caridade, se desprenda pouco a pouco da matéria e viva verdadeiramente.
 
O homem tem necessidade de sofrimento, porque é um solo ingrato e duro, no qual nada pode ser semeado nem sustentar frutos, enquanto a relha do arado do sofrimento não o tiver rasgado mais que uma vez. “Que sabe aquele que não foi tentado?” (Eclesiástico, XXXIV, 9.) Com efeito, é quase sempre na ocasião duma doença orgânica ou duma aflição moral que se estabelecem no homem as reformas libertadoras e as renovações espirituais. Assim, é nesse sentido que deve entender-se a expressão de Santa Hildegarda: “Deus não habita os corpos que passam bem!”
 
É no doloroso parto das provações e das tribulações que se criam as obras humanas mais puras e mais duradouras.
 
Sob o império dos prazeres baixos, o homem degrada-se. Seu rosto cobre-se com a máscara animal. Recai na vida bestial. Chega à doença e ao crime. Sob o aguilhão repetido do sofrimento, o homem chega a levantar-se e a espiritualizar-se.
 
O seu rosto burila-se e idealiza-se então. Graças a ele, aprende a conhecer os horrores do mal para dele se desviar para sempre, compreende a doçura dos alívios da caridade e a eficácia dos atos de sacrifício.
 
É o sofrimento, na verdade, que nos dá a chave dos mistérios da vida, mostrando a necessidade do abandono das paixões materiais, de maneira que o velho homem desapareça e se estabeleça o reino do homem espiritual. É por ele que se obtém a transmutação do vil metal em ouro puro. É graças a ele que se efetua o renunciamento à parte inferior, animal e perecível, e que se estabelece o triunfo da parte sobrenatural, da espiritualidade, no homem.
 
Mas, para chegar a este grau de vidência e a este resultado elevado, é preciso etapas. O homem, como a criancinha, deve cair muitas vezes, antes de saber segurar-se de pé e andar. Não pode apreciar a saúde senão depois de ter conhecido a doença. Não pode sentir a imensa alegria duma vida sã e pura, senão depois de ter percebido e sondado os abismos da ignorância e da desobediência. Cada provação exerce-se como um julgamento que separa o puro do impuro, como uma morte que se declara em vista dum renascimento. E é somente a seguir a renúncias sucessivas que as asas espirituais se desenvolvem e que o homem pode voar na claridade do Céu.
 
O sofrimento é, pois, verdadeiramente providencial.
 
E, para aqueles que o aceitam com boa vontade e se servem dele como dum meio de educação, sem se revoltar por isso nem o escamotear, ele é bendito. Desgraça é, com efeito, para aquele que o odeia e julga libertar-se dele por meio de calmantes, sem estudar as causas em si mesmo e sem chegar às fontes reais do mal: o orgulho e a sensualidade.
 
Por esta forma só chega a deslocar a dor e não a afasta um momento, senão para a ver voltar ao ponto de partida, com intensidade duplicada.
 
Mas, pelo contrário, grande é a recompensa para aqueles que o acolhem como aviso, que renunciam às suas causas, que o utilizam para se aperfeiçoarem e se reconstruírem.
 
Estes deixarão o império da Dor. O seu justo esforço de compreensão e de constrangimento receberá a sua recompensa. “Semearam em lágrimas, colherão com alegria”. (Salmo 126: 5)
 
Quando descobrimos o poder de transformação e de elevação que se oculta sob a rude capa da dor, não mais nos admiramos ao ler que os santos reclamavam como um favor do Céu a concessão de novos sofrimentos, desde que cessavam de sentir o aguilhão benéfico da dor, porque receavam recair na indolência ou na secura do coração.
 
NOTAS:
 
[1] Leis sobrenaturais, isto é, leis espirituais. Em teosofia, porém, considera-se que o plano espiritual faz parte da natureza. Portanto, suas leis são naturais e não sobrenaturais. Prakriti, a natureza, tem sete formas ou sete princípios, sete níveis de consciência. Veja a obra “The Secret Doctrine, de Helena Blavatsky, volume I, p. 373, inclusive as notas de rodapé. (CCA)
 
[2] “Deus”, isto é, a Lei Universal. A figura antropomórfica de Deus como um pai pessoal, um patriarca humanoide simultaneamente bondoso e rigoroso, é um instrumento simbólico popular, porém provoca simplificações excessivas na visão que temos das inteligências cósmicas. (CCA)
 
[3] Lei “sobrenatural” - os níveis superiores e sutis da Lei do Carma. (CCA)
 
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O texto acima foi publicado nos websites associados no dia 28 de abril de 2021.
 
As Lições Que o Sofrimento Ensina” é reproduzido do livro “Bem-Aventurados os que Sofrem”, de Paul Carton, publicado em 1953 por Organização Simões, Rio de Janeiro, 130 páginas. Ver pp. 19-30. A primeira edição francesa da obra é de 1923. Na transcrição, em alguns poucos casos, substituímos expressões pouco inteligíveis por termos da linguagem corrente no século 21. (CCA)
 
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Leia mais:
 
* “Calamidades e Bênçãos no Século 21”.
 
* “A Ética Humana e os Terremotos”.
 
* “Caso Haja Um Problema Com a Civilização Atual”.
 
* “As Horas Difíceis”. 
 
Clique para ver outros textos (e livros) de Paul Carton.
 
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23 de abril de 2021

Camões, Sobre o Amor Altruísta

 Um Fogo Que Arde Invisível,
Um Solitário Andar por Entre a Gente

Luís de Camões

Luís de Camões (1524-1580) é considerado o maior poeta da língua portuguesa. A
imagem acima mostra uma medalha de bronze feita quatro séculos depois da sua
morte. O verso à direita, embaixo - “…e aqueles que por obras valerosas se vão da
lei da morte libertando” - é claramente teosófico pois fala da conquista gradual da
imortalidade através da prática do altruísmo. (“Os Lusíadas”, Canto I, Estância II.)
  
 
 
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
 
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
 
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
 
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
 
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O soneto acima está publicado nos websites associados desde o dia 23 de abril de 2021, tendo sido reproduzido de “Obras Completas”, Luís de Camões, volume I, Redondilhas e Sonetos, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, quinta edição, 1985, 355 pp., ver p. 232.  Clique para ver o poema em língua inglesa: “Camões, On Atruistic Love”.
  
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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22 de abril de 2021

A Teoria Panthera Sobre o Nascimento de Jesus

 O Profeta Judeu em Torno
do Qual Surgiu o Cristianismo

Carlos Cardoso Aveline

 
 
 
A teosofia clássica afirma que o Novo Testamento não deve ser lido literalmente, isto é, no nível superficial da letra morta. Os próprios evangelhos, aliás, sugerem esta ideia.
 
A Verdade expressada por parábolas, mitos e lendas é mais profunda do que meros fatos materiais. A narrativa do nascimento miraculoso de Jesus, por exemplo, simboliza o processo da primeira grande Iniciação, e não o seu nascimento material. O ensinamento é verdadeiro, mas não se pode dizer o mesmo da sua interpretação segundo a letra morta.
 
Dissemos em outra ocasião:
 
“…O iniciado do primeiro grau é puro como uma criança. O foco da sua consciência nasceu no nível do eu imortal. Sua consciência pode ser ainda como uma criança indefesa, vivendo precariamente e ameaçada por Herodes (o egoísmo circundante). Mesmo assim, já nasceu e está colocada no centro da vida concreta, iluminando todas as coisas.”
 
E também:
 
“A humildade, simbolizada na linguagem cristã pela pobre manjedoura, assinala a ausência de orgulho ou egoísmo. A presença de vários animais em torno do menino Jesus simboliza a comunhão básica do iniciado com todos os seres. As estrelas no céu mostram que esta unidade fundamental inclui o universo inteiro.” [1]
 
Em Mateus, 13: 10-16, o próprio Jesus adverte a seus discípulos que ele ensina por parábolas. No entanto, ainda hoje muita gente se apega ao hábito da preguiça e, para convencer-se de que sabe tudo, lê o Novo Testamento de modo literal. 

A esta altura o leitor pode perguntar: se a história do Novo Testamento sobre o nascimento de Jesus é uma alegoria, como aconteceu o verdadeiro nascimento dele?
 
A pergunta é legítima, e leva a fatos desconfortáveis.
 
Assim como os seus discípulos diretos, Jesus era judeu. Não deveria ser uma grande surpresa o fato de que a história do seu nascimento faz parte da tradição judaica. 
 
Em uma longa nota de rodapé em “Ísis Sem Véu”, Helena Blavatsky compartilha esta narrativa sistematicamente suprimida. O relato merece ser examinado e contemplado com toda calma. De acordo com a história, um homem chamado Ben-Panthera foi na realidade o pai pecaminoso de Jesus, cuja mãe era inocente e livre de pecado.
 
Helena Blavatsky começa indicando várias fontes:
 
“Ver a versão de Faggarel; Eliphas Levi, ‘La science des esprits’; MacKenzie, ‘Royal Masonic Cyclopaedia’; ‘Sepher-Toldos-Yeshu’ e outras obras cabalísticas e rabínicas.”
 
E então ela faz um resumo dos fatos:
 
“Uma virgem chamada Mariam, prometida a um jovem de nome Yôhânân, foi ultrajada por um outro homem chamado Panthera ou Pandira, diz o ‘Sepher-Toldos-Jeshu’. ‘Seu prometido, informado de sua desgraça, abandonou-a, perdoando-a ao mesmo tempo. A criança que nasceu foi Jesus, chamado Joshua. Adotado por seu tio, o Rabino Jehoshuah, foi iniciado na doutrina secreta pelo Rabino Elhanan, um cabalista, e depois pelos sacerdotes egípcios, que o consagraram Sumo Pontífice da Doutrina Secreta Universal, em virtude de suas grandes qualidades místicas. Após o seu retorno à Judeia, sua erudição e seus poderes excitaram o ciúme dos Rabinos, que o reprovaram em público pelo seu nascimento e insultaram sua mãe. Daí as palavras atribuídas a Jesus, em Caná: ‘Mulher, que tenho eu a ver convosco?’ (Ver João, II, 4).’ Como os seus discípulos o tivessem censurado por essa indelicadeza para com sua mãe, Jesus se arrependeu e, ouvindo dela os detalhes da história, declarou que ‘Minha mãe não pecou, ela não perdeu a sua inocência; ela é imaculada e, contudo, é mãe. (…) Quanto a mim, não tenho pai neste mundo, sou o Filho de Deus e da Humanidade!’ Sublimes palavras de confiança e fé no Poder inobservado, mas quão fatais foram elas para milhões e milhões de homens mortos devido ao fato de que não foram completamente compreendidas!” [2]
 
Estas são as palavras de Blavatsky ao reproduzir a visão judaica tradicional de Jesus. O sofrimento de Maria mostrado por esta narrativa tradicional do nascimento de Jesus não prejudica a essência do cristianismo. [3]
 
Mais evidências são encontradas no fato de que os autênticos Templários - ao contrário dos templários modernos - compartilhavam a visão segundo a qual Jesus era um ser humano como qualquer outro. Ao comparar os Templários recentes e mal-informados com os templários autênticos, que existiram até o século 14, Helena Blavatsky escreveu:
 
“Os templários atuais, aderindo como fazem tão estreitamente à Bíblia, não podem pretender ser descendentes diretos daqueles que não acreditavam em Cristo, seja como homem-Deus, seja como o Salvador do mundo; que rejeitavam o milagre do seu nascimento e os milagres que foram operados por ele; que não acreditavam na transubstanciação, nos santos, nas relíquias sagradas, no purgatório, etcétara.”
 
“O Jesus Cristo era, em sua opinião, um falso profeta, mas o homem Jesus era um Irmão. Consideravam João Baptista como seu patrono, mas nunca o tiveram no conceito em que o tem a Bíblia. Reverenciavam as doutrinas da Alquimia, da Astrologia, da Magia, dos talismãs cabalísticos e seguiam os ensinamentos secretos dos seus chefes do Oriente.” [4]
 
A riqueza da sabedoria presente na tradição cristã não é fortalecida pela supressão dos fatos. Os verdadeiros cristãos não têm medo de olhar para a realidade. É correto buscar a verdade e aceitá-la, mesmo que ela seja desconfortável. Jesus nunca criou igreja alguma, por exemplo, e nunca disse que era um deus, muito menos o filho único de Deus.
 
Ele era um “filho de Deus”, como todos os outros membros da sua nação judaica. Ao falar do “Pai do Céu”, Jesus se referia ao Espírito imortal ou eu superior de cada ser humano.
 
NOTAS:
 
[1] Veja “A Magia do Final de Ano”. Em relação a outros aspectos das grandes iniciações, leia “Um Cosmo Em Cada Feto Humano” e “A Páscoa Como Renascimento Interior”.
Para examinar o simbolismo do nascimento celebrado no Natal: “O Presépio na Alma de Cada Um” e “Não Pergunte Quem Nasce no Natal”.
 
[2] As palavras de Blavatsky são reproduzidas da nota 90 à p. 55 de “Ísis Sem Véu”, volume IV, Ed. Pensamento, São Paulo, revisadas com o original inglês na página 386 do volume II de “
Isis Unveiled”. Enquanto a nota 90 está na p. 55 do volume IV da edição brasileira da obra, a chamada da nota, isto é, o trecho correspondente do texto principal, está à p. 35, logo abaixo da metade.
 
[3] Mencionado por Blavatsky em “Ísis”, o livro “La Science des Esprits”, de Eliphas Levi, apresenta várias narrativas sobre o nascimento de Jesus segundo a tradição judaica. O volume está publicado no Brasil sob o título de “A Ciência dos Espíritos”. Um importante documento a respeito deste tema, incluído naquela obra, está disponível online: “Jesus Segundo o Talmude”.
 
[4] Do texto de Helena Blavatsky intitulado “O Mistério dos Templários”.
 
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O artigo acima foi publicado nos websites associados dia 22 de abril de 2021.
 
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Leia mais:
 
* A Imitação de Cristo.
 
* Conversando com Jesus.
 
* Se Cristo Voltar Neste Natal.
 
* Jesus Ensinou Sobre Reencarnação.
 
* Jesus Cristo, o Guerreiro da Verdade.
 
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Examine o artigo Jesus Segundo o Talmude”.
 
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18 de abril de 2021

A Força Sagrada do Casamento

 O Poder do Amor Segundo
Um Pensador do Século 17

Carlos Cardoso Aveline

Capa da edição portuguesa de 1944 de “Casamento Perfeito”
 
 
 
Publicado pela primeira vez em 1630, o livro “Casamento Perfeito” é raro, mas não é impossível obtê-lo. A vida do seu autor, Diogo de Paiva de Andrada, é pouco conhecida. [1]
 
As teses do livro são clássicas. São espirituais. Têm como base os filósofos antigos e a sabedoria perene. Na primeira parte do século 21, porém, elas podem soar como heréticas para os que seguem a religião cega do materialismo de curto prazo.
 
As ideias de Paiva de Andrada escandalizam algumas pessoas que se consideram modernas. São quase “absurdas” para um certo subnível de opinião pública, porque o autor de “Casamento Perfeito” afirma:
 
* A beleza interior deve ser mais amada que a beleza externa. (p. 27)
 
* Segundo escreve Putarco, dura pouco o amor baseado exclusivamente na beleza do corpo. (p. 28)
 
* Em alguns casos, porém, “se bem descobrirdes a verdade, amais o rosto,  não a mulher”. (p. 29)
 
* Seguramente não é sempre verdadeiro o antigo ditado segundo o qual “cabeça formosa não tem miolo”. (pp. 84-85)
 
* É quando se ama a formosura interior que, quanto mais passa o tempo, mais cresce o amor. (pp. 29-30)
 
* A virtude não é um favor que se faz aos outros, mas um prêmio para si mesmo. A virtude é o canal por onde descem as perfeições até o gênero humano. (p. 134)
 
* O casamento deve ser reconhecido como um processo sagrado de afinidade entre duas almas. (pp. 1-3) [2]
 
No entanto, a ação correta implica esforço,  auto-observação e discernimento.
 
A Criatividade Responsável
 
A vida familiar exige uma disciplina espiritual.  Amar é uma função criativa da alma, e tudo o que envolve a alma requer também coerência.
 
Paiva de Andrada escreve:
 
“...Posto que o muito amor é tão necessário, e a falta dele tão arriscada entre os casados, convém contudo, que não seja ele [vivido] com tanto excesso, que exceda as leis de Deus [3], e as da razão. Porque se o for, como o amor grande tem por ofício transformar-se todo nos gostos e desejos da coisa amada, sem ter operação certa nem vontade própria, se qualquer deles se deixa levar de alguma paixão mal ordenada, logo o outro se levará da mesma, e de comum consentimento virão a cair em algum pecado ou desconcerto aqueles mesmos corações que Deus uniu em amor.”  
 
E prossegue:
 
“Há de se evitar de toda forma este perigo, que não dá de si menos desastres dos que [vemos] no pouco amor: e para isto é muito importante, que cada um dos casados, que se querem muito, tragam sempre os olhos, e pensamentos, no que pedem a razão e a vontade divina. Porque como o amor os faz formar um só desejo, e daí [decorrem] quaisquer efeitos, bons ou ruins, quando ambos se inclinarem para o bem, nunca podem deixar de ser virtuosas todas suas obras, e quando se empregam no que é justo, esse amor, que com as vontades viciadas os arrebatava para o vício, com as mesmas bem ordenadas os fortifica na virtude.”[4]
 
Escrito em linguagem clássica, “Casamento Perfeito” examina com lucidez as bases espirituais de qualquer civilização digna do nome. A fonte de todo processo social está na estrutura afetiva e familiar.
 
O livro de Paiva de Andrada deve ser respeitado como obra do seu tempo.  Precisa ser lido com um olhar intercultural. É vendo além da forma passageira que enxergamos a essência perene do saber humano acumulado.
 
NOTAS:
 
[1] Diogo de Paiva de Andrada,  “o jovem”, foi sobrinho do bem conhecido teólogo do mesmo nome, Diogo de Paiva de Andrada (1528-1575). As datas de nascimento e morte do autor, Diogo sobrinho, são incertas. Diferentes fontes indicam anos diferentes. A Biblioteca Nacional de Portugal afirma que ele nasceu em 1576 e morreu em 1660.
 
[2] Estamos usando o livro “Casamento Perfeito” tal como reeditado em 1944 pela Livraria Sá da Costa, Lisboa, com 206 páginas. Cabe registrar que o prefácio de Fidelino de Figueiredo ao livro de Diogo de Paiva de Andrada, sobrinho, é pouco feliz. O texto introdutório fracassa até mesmo na tarefa de reconhecer o valor espiritual da obra.
 
[3] Lei de Deus, isto é, a lei universal, a lei do equilíbrio. 
 
[4] “Casamento Perfeito”, de Diogo de Paiva de Andrada, Livraria Sá da Costa, 1944, ver pp. 18-19. A ortografia foi atualizada. Em alguns pontos, a linguagem foi adaptada para ser compreensível no século 21.
 
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O artigo “A Força Sagrada do Casamento” foi publicado como item independente nos websites associados em 18 de abril de 2021. Uma versão inicial da primeira parte do texto está incluída anonimamente na edição de dezembro de 2019 de “O Teosofista”, pp. 16-17.  A substância principal da segunda parte do artigo pode ser vista na edição de junho de 2020 de “O Teosofista”, pp. 3-4.
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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