2 de agosto de 2021

José de Alencar em Jornal de 1942

Suplemento Literário de “A Manhã” Publica
Textos Pouco Conhecidos Sobre o Grande Escritor

Múcio Leão (Ed.)

 
 
 
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Nota Editorial de 2021
 
Pelo seu valor histórico e pelo seu caráter de
PDF fac-similar, o material a seguir inclui a
possibilidade de uma certa viagem no tempo.
 
O estudante de teosofia do século 21 pode agora
ler e ver exatamente o que foi visto pelos cidadãos
do Rio de Janeiro - então capital brasileira - na
manhã de 11 de janeiro de 1942. A segunda guerra
mundial estava no auge. Getúlio Vargas presidia o país.
 
O presente número de Autores & Livros - suplemento
literário de “A Manhã” -  inclui fragmentos de obras
de J. de Alencar, textos pouco conhecidos sobre os livros
dele,  e parte do seu poema inacabado “Os Filhos de Tupã”.
 
(Carlos Cardoso Aveline)
 
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‘José de Alencar em Jornal de 1942’

 
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O suplemento literário de “A Manhã” de 11 de janeiro de 1942 foi publicado nos websites associados no dia 02 de agosto de 2021, sob o título de “José de Alencar em Jornal de 1942”. 
 
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Leia mais:
 
 
* “O Jesuíta”, peça teatral de José de Alencar.
 
 
* “O Maior Escritor do Brasil” (Como se Cria a Imagem Que Um País Tem de Si Mesmo).
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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O Maior Escritor do Brasil

 Como se Cria a Imagem
Que Um País Tem de Si Mesmo

Carlos Cardoso Aveline

 
 
 
Qual é o mais importante escritor brasileiro de todos os tempos?
 
Desde o ponto de vista da filosofia clássica, o maior escritor de um país não é necessariamente o mais famoso, nem o favorito da televisão. A posição de “maior escritor” não depende do tamanho da operação de marketing que haja em torno dele. É aquele cuja obra explica melhor o espírito do país ou do ser humano que o habita. Aquele que melhor descreve o passado e aponta um caminho para melhorar a evolução da vida.
 
No caso brasileiro, se levarmos em conta apenas a fama e o prestígio do autor, há dois candidatos naturais para esta posição: Machado de Assis e José de Alencar.
 
Os livros de Alencar (1829-1877) falam da formação do Brasil e trazem lições de ética e integridade. Os seus personagens mais famosos vivem junto da natureza: a paisagem faz parte da história. Os seus heróis respiram ar puro. O ambiente é épico e a alma das pessoas, valente. Seus personagens são psicologicamente profundos. O espírito de Shakespeare - a luta entre lealdade e deslealdade, entre grandeza e mesquinharia - é onipresente nas suas histórias.
 
Em Machado de Assis (1839-1908), por outro lado, o ser humano é urbano e egoísta, e a natureza está ausente. Reinam a neurose e uma certa hipocrisia na prosa irônica. Machado usa seu talento para descrever o brasileiro como um egocêntrico estreito que não acredita em valores morais.
 
Se a alma do Brasil estiver dividida, então pode-se dizer que Alencar e Machado são, ambos, o maior escritor do país.
 
Machado é o bruxo do Brasil sem ética, o filósofo do mentiroso esperto, do depressivo que ri do mundo porque perdeu a esperança. José de Alencar pensa o Brasil construtivamente desde antes da chegada dos europeus até a década de 1870. Ele sabe que um cidadão de caráter é a base de um país próspero e justo, e inspira o lado saudável da nação.
 
Sílvio Romero, autor de uma História da Literatura Brasileira em cinco volumes e pensador comprometido com o futuro do Brasil, bateu de frente com Machado por causa da falta de caráter na sua obra e na sua visão derrotista da vida.
 
Gilberto Freyre, outro grande pensador, escreveu:
 
“Do paisagismo agreste e corajosamente tropical no romance de José de Alencar, em contraste com a quase ausência de paisagem, de cor e de trópico em Machado - e na literatura brasileira ninguém mais se fechou às cruezas da paisagem tropical do que Machado, do mesmo modo que ninguém excedeu José de Alencar no gosto e na eloquência de associar ao drama dos homens a exuberância de paisagens brasileiras - talvez se possa dar explicação, se não ortodoxamente psicanalítica, psicológica. Explicação que se junte à social, ou sociológica, para nos esclarecer a abundância de árvore, de mata, de queda-d’água, de cascata, de selva nas principais novelas do cearense, notáveis também pelo fato de nelas virem quase sempre destacadas as cabeleiras fartas das heroínas, numa como ostentação do vigor tropical de mulheres que fossem expressão do viço maternal das selvas, das matas, das águas brasileiras.” [1]
 
Em José de Alencar, o Brasil está longe de ser perfeito, e o fato reflete a imperfeição humana. Mas a honestidade predomina, a ignorância espiritual não é todo-poderosa, as pessoas são capazes de ações altruístas com sacrifício da sua própria vida, e a justiça guia os acontecimentos. É com estes fatores que se constrói um país.
 
Sílvio Romero está certo em afirmar que a história da literatura de um povo é também a história do povo. Os escritores e pensadores criam o país num plano subjetivo, interior, que depois se expressa através de ações.
 
É recomendável observar bem a quem escolhemos como nossos melhores escritores, e saber se predomina a integridade em suas almas. O Brasil nasceu em grande parte no Nordeste. Há um Brasil essencial, não sem falhas, mas valioso, nos livros de José de Alencar. Através de obras como “Ubirajara”, “O Guarani”, “Iracema”, “Senhora”, “O Tronco de Ipê”, “O Garatuja”, “Til” e “O Sertanejo”, José de Alencar construiu no país uma imagem positiva de si mesmo que é correto preservar.
 
NOTA:
 
[1] “Vida, Forma e Cor”, de Gilberto Freyre, Editora Record, RJ, Brasil, 1987, 324 pp., p. 123.
 
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O artigo acima foi publicado como item independente nos websites associados no dia 02 de agosto de 2021. Uma versão inicial dele é parte da edição de dezembro de 2020 de “O Teosofista”, pp. 1-3.
 
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Veja também:
 
* “A Metafísica é a Alma do Progresso”.
 
Leia a nota “Compreendendo o Futuro da Humanidade”, que aborda o livro “O Futuro da Ficção”, de António-Pedro Vasconcelos. O curto artigo está na edição de julho de 2020 de “O Teosofista”, p. 18.
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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28 de julho de 2021

O Poder Oculto dos Rios

Uma Experiência de Unidade Pessoal com
a Natureza nas Nascentes do Rio dos Sinos

Carlos Cardoso Aveline
 
Uma cachoeira nas nascentes do rio dos Sinos
 
 
 
Disputado no verão, o camping da pequena praia de João Fernandes, na região das nascentes do Rio dos Sinos, está deserto na tarde fria de outono. O ar é puro, a mata nativa fechada protege as margens do rio, e não há sinais de cidade por perto: nem ruídos, nem automóveis, exceto o Fusca branco que me trouxe até aqui.
 
“Tudo o que se move precisa, de quando em quando, fazer paradas”, observou em 1890 um velho sábio dos índios dakota, nos Estados Unidos. “O pássaro suspende o voo num lugar para fazer o ninho e num outro para descansar (…). O Sol, tão belo e brilhante, é um lugar onde o deus parou. Do mesmo modo a Lua, as estrelas e os ventos.” [1]
 
Mais de um século depois dessas palavras, estou completamente imóvel, atento ao murmúrio das águas e ao ruído do vento nas folhas das árvores. Não faço qualquer movimento, para não quebrar o encanto.
 
O leito do rio está coberto de pedras arredondadas pela água. Há neste ponto uma corredeira; uma grande concentração de pedras torna o rio impetuoso. O som envolvente das águas deixa em segundo plano a virtude contemplativa das frondosas árvores sob as quais o rio desfila há séculos.
 
“Quando eu tinha 10 anos”, disse o feiticeiro sioux Búfalo Bravo, no começo do século vinte, “olhei a terra, os rios, o céu e os animais ao meu redor, e não pude deixar de ver que eles provinham de algum grande poder.” [2]
 
Quando sentei aqui só as águas faziam música. Não havia animais à vista. Há dois minutos, enquanto involuntariamente ampliava-se minha consciência, um pássaro próximo empreendeu um longo cântico que se somou e se sobrepôs ao ritmo envolvente da água encachoeirada nas pedras. Olhei para o lado, como para reconhecer o cenário, e vi um pato banhando-se muito perto, sossegadamente. Mais distante e cauteloso, outro pato ocultava-se parcialmente entre bambus.
 
Ainda não são 16 horas, mas os primeiros mosquitos comparecem para um reconhecimento da temperatura média do meu corpo físico, assim como do seu suor e sua disponibilidade para suportar algumas picadas.
 
Sinto o perfume da mata nativa e o cheiro vital das águas até há pouco verdes, mas agora escuras porque a tarde já cai. No céu, o Sol ainda brilha e as nuvens movem-se imperceptivelmente.
 
Visto à distância, sou apenas um integrante imóvel e anônimo deste cenário de águas faladoras e pedras imponentes. Mas posso sentir a força misteriosa da natureza de que falava o feiticeiro sioux.
 
“Fiquei tão ansioso para conhecer aquele poder”, contou Búfalo Bravo, “que comecei a indagar às árvores e arbustos (...) até que adormeci; e em um sonho uma pequena pedra redonda me disse que minha curiosidade me havia tornado merecedor de ajuda...”.
 
Búfalo Bravo escreveu que certas pedras são redondas como o Sol e a Lua. Para ele, todas as coisas redondas estão relacionadas entre si. Ele conversava com estas pedras que estavam “há muito tempo olhando para o Sol”.
 
Quando fico observando com a mente imóvel o desfile encrespado da água pelas pedras, percebo a força deste local com mais intensidade do que quando penso conscientemente sobre o significado de cada coisa que me rodeia. Imerso em um sentimento de reverência, respiro lenta e profundamente, como se estivesse bebendo ar pelas narinas. “Não especule, mas respire plenamente”, ordeno a mim mesmo.
 
Mais tarde, quando me ergo com pesar e saio desta paisagem para ir até outro trecho do rio, levo comigo uma pedra. Ela é arredondada. Irá fazer parte da minha biblioteca.
 
Enquanto me afasto das águas, um quero-quero caminha pelo descampado com majestosa dignidade. Fico com o olhar parado em um ponto qualquer da paisagem enquanto minha consciência se expande. “Só quem já viveu na cidade pode compreender todo o valor da paz existente no campo”, penso comigo mesmo.
 
“Esta água brilhante que corre nos riachos e rios não é somente água, mas o sangue de nossos antepassados”, escreveu em 1855 o chefe Seattle, dos índios duwamish, ao presidente norte-americano que queria comprar as terras indígenas. “Se lhes vendermos as terras, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada e devem ensinar às suas crianças que ela é sagrada; e que cada reflexo do espírito na água cristalina dos lagos revela acontecimentos e lembranças da vida do meu povo.” [3]
 
Este texto constitui talvez o mais importante manifesto ecológico de todos os tempos: “Os rios são nossos irmãos, eles saciam nossa sede”, prosseguiu o cacique Seattle. “Os rios transportam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar às suas crianças que os rios são nossos irmãos, e seus também. E vocês devem, daqui em diante, dar aos rios o tratamento que dariam a qualquer irmão.”
 
Protegidas pelo Código Florestal Federal e pela Lei 7.754, as nascentes dos rios brasileiros encontram-se em perigo e só permanecem em grande parte intocadas porque estão quase sempre em locais de difícil acesso. Enquanto as nascentes estiverem preservadas, basta controlar as fontes de poluição nas regiões industriais mais abaixo e interromper o desmatamento e a agricultura predatória dos agrotóxicos para que a qualidade das águas da bacia hidrográfica se recupere naturalmente. As nascentes simbolizam a autorrenovação de um rio.
 
Agora estou mais acima, onde já não circulam carros e o acesso de pessoas é restrito. Mas há aqui um contraste entristecedor: o homem do campo continua abandonando tudo em troca da cidade e a área desmatada é cada dia maior. Mesmo esta região relativamente preservada, vista por muitos como um santuário natural, já recebe visitantes demasiadamente numerosos. Alguns deles são barulhentos. Outros trazem bebidas alcoólicas ou deixam lixo por aqui. Às vezes, ligam a todo volume seus aparelhos de som, reproduzindo inconscientemente a neurose urbana e revelando sua própria incapacidade de aceitar a música do silêncio.
 
Neste entardecer, no entanto, há sossego. Um bando de pequenos pássaros sobrevoa a dez ou vinte metros de altura o lugar em que caminho lentamente morro acima. Vão em busca das encostas íngremes da serra onde há grandes extensões de mata fechada. A luz do Sol dá lugar gradualmente à noite, enquanto avanço para o local de uma primeira cachoeira de águas límpidas. Recolho água na palma da mão, bebo-a e lavo o rosto. Este ato simples me faz sentir tão bem que repito a operação meia dúzia de vezes, lenta e determinadamente, como num ritual. Ao erguer-me, já me parece ter chegado ao local muito tempo antes. Acompanha-me a sensação de que tudo o que existe, dentro e fora da vida humana, está em paz.
 
“Se o universo inteiro está na mais perfeita ordem, por que eu deveria ter pressa?”, pergunta uma folha de papel colocada em lugar visível, entre meus livros, na cidade. É exatamente a sensação que tenho enquanto caminho à beira do rio sob as árvores, coberto por uma noite luminosa.
 
Mais tarde, na cabana, durmo no sótão rústico depois de ganhar um prato de sopa de um grupo de jovens cristãos em visita ao local. Pela manhã, primeiro o café com leite e chocolate quente, o estudo e a meditação e, então, a caminhada morro acima, de volta à complexa rede de riachos que se reúnem na região para formar o rio. Segundo minha experiência, o som da água é o portal de acesso para um estado de espírito de comunhão com o rio.
 
Assim como o mantra “Om” dos hindus significa o fluxo da manifestação do universo, também o som das águas das nascentes parece dar o impulso inicial do rio, em sua longa marcha através do continente até o oceano, onde o ciclo eterno das águas recomeçará com a evaporação causada pelo calor do Sol. O “Om” das nascentes não cessa. Ele magnetiza as águas fazendo-as bater de pedra em pedra e criando uma espuma branca que se desfaz a cada instante. Avanço lentamente pelo riacho, atraído pela visão de um pequeno pássaro que bebe água, até que decido instalar-me, muito à vontade, numa espécie de poltrona formada por duas rochas cobertas de musgo, a meio metro do murmúrio das águas.
 
Será correta a imagem de que as águas falam? Para quem se sente em unidade com a natureza, a resposta pode ser afirmativa. O rio que banha a capital peruana, por exemplo, chama-se Rímac, literalmente, “o rio falador”. Mal pronunciada pelos espanhóis, foi esta palavra quéchua que deu origem ao nome da cidade de Lima.
 
Talvez o Rímac fale ainda hoje da tristeza do povo andino, cuja cultura foi em grande parte suprimida pelos colonizadores europeus. Mas a percepção de um rio como um ser vivo que fala em linguagem não-verbal diretamente a um nível mais interior da consciência do ser humano está presente em diferentes tradições. “O murmúrio das águas é a voz dos meus ancestrais”, afirmou o velho chefe Seattle. Nos Vedas hindus, está escrito: “Esta água carrega em seu útero o fogo dourado que governa a vida. Que as chamas sem forma nascidas desta água possam distribuir bênçãos e prosperidade sobre nós!”
 
No Manuscrito Huarochirí, que retrata a tradição andina, a montanha é o princípio masculino que fertiliza através dos rios a terra dos vales. Os rios, com suas nascentes próximas ao céu e formadas com a água das chuvas, são de certa forma mensageiros dos deuses. Para os quéchuas, as montanhas eram sagradas. É o caso de Paria Caca, que, com seu pico coberto de neve, dá origem às águas que garantem a agricultura e toda a vida dos vales abaixo. A própria Via Láctea é descrita como um curso hídrico, conforme vimos no capítulo nove.[4] A galáxia em que vive nosso sistema solar é, segundo aquele documento Huarochirí, “um rio de estrelas”.[5]
 
Para alguns, a natureza pode ser vista como uma parábola dos ensinamentos da sabedoria eterna. Estou quase deitado como numa poltrona, sob o Sol, em meio a um mato baixo, e sinto o cheiro das ervas que me circundam e me convidam a respirar mais fundo. O som das águas está agora poucos metros mais abaixo. Deito e durmo entre as folhas verdes e sonho com uma dança religiosa hindu. No sonho, ouço palavras em sânscrito, mas acordo com o canto de um pássaro. Quando você medita ou ora na natureza, cânticos e aparições de pássaros são parte significativa do todo. Cada pequeno acontecimento pode ter uma mensagem para seu mundo interno porque, quando espiritualmente desperto, você é capaz de perceber a inteligência em muitas manifestações não-verbais. Tudo está vinculado a tudo, no mesmo instante.
 
A situação dos nossos rios reflete o estágio atual de evolução da mente humana. A parte baixa dos rios está poluída. Mas a parte alta das bacias hidrográficas é como as regiões superiores do espírito do homem, de onde jorram sempre as percepções mais elevadas da realidade, inspirando e dando vida ao conjunto do processo humano. Lá no alto está a energia pura dos ensinamentos de Cristo, Buda, Pitágoras e de outros “irmãos mais velhos” que continuam protegendo a humanidade. Interiormente renovado, encerro meu breve retiro junto ao rio meditando sobre algumas palavras atribuídas a Nagarjuna, o filósofo budista do século dois:
 
Há quatro tipos de pessoas:
As que vão da luz para a luz,
As que vão da escuridão para a escuridão,
As que vão da luz para a escuridão
E as que vão da escuridão para a luz.
Seja você integrante do primeiro grupo. [6]
 
E é assim que você se sente, caminhando pela região das nascentes de um rio brasileiro qualquer. Avançando de paz em paz.
 
Exercício Prático:
Aprendendo a Conviver com a Natureza
 
Para quem sai pela natureza, a primeira recomendação é não fazer barulho, mas, ao contrário, ouvir os animais. Quando há um grupo ruidoso de pessoas, é possível ver um grande número de animais fugindo do local assustados. Se você fica imóvel e tranquilo, no princípio o local pode parecer deserto, porém, aos poucos, os sinais de vida animal se multiplicam ao seu redor. Os pássaros, por exemplo, são animais curiosos, e muitos deles terão certo interesse por você, perdendo gradualmente o medo. Os animais podem detectar a presença de um ser humano que não lhes causará dano ou ameaça. Manter uma dieta vegetariana tornará mais fácil esta sintonia fina.
 
No começo, você ouvirá e depois, eventualmente, verá os animais. Além disso, estar na natureza acalma, energiza e dá um magnetismo revitalizante a qualquer amigo sincero do ambiente natural.
 
Leve um livro adequado a uma leitura meditativa e vincule o que você lê ao que vê e sente, dentro e fora de si mesmo.
 
Carregue consigo um ou dois sacos plásticos para guardar neles não só o seu próprio lixo, mas também outros detritos que porventura encontre pelo caminho. Cooperar com a preservação da natureza abre - psicológica e ocultamente - as portas para um convívio mais profundo e enriquecedor com ela. Não importa, no entanto, se você não puder recolher todo o lixo dos outros. O importante é que aquele lugar fique tão bem quanto (ou um pouco melhor do que) estava antes de sua visita. Nossa vida inteira deveria, aliás, ter o mesmo objetivo em relação ao mundo. Afinal, uma vida é como uma visita ao planeta.
 
NOTAS:
 
[1] “Pés Nus Sobre a Terra Sagrada “, um impressionante autorretrato dos Índios Norte-americanos. Compilado por T. C. McLuhan, Editora L&PM, ver p. 32.
 
[2] Obra acima citada, p. 20.
 
[3] “Preservação do Meio Ambiente - Manifesto do Chefe Seattle ao Presidente dos EUA”, Editora Interação, 1989, São Paulo, SP.
 
[4] Referência ao capítulo anterior da obra “A Vida Secreta da Natureza”, intitulado “A Metamorfose de um Funcionário Público” e também disponível online.
 
[5] “The Huarochirí Manuscript” - A Testament of Ancient and Colonial Andean Religion, University of Texas Press, Austin, EUA, ver p. 132.
 
[6] “A Letter to a Friend”, Nagarjuna, traduzido do tibetano por Leslie Kawamura, Dharma Publishing, Berkeley, Califórnia, EUA, ver p. 21.
 
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O Poder Oculto dos Rios” está disponível nos websites associados desde o dia 28 de julho de 2021. O texto é uma reprodução do capítulo dez da obra “A Vida Secreta da Natureza”, de Carlos Cardoso Aveline, terceira edição, 2007, Ed. Bodigaya, Porto Alegre, 157 páginas.   
 
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Leia mais:
 
* O Compromisso Interior.
 
* Roessler, um Pioneiro da Ecologia.
 
* A Razão do Coração.
 
* Educação Ecológica no Brasil dos Anos 1960: Quatro Testemunhos
Diretos de um Pioneiro da Preservação Ambiental - Henrique Luiz Roessler.
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”.
 
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26 de julho de 2021

O Rio Grande do Sul e a Ecologia

Crônicas Escolhidas de um
Naturalista Contemporâneo
 
Henrique Luiz Roessler
 
À esquerda, Henrique Roessler, que não precisava andar armado para
apreender armas de caça. À direita, a capa do livro que reúne artigos dele.
 
 
 
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Nota Editorial de 2021
 
Entre os principais pioneiros do movimento ambientalista
brasileiro, Henrique Luiz Roessler (1896-1963) parece ser
o único que deixou escritos importantes. A reflexão em seus
artigos transcende o seu tempo e permanece mais válida do
que nunca no século seguinte. Grande parte do ensinamento
que Roessler transmite surge do exemplo que ele nos dá de ação
voluntária independente, gerada pelo prazer de ajudar outros seres.  
 
Roessler era um intelectual como há poucos em qualquer tempo
e lugar. Foi um amigo da Ética, um homem do povo e um ativo
defensor da felicidade de todos os seres. Sentia-se corresponsável
pelo bem-estar dos seres não-humanos. E sabia bem que conforme
os humanos tratam a natureza, assim a natureza trata os humanos.  
 
Estudioso de ecologia, dono de conhecimentos sólidos,
acompanhava a luta pela preservação ambiental na Europa e
inspirava-se nela. Roessler tinha uma sólida filosofia de vida. Seu
ponto de vista era essencialmente teosófico e estoico, sem deixar de ser
cristão. Não faltava nele o sentimento místico de amor à Natureza.
 
Dentro da melhor tradição de altruísmo, a edição de 1986
da obra que agora reproduzimos avisa: “Não há direitos
autorais. Os promotores desta edição e os filhos do Autor
permitem a reprodução total ou parcial desde que haja  citação
do Autor, a respectiva data e a menção desta edição.”
 
Toda preparação de um livro inclui alguns erros, que costumam
tornar-se agressivamente visíveis depois de ele ser publicado, conforme
alertou Monteiro Lobato. Sem tentar uma revisão sistemática, corrigimos
no PDF algumas falhas de revisão desta grande obra de Roessler.
 
(Carlos Cardoso Aveline)
 
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Clique para ler em PDF o livro
“O Rio Grande do Sul e a Ecologia”
 
 
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O livro “O Rio Grande do Sul e a Ecologia” está disponível nos websites associados desde o dia 26 de julho de 2021.
 
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Leia mais:
 
 
 
 
 
 
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”.  
 
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24 de julho de 2021

O Rio que Navega em Nós

 A Arte de Visitar e Ver a Vida no Rio dos Sinos

Carlos Cardoso Aveline

Cena do rio dos Sinos durante uma cheia. Foto: jornal NH, de Novo Hamburgo, RS.
 
 
 
O povo que preserva a sua memória e aprende com o passado alcança uma visão correta do futuro.
 
No final dos anos 1980, o sr. Edgar Heurich descreveu de modo vívido durante um debate ecológico uma cena recorrente no rio dos Sinos das décadas de 1940 e 1950. [1]
 
Henrique Luiz Roessler, o pioneiro da ecologia no Brasil, subia o rio impulsando seu longo barco com um único remo. Em meio à paisagem cheia de vida, sem o ruído dos motores modernos, o barco ecológico avançava lentamente contra a correnteza.
 
Na popa, de pé, a figura imponente de Roessler. Sentada na parte dianteira, sua esposa. À medida que o barco avançava, de algum modo misterioso ou quem sabe por um sinal convencionado (como assobio ou grito), a notícia da presença do ecologista se alastrava.
 
Pescadores clandestinos, caçadores e outros personagens que tinham a consciência pesada com relação à preservação da natureza iam afastando-se do rio. As margens perdiam rapidamente sua população. Pela proximidade do seu protetor, a natureza recuperava seus direitos.
 
Henrique Luiz Roessler, cujo trabalho teve um grande continuador em seu filho Milton, não é apenas o patrono do movimento ecológico gaúcho, mas será sempre uma presença misteriosa e real nas águas do rio dos Sinos. E também uma fonte de inspiração e conselho intuitivo para quem luta pela sua proteção.
 
No final dos anos 1980 os tempos eram diferentes da época de Roessler. A fiscalização da pesca era quase inexistente, mas algum esforço vinha sendo feito. Depois de começar a fazer viagens pelo rio explicando aos pescadores por que a pesca com redes era proibida de novembro a fevereiro, foi uma satisfação perceber que de viagem para viagem ia diminuindo o número de redes, e não só porque elas eram apreendidas. Os bons pescadores eram amigos e aliados de quem defendia o rio. Alertados, cooperavam.
 
Há pessoas que nunca andaram pelo Sinos mas têm uma vontade enorme de flutuar nas águas deste rio legendário.
 
“Não se pode amar o que não se conhece, e não se pode defender o que não se ama”, diz uma frase que ouvi num encontro ecológico.
 
E, de fato, conhecer os nossos rios é fundamental. Andar de barco é totalmente seguro e tem pelo menos duas vantagens sobre andar de automóvel nas ruas da cidade. Não há esquinas perigosas, nem sinais vermelhos.
 
Devido à sua forma geométrica e ao material com que é feito, um barco moderno é praticamente impossível de virar na água. Além disso, a ação do motor lhe dá uma grande estabilidade perante as correntezas mais perigosas. Não há hoje qualquer aventura ou risco em andar de barco pelo rio, ao contrário do que ocorria nos tempos antigos. Mas a experiência é igualmente agradável, como aconteceu em uma viagem feita nos primeiros dias de 1988.  
 
Em determinado momento, desliguei o motor e descemos o rio usando os remos para manter o barco no rumo certo. Foi possível então ouvir perfeitamente os ruídos da natureza viva e observar melhor os pássaros, o salto dos lambaris, a expectativa das garças e martins-pescadores esperando pegar algum peixe distraído.
 
Quando subíamos o rio a toda velocidade e eu tinha o ronco do motor nos ouvidos, fiquei observando como uma colega de viagem olhava maravilhada os pássaros que jogavam corrida com o barco, as árvores imponentes à beira do rio, as curvas súbitas, cheias de surpresas, nas águas do velho rio. O motor era o leme. A experiência acumulada me permitia dirigir o barco com a mesma naturalidade com que se dirige um carro na cidade. A grande diferença é que num rio tudo é vivo, tudo é vida, inclusive o ar e a água e as margens de terra nos dois lados.  
 
Percebi a perfeita identidade, na mente e no coração, entre os seres humanos e os rios que lhes dão água. O corpo humano é feito em setenta por cento de água, e a água vem dos rios.
 
O curso d’água que nos abastece continua navegando misteriosamente em nossos organismos. O rio flutua e navega em nós, assim como nós podemos navegar em suas águas.
 
A vida transcende a forma.
 
O que é grande está presente no que é pequeno. O que é pequeno pode ser encontrado no que é imenso. As coisas ocorrem assim no Céu como na Terra, e a unidade entre tudo o que há é um fato a celebrar todo dia.
 
NOTA:
 
[1] O debate ocorreu em janeiro de 1988 na sede da União Protetora do Ambiente Natural, em São Leopoldo, RS, Brasil.  
 
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O artigo “O Rio que Navega em Nós” está disponível nos websites associados desde o dia 24 de julho de 2021. Uma versão inicial do texto foi publicada em 12 de janeiro de 1988 no jornal “Vale do Sinos”, da cidade de São Leopoldo. 
 
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Leia mais:
 
 
 
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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