18 de abril de 2021

A Força Sagrada do Casamento

 O Poder do Amor Segundo
Um Pensador do Século 17

Carlos Cardoso Aveline

Capa da edição portuguesa de 1944 de “Casamento Perfeito”
 
 
 
Publicado pela primeira vez em 1630, o livro “Casamento Perfeito” é raro, mas não é impossível obtê-lo. A vida do seu autor, Diogo de Paiva de Andrada, é pouco conhecida. [1]
 
As teses do livro são clássicas. São espirituais. Têm como base os filósofos antigos e a sabedoria perene. Na primeira parte do século 21, porém, elas podem soar como heréticas para os que seguem a religião cega do materialismo de curto prazo.
 
As ideias de Paiva de Andrada escandalizam algumas pessoas que se consideram modernas. São quase “absurdas” para um certo subnível de opinião pública, porque o autor de “Casamento Perfeito” afirma:
 
* A beleza interior deve ser mais amada que a beleza externa. (p. 27)
 
* Segundo escreve Putarco, dura pouco o amor baseado exclusivamente na beleza do corpo. (p. 28)
 
* Em alguns casos, porém, “se bem descobrirdes a verdade, amais o rosto,  não a mulher”. (p. 29)
 
* Seguramente não é sempre verdadeiro o antigo ditado segundo o qual “cabeça formosa não tem miolo”. (pp. 84-85)
 
* É quando se ama a formosura interior que, quanto mais passa o tempo, mais cresce o amor. (pp. 29-30)
 
* A virtude não é um favor que se faz aos outros, mas um prêmio para si mesmo. A virtude é o canal por onde descem as perfeições até o gênero humano. (p. 134)
 
* O casamento deve ser reconhecido como um processo sagrado de afinidade entre duas almas. (pp. 1-3) [2]
 
No entanto, a ação correta implica esforço,  auto-observação e discernimento.
 
A Criatividade Responsável
 
A vida familiar exige uma disciplina espiritual.  Amar é uma função criativa da alma, e tudo o que envolve a alma requer também coerência.
 
Paiva de Andrada escreve:
 
“...Posto que o muito amor é tão necessário, e a falta dele tão arriscada entre os casados, convém contudo, que não seja ele [vivido] com tanto excesso, que exceda as leis de Deus [3], e as da razão. Porque se o for, como o amor grande tem por ofício transformar-se todo nos gostos e desejos da coisa amada, sem ter operação certa nem vontade própria, se qualquer deles se deixa levar de alguma paixão mal ordenada, logo o outro se levará da mesma, e de comum consentimento virão a cair em algum pecado ou desconcerto aqueles mesmos corações que Deus uniu em amor.”  
 
E prossegue:
 
“Há de se evitar de toda forma este perigo, que não dá de si menos desastres dos que [vemos] no pouco amor: e para isto é muito importante, que cada um dos casados, que se querem muito, tragam sempre os olhos, e pensamentos, no que pedem a razão e a vontade divina. Porque como o amor os faz formar um só desejo, e daí [decorrem] quaisquer efeitos, bons ou ruins, quando ambos se inclinarem para o bem, nunca podem deixar de ser virtuosas todas suas obras, e quando se empregam no que é justo, esse amor, que com as vontades viciadas os arrebatava para o vício, com as mesmas bem ordenadas os fortifica na virtude.”[4]
 
Escrito em linguagem clássica, “Casamento Perfeito” examina com lucidez as bases espirituais de qualquer civilização digna do nome. A fonte de todo processo social está na estrutura afetiva e familiar.
 
O livro de Paiva de Andrada deve ser respeitado como obra do seu tempo.  Precisa ser lido com um olhar intercultural. É vendo além da forma passageira que enxergamos a essência perene do saber humano acumulado.
 
NOTAS:
 
[1] Diogo de Paiva de Andrada,  “o jovem”, foi sobrinho do bem conhecido teólogo do mesmo nome, Diogo de Paiva de Andrada (1528-1575). As datas de nascimento e morte do autor, Diogo sobrinho, são incertas. Diferentes fontes indicam anos diferentes. A Biblioteca Nacional de Portugal afirma que ele nasceu em 1576 e morreu em 1660.
 
[2] Estamos usando o livro “Casamento Perfeito” tal como reeditado em 1944 pela Livraria Sá da Costa, Lisboa, com 206 páginas. Cabe registrar que o prefácio de Fidelino de Figueiredo ao livro de Diogo de Paiva de Andrada, sobrinho, é pouco feliz. O texto introdutório fracassa até mesmo na tarefa de reconhecer o valor espiritual da obra.
 
[3] Lei de Deus, isto é, a lei universal, a lei do equilíbrio. 
 
[4] “Casamento Perfeito”, de Diogo de Paiva de Andrada, Livraria Sá da Costa, 1944, ver pp. 18-19. A ortografia foi atualizada. Em alguns pontos, a linguagem foi adaptada para ser compreensível no século 21.
 
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O artigo “A Força Sagrada do Casamento” foi publicado como item independente nos websites associados em 18 de abril de 2021. Uma versão inicial da primeira parte do texto está incluída anonimamente na edição de dezembro de 2019 de “O Teosofista”, pp. 16-17.  A substância principal da segunda parte do artigo pode ser vista na edição de junho de 2020 de “O Teosofista”, pp. 3-4.
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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16 de abril de 2021

Uma Profecia Sobre o Judaísmo e o Cristianismo

O Que os Mestres dos Himalaias
Pensam das Obras de Eliphas Levi

Carlos Cardoso Aveline

 
 
 
No século 19, um Mestre da Sabedoria do Oriente escreveu sobre Eliphas Levi, o famoso cabalista ocidental que nasceu na França em 1810:
 
“Exceto pelo fato de que ele constantemente usa os termos ‘Deus’ e ‘Cristo’, que vistos esotericamente significam simplesmente ‘Bem’ - no seu duplo aspecto do abstrato e do concreto, e nada mais dogmático que isto - Eliphas Levi não está em nenhum conflito direto com nossos ensinamentos.” [1]
 
Mais adiante, na mesma carta, o Raja Iogue dos Himalaias pergunta por que motivo “…se deveria pensar que o que é dado por Eliphas Levi e exposto por H.P. Blavatsky [2] está ‘em conflito direto’ com meu ensinamento. E.L. é um ocultista e um cabalista, e ao escrever para aqueles que supõe conhecerem os rudimentos dos princípios cabalísticos, usa a fraseologia peculiar da sua doutrina, e H.P.B. faz o mesmo.” [3]
 
Tendo isso em consideração, vejamos agora o que Eliphas Levi tem a dizer sobre o judaísmo e sobre a relação futura entre judeus e cristãos. Referindo-se ao mundo ocidental, ele escreve:
 
“O judaísmo é a mais antiga, a mais racional e a mais verdadeira das religiões. Jesus, que se propunha reformar o judaísmo, não aconselhou seus discípulos a abandoná-lo. A reforma de Jesus, não tendo sido aceita pelos chefes da Sinagoga, cuja legítima autoridade nunca foi contestada pelo mestre cristão, foi uma espécie de heresia que invadiu o mundo inteiro.”
 
As palavras acima são muito claras.
 
Eliphas prossegue:
 
“Inicialmente maltratados pelos judeus, os cristãos, quando o poder passou a ser deles, colocaram os judeus fora da lei e os perseguiram com insistência extremamente covarde e vergonhosa. Queimaram-lhe os livros ao invés de estudá-los, e a preciosa filosofia dos hebreus ficou perdida para o mundo cristão”.
 
Neste ponto, ele acrescenta uma profecia: 
 
“Os apóstolos, no entanto, pressentiram que o sacerdócio dos gentios duraria apenas um certo tempo ou que a nova fé perderia forças algum dia. Disseram então: a salvação nos chegará de Israel, e a grande revolução religiosa que nos reaproximará de nossos pais será como uma passagem desde a morte para a vida.”
 
Escrevendo no século 19, Eliphas sugere portanto que a salvação do Ocidente em última instância depende de saber aprender humildemente com a sabedoria judaica, e fazer uma aliança com os judeus, e com Israel.
 
Uma profecia não revela um fato: ela aponta para uma possibilidade. No entanto, faz sentido pensar que o Carma indescritivelmente negativo de séculos de antissemitismo deve ser enfrentado e removido em suas Causas; deve ter destruídas as suas raízes, antes que o Ocidente e o Oriente Médio consigam dar um novo passo na sua evolução espiritual - e sociológica. Esta não parece ser uma tarefa histórica que o Ocidente possa evitar.
 
Eliphas escreve:
 
“Os hebreus possuem uma ciência cuja existência era suspeitada por São Paulo, e que São João, iniciado por Jesus, ocultou e revelou ao mesmo tempo com os imensos hieróglifos do Apocalipse, tomados por empréstimo na maior parte dos casos da profecia de Ezequiel.” [4]
 
Comentários significativos. Mas podemos perguntar: “Até que ponto o que Eliphas Levi escreve é teosófico?”
 
Naturalmente ele cometeu erros. Por outro lado, os mestres que criaram o movimento teosófico observavam de perto e ajudavam o seu trabalho, que foi, informalmente, parte da preparação para o estabelecimento do movimento teosófico moderno, em Nova Iorque, em 1875.
 
O mesmo mestre citado acima escreve na Carta 70C:
 
“Para reconciliar você ainda mais com Eliphas, eu lhe mandarei um certo número de manuscritos dele que nunca foram publicados, em uma letra grande, clara, bonita, com meus comentários ao longo dos textos. Nada melhor do que isto para dar a você a chave dos enigmas cabalísticos.” [5]
 
Eliphas tinha acesso a fontes exclusivas de conhecimento e sabedoria. O próprio mestre participou de cerca de “meia dúzia” de reuniões com Eliphas e alguns outros Ocultistas em Londres em torno de 1860, conforme o Mahatma escreve em uma carta.[6] No entanto os livros de Eliphas não são sempre fáceis de ler, e exigem um estudo cuidadoso. O instrutor oriental esclarece:
 
“…O pouco que me é permitido explicar pode, espero, resultar mais abrangente que a Haute Magie de Eliphas Levi [7]. Não é de estranhar que você o considere nebuloso, pois nunca foi destinado ao leitor não-iniciado. Eliphas estudou os manuscritos Rosacruzes (agora reduzidos a três exemplares na Europa). Estes expõem nossas doutrinas orientais com base nos ensinamentos de Rosencreuz, que, após o seu regresso da Ásia, as revestiu com uma roupagem semicristã, com a intenção de proteger os seus discípulos da vingança clerical. Deve-se ter a chave para elas, e esta chave é em si mesma uma ciência.” [8]
 
O Raja Iogue deixa claro que Eliphas Levi, embora imperfeito, estava em contato com uma Sabedoria verdadeira:
 
“…Quando você se queixa de ser incapaz de compreender o que Eliphas Levi quis dizer, isto ocorre só porque você, como tantos outros leitores, não conseguiu achar a chave para a sua maneira de escrever. Com uma observação atenta, você verá que nunca foi intenção dos Ocultistas esconder realmente dos estudantes ardorosos e determinados o que eles tinham estado escrevendo, mas sim guardar a sua informação, por razões de segurança, em um cofre seguro cuja chave é a intuição. O grau de diligência e zelo com que o estudante busca o significado oculto é, em geral, o teste de até que ponto ele está qualificado para a posse de um tesouro tão enterrado.” [9]
 
Existe, no entanto, uma estreita relação entre o judaísmo e o pitagorismo. O mestre afirma:
 
“Falando de ‘imagens’ e ‘números’, Eliphas Levi se dirige aos que sabem algo das doutrinas pitagóricas. Sim; algumas delas resumem toda a filosofia e incluem todas as doutrinas. Isaac Newton compreendeu-as bem, mas reteve o seu conhecimento, com muita prudência, pensando em sua própria reputação (…).” [10]
 
À medida que tratamos de compreender o momento atual da evolução humana e da transição planetária, estes são alguns pontos a avaliar, com relação a fatores complexos como Israel, o Ocidente - e a sabedoria oriental. 
 
Parece não ser uma afirmação sem base, mas sim um fato objetivo, que a Terra de Israel e a sua sabedoria divina detêm uma chave significativa para o futuro espiritual da civilização do Ocidente.
 
NOTAS:
 
[1] Carta 70C, página 325 do volume I, em “Cartas dos Mahatmas”, Editora Teosófica, Brasília, 2001.
 
[2] Na primeira vez em que HPB é mencionada, uso o sobrenome completo dela nesta transcrição.
 
[3] Carta 70C, p. 328, volume I, em “Cartas dos Mahatmas”, obra citada.
 
[4] “As Origens da Cabala”, Eliphas Levi, Ed. Pensamento, SP, 137 pp., ver prefácio, p. 9. A tradução foi examinada e comparada com a edição da obra em inglês, sendo melhorada em alguns termos. Ver “The Book of Splendours”, by Eliphas Levi, Appendix by Papus, foreword by R. A. Gilbert, The Aquarian Press, Wellingborough, Northamptonshire, Great Britain, Copyright 1973/1981, 191 pp., p. 15.
 
[5] Carta 70-C, volume I, p. 334, “Cartas dos Mahatmas”,  Ed. Teosófica, Brasília.
 
[6] Sobre as reuniões, veja a Carta 11, vol. I, p. 76 de “Cartas dos Mahatmas”. A respeito do ano em que elas aconteceram, leve-se em conta que na página 75 o Mestre diz que as reuniões foram feitas “há cerca de vinte anos”. Já que a carta do Mestre é de dezembro de 1880, podemos deduzir que as reuniões foram em torno de 1860.
 
[7] “Haute Magie”, Alta Magia, em francês. O livro foi publicado no Brasil pela Editora Pensamento, sob o título “Dogma e Ritual da Alta Magia”. (Nota da edição brasileira das “Cartas dos Mahatmas”)
 
[8] Carta 20, pp. 131-132 do volume I de “Cartas dos Mahatmas”.
 
[9] Carta 49, p. 231, volume I, “Cartas dos Mahatmas”.
 
[10] Carta 20, p. 132 do volume I de “Cartas dos Mahatmas”.
 
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O texto acima foi publicado nos websites associados dia 16 de abril de 2021 e é uma tradução do artigo “A Prophecy on Judaism and Christianity”, de CCA, publicado em “The Times of Israel”.
 
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Leia mais:
 
 
 
 
 
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2 de abril de 2021

O Teosofista - Abril de 2021

 

 
 
 
O Teosofista” aborda os seguintes temas na edição de abril:
 
* Tenente-Coronel Santo Antônio: A Devoção Popular a um Santo - texto de Helena P. Blavatsky (p.1).
 
* Quem Escreveu as Obras de Shakespeare (p.3).
 
* A Musa do Céu - 03: Variedade Infinita de Seres. As Metamorfoses. Texto de Camille Flammarion (p.5).

* Ideias ao Longo do Caminho: Quando o Discípulo é Sincero, Torna-se Visível a Autenticidade Essencial do Mundo (p.9).
 
* O Pensamento, a Ação e a Emoção: Três Esferas Inseparáveis  (p.11).
 
* O Mistério de Vida Eterna: texto de Arnalene Passos do Carmo (p.12).
 
 
* O Primeiro Rei de Portugal, Um Cavaleiro Templário: Dom Afonso Henriques (p. 13).
 
* A Páscoa como Renascimento Interior: Um Processo de Renovação da Vida (p.15).
 
* A Sabedoria Eterna no Ovo da Páscoa: O que Blavatsky diz a respeito (p.16).
 
A edição, de 17 páginas, inclui a lista dos itens publicados recentemente nos websites associados.  

 
 
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A coleção completa de “O Teosofista” está disponível nos websites associados.
 
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24 de março de 2021

Calamidades e Bênçãos no Século 21

 A Responsabilidade Direta do Movimento
Esotérico Diante do Sofrimento da Humanidade

Carlos Cardoso Aveline

 
 
 
As catástrofes coletivas não são fatos isolados. Tampouco resultam de mero acaso - mas estão ligadas à lei do carma. Expressam a lei universal de modo a libertar e ajudar o aprendizado das almas, que é o motivo da existência física.
 
Cada crise enfrentada por um povo prepara um outro começo sobre bases melhores.
 
O doloroso final de uma civilização abre espaço para uma nova fase evolutiva. Quando este tipo de evento de grande porte causa injustiças, devido ao seu caráter aparentemente cego, os desequilíbrios de cada caso específico são compensados de acordo com a lei espiritual da harmonização constante.  
 
1. Calamidades Podem ser uma Bênção
 
Referindo-se à Sociedade Teosófica original, que deixou de existir nos anos de 1890, um Mestre de Sabedoria escreveu:
 
“... Os males aparentemente reais, evanescentes e passageiros que as leis produzem são tão necessários ao crescimento, ao progresso e ao estabelecimento final da sua pequena Sociedade Teos. quanto os cataclismos da natureza, que frequentemente dizimam populações inteiras, são necessários para a humanidade. Como todos sabem, um terremoto pode ser uma bênção, e a forte onda produzida por um maremoto ou furacão pode ser a salvação dos muitos, à custa dos poucos.”[1]
 
2. Afastando o Medo Supersticioso da Morte
 
O Raja-Iogue afirma que a chamada “luta pela vida” é um grande obstáculo à evolução do espírito:
 
“…Como iremos lidar com o restante da humanidade, em meio à maldição conhecida como ‘luta pela vida’, que é a real e mais prolífica causa da maioria das desgraças e tristezas e de todos os crimes? Por que esta luta teve que tornar-se o esquema quase universal do universo? Nós respondemos: porque nenhuma religião, com exceção do Budismo, ensinou até agora um desapego prático por essa vida mundana, enquanto cada uma delas - sempre com aquela única e solitária exceção - através de seus infernos e danações, inculcou o maior pavor em relação à morte.”
 
É importante ter em consideração o fato de que neste trecho o mestre se refere ao budismo clássico, oriental, e não ao falso budismo que se vê hoje no Ocidente e que ama sobretudo o dinheiro.
 
Com suas imagens fantasiosas do inferno e a sua negação do processo da reencarnação da alma, o cristianismo do Vaticano exagerou a importância do aspecto físico da vida, e alimentou um medo supersticioso da morte:
 
“Por isso nós encontramos, de fato, esta luta pela vida imperando mais violentamente nos países cristãos, prevalecendo especialmente na Europa e na América. Ela é mais fraca nas terras pagãs e praticamente desconhecida entre as populações budistas. (Na China, durante um período de fome, onde as massas são mais ignorantes em relação a sua própria religião ou a qualquer outra, foi notável o fato de que aquelas mães que devoraram seus filhos pertencessem às localidades onde se encontrava a maior quantidade de missionários cristãos; onde não havia nenhum deles e apenas os bonzos possuíam a terra, a população morria com o máximo de indiferença). Ensine-se ao povo a ver que a vida nesta Terra, mesmo a mais feliz, é apenas um fardo e uma ilusão, que apenas o nosso próprio karma, a causa que produz um efeito, é nosso próprio juiz, - nosso salvador em vidas futuras - e a grande luta pela vida em breve perderá sua intensidade.” [2]
 
Aceitando a morte como a conclusão natural de uma vida física, podemos viver mais e melhor, livres do pavor do fim. A consciência da lei da reencarnação permite esta tranquilidade. A morte física é apenas o final de uma etapa. A compreensão de que também as civilizações chegam gradualmente a seu fim é outro fator que permite evitar sofrimento desnecessário.
 
3. Interrompendo o Erro Mais Grave
 
O propósito das civilizações é facilitar o crescimento da alma. Quando uma estrutura social qualquer se distancia demasiado do mundo do espírito, ela deixa de cumprir sua função e desaparece.
 
A Terra tem vários níveis de consciência. A vida geológica do planeta avança passo a passo com a evolução psicológica, ética, social e econômica da humanidade. Há momentos de expansão e de retração, de iluminação e escurecimento, na história do nosso planeta.
 
As mudanças planetárias físicas fazem parte da evolução moral. O Mestre afirma:
 
“A aproximação de cada novo ‘obscurecimento’ é sempre assinalada por cataclismos - de fogo ou de água. (…) Assim, havendo atingido o ápice do seu desenvolvimento e glória, a quarta Raça, dos atlantes, foi destruída por água; você encontra hoje apenas seus remanescentes decadentes e caídos, cujas sub-raças, no entanto - ah, cada uma delas teve seus dias prósperos, gloriosos e de relativa grandeza. O que elas são agora - vocês serão algum dia, porque a lei dos ciclos é única e imutável.”
 
O sábio prossegue:
 
“Quando a sua raça - a quinta - houver alcançado o seu zênite de intelectualidade física, e desenvolvido a civilização mais elevada (lembre da diferença que nós estabelecemos entre civilizações físicas e espirituais), incapaz de elevar-se em mais nada em seu próprio ciclo, seu avanço em direção ao mal absoluto será interrompido (como seus antecessores, os lemurianos e atlantes, foram interrompidos em sua marcha no mesmo rumo) por uma destas mudanças cataclísmicas; sua grande civilização será destruída (…).” [3]
 
Civilizações nascem, civilizações morrem. As almas humanas evoluem sempre para o melhor. As guerras, pandemias e crises sociais, assim como a destruição catastrófica do meio ambiente, são sinais externos de uma cegueira espiritual e tornam necessário ampliar outra vez o contato direto entre o mundo humano e o mundo divino.
 
Cabe perguntar-nos qual é o futuro próximo da civilização em que vivemos. Mas o mais sensato é evitar a pretensão de ter respostas rápidas, porque uma pergunta que faça pensar é melhor do que uma resposta baseada na mera preguiça mental. São inúteis o fatalismo e o medo de encarar a incerteza de frente. Cabe ficar atentos e livres de pressa. Há muito por aprender: os fatos não são tridimensionais, são muito mais complexos.
 
4. Um Convite à Ação Criadora
 
As imagens-sementes dos acontecimentos futuros estão suspensas na atmosfera sutil que nos rodeia. Não se pode prever que forma exata eles irão tomar, ou que dia ocorrerão. O futuro que ainda não ocorreu pode ser alterado, conforme ensina Patañjali. O porvir é plástico, maleável. Em função disso os teosofistas têm um dever a cumprir. Sua responsabilidade é prática.
 
A Lei do Carma convida as pessoas de boa vontade a compreender existencialmente o aspecto dinâmico, criador, do ensinamento teosófico.  
 
No parágrafo final de “A Chave da Teosofia” Helena Blavatsky escreveu que se durante o século 20 o movimento teosófico fosse leal à verdade, o mundo seria um paraíso no século 21:
 
“…Diga-me se sou demasiado exagerada quando digo que se a Sociedade Teosófica sobrevive e se mantém fiel a sua missão e a seus primitivos impulsos, através dos próximos cem anos; diga-me, repito, se vou demasiado longe ao afirmar que a Terra, no século 21, será um paraíso em comparação com o que é agora.” [4]
 
Não foi a única vez que ela abordou a questão.
 
Em 1891, cerca de três semanas antes de morrer, Blavatsky escreveu em carta dirigida aos teosofistas norte-americanos:
 
“… Cada desejo e pensamento que eu emito são resumidos nesta única sentença, no desejo incessante do meu coração: ‘sejam teosofistas, trabalhem pela teosofia’! A teosofia primeiro e a teosofia por último; porque só a sua compreensão prática pode salvar o mundo ocidental do sentimento egoísta e antifraterno que agora divide uma raça da outra, uma nação da outra; e daquele ódio de classe e daquelas ideias sociais que são a maldição e a desgraça dos chamados povos cristãos. Só a teosofia pode evitar que eles se afundem inteiramente naquele materialismo meramente luxurioso no qual eles vão decair e apodrecer tal como as civilizações têm feito. Nas mãos de vocês, irmãos, está colocado em confiança o bem-estar do próximo século; e embora seja grande a confiança, igualmente grande é também a responsabilidade.”[5]  
 
A missão dos teosofistas está portanto esclarecida. Porém, o que aconteceu depois da morte de Blavatsky? A Sociedade fundada por ela abandonou os ensinamentos originais e esqueceu o projeto de esforço pela humanidade. Os seus líderes priorizaram a luta pelo poder. A lealdade aos Mestres brilhou pela sua ausência, porque a fantasia substituiu a realidade. O movimento fragmentou-se. Numa palavra, os teosofistas falharam.
 
Como consequência, o século 20 foi marcado por guerras, injustiças, racismo, corrida armamentista, antissemitismo, produção de armas nucleares e violência em geral. O “núcleo teosófico de fraternidade universal” não resistiu à força da ignorância. Mas nem tudo foi derrota. Mesmo sendo enorme, o fracasso teosófico não foi total, porque permaneceram sempre alguns núcleos de teosofistas leais ao ensinamento iniciático original e autêntico. 
 
Na primeira metade do século 21, a situação humana é complexa. Há claros perigos. Cabe dar uma direção mais definida ao processo do carma humano. A Terra pode transformar-se em um paraíso. Mas antes disso será preciso enfrentar mais de uma crise em escala planetária - começando pela falta de ética e honestidade, cuja solução precisa começar na vida individual e familiar assim como na vida das nações.  
 
5. A Vitória no Século 21, Apesar de Tudo
 
Alguns poucos setores do movimento preservaram o seu ideal vivo. A partir deles podemos agir. Grande número de cidadãos de boa vontade que não pertencem ao movimento nominalmente teosófico são intensamente dedicados ao ideal de progresso e aperfeiçoamento humanos.
 
Cabe lutar e vencer: uma vida correta é a vitória diária que todos podemos alcançar. É suficiente fazer o que está ao nosso alcance, como ensina Epicteto. Devemos lembrar que, até poucos minutos antes do amanhecer, a escuridão da noite é completa. Seja qual for o preço a pagar, nada atrasará o nascer do Sol. Helena Blavatsky anunciou a vitória, seja quais forem as circunstâncias:
 
“…O erro é poderoso apenas na superfície, porque a Natureza Oculta o impede de tornar-se profundo”, disse ela. E prosseguiu:
 
“A Natureza Oculta rodeia o globo inteiro em todas as direções, e não deixa sem vigilância nem sequer o canto mais escuro. Seja por fenômeno ou por milagre, seja desta ou daquela maneira, de um jeito ou de outro o Ocultismo irá vencer a batalha antes que a era atual complete o tríplice setenário de Sani (Saturno) no ciclo ocidental europeu; em outras palavras - antes do final do século 21, da ‘era cristã’.” [6]
 
A essência das coisas transcende a forma externa. O nível básico da presença divina junto a nós é a presença da nossa própria alma espiritual. Ampliá-la depende de cada um.
 
Está ao nosso alcance fazer aquilo que as condições permitem. A forma mais eficiente de prever o futuro é plantar um porvir saudável, que florescerá no momento certo do século em que vivemos.
 
NOTAS:
 
[1] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Brasília, Carta 134, volume II, p. 299. 
 
[2] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Editora Teosófica, Brasília, primeira série, Carta 01, pp. 19-20.
 
[3] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Vol. II, Carta 93 B, p. 120. O sublinhado na citação é meu.
 
[4] Veja as páginas 281-282 do livro “A Chave da Teosofia”, de Helena Blavatsky.
 
[5] O trecho está na página 31 do livreto “Five Messages”, de H.P. Blavatsky.
 
[6] “Collected Writings”, H.P. Blavatsky, TPH, Índia-EUA, volume XIV, p. 27. O trecho está citado também no artigo “O Lado Luminoso de Saturno”.
 
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O texto acima foi publicado nos websites associados dia 24 de março de 2021. Uma versão inicial dele faz parte da edição de fevereiro de 2021 de “O Teosofista”, pp. 11 a 15. Título original: “Os Mestres, Blavatsky e o Século 21”.
 
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Leia mais:
 
* O Perfil da Loja Independente.
* A Egrégora do E-Grupo SerAtento.
* O Círculo de Estudo Sobre Discipulado.
* O Processo Entre Duas Vidas.
* Textos Sobre Transição Planetária e Civilização do Futuro.
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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5 de março de 2021

O Teosofista - Março de 2021

 

 
 
 
Os seguintes temas são abordados na edição de Março de “O Teosofista”:     
 
* Quatro Fatores Para a Vitória: O Supremo, o Concreto, o Equilíbrio e a Força (p.1)
 
* A Doutrina Secreta, Antiga e Moderna, de Helena Blavatsky (p.2)
 
* Arte de Pensar por Si Mesmo: Abandonando Opiniões Automáticas (p.3)
 
* Lin Yutang: Certas Verdades Acerca do Povo (p.5)
 
* A Musa do Céu - 02: Viagem Entre os Universos - As Humanidades Desconhecidas - um conto de Camille Flammarion  (p.6)
 
* A Lição do Sol em Peixes (p.11), e
 
* Ideias ao Longo do Caminho: a Paciência Amplia o Limite das Possibilidades (p.12)
 
A edição, de 14 páginas, inclui a lista dos itens publicados recentemente nos websites associados.  
 


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A coleção completa de “O Teosofista” está disponível nos websites associados.
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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