20 de janeiro de 2021

Ideias ao Longo do Caminho - 32

 Elementos Para Uma Oftalmologia da Alma

Carlos Cardoso Aveline

 
 
 
* Embora as possibilidades criativas da vida sejam ilimitadas, com frequência temos uma visão estreita das potencialidades. Esta é uma forma de cegueira. 

* A teosofia clássica pode ser qualificada como uma oftalmologia da alma, porque ensina a ver a plenitude.
 
* Através de pequenas ações desenvolvidas com paciência na direção correta, abrimos os olhos para a força infinita da vida presente em nós e ao nosso redor.
 
* A ausência do hábito de raciocinar impede a visão clara do mundo. O hábito de pensar com independência é Ioga. Examinar a vida constitui uma atividade exclusiva daqueles que estão despertos. A busca da verdade é um privilégio de quem quer ter olhos para ver.
 
* O uso correto do pensamento implica um respeito pela fonte silenciosa do conhecimento. No diálogo entre a palavra e a não-palavra, o Silêncio revela as diversas camadas de significado presentes em cada coisa.
 
* A energia do eu superior flui como uma bênção. Ouvir o mais elevado é escutar o inaudível. É ver os fatos invisíveis da vida e perceber aquilo que não pode ser percebido num plano pessoal. Quando há uma redução da intensidade no mundo externo, o que é interior e elevado flui quase imperceptivelmente no mundo que podemos ver.
 
* As águas da vida começam a recuperar a força no ponto mais baixo da maré. É no auge do inverno que o Sol volta a ficar mais forte. Durante os momentos desagradáveis, grandes lições podem ser aprendidas.
 
* O Cosmos inteiro e suas leis devem ser objeto de estudo. Ao mesmo tempo, o peregrino tem que ser vigilante em relação a cada passo que dá no solo.
 
* A maneira certa de estudar filosofia esotérica inclui manter uma “ponte” constante e consciente entre o celestial e o terrestre, o macrocósmico e o microcósmico; o espiritual e o emocional; entre o ideal e o fato; entre os preceitos éticos e a prática deles na vida diária.
 
* A ilusão da alta velocidade no plano material caracteriza as sociedades urbanas. A pressa física ou emocional é um sinal de superficialidade nas decisões.
 
* Antes que o peregrino acelere sua marcha adiante, deve perguntar-se para onde, exatamente, está indo. Com frequência é necessário escolher entre fazer um lento progresso na direção de uma meta valiosa e avançar rapidamente, talvez com grande conforto e satisfação, para lugares que são piores que inúteis.
 
* A ausência de pressa preserva o bom senso, permite que o indivíduo pense por si mesmo, e torna mais fácil tomar uma decisão sensata.
 
* Um pouco acima da consciência pensante do estudante de teosofia flui uma percepção demasiado rápida para ser transformada em palavras. Neste nível de percepção a rapidez é benigna porque nada tem a ver com ansiedade. Trata-se de uma forma não-verbal de pensamento, ou só parcialmente verbal. Quando a consciência se torna ainda mais rápida, já não há pensar. A percepção transcende então os assuntos específicos: a compreensão implícita ocorre sem esforço.
 
* Supondo que uma meta clara e nobre já tenha sido escolhida, um fator decisivo consiste em focar a mente na prática da ação correta, o que inclui a constante contemplação das verdades universais. Isso precisa ser feito enquanto o peregrino aprende a identificar as oportunidades sagradas a seu redor. Há algumas portas em que se deve bater, e novos níveis de chão em que é possível caminhar.
 
* A Lei Universal opera em todos os aspectos do cosmo, incluindo a mente humana. Ela é por exemplo o sentido de dever que todos possuem. Ela é o carma que regula silenciosamente a vida de cada um. A voz da consciência expressa a Lei. O fato de estar em paz com nós mesmos permite viver em sintonia com ela.
 
* Só pode ter acesso à sabedoria eterna o peregrino que não se importa de parecer idiota aos olhos dos outros. Aquele que pretende ser mais esperto que os seus semelhantes terá que perceber, cedo ou tarde, a sua profunda falta de inteligência.
 
* Ao rejeitar ideias e sentimentos impuros, o estudante de filosofia esotérica mantém sua consciência limpa diante do seu próprio eu superior. Assim ele preserva a sua capacidade de aprender.
 
* A primeira coisa que o peregrino deve fazer é ter certeza de que o mundo das suas “emoções pessoais” está colocado, o tempo todo, sob a luz do Sol da sua própria alma. Se ele conta com o aplauso e a aprovação da sua consciência, não importa que pareça “pouco inteligente”. Ele já alcançou a primeira condição indispensável para o progresso.
 
* Na aparente imobilidade, percebemos o modo mais eficaz de usar nossas energias. Combinando a boa intenção com um severo discernimento, o peregrino identifica tanto a mentira como a sinceridade.
 
A Oftalmologia da Alma
 
* Da prática da sinceridade consigo mesmo resulta a honestidade para com os outros. Enquanto as mentes superficiais são habitadas por ventos passageiros, as camadas profundas da consciência estão em sintonia com o eu superior.
 
* O pesadelo do egoísmo deixa de acontecer no tempo certo. Ele precisa ser desmascarado, antes que nos vejamos livres dele. A ignorância espiritual é um problema oftalmológico. Aqueles que foram moralmente cegados pelo apego ao mundo material devem reaprender a enxergar a presença da bondade na vida.
 
* A oftalmologia moral ensina a olhar o mundo desde o ponto de vista da alma: a luz do espírito renasce com o Sol a cada manhã; as florestas vivem em harmonia com as leis do universo; em todos os tempos a sabedoria está presente na consciência humana.
 
A Primavera do Espírito
 
* A primavera da ética pode ocorrer em qualquer estação do ano. Ela surge quando a luz da verdade brilha com força maior a cada dia.
 
* Ninguém pode dizer, no entanto, que a primavera é necessariamente confortável, porque ela não tem o dever de ser do agrado de tolos.
 
* A primavera da alma acontece quando o Sol do eu superior ilumina os erros que falta corrigir. Ela surge quando se destacam as ações nobres que devem ser feitas, e quando resgatamos as tarefas esquecidas que cabe realizar.
 
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O artigo “Ideias ao Longo do Caminho - 32” foi publicado como item independente em 20 de janeiro de 2021. Uma versão inicial e anônima dele faz parte da edição de abril de 2017 de “O Teosofista”, pp. 12-14. Também estão aqui incluídas versões novas das notas “A Primavera do Espírito” e “A Oftalmologia da Alma”, que foram escritas pelo mesmo autor e publicadas anonimamente no Teosofista.  
 
Embora o título “Ideias ao Longo do Caminho” corresponda ao título em língua inglesa “Thoughts Along the Road”, de Carlos C. Aveline, não há uma identidade exata entre os conteúdos das duas coletâneas de pensamentos.
 
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18 de janeiro de 2021

A Lição do Sol em Capricórnio

 O Cumprimento do Dever
Como Uma Fonte de Bênçãos

Carlos Cardoso Aveline

 
 
 
Capricórnio é o décimo signo do zodíaco e começa em torno de 22 de dezembro. A Terra é seu elemento, Saturno o planeta-regente. Quando o Sol está em Capricórnio, a vida se torna mais realista e disciplinada. O cumprimento do dever ganha destaque na agenda das almas. 
 
Capricórnio tem uma visão de longo prazo. Planejamento é o seu forte. A possibilidade da teimosia, um motivo para cautela. Como em todos os signos, a equação fundamental é a oposição na alma humana entre o campo da ética e do altruísmo, que permite construir riquezas celestes, e o campo do egoísmo baseado em ignorância espiritual, que condena à autoilusão. A meta de Capricórnio, felizmente, é elevada. Ele aprende com seus erros. Ele tem tenacidade. 
 
Anna Maria Costa Ribeiro escreve:
 
“Capricórnio no hemisfério norte é o inverno. E para sobreviver ao frio do inverno é preciso ser forte. A natureza luta para preservar a vida. Da mesma forma, a pessoa de Capricórnio, que aprendeu e assimilou todas as fases dos signos anteriores, chega a um momento em que tem uma noção definida de quem ele é, o que é capaz de fazer e o que pode conseguir no mundo. E o que ele quer é a estabilidade do seu poder, da sua posição social.”
 
E acrescenta:
 
“Capricórnio é socialmente orientado: o mundo define o que é certo, importante e aceitável e o indivíduo segue essas regras. É a ordem estabelecida, o que é real, a prática e não a teoria.” [1]
 
Como funciona a influência de Saturno sobre Capricórnio e, através de Capricórnio, sobre a vida toda?
 
A essência da energia dos planetas é universal, ou neutra. Em outras palavras, ela não empurra sempre para esta ou aquela direção. Suas possibilidades são quase ilimitadas. O modo como a influência de um planeta será exercida na prática depende não só do conjunto do céu em dado momento, mas, sobretudo, do Carma de cada ser. As expressões concretas da energia astrológica dependem do grau de alerta, de maturidade, de consciência e de harmonização interior de cada indivíduo.
 
Para Donna Cunningham, os traços negativos de um planeta “são exatamente os traços positivos levados ao extremo”.
 
Em Capricórnio, a capacidade de estruturar situações é positiva, mas, se for exagerada, leva à rigidez e à inflexibilidade. O realismo é um bem valioso. Porém, se não houver uma abertura mental pode cair no pessimismo. A cautela é positiva. Por outro lado, quando excessiva, leva a um medo desnecessário e paralisante. [2]
 
Assim como os outros signos de Terra, Capricórnio pode garantir o ponto ótimo na sintonia da alma compensando o seu realismo e sua firmeza com uma atitude positiva diante das virtudes dos outros signos: inclusive o sonho de Peixes, o afeto de Câncer e de Leão, a visão aguda de Escorpião, a inovação de Áries. Isso não deve ser muito difícil, porque Capricórnio é um signo de bom senso.
 
Pertencendo a uma das últimas etapas do zodíaco, o capricorniano trabalha sob a inspiração do planeta dos anéis; Saturno é o Mestre do Tempo e do Carma. [3]
 
Em Capricórnio a energia da vida está madura e é capaz da síntese criadora. Este é o signo da lei e da ordem. No décimo território do zodíaco, a vida conhece tão bem o tempo de longo prazo que para ela é fácil viver um dia de cada vez. Por isso tem paciência.
 
Como melhorar ainda mais a experiência de Capricórnio, evitando a aridez da rotina? Enquanto examinava o elemento Terra, Stephen Arroyo escreveu:
 
“Os espíritos da Terra são os gnomos, que devem ser controlados através da generosidade combinada com contentamento. (…) A maior força e o maior brilho dos signos de Terra ocorrem quando eles assimilaram esta qualidade em sua natureza.” [4]
 
Capricórnio avança para o ponto mais elevado da montanha, o local em que o céu toca a Terra. Ele procura o alto enquanto mantém os pés no chão. Avançando de maneira organizada e consistente, ele aproxima a experiência humana do ponto culminante do zodíaco. É desde o ponto de vista da ética e com uma atitude prática que ele se relaciona com o mundo divino. A energia de Capricórnio é luminosa porque aponta para o caminho do dever, que abre a porta para as bênçãos de todos.
 
NOTAS:
 
[1] Do livro “Conhecimento da Astrologia”, de Anna Maria Costa Ribeiro, Novo Milênio Editora, 1996, Rio de Janeiro, Brasil, 733 pp., ver p. 93. Veja também “Illustrated A-Z of Understanding Star Signs”, general editor Kim Farnell; Flame Tree Publishing, London, Printed in China, 224 pp., 2002, pp. 44-45.
 
[2] Mais detalhes em “Astrologia e Cura Através das Vibrações”, Donna Cunningham, Ed. Cultrix, São Paulo, 215 pp., ver pp. 61-62. 
 
[3] Está disponível nos websites associados o artigo “O Lado Luminoso de Saturno”.
 
[4] Examine o livro “Astrology, Psychology, and the Four Elements”, de Stephen Arroyo, M.A., CRCS Publications, California, EUA, 191 pp., 1975, especialmente p. 107.
 
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O artigo “A Lição do Sol em Capricórnio” foi publicado nos websites associados dia 18 de janeiro de 2021, enquanto o Sol estava no grau 28 de Capricórnio.  
 
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Leia mais:
 
A Lição do Sol em Peixes”,
A Lição do Sol em Áries”,
A Lição do Sol em Touro”,
A Lição do Sol em Gêmeos”,
A Lição do Sol em Câncer”,
A Lição do Sol em Leão”,
A Lição do Sol em Virgo”,
A Lição do Sol em Libra”,
A Lição do Sol em Escorpião”, e
A Lição do Sol em Sagitário”.  
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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7 de janeiro de 2021

O Teosofista - Janeiro de 2021

 

 
 
 
Estes são os principais temas da edição de janeiro de “O Teosofista”:
 
* Pense Bem dos Seus Amigos: a arte de estimular o melhor em nossos semelhantes (p.1)
 
* A Fronteira do Absoluto Eterno: durante os Pralayas, as almas estão em um Nirvana (p.3)
 
* A Boa Literatura Está a Serviço da Alma (p.5)
 
* H.P. Blavatsky Escreve: A Montanha, a Formiga, a Margarida e o Ser Humano (p.7)
 
* O. S. Marden: Bons Livros, ou a Felicidade ao Alcance de Todos (p.9)
 
* Murillo Nunes de Azevedo: Onde Está o Evereste (p.11)
 
* Orwell e o Movimento Teosófico: o Duplipensar criado por Annie Besant (p.12)
 
* Ideias ao Longo do Caminho: Como o Mundo dos Sonhos Influencia o Mundo de Vigília (p.15)
 
* A Consciência das Pedras (p.17)
 
A edição possui 17 páginas e inclui a lista dos itens publicados recentemente nos websites associados.  
 

 
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A coleção completa de “O Teosofista” está disponível nos websites associados.
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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3 de janeiro de 2021

Somos Todos Pedras Brutas

Reflexões de um Aprendiz 

Joel Marques V. Amorim
 
 
 
 
Somos todos pedras brutas...
Eu sei. Já me foi ensinado.
Já me disseram isso inúmeras vezes.
Sei também que a realidade da minha pedra é diferente da tua.
Nossas experiências nos diferenciam.
Nossas jornadas nos levaram a conhecimentos, emoções e desejos diferentes.
Mas essas mesmas diferenças nos uniram nessa jornada conspícua.
Somos todos irmãos de pedra.
  
Somos todos pedras brutas...
Porque toda pedra se originou na mesma mente universal, justa e perfeita.
E por essa Inteligência Cósmica, essa força que é o próprio Universo criador e incriado, fomos colocados na mesma pedreira universal.
Com nossas mentes primitivas, unidas pela força vital do universo, compartilhamos tudo que vivenciamos, uns com os outros.
Só me resta pensar, imaginar, sentir, mentalizar... Harmonizar-me com o todo.
Criar a cada instante uma nova esperança e um desejo por liberdade.
Somos todos irmãos na origem.
 
Somos todos pedras brutas...
Mas nascidos da mesma matéria divina.
Somos frutos abençoados da mesma esperança, de um gesto de amor, de uma centelha de luz.
Estamos presos nesta pedreira. Fazemos parte dela. Somos um pedaço dela.
Ainda não temos como nos diferenciar da pedreira em que estamos incrustados.
Estamos dentro dela, não importando se no cume ou na base, em cima ou embaixo, tocando a terra ou beijando o céu.
Aprisionados estamos por conta da ignorância, das falhas, defeitos e desejos.
Somos cada um e ao mesmo tempo, somos parte do todo.
Somos todos irmãos na igualdade.
 
Somos todos pedras brutas...
Inseridos nessa muralha viva que pulsa silenciosamente.
Que vibra eterna e constantemente em movimentos harmônicos, emitindo luz e dando vida a tantas outras coisas.
Às vezes a pedreira nos comprime… às vezes nos dilata.
Parece querer brincar conosco, com os nossos sentimentos de pedra.
Nos sacode, incomoda e acomoda, encaixando-nos no imenso mosaico da vida.
Colocando-nos a cada nova vida na posição correta, justa e perfeita, apropriada à nossa evolução espiritual.
Nos falta esse entendimento de que nada é por acaso e tudo tem seu momento, seu instante de ser.
Estamos alheios às vicissitudes da matéria.
Pare, respire, silencie um pouco.
Escute o sussurro, o lamento e o choro dessa nova vida que teima em brotar dentro de nós.
Busquemos o silêncio na pedra, na nossa pedra.
Somos todos irmãos no silêncio.
 
Somos todos pedras brutas...
Tudo conspira para a perfeição.
Tudo a seu tempo, a seu modo, num eterno ir e vir, como as ondas no mar.
Devemos gastar nosso tempo conversando com a pedra que somos nós.
Carinhosamente, complacentemente, descontraidamente. Conversa de amigos.
Devemos tocar e sentir a pedra.
Conhecer nossas imperfeições, asperezas e impurezas.
Sem pressa, com intimidade, mundanamente.
Revelando todos os nossos mais profundos segredos e mistérios.
Construir e desconstruir. Ir e vir. Nascer e morrer. Pensar e existir. Acomodar e Agir.
Somos todos irmãos no autoconhecimento.
 
Somos todos pedras brutas...
Pois cada nova vida que nos é presenteada, nos adiciona uma nova camada de pedra.
Sedimentados, acomodados, modelados, comprimidos e endurecidos, como pedra que devemos ser.
E de camada em camada, de vida em vida, aparentemente vividas sem sentido, tornei-me quem sou.
E assim fui, sou e serei, através do tempo, no espaço infinito, dentro de mim.
Nasci para evoluir e devo morrer para continuar existindo.
Não posso permitir que as minhas imperfeições continuem a atrapalhar a minha evolução.
Sou prisioneiro dos meus erros... de mim mesmo.
Somos todos irmãos na angústia.
 
Somos todos pedras brutas...
Mas em algum momento algo muda. Tudo sempre muda.
A centelha divina, antes adormecida, frágil, desperta.
Exuberante em sua beleza, paciente em seus desejos, implacável em seus propósitos.
Já senti isso antes, em outras vidas, mas nunca tão intenso como agora.
Nunca tão desejoso por nascer e agir no mundo.
Esse jogo de contrários, fluxo e refluxo, expansão e contração, calmaria e excitação, cresce dentro de mim e me incomoda.
Sinto medo pois tal força, até aqui desconhecida em tamanha intensidade, apavora, agride, aflige, impacienta, incomoda.
O temor pelo desconhecido se avoluma.
Somos todos irmãos no medo.
 
Somos todos pedras brutas...
Mas meu desejo incontrolável por evolução finda por me dilacerar pouco a pouco.
Essa miríade de sentimentos confusos, essa mixórdia sem sentido, termina por romper, quebrar, rasgar minha estrutura lítica.
Essa força nunca antes sentida em meu corpo e em minha mente de pedra machuca.
Com a dor vem a percepção que agora há espaços por onde poderei soltar-me da pedreira.
A argamassa da ignorância e do medo de saber quem realmente sou finalmente cede.
Quando batemos o cinzel do autoconhecimento na nossa carne de pedra, sentimos dor.
Aquilo que nos é mais supérfluo é justamente o que está mais incrustado na pedra: nossos defeitos.
Comecei a minha dolorosa caminhada.
Mas agora reluto em me libertar da pedreira que sempre me abrigou.
Somos todos irmãos na dor.
 
Somos todos pedras brutas...
Mas essa força, motor da evolução, urge insuportável, inclemente e implacável.
Me empurra, afronta, intimida.
Expõe minha covardia.
Me força a compreender e reconhecer fraquezas.
Desnuda as falhas, a ignorância, as imperfeições e a necessidade de ser liberto.
Percebo que o mundo na pedreira já não me faz sentido algum. Não me satisfaz. Não me completa.
Algo me instiga a conhecer, percorrer, experimentar.
Preciso me harmonizar com todas as frequências de minhas emoções e pensamentos.
No ponto exato onde os extremos se tocam, onde o princípio encontra o fim, onde o fim é o próprio meio, devo encontrar o ponto de equilíbrio necessário à minha evolução.
Somos todos irmãos na esperança.
 
Somos todos pedras brutas...
Porque tenho o tempo certo para ser extraído da pedreira.
No átimo preciso de reflexão e autoconhecimento, meu momento chega e então liberto meu corpo de pedra.
Sou poeira das estrelas que um dia brilharam.
Mas tenho dificuldades para entender que agora sou apenas isso.
Reluto em aceitar que sempre serei somente isso: pó e apenas pó.
Minha prepotência e orgulho. Minha vaidade e ganância. Conquistas e desejos supérfluos lutam para permanecer intocados.
Meu desejo por mudança cambaleia, tropeça e se agarra à esperança do que realmente sou.
Sei o que fazer, mas não sei se quero.
Somos todos irmãos na dúvida.
 
Somos todos pedras brutas...
Jogado ao relento das minhas reflexões,
Sou pedra bruta, não sou nada.
Sou pedra bruta, serei tudo que desejar ser.
Meu poder é infinito como a própria Lei Una que me criou através de sua vontade e do pensamento.
Sou luz forte, brilhante e penetrante que não se subjuga.
Sou luz que não se intimida diante dos apelos das trevas da ignorância e do atraso.
O poder da mudança estava dentro de mim o tempo todo, sufocado pelas minhas ambições.
Subjugado pelas paixões e vontades da vil carne de pedra que me impedia de abrir os olhos da alma.
Amordaçado pelo orgulho de me achar, de maneira errada, especial.
Como não percebi? Não senti? Como não ouvi, não refleti, não entendi algo tão claro?
Somos todos irmãos na reflexão.
 
Somos todos pedras brutas...
Mas ciente de que sou o resultado das escolhas que fiz ao longo de todas as minhas caminhadas.
Sou, além de tudo, resultado das escolhas que posterguei, deleguei ou releguei.
Religare. Ouço essa palavra como um sinal, um guia, uma chama, uma chave, uma sentença inapelável.
Devo estar puro.
Mas para isso preciso antes responder pelas minhas ações e pensamentos.
Sou pedra bruta, mas isso não é desculpa e tampouco me consola.
Sou o único responsável pelo tempo desperdiçado nessa e nas outras vidas.
Sou pedra bruta e serei julgado por minhas obras.
Aceito e preciso disso como prova da minha redenção.
Somos todos irmãos na resignação.
 
Somos todos pedras brutas...
Mas ao perceber o poder infinito que detenho, oculto pelas minhas fraquezas, liberto-me.
Meu momento chegou.
Numa explosão de felicidade, renovo as esperanças.
No confronto que se avizinha, tenho todos os demais buscadores para chamar de irmãos.
O caminhar é solitário, mas solidário.
Destino compartilhado no final, onde todos nos encontraremos.
Reflito e percebo que a solidão pode ser material, mas não espiritual.
Sempre fui guiado, de modo silencioso, pelos Irmãos que regem a evolução do Universo.
Esses Irmãos superiores são meu principal apoio nesse momento.
Uso-os como alavanca para que eu possa afastar-me da pedreira.
Libertei meu corpo, mas preciso continuar meu trabalho.
Preciso libertar-me por completo da pedreira que ainda mantém minha mente prisioneira.
Somos todos irmãos na liberdade.
 
Somos todos pedras brutas...
Mas num influxo divino, percebo que faço parte de algo muito maior do que a pedreira que acabei de me soltar.
Sinto isso, sentimos isso.
Mas e agora? Por e para onde ir?
Há uma pedra cúbica, de arestas perfeitas, dentro de mim.
Deixarei que se revele em toda sua magnitude.
Devemos trabalhar a pedra e a pedra deve nos trabalhar.
Dentro de todos nós, pedras toscas e mal-acabadas, bate um coração feito da pedra polida na mais perfeita simetria.
Essa pedra só precisa ser revelada, descoberta, amada.
Mas para que serve uma pedra?
Uma pedra em si não é nada senão um pedaço da criação esquecida em seu lamento.
Essa pedra só faz sentido se pertencer a uma construção.
Para isso servem as pedras.
Somos todos irmãos na busca.
 
Somos todos pedras brutas...
Estou liberto e jogado ao sereno da contemplação.
O tempo e a solidão são agora meus companheiros de jornada.
Estou entregue a mim mesmo no mais profundo silêncio.
Mergulhado em minhas reflexões e orações.
Complacente e pensativo.
Vejo marcas no caminho.
Observo que há lugares que já foram ocupados.
Mas hoje resta apenas a trilha que deixaram.
Olho para os lados e vejo inúmeras outras pedras que, como eu, não sabem o que fazer.
Paralisadas estão pelo medo do novo que se avizinha.
Olho para a pedreira, minha antiga morada. Não sinto saudades.
Somente tristeza pelos que lá ainda estão.
Nela vejo inúmeras pedras que pensam que se soltaram.
Outras que desejam permanecer lá para sempre.
Somos todos irmãos na solidão.
 
Somos todos pedras brutas...
Mas preciso continuar a jornada, pois não faz sentido continuar aqui.
Esqueçamos as outras pedras.
Que sejam livres para fazer suas escolhas e encontrar seus caminhos no tempo certo.
Temos tamanhos, volumes, formas, cores, densidades e texturas diferentes.
Preciso continuar a me conhecer, me tocar, e sentir o que precisa ser removido porque não faz parte de mim.
Observo os meus irmãos de caminhada. Percebo que eles pensam e fazem o mesmo.
Compartilhamos nossas ferramentas de amor, bondade, tolerância, respeito, compreensão, altruísmo, fé, esperança.
No entanto, ainda estamos longe da perfeição e do destino.
Sequer sabemos a distância que ainda será necessário percorrer.
Algumas pedras pensam que seguem.
Outras pensam que são seguidas.
Não percebem que o caminho e o destino são um só.
Sem líderes ou seguidores.
Apenas andarilhos de pedra.
Somos todos irmãos na caminhada.
 
Somos todos pedras brutas...
Com um oceano de incertezas, mas um universo de fé à nossa frente.
Curiosidade sobre quem serei na minha próxima existência? Não interessa.
A forma física? Pouco importa.
O berço? Indiferente.
A língua? Um mero detalhe.
Minhas futuras posses? De nada valem.
Só me importa aquilo que conquistei e me diferencia: meu desejo por mais mudanças.
Esse apetite que sequer desconfiava que tivesse? Que cresça. Não deve ser saciado nunca.
Meu desejo pelo verdadeiro conhecimento, minha paz espiritual e serenidade devem ser os instrumentos para lapidar e retirar os excessos da minha pedra.
Devo voltar à minha origem, revelando a pedra polida que sempre fui.
Somos todos irmãos na descoberta.
 
Somos todos pedras brutas...
Abro meu sorriso mais largo, divirto-me, regozijo-me.
Agora entendo, com certa amplitude, o segredo que me é aos poucos revelado.
O cinzel continua a brandir ferozmente sua retidão sobre a minha carne de pedra.
Não sinto mais dor, angústia ou medo.
Cada ferida, cada experiência, cada vida, contribui para tornar-me o que devo ser.
Devo procurar a harmonia interior e revelar minhas verdadeiras medidas.
Essa pedra cúbica que busco, de arestas, contornos e polimento quase perfeitos, sempre esteve onde agora está: dentro de mim.
Minha forma verdadeira, traçada pela mente de um Arquiteto Divino, está agora quase revelada.
Justo e perfeito, pronto e acabado, polido e de arestas praticamente irretocáveis,
Ficarei entre as estrelas, entre os irmãos divinos, onde o tempo e o espaço que nós conhecemos não existem mais. 
Estou pronto para o lugar e papel para os quais fui criado e que me competem:
Fazer parte do templo celeste, dedicado exclusivamente ao amor universal.
Fiat Lux.
Somos todos irmãos no destino.
 
(2015)
 
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Escrito em 2015, o poema “Somos Todos Pedras Brutas” foi publicado pela primeira vez em 03 de janeiro de 2021 nos websites associados.
 
Leia mais:
 
 
 
 
 
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22 de dezembro de 2020

Criando Laços de Amizade

 Para Reforçar o Lado Sagrado da Vida

Nunes dos Santos




Compartilhar Emoções
 
Um amigo é alguém em quem podemos confiar, com quem nos podemos abrir sem constrangimento e deixar derramar do coração todo o grão e palha; pois sabemos que mãos gentis os irão peneirar. Depois guardará tudo o que vale a pena guardar e, num sopro de bondade lançará para longe a palha que restou.
 
Um amigo é quem, embora saiba que a perfeição é uma utopia, sofre com os teus erros, por tanto te querer bem.
 
Um amigo é alguém sempre disponível para compartilhar aquilo que há de mais pessoal e único em cada um de nós - as emoções. Um amigo é aquele que quando me aproximo recebe-me com um sorriso incomparável; sorriso que exprime a alegria de ver-me, de vermo-nos. [1]
 
A Confiança e a Amizade

A amizade tem por base a confiança, por isso seja sempre para o seu amigo um exemplo de bom comportamento.
 
Muitas pessoas não conseguem criar laços de amizade, por não terem as qualidades que atraem as nobres qualidades dos outros. Quem não é tolerante, nem bondoso, nem cordial, e ainda é mesquinho e pouco simpático, é natural que não vá conseguir a estima de um coração generoso.
 
Só os homens sensatos podem ser amigos. Os outros, não passam de conhecidos. O amigo que estima seu amigo nunca procede de modo a decepcioná-lo. [2]

Um Pássaro Raro
 
A amizade verdadeira, como disse Kant, é um “cisne negro”, ou como costumam dizer os espanhóis, é um “melro branco”. Numa palavra: é uma “avis rara” na nossa fauna espiritual.
 
Laín Entralgo, no seu livro “Sobre a Amizade”, dedicou-se com paciência e paixão de paleógrafo à investigação sobre esta realidade humana e confessa tristemente: “Não queria cair no pessimismo. Andei com a candeia da ilusão à procura de homens honestos que lutam para criar a amizade; desejei convencer-me que há muitos homens amigos. Mas não pude.”
 
E confessou: “O que mais me incomoda é a falta de uma amizade tonificante. Embora a procure afanosamente há vinte anos ainda não a encontrei.”
 
“Serei eu o culpado pelo meu modo de ser, pela rejeição que possam inspirar as minhas atitudes? Contudo o que me surpreende é ouvir os bons a queixarem-se do mesmo.”
 
“Na realidade trocamos centenas de cartões com ‘amigos’, as nossas agendas estão cheias de telefones e direções de ‘amigos’, uma boa parte do nosso tempo temos que reservá-la para dialogar com os ‘amigos’. Mas, quando se olham estes vínculos à luz de uma análise séria e exigente, onde estão os nossos amigos?” [3]
 
A Estima Sincera 
 
Se teve a felicidade de encontrar um amigo, respeite-o e estime-o. Porque não é fácil encontrar um amigo em quem possamos confiar; não é fácil encontrar um amigo capaz de corrigir com cuidado a imagem distorcida que por vezes temos de nós mesmos; não é fácil encontrar um amigo que seja capaz de apontar os nossos defeitos sem nos ferir; não é fácil encontrar um amigo, cujos conselhos nos ajudam a reconhecer as nossas limitações; não é fácil encontrar um amigo que contribua para o nosso equilíbrio psicológico. [4]
 
O Amigo Como Uma Bênção
 
Dizia O.S. Marden:
 
“Uma das coisas mais tocantes que conheço é a influência que um amigo é capaz de exercer a favor daquele que não sabe ser amigo de si mesmo, daquele que perdeu o respeito e o domínio de si próprio.”
 
“A amizade que recua diante da necessidade de dizer a verdade e não pode sofrer qualquer constrangimento, não pode igualar-se à que é absolutamente justa, franca e sincera.”
 
Muitas pessoas parecem crer que os seus amigos são um simples incidente da sua vida, que não merece a pena fazer algo para os conservar.
 
Como estão enganadas essas pessoas… não há maior desolação do que viver sem amigos!
 
A amizade é uma permuta das qualidades do coração. Não há como um verdadeiro amigo para nos estimular, auxiliar e tornar felizes. Na amizade ninguém pode receber tudo sem dar nada, nem dar tudo sem nada receber. [5]
 
NOTAS:
 
[1] Trecho reproduzido da obra “Laços de Amizade”, de Nunes dos Santos, Coleção Retalhos, Ed. Menabel, Porto, Portugal, terceira edição, maio de 2014, 80 pp., ver p.16.
 
[2] De “Laços de Amizade”, de Nunes dos Santos, obra citada, p.72.
 
[3] De “Laços de Amizade”, pp. 17-19.
 
[4] De “Laços de Amizade”, p. 19.
 
[5] “Laços de Amizade”, p. 69.
 
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Uma versão inicial do texto acima faz parte da edição de dezembro de 2018 de “O Teosofista”, pp. 2-3. A publicação como texto independente nos websites associados ocorreu no dia 22 de dezembro de 2020.
 
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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
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