20 de fevereiro de 2019

Ideias ao Longo do Caminho - 15

A Mente Lúcida é uma Espada que Corta
Ilusões, Principalmente as Nossas Próprias

Carlos Cardoso Aveline





* Cada momento de plena atenção é uma experiência revolucionária. A vigilância derrota a rotina e revela a potencialidade infinita da vida.

* A alegria de viver não necessita de motivos externos para ser forte e estável: ela resulta do contato espontâneo com a alma espiritual e a lei do universo.

* Há vários modos de estar onde queremos. Através das páginas de bons livros podemos viajar aos lugares mais interessantes do espaço e do tempo, e ouvir as almas sábias de todas as épocas.

* Os corredores do Carma têm limites laterais cuja substância é feita de hábitos. O estudante deve criar padrões corretos de ações repetitivas e atitudes em sua vida, para que os corredores do carma o levem até a bênção e a sabedoria.

* Não há favores pessoais nos planos superiores do caminho espiritual. O caminho é regido pela Lei. Toda bênção recebida do alto deve ser, portanto, um resultado natural do nosso mérito, ou não terá validade.

* Vencer é relativamente fácil. Todo mundo faz isso de vez em quando, merecidamente ou não. O importante é consolidar o progresso realizado. O valioso é perceber a vitória a todo momento, em cada tarefa bem feita, em cada gesto sincero.

* A visão correta do detalhe permite compreender o todo. A percepção adequada do todo torna possível ver o detalhe. O círculo está presente no ponto, assim como o ponto está presente no círculo. E a cada novo olhar, percebemos um pouco melhor a realidade.

* O centro de paz no silêncio da consciência determina a qualidade e o ritmo de pensamentos, emoções, ações e percepções profundas. Quanto maior o contato com este centro, mais significativa será a nossa presença no mundo ao redor.

* Em teosofia, não é impossível ser visitado por uma espécie de relâmpago espiritual. Numa pausa meditativa no meio do esforço altruísta, uma felicidade abissal pode vir até você sem palavras e transformar a sua vida em uma fração de segundo. E esta é uma experiência diante da qual você não deve permitir que surja qualquer apego.

* A plenitude interior transcende o som. A luz da unidade e da amizade universal brilha desde o coração humano sem necessidade de palavras. Miguel de Molinos escreveu que as palavras podem então ser abandonadas, do mesmo modo que um navio é deixado de lado quando chegamos ao porto de destino.

* Administrar situações de modo responsável e criativo pode ser mais importante que a natureza das situações em si. Em muitos casos, os fatos da nossa vida fazem menos diferença que as nossas decisões sobre como atuar diante deles. Construir o futuro é uma tarefa central. O momento presente não só contém o passado mas constitui a matéria-prima com a qual podemos fazer algo melhor.

* O exagero ameaça a durabilidade do esforço feito. A ação de intensidade moderada permite que trabalhemos no presente sem esquecer do futuro. A calma caracteriza as ações duráveis e eficazes.

* Nenhum trabalho, por mais nobre que seja, deve suprimir o descanso necessário para que ele se renove e se desdobre em uma perspectiva de longo prazo. A quantidade certa de silêncio, e de humildade, ajuda a moderação a acontecer.

* A mente lúcida é uma espada que corta ilusões, principalmente as nossas próprias. O discernimento em relação às coisas da vida e do movimento esotérico deve ser obtido gradualmente. Qualquer “instantaneidade” é maiávica.

* Pouco a pouco o estudante passa a ver o que é verdadeiro e o que é falso, quem fica do lado da busca da verdade e quem opta pela arte de fazer poses, insistindo no faz-de-conta e sorrindo como os sepulcros caiados sorriem.

* Ninguém pode esclarecer o peregrino sobre a verdade e a ilusão. Ele terá que compreender por si mesmo a topografia da vida.

* Uma atitude impessoalmente severa é necessária quando enfrentamos falsidades, mas cabe ter mais compaixão do que raiva diante dos fingidores. Eles esqueceram que a sinceridade é uma bênção; no entanto, podem superar este erro infeliz seguindo o exemplo dado por quem deixa de lado o caminho do engano.   

* Há algo que não convém esquecer jamais: em todas as situações, o que plantamos é mais importante do que aquilo que podemos colher.

* Não sejamos ingênuos ou desinformados: não há motivo para cair no sonho do egoísmo materialista. Aquele que salva um só animal da morte ou do perigo ajuda a evolução do planeta. E quando alguém planta uma árvore ou cuida dela, estabelece a tendência de um sentimento de amizade pela Vida que pode ressoar pelo globo inteiro.

* Por que motivo o caminho da sabedoria precisa ser íngreme, estreito e desafiador? Afinal, se a sabedoria é boa e eterna, e se ela diz respeito ao Nirvana e à bem-aventurança, o caminho não deveria ser agradável?

* O caminho é incômodo porque, apesar das luminosas intenções conscientes, um aspecto da nossa consciência quer avançar para o futuro, e outro aspecto da nossa consciência se apega ao passado. Este conflito de interesses da nossa parte gera desconforto. Queremos voar sem sair do chão. Pretendemos avançar pelo caminho sem afastar-nos do ponto em que estamos, chegar ao futuro sem abrir mão dos hábitos do passado, e alcançar a sabedoria sem deixar de lado a ignorância. Nestes termos, uma certa dificuldade é inevitável.

* De nada adianta adotar uma postura de vítima e lamentar-se diante das ondas probatórias que educam o eu inferior com dureza. O sofrimento é produzido pelo nosso próprio apego à cegueira espiritual. O eu superior não sofre. Ele é feito de bênção e bem-aventurança. A alma espiritual é a origem e o destino do eu inferior. A personalidade materializada do ser humano é uma projeção passageira de Atma-Buddhi no mundo mental e no mundo externo. Devemos aprender a refletir corretamente a Mônada que orienta nossa existência ao longo das diferentes encarnações.

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O artigo acima foi publicado como texto independente em 20 de fevereiro de 2019. Uma versão inicial e anônima dele  está incluída na edição de novembro de 2015 de “O Teosofista”.

Embora o título “Ideias ao Longo do Caminho” corresponda ao título em língua inglesa “Thoughts Along the Road”, do mesmo autor, não há uma identidade exata entre os conteúdos das duas coletâneas de pensamentos.

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A Dieta Que Respeita a Vida

A Forma como Tratamos os Outros Seres
Reflete o Tratamento Que Damos à Alma

Joana Maria Pinho






Os estudos sobre os benefícios da alimentação vegetariana para a saúde dos seres humanos e o equilíbrio do planeta são cada vez mais numerosos. Ainda que lentamente, a ciência começa a ir ao encontro da sabedoria universal neste aspecto.
 
Muitos seguem o regime alimentar vegetariano como forma de fortalecer a vitalidade. Alguns terapeutas das medicinas alternativas, como a naturopatia, defendem a ideia de que o consumo de carne implica assimilar as emoções do animal. Para eles a agressividade do ser humano aumenta com o consumo de produtos animais. Ao comer um bife, o indivíduo ingere não só proteínas mas um conjunto de hormônios e outras substâncias que escapam ao olhar. A adrenalina que o animal produz enquanto sofre estresse e morte violenta é um exemplo. Quando ingerimos alimentos, ingerimos emoções. Vendo como a maior parte dos alimentos é produzida hoje em dia podemos constatar que as emoções que “ingerimos” nem sempre são as mais saudáveis.

Ao longo da história da humanidade o vegetarianismo tem sido defendido pelos sábios. “Ísis Sem Véu” diz o seguinte:

“Zeller afirma que Xenócrates proibia o consumo de carne animal, não porque ele visse nos animais alguma semelhança com o homem, já que lhes atribuía uma pálida consciência de Deus, mas ‘pela razão contrária, por temer que a irracionalidade das almas animais assim pudesse obter uma certa influência sobre nós’. Mas acreditamos que foi antes porque, como Pitágoras, ele teve os sábios hindus por mestres e por modelos. Cícero mostra-nos Xenócrates desdenhando de tudo, salvo da virtude superior; e descreve a pureza e a severa austeridade de seu caráter. ‘Nosso problema é libertar-nos da sujeição da vida dos sentidos, e vencer os elementos titânicos de nossa natureza terrena por meio da natureza divina’. Zeller fá-lo dizer: ‘Mesmo nos desejos secretos de nosso coração, a pureza é o maior dever, e apenas a filosofia e a iniciação nos mistérios nos permitem atingir tal objetivo’.” [1] 

Optar pelo vegetarianismo é acima tudo uma questão de ética. À medida que o contato com a alma imortal é fortalecido, surge o respeito pela vida. Massacrar animais para satisfação do paladar ou como forma de canalizar a energia destrutiva deixa de fazer qualquer sentido. Podemos ler no texto “A Ética da Alimentação Vegetariana”:

“O surgimento de novas teorias alimentares, que nos levam a abandonar o hábito de matar animais para comer carne, é uma das grandes bênçãos que hoje se derramam sobre o difícil caminho da humanidade. Pode ser um dos fatores fundamentais para eliminar a violência de dentro e de fora do indivíduo humano.” [2]

Criar animais para o consumo humano é uma contradição. Como se pode cuidar e tratar os animais para depois os matar e devorar? Alguns podem alegar que os animais são sacrificados para que o homem tenha o que comer e possa cumprir seu propósito. Mas esse ritual é uma traição à própria vida, um comportamento que demonstra a ignorância humana e não sua “superioridade” em relação aos animais.  Cuidar dos animais, dar-lhes abrigo, em alguns casos afeto, alimentá-los e depois matá-los demonstra o lado mais sombrio da humanidade, um lado sádico que os animais não têm. Ser “superior” a eles é acima de tudo respeitá-los e cumprir o dever de os proteger e os auxiliar no caminho evolutivo. Helena Blavatsky escreveu:

“…A natureza física, a grande combinação de correlações físicas de forças que avançam em direção à perfeição (…) modela e remodela enquanto prossegue e, terminando a sua obra no homem, apresenta-o apenas como um tabernáculo apropriado ao obscurecimento do espírito Divino. Mas este não dá ao homem o direito de vida e de morte sobre os animais inferiores a ele, na escala da natureza, ou o direito de os torturar. Exatamente o contrário. Além de ser dotado de uma alma - que qualquer animal, e mesmo qualquer planta, também possui mais ou menos -, o homem tem uma alma imortal racional, ou nous, que deveria torná-lo pelo menos igual em magnanimidade ao elefante, que caminha cuidadosamente para não esmagar os animais mais frágeis do que ele.” [3]

A alimentação física reflete a nutrição que damos ao eu interior. A forma como tratamos os outros seres espelha o tratamento que damos à alma. E Paracelso ensinou:

“O homem come e bebe dos elementos, para o sustento do seu sangue e da sua carne, mas dos astros vêm o sustento do intelecto e os pensamentos de sua alma.” [4]

Reconhecendo a dimensão divina da vida e dando à alma o alimento correto surgem o respeito e a compreensão. Assim a paz e a benevolência passam a ser realidades concretas.


NOTAS:

[1] “Ísis Sem Véu”, de Helena P. Blavatsky, Ed. Pensamento, SP, Vol. I, 341 pp., p. 79.

[2] Do texto A Ética da Alimentação Vegetariana, de Carlos Cardoso Aveline.  

[3] Da obra “Ísis Sem Véu”, de Helena P. Blavatsky, Ed. Pensamento, Vol. III, 301 pp., p. 244.

[4] Palavras citadas no texto “Paracelso e o Livro da Natureza”, de Carlos Cardoso Aveline. Veja-o em nossos websites.

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Uma versão inicial de “A Dieta Que Respeita a Vida” faz parte da edição de novembro de 2015 de “O Teosofista”, pp. 3-4.  O artigo foi publicado como texto independente em nossos websites associados dia 20 de fevereiro de 2019.

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Veja o livro O Naturismo em Sêneca, de Paul Carton. Leia os artigos Por Que os Animais Sofrem?, de Helena P. Blavatsky, e A Ética da Alimentação Vegetariana, de Carlos Cardoso Aveline.

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14 de fevereiro de 2019

O Subconsciente e o Supraconsciente

A Consciência Não-Pensada Define o Futuro

Carlos Cardoso Aveline




O estudante de filosofia clássica está exposto continuamente a correntes de pensamento falso e outras formas de vibração inferior. Elas vêm até ele com convites disfarçados para que adote impulsos baseados em apego, cobiça, medo, raiva e assim por diante.

Na ausência de uma vigilância adequada, o peregrino adota como se fossem suas diversas ideias e emoções desastradas, vindas tanto de amigos como de inimigos, ou dos grandes  círculos de atmosfera mental e carma coletivo.  

Se não quer ser carregado pelas marés variadas da ignorância, o cidadão precisa identificar-se com a essência da generosidade impessoal presente em seu coração. Em outras palavras, o estudante bem informado desperta em si mesmo o centro de amizade silenciosa por todos. Ao mesmo tempo, percebe e rejeita as formas subconscientes de autoidentificação com o mundo das aparências, e com qualquer coisa moralmente desprezível ou intelectualmente estreita.

A identificação com o que é inverdadeiro pode ocorrer através do prazer, ou através da dor. Tanto o sofrimento como a satisfação escravizam os desatentos.

A vigilância é necessária em todos momentos. A ingenuidade irresponsável causa grande prejuízo.  A percepção autoconsciente - a atividade mental voluntária - não é suficiente para compreender ou para dar um rumo correto à vida. A ação mental voluntária é uma parcela menor da existência da alma. Em seu livro “Raja Yoga”, Yogue Ramacharaka arrisca um número simbólico e afirma que “90 por cento” da nossa consciência está fora do campo autoconsciente. 

O buscador da sabedoria amplia pouco a pouco tanto a sua percepção pensada como a sua percepção não-pensada das dinâmicas subconscientes da vida, que incluem fatores como os medos, os desejos e todo tipo de sentimentos e hábitos cegos.

Ele aprende a interagir diretamente com as realidades supraconscientes, isto é, os níveis superiores e abençoados de consciência, que não dependem da atividade pensamental e fluem acima do nível em que palavras podem ser ditas ou ouvidas.

Os ensinamentos verbais da teosofia clássica são éticos. Estão baseados na filosofia que afirma a bondade fundamental do universo e da alma. No entanto, o ponto de vista ensinado pela filosofia da bondade é duramente testado pela ignorância individual e coletiva. Ele é atacado por forças subconscientes, não só irracionais mas antirracionais, que com astúcia imitam a bondade para melhor ferir.

Ser bondoso, portanto, não é o mesmo que parecer bondoso.

A filosofia da ética altruísta deve ser defendida quando necessário sem a intermediação do pensamento. Há um nível da sua preservação que acontece como uma batalha direta, um duelo em que o ataque e a defesa são demasiado rápidos para esperarem pelo processo do raciocínio. A defesa inclui o plano do pensamento, mas não está  presa a ele. A defesa da justiça é mais forte que o terreno das ideias, porque se desdobra nos vários níveis de consciência.

O peregrino que estuda teosofia original é um guerreiro. No judô, na esgrima e na luta pela ética, o duelo contra a ignorância é com frequência mais rápido que a palavra falada e acontece como um relâmpago na dimensão das premissas, das sementes, da sugestão e dos alicerces.   

A consciência que não se expressa pelo pensamento define uma parte decisiva do caráter e do destino.

Para fazer frente aos desafios não pensados que enfrentará,  o peregrino alimenta de modo correto, ao longo do tempo, os setores silenciosos do seu ser. Deste modo ele fortalece constantemente a esfera da autoconsciência e da autorresponsabilidade em sua vida, e faz com que a força gravitacional dos seus bons pensamentos influencie de modo transcendente toda e qualquer atmosfera cármica de que ele participe.

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O texto “O Subconsciente e o Supraconsciente” foi publicado em nossos websites associados dia 14 de fevereiro de 2019.  

Uma versão inicial do artigo, sem indicação de nome de autor, faz parte da edição de julho de 2016 “O Teosofista”, pp. 1 e 2.

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11 de fevereiro de 2019

Concentração em Raja Ioga

Um dos Primeiros Estágios da Jornada

Gilmar Gonzaga


John Garrigues (esquerda), Helena Blavatsky e Swami Vivekananda




A concentração, como teoria e como método prático, é tema central nos grandes tratados existentes sobre Raja Ioga.

Dada a magnitude do assunto, um aspirante à senda do Ocultismo que considere a possibilidade de abordá-lo em um artigo pode se deparar, em um primeiro momento, com a ideia de que tal empreitada é demasiado ousada, uma vez que o entendimento da questão exige um aprofundado estudo prévio, de preferência alicerçado pela vivência. E isso é um fato.

Não obstante, ao colocar à prova o objeto da tarefa o autêntico buscador romperá a tendência à inércia em si, e ao voltar a atenção para o tema perceberá que a própria concentração da mente no trabalho atua na ampliação da sua abrangência e estabelece conexões com os níveis internos até então eclipsados pela predisposição limitadora.

Essa experiência, por si só, corrobora a veracidade do que se quer demonstrar, no que concerne ao poder da concentração. O limite deixa de representar obstáculo, uma vez que daí decorre a convicção de que a expansão do entendimento é possível para quem se propõe a avançar firmemente na demanda. A concentração é o método adequado.

As reflexões que serão apresentadas a seguir expressam, em parte, as simples interpretações do autor deste artigo acerca da bibliografia pesquisada, mas também alguns frutos do entendimento obtido a partir de esforço próprio e um pouco da percepção resultante da sua experiência até o momento. Para atenuar essas restrições, o artigo é enriquecido com citações de trechos de textos escritos por almas mais avançadas no Caminho.

O estudo refletido de um tema dessa natureza exige uma ideia geral acerca do amplo processo que caracteriza a Jornada conhecida como Raja Ioga ou Ioga Real. Nesse sentido, vale citar Swami Vivekananda, uma autoridade reconhecida no assunto:

“A ciência da Raja Yoga quer fornecer aos homens o meio de estudar o que se passa interiormente neles. Indica-lhes um instrumento que é a própria inteligência. A potência da atenção convenientemente conduzida e dirigida para a vida interior, há de nos permitir analisar nossa alma e esclarecer muitos fatos.”

“Que o homem se convença de que nunca morre, e já não terá medo da morte. Que ele saiba que é perfeito, e já não terá desejos vãos; suprimi estas duas coisas, matareis a miséria; criareis a felicidade perfeita, mesmo durante a vida atual.”

“Para conquistar este poder, só existe um método: a concentração.”

“A que devemos toda a ciência adquirida até hoje, senão à concentração das forças do espírito? (...) O poder da inteligência humana é sem limites.”

“Aumenta a concentração; é o segredo.” [1]

As afirmações acima são significativas. O entendimento correto do que significa concentração nesse contexto representa a chave para se avançar com segurança na Senda.

Outro pensamento, resultante das ideias contidas na citação, é que em Raja Ioga a atenção é dirigida para os aspectos internos da realidade, a ser conhecida pelo aspirante a partir de si próprio, e que os instrumentos necessários para realizar essa tarefa hercúlea estão também no interior do indivíduo. Entretanto, por meio do estudo podemos concluir que essa mudança de polarização da mente (dos níveis ou planos externos para os internos) é algo complexo e é nesse esforço que a concentração deve ser treinada.

Para que a atenção do aspirante se volte com relativa facilidade para o “Oculto”, a desidentificação com o mundo material é uma necessidade que consiste em um difícil processo gradual, e pode ser caracterizada pela simplificação das relações com os aspectos mais grosseiros do mundo exterior, incluindo os sentidos físicos e suas sensações, e a migração dos interesses para os aspectos mais sutis do mundo interior.

É relativamente fácil constatar que os estágios iniciais do contato mais consciente com a Raja Ioga, na época atual, passam pelo estudo concentrado da boa literatura existente, considerando que a instrução presencial física dificilmente ocorre nesse estágio. Além de fornecer uma base conceitual e um mapa de referência, a literatura correta dota o aspirante de uma ideia ampla acerca do processo que caracteriza essa Jornada. O estudo de obras reconhecidamente fiéis ao essencial da filosofia e das práticas relacionadas à Ioga Real aponta também o esquema operacional a ser seguido pelo candidato sincero, a partir de um método por meio do qual ele deve se preparar para as fases mais avançadas da Jornada “morro acima” ou “caminho adentro”.

Carlos Cardoso Aveline escreve:

“A ‘ioga real’ é um tema recorrente no trabalho da Loja Independente de Teosofistas. Estamos construindo um enfoque que valoriza vários autores sem adotar nenhum deles como o autor preferencial. Este foi também o enfoque seguido por Blavatsky e, creio, pelos Mestres no que tange a discípulos leigos: a abordagem eclética, o processo aberto, porque a Raja Ioga não é algo que pode ser abordado como se bastasse adotar e recomendar um determinado ‘livro didático’. Todos os caminhos do autoconhecimento levam ao autocontrole que é a meta da Raja Ioga, e são eficazes se estiverem combinados com ela.” [2]

Sobre a questão do método, Vivekananda afirma:

“Cada ciência pede uma preparação, um método próprio, e enquanto não nos conformarmos com ele, não chegaremos a compreender essa ciência; sucede o mesmo com a Raja Yoga.” [3]

No âmbito da Teosofia Clássica, o método ou o conjunto de técnicas sintetizado nos Aforismos de Ioga de Patañjali tem sido adotado e indicado como uma forma segura de avançar na Senda da “Ioga Real”. Essa obra foi traduzida e comentada por diversos autores e aqui vale a afirmação de Aveline citada anteriormente, no que concerne à multiplicidade de abordagens.

Cabe ao estudante usar o seu discernimento, função que é resultante e indutora no processo de concentração.

Por meio do estudo da filosofia que fundamenta os Aforismos de Patañjali e outras obras importantes, podemos identificar as causas dos condicionamentos mentais e o método para libertar a consciência desses condicionamentos.

Segundo uma compreensão possível desse método, o processo que conduz ao êxito na prática da Raja Ioga passa por diversos estágios gradativos, que iniciam pelo fortalecimento do caráter do aspirante na busca do desenvolvimento de uma elevada moral. Por meio do desapego ou da renúncia aos objetos de desejos e pelo cultivo das virtudes exigidas para o avanço no Caminho, poder-se-á lidar de forma equilibrada e altruísta com as faculdades latentes, que serão desenvolvidas natural e progressivamente. Em Raja Ioga, o estímulo para a autorrealização não deverá ser a aquisição ou ativação dessas faculdades latentes. De acordo com Carlos Aveline:

A verdadeira Ioga é aquilo pelo qual nos qualificamos para trabalhar com mais eficiência pelo bem da humanidade.[4]

Os estágios iniciais na Senda da Ioga exigem diversos níveis de concentração. Uma condição que parece ser necessária nessa fase é a presença da consciência capaz de observar imparcialmente o processo interno do aspirante, dirigindo-o e promovendo os ajustes necessários para a estabilização da mente e do equilíbrio a partir do centro de paz existente em todas as individualidades. Esse estado de consciência pode ser visto como um despertar e é possível que parte significativa da humanidade já se encontre nesse estágio.

A partir do reconhecimento dessa instância da consciência e da devida atenção dada a ela, segue-se possivelmente o que John Garrigues considera como a necessidade de cada indivíduo “encontrar o seu lugar” ou o “ponto de equilíbrio”; e, uma vez encontrado, a necessidade de adotar a atitude de “fazer os ajustes adequados dentro de sua própria esfera”. [5]

Penso que esse estágio de desenvolvimento da consciência representa o encontro de si em si ou, de si consigo mesmo: a identificação em si daquilo pelo qual se estava procurando fora. Isso significa não só encontrar o centro de equilíbrio ou “lugar”, mas o estágio ou grau de desenvolvimento “num plano que não é demasiado elevado, nem demasiado baixo”. [6]

O método de autolibertação por meio da estabilização da mente induz à mudança do polo de atenção - até então predominantemente externo - para dentro, a partir do centro de equilíbrio. Para tanto, faz-se necessário um tremendo esforço.

Portanto, parece ser correto afirmar que a concentração está na ordem direta do fortalecimento da Vontade, que funciona nesse caso como um verdadeiro “estabilizador mental”. Cardoso Aveline afirma em seu artigo “Atuando no Plano das Causas”:

“O Desejo de cada indivíduo tem uma relação preferencial com os efeitos, assim como a sua Vontade ativa está relacionada com o mundo das Causas. Os Sábios e os Ocultistas seguem a lei da conservação da energia e focam seu esforço central nas Causas, para não perder demasiado tempo com aquilo que dificilmente pode ser mudado ou evitado - os efeitos.” [7]

A abordagem experimental pode conduzir à percepção da concentração, em seus aspectos iniciais, como um ajuntamento ou uma redução gradativa daquele afrouxamento que faz com que fiquemos à deriva, perdidos na vida, perseguindo miragens no deserto.

O ajuntamento se dá em diversos níveis do ser, podendo, por isso, ser chamado de alinhamento. Trata-se, no plano mais evidente, do recolhimento dos fios de atenção que nos mantém mentalmente conectados com as marés oscilantes do mundo superficial; e da fixação da consciência no ponto de equilíbrio caracterizado pelo nosso “lugar”. Encontrado o equilíbrio, por intervenção da vontade, avança-se para dentro.

A respeito da Vontade, Helena P. Blavatsky escreveu:

“A maior parte dos humanos vive no desejo e através do desejo, confundindo-o com a vontade. Mas aquele que quiser vencer deve separar a vontade do desejo, e fazer com que sua vontade predomine; porque o desejo é instável e muda o tempo todo, enquanto a vontade é firme e constante.”

“Tanto a vontade como o desejo são absolutamente criadores, e formam o ser humano e também o ambiente ao seu redor. Mas a vontade cria de modo inteligente, e o desejo cria de modo cego e inconsciente. O homem, portanto, faz a si mesmo à imagem dos seus desejos, a menos que ele crie a si mesmo segundo o modelo do que é Divino, através da sua vontade, que é um produto da luz.”

“A tarefa do ser humano é dupla: despertar a vontade, para fortalecê-la pelo uso e pela vitória, torná-la capaz de governar com poder absoluto em seu corpo; e, ao mesmo tempo, purificar o desejo.” [8]

Tendo como fundamento essa abordagem, é possível afirmar que o esforço concentrado no conhecimento e na aplicação prática das técnicas e métodos desenvolvidos em Raja Ioga abre a “porta” para uma incomensurável Realidade antes ignorada, e que essa porta está, como sempre, acessível àqueles que são verdadeiros desbravadores, e estão dispostos a se empenhar pela conquista do eu inferior e pelo reinado do Eu Superior.

Várias evidências indicam que uma parcela considerável da humanidade hoje (capaz de formar uma poderosa massa crítica) está sendo conduzida para essa porta, a qual foi atravessada por poucos ao longo de milênios.

De acordo com essa perspectiva, o trabalho da Loja Independente de Teosofistas - que é  desenvolvido em diversas instâncias no cenário da evolução das almas - revela-se extremamente importante. Aparentemente pequeno, o  esforço da LIT contribui de forma substancial para a vitória dos buscadores da Verdade e para o fortalecimento das bases de uma civilização fundada na ética e na boa vontade.

NOTAS:

[1] Excertos das páginas 23-24 do livro “Raja Yoga ou Conquista da Natureza Interna”, de Swami Vivekananda, Livraria Clássica Editora, 1925. A obra está disponível aqui.

[2] Trecho da postagem feita por Aveline no âmbito do Grupo de Estudos dos associados da LIT, em YahooGrupos, dia 13 de janeiro de 2019.

[3] Página 31 do livro Raja Yoga ou Conquista da Natureza Interna, de Swami Vivekananda. 

[4] Do artigoBom Senso no Estudo de Raja Ioga”, de Carlos Cardoso Aveline.

[5] Do textoO Centro Interno de Equilíbrio”, de John Garrigues.

[6]O Centro Interno de Equilíbrio”, de John Garrigues.

[7] DeAtuando no Plano das Causas”, de Carlos Cardoso Aveline.

[8] DePara Fortalecer a Vontade”, de Helena P. Blavatsky.

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O texto Concentração em Raja Iogafoi publicado em nossos websites associados no dia 11 de fevereiro de 2019.

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Em 14 de setembro de 2016, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável. 


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