16 de setembro de 2021

Ideias ao Longo do Caminho - 35

 Por Que a Ação Construtiva Deve Ser Prioridade

Carlos Cardoso Aveline

 
 
 
* Os direitos de autor devem ser respeitados, e nenhuma forma de roubo fica impune. A lei do carma não abre exceções: o primeiro castigo do mentiroso é afastar a si mesmo da percepção honesta dos fatos. O insincero perde inevitavelmente contato com a verdade, devido à dinâmica concreta da sua desonestidade.
 
* A verdade em si é abstrata. Ela está além das palavras e não pertence com exclusividade a pessoa alguma. Pertence igualmente a todos os que são sinceros: cedo ou tarde, eles a conhecerão.
 
* A mesma verdade universal pode ser descrita de diferentes maneiras e desde ângulos variados.  
 
* Aquilo que é eterno não pode estar sob controle do que é passageiro. O oposto, sim, constitui um fato. Todos os seres honestos pertencem à Verdade. As entidades temporárias existem - uma e outra vez - no espaço ilimitado do eterno.
 
* Os acontecimentos exteriores formam o que os Sábios chamam de “mundo dos efeitos”. A filosofia esotérica ensina como atuar de modo responsável no “mundo das causas”. O reino interno e causal está em nossas almas. Para produzir o tipo certo de efeitos, cabe tomar decisões acertadas em relação ao que depende de nós. E isso raramente é tão fácil quanto parece, porque requer que tenhamos uma meta elevada, desapego, e discernimento.
 
* A vontade abstrata de fazer algo pode ser o suficiente para tomar uma decisão. Em seguida, porém, é preciso colocar em movimento energias mais concretas, de modo a criar os efeitos desejados. A distância entre a intenção e o gesto deve ser observada. Dentro de nós, diferentes níveis de consciência tendem a obedecer a vários interesses. A clareza de visão raramente é absoluta, mas pode ser aumentada todos os dias.
 
* Nas comunidades humanas assim como na psicologia individual, há uma vasta diferença entre paz e estagnação. O motivo disso está no fato de que harmonia não inclui indulgência. Uma cooperação durável entre as pessoas só pode ser preservada pela prática da ação correta, durante uma busca paciente e compartilhada de metas legítimas.
 
* Os instintos cegos e as emoções desorientadas promovem dolorosos altos e baixos na vida. Aquele que busca a sabedoria precisa ter força para ignorar as ilusões do prazer e da dor de curto prazo, e cumprir seu dever, seguindo o caminho do meio. Ele trilha o caminho do equilíbrio.
 
* Quando a satisfação pessoal não é uma meta em si mesma, alcançamos o bom senso. A sabedoria teosófica é como a água pura em condições naturais: é insípida, inodora, incolor, e não tem forma externa rígida.
 
* Há uma bênção em contemplar a sabedoria expressada nos contos populares das diferentes nações. Narradas com palavras simples, as melhores histórias tradicionais falam diretamente à alma. Elas podem ser encontradas na literatura da Índia, de Israel, da Rússia, da Grécia antiga, da China e outros países. Elas mostram ao mesmo tempo a diversidade cultural e a unidade interna dos seres humanos.
 
* A busca do que é politicamente correto forma uma rede viva de ilusões, interconectadas pelo apoio comum à falta de realismo. Deste modo surge a ignorância coletivamente organizada. Como superar as formas cegas de vida? Um grau de indiferença a vitória e derrota aparentes permite que um indivíduo desperte, e escute sua própria alma.  
 
* O ser humano nasce para adquirir um discernimento espiritual crescente do que é certo e errado. A alma de cada cidadão é amiga de todos os seres. Ao mesmo tempo, ela rejeita as centenas de formas de ignorância e egoísmo em qualquer tempo e lugar. A cada ser que acorda e se ergue, o bom senso ganha mais força.
 
* Quando o trabalho humanitário se baseia em uma visão de curto prazo dos fatos, a ansiedade e a busca de metas superficiais tendem a predominar. Na ação de longo prazo, por outro lado, é possível ver os frutos do esforço e há tempo suficiente para corrigi-lo. Então não é criado apenas um conjunto de resultados. Surge um processo inteligente de produção de carma novo. Em um tal processo de desenvolvimento, podemos aprender mais e melhor. Ao identificar os erros e deixar de fazê-los, aperfeiçoamos constantemente o esforço.
 
* Mais importante do que exigir alguma coisa é ter a iniciativa de agir de modo acertado. Cobiça, raiva, ambição e desejos exagerados provocam ações cegas, levando à desarmonia social. Ordem, por outro lado, só pode existir quando há moderação. A simplicidade voluntária resulta do desapego, e de um sentimento interno de independência diante das circunstâncias. Então experimentamos um contentamento durável que ao invés de obedecer à lógica do mundo externo, guia o mundo exterior e o ilumina, preservando a nossa liberdade no plano da alma e do pensamento.
 
Agindo no Mundo das Causas
 
* Quando você age em perfeita paz e com a necessária calma sobre aspectos essenciais da realidade, tudo se coloca em movimento a seu devido tempo na direção adequada. Não vale a pena trabalhar demasiado rápido, porque a aceleração artificial afasta o indivíduo dos fatos essenciais e o leva para o terreno da mera aparência. Aqueles cuja meta é profundamente valiosa não têm motivo para viver com grande pressa.
 
* A paz de espírito resulta do tipo certo de interação entre a mente e o centro das emoções. Um silêncio interno é necessário para que os pensamentos sejam escutados no mundo emocional. A ausência de ruído torna possível que os sentimentos sejam compreendidos no território das ideias. Um desapego diante das situações externas de curto prazo permite que o coração e a mente do indivíduo olhem para o mundo desde o ponto de vista da “escada” para o céu, antahkarana.
 
* Nem tudo é uniforme quando a vida se reorganiza através de uma mudança rápida e profunda nas marés do carma. Em ocasiões especiais, cabe agir com força e avançar de modo decisivo na alteração de estruturas de pensamento e de ação em diversos aspectos da vida. Assim que uma nova forma de evolução do carma foi definida em suas premissas e seus alicerces, chega o momento para uma relativa pausa nos aspectos externos do esforço, de modo que as linhas subsidiárias de ação e reação possam adotar novos ritmos e ciclos, e adaptar-se à alteração dos limites e dos condicionamentos. Cada vez que agimos no mundo das causas, devemos dar um certo tempo para que o mundo dos efeitos se adapte, antes que a ação renovadora receba outro impulso.
 
A Sociologia da Ação Inteligente
 
* George Orwell escreveu sobre a relação direta entre a pobreza da nossa linguagem diária e a superficialidade da capacidade de pensar. Uma força política baseada em falsidades naturalmente boicota o debate honesto através do uso do insulto e de estímulos às emoções exacerbadas. Visa tornar impossível o uso adequado do cérebro dos cidadãos, para assim ocultar os seus erros e, em muitos casos, crimes.
 
* Por outro lado, as forças políticas sérias e que não estão envolvidas com a mentira sistemática preservam uma linguagem equilibrada, explicam as suas ações, ouvem os adversários honestos e estimulam o uso do raciocínio sereno por parte da população, porque confiam na verdade. A prática do ataque pessoal e as expressões de ceticismo sistemático em relação ao país não fazem parte da lucidez política e, além disso, indicam a presença de insinceridade.
 
* A experiência acumulada dos povos, assim como a experiência dos indivíduos, aponta na mesma direção do que é ensinado pelas escrituras de diferentes religiões: a ação construtiva deve ser prioridade, a ação destrutiva não deve ser prioridade. É indispensável manter as emoções elevadas e os pensamentos solidários. Cabe preservar, com firmeza, o hábito de agir criativamente.

* É mais fácil derrubar uma árvore do que plantá-la e cuidar do seu crescimento. Desprezar o que existe, porque talvez não corresponda às nossas expectativas, é um gesto baseado no sentimento de frustração e não traz bons frutos.
 
* O rancor é mau conselheiro, mas a gratidão produz felicidade. Melhorar o que existe é sábio.
 
* Construir desde o início o que terá grande valor é adequado. Plantar uma floresta tem mérito. A solidariedade guia os seres humanos na direção da paz. A sabedoria da alma os faz despertar para a cooperação, e o exemplo prático do que é correto constitui a melhor maneira de eliminar os erros.  
 
000
 
O artigo “Ideias ao Longo do Caminho - 35” foi publicado como item independente em 16 de setembro de 2021. Uma versão inicial e anônima dele faz parte da edição de julho de 2017 de “O Teosofista”, pp. 10-12.  
 
Embora o título “Ideias ao Longo do Caminho” corresponda ao título em língua inglesa “Thoughts Along the Road”, de Carlos C. Aveline, não há uma identidade exata entre os conteúdos das duas coletâneas de pensamentos.
 
000
 
 
Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
000

3 de setembro de 2021

O Teosofista - Setembro de 2021

 


 
O texto de capa da edição de setembro é um clássico e foi escrito por Hermann Hesse. Intitulado “A Arte de Escutar as Árvores”, as suas linhas iniciais afirmam:
 
“Para mim, as árvores sempre foram os pregadores mais convincentes. Eu as reverencio quando vivem em tribos e famílias, em florestas e bosques. E eu as reverencio ainda mais quando estão sozinhas. Nada é mais sagrado, nada é mais exemplar do que uma árvore bela e forte.”
 
Outros temas centrais do Teosofista deste mês:  
 
* Quem é Que Abre o Caminho - artigo de Joana Maria Pinho (p.3).

* Dona Theresa Martins, de Piracicaba, Sobre a Magia da Natureza (p.4).
 
* Duas Orações da Tradição Zen - a Confissão e os Votos (p.5).
 
* O Bom Senso e a Simplicidade Voluntária (p.6).
 
* A Lição de Epicteto - aprendendo a Usar Bem o Tempo (p.7).
 
* O Significado da Independência (p.8).

* O Indivíduo é Régua e Compasso - a Visão Social da Sabedoria Chinesa Antiga (p.9).
 
* Frases da Sabedoria Oriental (p.10).
 
* A Comunidade Perfeita - a Construção do Lugar Ideal Começa a Cada Momento (p.12).
 
* A Árvore, o Sábio e o Cientista (p.13).
 
* Três Passos Para o Progresso da Alma (p.14).

* Ideias ao Longo do Caminho - Ser Sincero Significa Ter Respeito por Si Mesmo  (p.15).
 
* Efeitos do Exagero da Sensualidade - a Ausência de Moderação Torna a Paz de Espírito Inalcançável; artigo de Pitirim A. Sorokin (p.18).
 
* O Perfil da Loja Independente (p. 20).
 
A edição tem 20 páginas e inclui a lista dos itens publicados recentemente nos websites associados.  
 
 
000
 
A edição acima foi publicada no dia 3 de setembro. A coleção completa de “O Teosofista” está disponível nos websites associados.
 
000

2 de setembro de 2021

O Poder Espiritual do Casamento

Um Fator Decisivo Para a
Sobrevivência da Humanidade

Pitirim A. Sorokin


 
  
O casamento é uma prova social da maturidade física, mental, emocional, espiritual e cívica do indivíduo. Implica a momentosa transformação de um rapaz num marido-pai e de uma moça numa esposa-mãe, com as mudanças correspondentes em sua posição, privilégios e responsabilidades sociais.
 
Para uma grande maioria dos homens e mulheres, o casamento é a unificação mais vital, mais íntima, mais completa, do corpo, da mente e do espírito em um nós socialmente aprovado e indivisível. Num bom casamento fundem-se os egos individuais das partes. As alegrias e pesares de um tornam-se as alegrias e pesares do outro. Todos os seus valores, aspirações e vicissitudes da vida passam a ser inteiramente compartilhados. Sua mútua lealdade é empenhada incondicionalmente, até que a morte os separe. O laço do casamento é verdadeiramente sagrado e indissolúvel.
 
Uma união assim tão completa constitui o mais poderoso antídoto contra a solidão. Desenvolve e expressa em sua forma mais nobre e melhor, no enobrecimento moral do casal e na verdadeira socialização dos filhos.
 
Desde o passado mais remoto, os pais casados têm sido os mestres mais eficazes de seus filhos e a família tem sido a escola mais importante na transformação dos recém-nascidos dos animais humanos em personalidades inteligentes e socialmente responsáveis. Esse decisivo papel educacional é perfeitamente sintetizado no ditado que afirma:
 
“Tal como é a família, assim será a sociedade”.
 
Além disso, o cultivo do amor mútuo e da mútua tarefa de educar os filhos estimula as pessoas casadas a externarem e desenvolverem os seus melhores impulsos criativos. Pois não há dúvida de que a missão de moldar as próprias personalidades e as de seus filhos é tão nobilitante como a criação de uma obra-prima nas artes ou nas ciências. E, independentemente da educação, da posição social, da religião ou das condições econômicas, cada par casado tira de um bom casamento a mais completa satisfação desse anseio criador que existe em todos nós. 
 
Neste sentido, o casamento é a escola mais universal e mais democrática de desenvolvimento do potencial criador de cada ser humano. Esse anseio criador é provavelmente a marca mais distintiva da espécie humana e sua satisfação é uma necessidade absoluta para a felicidade humana.
 
Desfrutando a união conjugal em sua infinita opulência, os pais realizam espontaneamente muitas outras tarefas vitais. Mantêm a procriação da raça humana. Por meio de sua progênie determinam a hereditariedade e as características adquiridas das gerações futuras. Por meio do casamento atingem uma imortalidade social sua, de seus antepassados, de seus próprios grupos e de sua coletividade. Essa imortalidade é garantida pela transmissão de seu nome e valores e de suas tradições e modos de vida a seus filhos, netos e gerações posteriores.
 
O cumprimento dessas tarefas explica por que o casamento tem sido considerado por todas as sociedades o ponto culminante da existência humana e o fator mais decisivo da sobrevivência e bem-estar das próprias sociedades.
 
000
 
O artigo “O Poder Espiritual do Casamento” foi publicado nos websites associados dia 02 de setembro de 2021. Trata-se de um trecho do livro “A Revolução Sexual Americana”, de Pitirim A. Sorokin, Ed. Fundo de Cultura, Rio de Janeiro, 1961, ver pp. 12-14. A tradução foi comparada com a edição original em inglês (“The American Sex Revolution”, Porter Sargent Publisher, Boston, 1956). Uma versão mais curta do texto faz parte da edição de novembro de 2019  de “O Teosofista”, pp. 1-2.
 
000
 
 
Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
000

27 de agosto de 2021

A Arte de Evocar o Futuro

 Ampliando a Sintonia com o Bom Carma

Carlos Cardoso Aveline

 
 
  
Embora não seja essencial, a dor é uma parte inevitável da vida. “Dukkha”, sofrimento, constitui a primeira nobre verdade do senhor Buddha. Sofrer é tão antigo quanto a humanidade.
 
Por outro lado, vivemos no século 21 um momento de transmutação planetária. Há uma febre cármica nas cidades: tudo se acelera, inclusive o sofrimento dos humanos, e também as tentativas desastradas de fugir da dor.  
 
Sejam quais forem as circunstâncias, o teosofista observa o mundo desde o ponto de vista da potencialidade sagrada. Ele deseja a todos o melhor, e não o mais cômodo. E pensa:
 
Que a humanidade nasça - sem demasiada dor - para uma perspectiva mais ampla da vida. Que haja paz, e cura, à medida que se alargam os horizontes. Possa cada um administrar com sabedoria a sua própria energia vital. Que cresça o número dos indivíduos de boa vontade.”
 
O cidadão sensato sabe que tudo aquilo em que se pensa demoradamente ganha força. Ele mantém o seu foco nas coisas boas, portanto. Ele também vê que existe um número pequeno mas potencialmente decisivo de seres humanos trabalhando pelo bem da humanidade, e que eles têm coragem para aceitar sua quota de dor e de incertezas, e discernimento para afastar as Causas da aflição, até onde isso é possível.
 
O operário do futuro constrói uma vida correta através da experiência prática da boa vontade. Aquele que está em paz consigo mesmo está também, fundamentalmente, em paz com os outros.
 
Todos os que agem com altruísmo são fatores de cura. Milhares de cidadãos anônimos plantam cada dia sementes de equilíbrio e cooperação.
 
Quanto mais ansiedade e sofrimento houver, mais valiosa é a atitude sensata de quem sabe esperar o momento certo para agir, de quem tem discernimento e consegue atuar no ritmo adequado para fazer o bem.
 
O silencioso exemplo da ação construtiva deve ser seguido: é ampliando a sintonia pessoal e coletiva com o bom carma que ingressamos no território sutil da bem-aventurança.
 
000
 
O texto “A Arte de Evocar o Futuro” foi publicado nos websites associados dia 27 de agosto de 2021. Uma versão inicial dele, sem indicação do nome do autor, faz parte da edição de janeiro de 2020 de “O Teosofista”.
 
000
 
Leia mais:
 
* A Construção Invisível.
 
* Aspectos Sagrados da Serendipidade.
 
* A Atitude da Alma Diante do Corpo.
 
000
 
 
Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
000 

25 de agosto de 2021

O Oceano Primordial

 Há uma Sintonia Interior Entre
a Alma do Ser Humano e o Mar

Carlos Cardoso Aveline
 
 
 
 
Deixei de lado, agora, toda preocupação pessoal. Estou caminhando pela praia sob o sol do outono, e posso sentir a força do vento. É aqui, na beira do mar, que os restos da civilização consumista se encontram com a eterna imensidão da vida. Caminho livremente sobre a espuma das ondas - mas há copos vazios de iogurte avançando e recuando na linha da maré. A beleza do pôr-do-sol ilumina, generosamente, um vidro de geleia abandonado; e uma garça branca conclui um voo mágico ao pé de uma lata de óleo de milho enferrujada. Mas a imensidão do oceano absorve sem distinção tanto o lixo quanto os sentimentos de indignação que alguém possa ter. O mar é maior que todas as emoções pessoais, generosas ou não. Porque aqui o ser humano busca e encontra sua renovação interior. Afinal, o oceano físico é um símbolo - e uma porta - para a percepção de um outro oceano maior ainda, o próprio cosmo.
 
Nasci junto ao mar. Talvez seja por isso que nunca tive dificuldade em compreender que este planeta é feito, fundamentalmente, de água. No hemisfério sul, onde interrogo com um ar ausente a espuma das ondas, há somente 19% de terra; 81% da superfície são cobertos pelo mar. O hemisfério norte é bem menos aquático: 39% de terra e 61% de água. A média planetária fica em 71% de água.
 
Estou conversando com as ondas em uma praia jovem, que não tem mais de cinco ou seis mil anos de idade. O mar, no entanto, é tão velho quanto a Terra que conhecemos: é nele que surgiu a vida, há cerca de quatro bilhões de anos, segundo diz a ciência atual. Além do oceano físico deste planeta, há também um oceano primordial - segundo a sabedoria dos antigos - que é origem do próprio universo conhecido. Como dizem as Estâncias de Dzyan, um documento de antiguidade imemorial, a semente do universo cresceu nos abismos do Oceano da Vida. “A escuridão irradia a luz, e a luz lança um raio solitário na profundeza da mãe”, afirma a obra, publicada por Helena Blavatsky no século 19.[1]  Os Vedas contêm um poema em que a origem do mundo é relacionada com as águas primordiais:
 
“Não havia coisa alguma; o céu claro e distante
Não existia, nem havia o amplo telhado celestial, espalhado ao alto.
O que é que encobria tudo? O que o abrigava? O que o ocultava?
Seria o insondável abismo das águas?
Não havia a morte - porém nada havia de imortal.
Não existia diferença entre o dia e a noite;
Só Aquilo que é Uno respirava sem respirar, sozinho,
E desde então nada jamais existiu fora Daquilo. 
Havia escuridão, e no início tudo estava velado
Em trevas profundas -; um oceano sem luz.
O germe ainda coberto pela casca
Despertou, como natureza una, - devido ao intenso calor.
.........................................................................................
Quem sabe o segredo? Quem o proclamou aqui?
De onde veio, de onde veio - esta criação múltipla?
Os próprios Deuses só passaram a existir mais tarde.
Quem sabe de onde surgiu, esta grande criação?
Aquilo, de onde veio esta grande criação,
O Mais Elevado Vidente que está no mais alto céu,
Só Ele sabe a resposta -; ou talvez nem Ele saiba.” [2]
 
Para o taoismo, o mar ensina o funcionamento da Lei eterna. Laotse ensina que “o Tao no mundo pode ser comparado aos rios que desaguam no mar”. [3]
 
Gautama Buda, quase contemporâneo de Laotse, ensinou na Índia algo semelhante, segundo o famoso poema “A Luz da Ásia”:
 
“A maré incessante da existência corre sem interrupção, sempre mudando, como um rio cujas ondas se sucedem lentas ou rápidas, e que são as mesmas - embora diferentes - desde sua longínqua nascente até o mar, onde vertem.” E o sermão do Senhor Buda prossegue, descrevendo o ciclo da água em nosso planeta:  
 
“O mar, evaporando-se ao sol, restitui ao rio suas pequenas ondas perdidas, sob a forma de ligeiras nuvens que gotejarão do alto das montanhas e correrão sem trégua e sem repouso. E isto é suficiente para compreender as coisas aparentes, os Céus, as Terras, os mundos e as trocas que o modificam, a Roda poderosa que gira, movida pela luta e pela força, sem que ninguém possa detê-la nem ir em sentido inverso ao seu movimento.” [4]
 
O mar parece representar, no plano físico, o princípio eterno de onde tudo parte e para onde tudo retorna. O oceano, como unidade indiferenciada e primordial, é ao mesmo tempo fonte e destino das águas e dos seres.
 
A ponta branca de espuma da água cobre a areia, avançando e recuando ciclicamente - assim como o oceano da sabedoria universal inspira, periodicamente, a mente humana em evolução.
 
Uma garça branca pequena observa-me à meia distância, mantendo as pernas altas acima das ondas do mar que não chegam a cinco centímetros de profundidade. Assim ela mantém seco seu corpo leve, planejado para voar. Acompanhando o movimento das águas, a garça avança e recua alguns passos, enquanto vigia o solo molhado em busca de algum alimento vivo e saboroso. Observo sem pressa, imerso no som e no movimento das águas. Estou na praia de Atlântida, no município de Xangri-lá, litoral gaúcho. A cada 40 ou 50 metros, há uma garça bem posicionada e atenta. O mais elegante no voo da garça é o modo como, para voltar ao solo, fica planando com as asas imóveis e descreve um semicírculo perfeito antes de pousar.
 
Uma garça vizinha, depois de fazer um voo com estas características para afastar-se alguns metros de mim, me observa agora e aceita a minha presença, enquanto tomo notas em meu caderno. Sigo seu exemplo e recuo alguns passos, evitando o avanço de uma onda mais forte. Em mais de um sentido, ela e eu somos tocados pela mesma maré.
 
Mais brincalhões que as garças, bandos de pássaros menores, os maçaricos, fazem evoluções no ar que despertariam inveja em pilotos da Força Aérea Brasileira. Os maçaricos também andam pelo chão, procurando alimento vivo com suas patas, longas para seu tamanho. Um minuto atrás, vi as evoluções de um pequeno pássaro. Ele voava parado, contra o vento, depois mergulhava e saía voando a favor do vento, descrevendo círculos. Simplesmente brincava com o ar, seu elemento preferido na natureza.
 
A zoóloga Rachel Carson, especializada em biologia marinha, produziu nos anos 1950 alguns livros hoje clássicos sobre o mar. Embora de cunho técnico, sua obra revela uma admirável maturidade interior diante da natureza. “As praias arenosas”, escreveu Rachel, “são um exemplo vivo da evolução deliberada e sem pressa do planeta”. Durante longas eras geológicas, o Atlântico tem avançado e recuado sobre as costas das Américas. Todas as praias brasileiras participam deste processo permanente de construção geológica, cuja escala de tempo está muito além das preocupações humanas de curto prazo. “A areia é uma substância bonita, misteriosa e infinitamente variável: cada grão, na praia, é resultado de processos que surgiram no começo da vida, ou na origem do próprio planeta”, escreveu a norte-americana Rachel. “Para compreender a praia não basta catalogar suas formas de vida”, explica. “A compreensão só surge quando, estando na praia, podemos perceber os longos ritmos da terra e do mar, que esculpiram as formas terrestres e produziram a rocha e a areia; quando percebemos interiormente a força da vida batendo nas praias, cega e inexoravelmente, pressionando por uma possibilidade de viver em terra firme.” [5]
 
A praia, para Rachel, é um mundo antigo porque desde o início do planeta sempre houve um ponto de encontro entre terra e mar. Mas é um processo de criação contínua, onde o impulso da vida é incansável. “Cada vez que me aproximo da praia”, escreveu, “ganho mais consciência da sua beleza e significado interior. Um dia, esta costa rochosa sob meus pés foi um local arenoso; e de novo, em algum futuro distante, as ondas terão moído estas rochas e terão devolvido a costa a seu estado anterior. Em todas estas praias há ecos do passado e do futuro: do fluxo do tempo, apagando e guardando tudo o que veio antes; são ecos dos ritmos eternos do mar, das marés, a batida das ondas, a pressão das correntes marítimas . é a corrente da vida fluindo como qualquer corrente oceânica, do passado para o futuro.”
 
Na praia reúnem-se os quatro elementos da natureza: a terra, a água, o ar - que oxigena a água e forma as ondas - e o fogo, representado pelo Sol, que aquece e dá vida ao ecossistema. A luz solar possibilita a existência do fitoplâncton, a vida vegetal que fica suspensa na água do mar e é a base de toda a cadeia alimentar. Sempre que o mar constrói uma nova costa, como durante os últimos milênios, no lugar em que caminho agora, surgem ondas de criaturas vivas na praia, disputando território e estabelecendo suas colônias. “Contemplando a vida da praia”, afirmou Rachel Carson, “temos uma percepção inquietante de alguma verdade universal que está um passo além da nossa compreensão. É o mistério último da própria vida.”
 
Nesta praia de Xangri-lá há numerosas cabines de salva-vidas, desocupadas nesta época do ano. Suas formas de pirâmide, com a base situada a dois metros e meio acima do solo, chamam atenção pela beleza. São um local perfeito para meditar e contemplar o imenso mar e céu azuis. Estou escrevendo sentado sob a cúpula da cabine piramidal. Um caminhante idoso fica alguns momentos imóvel, a poucos metros de distância, fazendo exercícios de respiração profunda, erguendo e abaixando os braços esticados relaxadamente, enquanto olha a espuma das ondas contra a linha do horizonte. Ele parece estar consciente de que o contato com o mar pode ser uma fonte de bênçãos.
 
A melhor hora para meditar aqui é ao amanhecer e ao pôr-do-sol. Sentado com a coluna ereta e as emoções em paz, é possível participar das energias presentes em uma forma geométrica perfeita, sentindo a vitalidade da beira do mar. A pirâmide aponta para o céu a partir de uma base firmemente apoiada sobre o solo. Cada ser humano pode ser, à sua maneira, uma pirâmide. Uma garça engole pequenos mariscos, com um jeito distraído, como se pensasse em outra coisa. O Sol ainda está presente na cena. Mas sua luz, dourada neste entardecer, vem de longe. Ela demora oito minutos e meio para percorrer os 150 milhões de quilômetros entre o Sol e a camada superior da nossa atmosfera - onde os raios ultravioleta são interceptados pela camada de ozônio - e, finalmente, iluminar a garça que procura moluscos na beira da praia com seu bico certeiro.
 
Um elemento significativo do mar são as ondas. Em alto-mar, há ondas que percorrem nove mil quilômetros ou mais. Mas a água que forma a onda em alto-mar não se movimenta com ela: a onda é uma forma geométrica que se reproduz ao longo do espaço, transmitindo determinada vibração.
 
“Cada partícula de água descreve uma órbita circular ou elíptica, com a passagem da onda, mas volta quase exatamente à sua posição original”, explicou Rachel Carson. A maior parte das ondas é causada pela ação dos ventos sobre as águas. “As ondas jovens, formadas há pouco pelo vento, têm forma aguda e estrepitosa”, escreveu ela, tratando as ondas como seres vivos. E ainda: “São muitos os incidentes na vida de uma onda. Quanto durará, até onde irá, de que maneira acabará - tudo isto é determinado, em grande parte, pelas condições que encontra em sua marcha pelo mar.” [6]
 
Mesmo depois da volta à cidade ainda posso instalar-me mentalmente na cabine-pirâmide, ou caminhar em imaginação pela beira da praia olhando o desfile das ondas que vêm morrer, suavemente, aos pés dos pássaros. Aproveito para pensar, demoradamente, nos versos com que Edwin Arnold encerrou sua obra “A Luz da Ásia”, sobre a vida de Gautama Buda: 
 
“O orvalho está no lótus:
Ergue-te, grande Sol!
E levanta minha folha, e lança-me na onda.
OM Mani Padme Hum -
O Sol já nasce:
A gota de orvalho toca o mar brilhante.” [7] 
 
Ou, como escreveu o técnico em ecologia marinha norte-americano Peter Weber:
 
“O tempo e a evolução nos distanciaram da origem nos mares, mas ainda carregamos traços da nossa herança de água salgada em nosso sangue. A fascinação quase universal do ser humano pela eterna procissão de ondas, o cheiro de água salgada e o grito dos pássaros marinhos reflete uma ligação psicológica profundamente estabelecida entre homem e mar.”[8]
 
Esta sintonia interior entre o ser humano e o mar ocorre porque algo em nossa consciência percebe, mesmo vagamente, que os oceanos estão relacionados com a essência da vida presente em cada um de nós e no planeta Terra.
 
NOTAS:
 
[1] A Doutrina Secreta”, de Helena P. Blavatsky, edição original, tradução da Loja Independente de Teosofistas, Parte I do Volume I, página 68.
 
[2] Poema transcrito em “A Doutrina Secreta”, obra citada, Parte I do Volume I, p. 65.
 
[3] Veja o capítulo 32 de “O Tao Teh Ching” na versão de Lin Yutang.
 
[4] “A Luz da Ásia”, Edwin Arnold, Livro Oitavo, Ed. Pensamento.
 
[5] “The Edge of the Sea”, Rachel Carson, Houghton Mifflin Co., Boston, EUA, 1955.
 
[6] “O Mar que Nos Cerca”, Rachel Carson, Cia. Editora Nacional, São Paulo, tradução de Brenno Silveira.
 
[7] “A Luz da Ásia”, obra citada, e mais especialmente sua versão original “The Light of Asia”, Edwin Arnold, Theosophy Company, Los Angeles, 1977, 238 pp., além de outras 24 pp. de um apêndice com comentários sobre a obra.
 
[8] “The State of the World - 1994”, Peter Weber e outros autores, Worldwatch Institute, Washington, EUA.
 
000
  
 
O texto “O Oceano Primordial” reproduz o capítulo primeiro do livro “A Vida Secreta da Natureza”, de Carlos Cardoso Aveline (Ed. Bodigaya, Porto Alegre, 2007),  e foi publicado nos websites associados dia 25 de agosto de 2021.
 
000
 
Leia mais:

* Roessler, um Pioneiro da Ecologia.
 
* Os Banhados do Rio dos Sinos (livro de 87 páginas).
 
000
  
 
Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 
 
000