Como Uma Orquestra Desafinada
Carlos Cardoso Aveline

* A lamúria é uma marca registrada da mente desatenta. Se você vê decadência a seu redor, seja mais forte que a rotina da degradação.
* Inove, renasça e faça renascer. Reconheça que você é responsável pela sua própria existência: vá à luta e vença plantando em silêncio uma pequena primavera da ética.
*Criticar os outros é uma futilidade: meritório é pensar no bem e agir à altura. Cabe construir o que é saudável.
* Jamais deseje derrotar alguém, porque o outro é sempre um espelho seu. Derrote suas autolimitações, vença seu autoboicote e sua ignorância. Decida alcançar o melhor por mérito próprio. Persevere. A vitória começa no interior de cada um, a partir do momento em que há uma decisão firme e durável de vencer.
A Rocha e o Vento
* Quando o sentimento de ansiedade se espalha, cabe tomar distância dos automatismos coletivos cuja base é a cegueira.
* Uma aceleração indevida dos acontecimentos externos abre caminho para a autodestruição daquelas formas de ignorância coletiva organizada que já não resistem ao seu próprio peso.
* Na via oposta à implosão do insustentável, o cidadão sensato fortalece a sua tranquilidade e sua vocação de vitória. Ele expande sua independência em relação a consensos pré-fabricados. Ele retoma o contato com a natureza. Ele escuta o silêncio e ouve o vento e as árvores como seus irmãos mais velhos. Talvez ele nomeie o relâmpago, a água da chuva, os rios e os oceanos como seus conselheiros pessoais. Sua fortaleza é uma tranquilidade vigilante.
* O cidadão sensato leva em conta Wu-wei – o princípio filosófico da China antiga – e atua mantendo uma aparente imobilidade. Seu trabalho parece nada aos olhos dos outros. Sua vitória é quase invisível, e por esse motivo é segura. Assim como a água, sua principal força é insípida, inodora, incolor, e não possui forma. Pode ser também expansiva como o fogo, firme como a rocha e ao mesmo tempo impalpável, do mesmo jeito que o vento.
A Doutrina Secreta
* Para ler qualquer grande obra da literatura universal é preciso um esforço paciente e sistemático. O leitor deve sublinhar e anotar o texto, consultar obras de referência e fazer perguntas a outros estudantes. Cabe trocar ideias, meditar, contemplar, e relacionar o que aprende com a sua própria vida diária. A obra “A Doutrina Secreta” (DS), por exemplo, não pode ser estudada e compreendida sem que se altere a consciência do estudante.
* O pesquisador que começa a ler e estudar a DS não é exatamente o mesmo que termina a leitura, 1.500 páginas depois (na edição original em inglês). No entanto, a mudança da alma ocorre de dentro para fora, impulsionada por uma silenciosa expansão de horizontes. Acontece em silêncio, sem alarde, imperceptivelmente.
* As passagens áridas da DS preparam o leitor para compreender melhor os trechos iluminadores.
* A bênção do estudo é contínua e profunda, mas algumas passagens a tornam mais perceptível para o leitor atento. A transpiração do esforço duro prepara a iluminação súbita do relâmpago. Cada página contém os aspectos probatórios indispensáveis para a mente terrestre, e ao mesmo tempo traz a bem-aventurança da consciência superior.
Uma Orquestra Desafinada
* Um raja-iogue dos Himalaias afirmou em carta a um discípulo leigo ocidental: “Para nós um lustrador de botas honesto é tão bom quanto um rei honesto, e um varredor de ruas imoral é muito melhor e mais desculpável do que um imperador imoral”. [1]
* E o escritor francês Claude Aveline escreveu:
* “Ser amigo de alguém porque ele é pobre me parece divinamente absurdo. Eu não tenho mais consideração por um homem pobre do que por um homem rico. Mas detesto a injustiça social, pela mesma razão pela qual não suporto ouvir uma orquestra mal afinada.” [2]
A Lenta Compreensão dos Fatos
* Perto do final da Carta 88, em “Cartas dos Mahatmas”, um mestre afirma: “não podemos aceitar a ideia de inundar o mundo, sob pena de afogá-lo, com uma doutrina que deve ser revelada cautelosamente e gota a gota, como um tônico demasiado poderoso que tanto pode matar como curar.”
* Adotando um ponto de vista semelhante, Claude Aveline escreve:
* “Aqueles que têm orgulho de mostrar aos homens a verdade nua e crua talvez não sejam os que contribuem para o seu triunfo mais rápido. Como o amor, como a morte, a verdade necessita dos véus da ilusão. E da mesma forma, para servir de exemplo, não é suficiente ser digno, é preciso encantar. A virtude não é ajudada pelo exagero. Nem a verdade nem a virtude podem vencer, sem antes seduzir.”[3]
* A verdade deve ser administrada com cuidado e transmitida pouco a pouco, para que possa ser absorvida. A beleza da verdade é fascinante, mas nem sempre é óbvia. No entanto, ver a beleza da verdade é sempre necessário, para amá-la e para defendê-la.
NOTAS:
[1] “Cartas dos Mahatmas”, Editora Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, ver Carta 29, volume I, p. 158.
[2] Traduzido do livro “Avec Toi-Même, Etc.”, de Claude Aveline, Mercvre de France, 1963, 175 pp., p. 80.
[3] Do livro “Avec toi-même, etc.”, 175 pp., p. 78.
O artigo “Ideias ao Longo do Caminho – 75” está disponível nos websites da Loja Independente de Teosofistas desde 24 de setembro de 2026. Uma versão inicial e anônima dele pode ser vista na edição de outubro de 2021 de “O Teosofista”, pp. 10-12.
Embora o título “Ideias ao Longo do Caminho” corresponda ao título em língua inglesa “Thoughts Along the Road”, não há uma identidade exata entre os conteúdos das duas coletâneas de pensamentos do autor.
Leia mais:
* Sentenças dos Padres do Egito.
* Opinião, Conhecimento e Sabedoria.
A respeito da beleza da verdade, examine o conto de Malba Tahan em que ela se apresenta como uma mulher: “Uma Fábula Sobre a Fábula”.
Veja vídeos curtos e claros de teosofia no YouTube:
* Canal Filosofia Esotérica.
* Canal Loja Independente de Teosofistas.

Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”.



