Ou a Arte de Libertar-se da Pressa
Carlos Cardoso Aveline
Carlos Cardoso Aveline
A ciência da administração do tempo é um dos maiores desafios de hoje.
As pressões externas são tantas, e tão insistentes, que tiram de muita gente a
capacidade de viver em paz.
Isso pode ser ilustrado pela história de uma tartaruga, adaptada da
cultura árabe. Aliás, há seres humanos que têm forte admiração por estes
animais, e aprendem com eles. Uma tartaruga pode viver mais de um século. Nos
Estados Unidos, um indivíduo da espécie viveu 135 anos. Sua idade média oscila
entre 80 e 100 anos, e pode ser calculada pelo número de anéis do casco.
Conta a história que, um dia, os animais se reuniram em assembleia geral, e
começaram a falar das coisas que os seres humanos tiravam deles.
- “Eles pegam o meu leite”, reclamou a vaca, com uma calma resignação na
voz. “Quando não me matam”.
- “Colocam minha carne na panela para fazer canja”, disse uma galinha,
nervosa.
- “Usam minha carne para fazer toucinho”, alegou o porco.
- “Querem caçar-me para ficar com o óleo”, testemunhou a baleia.
- “Estão destruindo as matas nativas em que eu vivo”, afirmou o macaco.
Os testemunhos e constatações prosseguiam. Até que por último
veio a tartaruga, e disse:
- “Eu também tenho algo que eles certamente tirariam de
mim, se pudessem. É algo que eles necessitam acima de todas as
coisas, mas também algo que desperdiçam e jogam fora. Eu tenho tempo: esta é
minha grande riqueza.”
De fato, a tartaruga não tem pressa nem para respirar. Respira
lentamente, apenas três vezes por minuto, como se fosse algum grande mestre de
ioga. Por isso ela vive em paz. Não está preocupada com nenhuma das
superficialidades urgentes que preenchem a vida cotidiana de muitos cidadãos
modernos.
No folclore indígena brasileiro, segundo registra Rodolpho von Ihering, a
tartaruga e o jabuti são símbolos de sabedoria, e por isso a tartaruga
ganhou algumas corridas realmente lendárias.
Na tradição oral do folclore indígena brasileiro, o jabuti joga corrida com o
veado, o bicho mais veloz da floresta, e coloca seus parentes nos diferentes
pontos do trajeto. Durante a corrida, cada vez que o veado perguntava pelo
adversário, um jabuti diferente respondia: “Estou aqui!” O veado correu,
surpreso, até cair morto. [1]
Na famosa fábula de La Fontaine, a tartaruga aposta corrida com a lebre, mas
esta subestima o adversário e vai descansar. Descansando, dorme. O sono
simboliza a falta de atenção diante da vida e do tempo que passa.
Na fábula, a lebre só acorda quando a lenta, mas tenaz e atenta tartaruga já
garantiu a vitória.
Frases como “devagar se vai ao longe” e “a pressa é inimiga da perfeição” bem
poderiam ter sido inspiradas em alguma tartaruga, ou ditas por ela.
A lição básica da tartaruga para os seres humanos consiste em levantar
uma questão que deve ser examinada com calma:
“É bom viver perseguidos pelo sentimento de pressa? Vale a pena?”
Conta-se que um dia um pescador estava sentado tranquilamente no seu barco a
remo, nas águas do Rio dos Sinos, segurando uma linha com anzol. Apreciava
aquela paisagem bonita, quando um poderoso industrial estacionou ali o
seu carro importado e veio falar com ele.
- “Por que você não dá um jeito de pescar com rede?”, perguntou o
homem, que ignorava a proibição do uso de redes no rio.
- “Porque pescando desse jeito eu tenho o suficiente para viver”, respondeu o
pescador, com um jeito simples de homem do povo.
- “E por que você não quer jogar redes no rio e pescar mais peixes?”
- “O que eu faria com eles?”
- “Ora, você poderia ganhar dinheiro, vendendo-os”, tentou explicar o
industrial. “Este trecho dos Sinos não está poluído ainda. Assim você
teria mais peixes e mais dinheiro. Poderia comprar outro barco. E seria um
homem rico, como eu”.
- “E o que eu faria então?”
- “Ora, então poderia realmente gozar a vida”.
- “E o que você acha que eu estou fazendo agora?” - perguntou o pescador,
olhando para o voo elegante de uma garça branca.
O diálogo acima reproduz, em outro contexto, o mesmo desafio paradoxal da
pressa e da lentidão, ou da lebre e do veado, que perdem a corrida para a
tartaruga.
Às vezes, é fazendo as coisas devagar que você alcança melhor resultado, e é
fazendo menos coisas, bem feitas, que você atinge sua meta.
Quando uma pessoa, ou uma sociedade inteira, se agitam demais, é porque não
estão sabendo enfrentar as questões que realmente interessam.
NOTA:
[1] “Da Vida dos
Nossos Animais”, Rodolpho von Ihering, Casa Editora Rotermund S.A., São
Leopoldo, RS, quinta edição, 320 pp., 1967, ver pp. 113.
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