20 de março de 2013

Urano e a Civilização da Solidariedade

Movimento Teosófico Abre Caminho Para
Uma Nova Maneira de Viver em Nosso Planeta

Carlos Cardoso Aveline

 Uma imagem do planeta Urano, com seus tênues anéis


O dia sete de setembro de 1875 foi um momento decisivo para o surgimento da nova era de Aquário. Nesta data, ocorreu em Nova Iorque a primeira reunião do movimento esotérico moderno, que iria emergir nas semanas seguintes sob a liderança de Helena Blavatsky.

O primeiro objetivo do movimento não é modesto. Ele propõe nada menos que a formação de “um núcleo da fraternidade universal da humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor”. O seu lema possui um conteúdo anticlerical. Considerando inúteis e prejudiciais as burocracias teológicas, ele afirma:

“Não há religião mais elevada que a verdade”.

O despertar da mente superior rompe os dogmas da ciência, da filosofia e da religião convencionais. Do ponto de vista astrológico, esta é uma tarefa do planeta Urano, corregente do signo de Aquário. O movimento teosófico é a semente e o germinar de uma nova consciência, mas ele requer vários séculos para desenvolver-se. Já no berço ele rompeu a separação entre oriente e ocidente e espalhou-se pelo mundo como um esforço coletivo por uma nova era de solidariedade. Mas ainda é muito jovem e está apenas começando sua missão. A visão teosófica requer liberdade de pensamento. Iluminada pelo espírito imortal, ela destrói os jogos institucionais de poder político e religioso. Ao perceber a fraternidade essencial que une todos os membros da humanidade, a percepção teosófica da vida deixa à mostra as pernas curtas da  mentira “espiritual” e põe no chão mais de um sonho romântico da era de Peixes.

O pouco convencional e renovador planeta Urano não trabalha sozinho. Longe disso. Do ponto de vista esotérico, todo o nosso sistema solar pode ser visto como uma grande escola espiritual de bilhões de anos. Cada planeta atua como um instrutor, ou como um conjunto de instrutores, desta escola; e tem determinado tipo de sabedoria a transmitir. [1] As lições de Urano - prioritárias nos próximos dois mil anos - têm ganhado peso na vida humana ao mesmo tempo em que a nossa humanidade compreende melhor as lições de Netuno, dominantes durante a já terminada era de Peixes.

A sabedoria de Urano está à nossa disposição há muito tempo, mas esta é a hora de dar-lhe uma relativa prioridade, inclusive porque ela permitirá compreender os desafios da era de Peixes que ainda estão por ser resolvidos. Entre eles estão o fanatismo religioso, a autoilusão supostamente espiritual, e o pseudoesoterismo. É necessário ter uma mente clara, livre, independente e altruísta (Urano-Aquário) para despertar a intuição e perceber sabiamente a unidade de todas as coisas (Netuno-Peixes), abandonando o uso das muletas da crença cega, que constituem o aspecto negativo da era de Peixes. Quando a razão e a intuição estão juntas, há equilíbrio e harmonia.

Urano, Netuno e Plutão são os três planetas mais afastados do Sol. Eles são considerados os planetas “transpessoais”, ou impessoais. Eles trabalham em equipe, provocando o despertar da alma imortal na mente e no coração humanos.

Helena Blavatsky escreveu que a conexão de Netuno com o nosso sistema solar é “maiávica”, isto é, ilusória.[2] Dane Rudyar, astrólogo do século 20 e leitor atento de HPB, qualificou Urano, Netuno e Plutão como “embaixadores da galáxia”. Para ele, os três só pertencem em parte ao nosso pequeno sistema solar.[3]

Assim como o Sol simboliza a totalidade do nosso eu individual, Urano, Netuno e Plutão representam mais diretamente a consciência cósmica. Para compreendê-los, é preciso aceitar a energia impessoal e universal que os anima e aprender a trabalhar com ela. Enquanto não somos capazes de fazer isso, a energia dos planetas “exteriores” é capaz de causar boa quantidade de confusão e atrapalhar bastante as tentativas humanas de organizar o mundo com base na ignorância. Por isso Helena Blavatsky escreveu que quando começasse a era de Aquário os psicólogos teriam trabalho extra para fazer, e as idiossincrasias psíquicas da humanidade entrariam em uma grande transformação. No mesmo texto, ela indicou o ano de 1900 como o do início da nova era aquariana.

Segundo H. P. Blavatsky, “um dos vários ciclos notáveis” que terminaram no final do século 19 é “o ciclo messiânico dos judeus samaritanos (e também cabalístico) do homem conectado com Peixes”. Blavatsky explicou: “É um ciclo histórico e não muito longo, mas muito oculto, que dura cerca de 2.155 anos, mas ele só tem verdadeiro significado quando é calculado pelos meses lunares. Ele ocorreu em 2.410 e 255 a. C., ou quando o equinócio entrou no signo de Carneiro, e novamente no de Peixes.” [4]

Geoffrey Barborka, um estudioso do século vinte que escreveu diversos livros sobre os ensinamentos da Sra. Blavatsky, comentou:

“Já que 2.155 anos é o período de tempo para a duração de cada um desses ciclos ou eras de Áries e de Peixes, e como a era de Peixes começou em 255 a. C., a data de início da era de Aquário é o ano de 1.900.” [5]

Embora o ano central tenha sido 1900, a transição de uma era astrológica para outra é um processo complexo. Os seus efeitos demoram alguns séculos para tornarem-se plenamente visíveis. No plano oculto, o alvorecer da era de Aquário ocorreu ao longo de 215 anos. Ele culminou em 1900, mas terminou, matematicamente, apenas durante a primeira década do século 21. [6] 

A era de Peixes foi marcada pelo contraste dramático entre os ideais elevados e as práticas egoístas. A exploração do homem pelo homem, a intolerância e o fanatismo arruinaram alguns dos nossos melhores sonhos. Houve um combate doloroso entre céu (o aspecto positivo de Urano) e inferno (o aspecto negativo de Plutão) dentro da alma humana, e esta viveu a crucificação pela dualidade. A luz infinita e imortal era rejeitada pelo subconsciente. A redenção só poderia ocorrer pelo despertar da percepção espiritual, possibilitado por Urano, e impulsionado pelo poder regenerador que o aspecto positivo de Plutão simboliza.

A astróloga Pauline Stone mostra que, nos últimos séculos, a descoberta de cada novo planeta coincidiu com fortes transformações culturais e históricas. O planeta Urano foi descoberto em 1781, pouco antes da revolução francesa, cujo auge, em torno de 1793, marcou o ano inaugural da perigosa transição para a era de Aquário.[7] Desde então, a liberdade de pensamento e os direitos humanos de cada indivíduo passaram a figurar com destaque entre as prioridades do debate político em todo o mundo. A proclamação universal dos direitos do homem é de 1789.

Como vimos, uma das lições centrais ensinadas por Urano é a fraternidade universal, que combina a amizade por todos os seres e o respeito à independência pessoal. Como parte da transição que vivemos, o casal humano e as nossas famílias têm buscado cada vez mais - não sem sofrimento - combinar amor e liberdade, solidariedade e independência, ética e desapego, respeito pelos outros e por si mesmo. Esta combinação é um aspecto central da energia aquariana, e foi definida em 1875 como a meta número um do movimento filosófico que abriu caminho para a nova era.

Astronomicamente, Netuno, o gigante azulado, foi descoberto em 1846. Dois anos depois, a publicação do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels proclamou o sonho visionário de uma humanidade sem fronteiras econômicas, políticas, sociais ou religiosas. Faltava discernimento. Na literatura, o romantismo chegava ao auge em todo o mundo. Ilusão, sonho e idealismo andavam juntos. 

Nem sempre é fácil a tarefa de compreender o ensinamento de Netuno. Ele nos mostra a unidade de todas as coisas e faz com que a alma humana tenha uma vivência nobre e amorosa de fusão do mundo pessoal com a energia maior do universo. No entanto, esta lição deve ser compensada pela noção de limites, pelo bom senso e pelo discernimento, coisas que a alma humana aprende com outro instrutor, o rigoroso Saturno, o senhor do tempo, dos limites e das estruturas. Ao lado de Urano, Saturno é corregente do signo de Aquário. A era aquariana exige independência, cooperação, compreensão, responsabilidade e discernimento, para que se cumpra com eficiência o ideal da fraternidade, erguido durante a era de Peixes.

Equilibrando espírito e matéria, teremos a cabeça no céu e os pés na terra. À medida que recebemos a influência crescente dos planetas impessoais, o grande planeta da lei do carma, Saturno, nos ensina um novo sentido de ética superior. O ensinamento se dá através dos próprios desafios que enfrentamos. As crises sociais, econômicas e ecológicas são colheitas do que nós mesmos plantamos. Estamos aprendendo a perceber nossa corresponsabilidade pela vida da humanidade e dos outros seres em nosso planeta.

A descoberta de Plutão, em 1930, anunciou outra série de transformações. A psicanálise de Sigmund Freud, que ganhou dimensão mundial nos anos 30, trouxe a percepção consciente dos instintos do subconsciente humano e a possibilidade de transmutá-los para o bem, tarefa que, astrologicamente, corresponde ao inquieto Plutão, eternamente abraçado em luta com sua lua Caronte. Na mesma época, 1930, o movimento teosófico vivia uma verdadeira implosão; a economia mundial mergulhava na crise causada pela queda das bolsas de valores de 1929; e poderosas forças destrutivas do subconsciente humano eram trazidas à tona por líderes políticos criminosos e assassinos,  como Adolf Hitler e Benito Mussolini.  

O século 20 não passou em vão. Setenta anos depois da criação do movimento teosófico, a fundação da ONU em l945 estabeleceu pela primeira vez na história humana uma estrutura institucional capaz de reunir todas as nações e culturas, e voltada expressamente para a fraternidade universal.

Os cidadãos que criticam a ONU porque hoje ela é ainda um esboço precário de uma democracia mundial terão que descobrir, no futuro, que a história humana não é um esforço repentino. Cada nova era requer vários séculos para completar seu estabelecimento. Mesmo incompleta, a ONU já conta hoje com a ação consciente de numerosos movimentos espiritualistas e associações religiosas, comunitárias e ecológicas. Ela faz um trabalho cada vez mais importante promovendo a paz entre os povos, a justiça social, a defesa dos grandes ecossistemas do planeta, a discussão dos novos rumos econômicos e ma definição adequada do futuro do processo civilizatório.

Apesar do tumulto aparente, estamos vivendo um despertar espiritual. Quem não sabe o que está acontecendo fica assustado pelo aspecto frequentemente caótico dos acontecimentos externos. Apesar das suas incertezas, o atual processo de globalização econômica e cultural abre caminho para um despertar espiritual único na história da humanidade. Na primeira metade do século 21, acabamos de cruzar o portal de ingresso em um novo período de cerca de dois mil anos cuja característica será o sentimento fraterno cada vez mais consciente dos seres humanos pelas inúmeras formas de vida.  

Se não for necessária uma catástrofe geológica tão grande que force um recomeço radical da experiência humana, haverá, então, um desenvolvimento não só mental mas também tecnológico incalculável, que nos fará adotar uma atitude inteiramente nova diante do mundo físico. Este grau de esplendor da sabedoria humana será apenas o começo da verdadeira “volta para casa” da nossa alma. Cada cidadão planetário poderá viver uma certa transfiguração, redescobrindo, dentro de si mesmo, a presença divina e a energia cósmica que antes considerava externas, ou que pensava haver perdido de vista. Mesmo no caso de uma mudança geológica radical, o despertar da visão fraterna da vida - livre de manipulações clericais ou autoritárias - é algo certo, seguro e inevitável. Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, e se recicla. “O que foi, será, o que se fez, se tornará a fazer”, ensina o Eclesiastes na Bíblia cristã (1: 9). A era de Urano e Aquário é um “novo aparecimento” da sabedoria eterna. Saindo gradualmente das águas do esquecimento, o conhecimento divino ressurge em meio às crises necessárias à transição, e assim traz paz e alívio aos cidadãos de boa vontade.

NOTAS:

[1] Veja o livro “A Astrologia do Karma”, de Pauline Stone, Ed. Pensamento, 262 pp.

[2] Veja “The Secret Doctrine”, H. P. B., Theosophy Company, Los Angeles, volume I, p. 102, nota ao pé da página. Sobre Netuno, examine também “Collected Writings”, H. P. Blavatsky, TPH, volume XIV, pp. 227-228.

[3] Dane Rudyar desenvolve esta análise em seu livro “A Dimensão Galáctica da Astrologia”, Ed. Pensamento, SP, 200 pp.

[4] Ver “Collected Writings”, H. P. Blavatsky, TPH, volume VIII, p. 174, nota de pé de página.

[5] Geoffrey Barborka, “Secret Doctrine Questions & Answers”, Wizards Bookshelf, San Diego, EUA, 2003, 197 pp., ver p. 100.

[6] Na sua obra monumental “A Doutrina Secreta”, Helena Blavatsky afirma que a transição entre dois ciclos ou eras é de dez por cento da duração do ciclo. (“The Secret Doctrine”, HPB, Theosophy Co., volume II, p. 308, nota ao pé da página.) As eras astrológicas que estamos examinando duram cerca de 2.150 anos. Dez por cento disso são 215 anos. Para encontrar o início e o término deste período de “anoitecer e alvorecer”, devemos tomar como ponto central o ano de 1900, indicado por HPB como o ano da transição, e recuar a metade de 215 anos para encontrar o início do alvorecer, e avançar desde 1900 a metade de 215 anos para encontrar o final do alvorecer.  Recuando 107 anos e meio, encontramos 1.793, um ano de auge da Revolução Francesa, cujos ideais de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” são tipicamente aquarianos. Avançando 107 anos e meio a contar de 1.900, encontramos o ano de 2007. Este ano marca, pois, o término numerológico e matemático do alvorecer de Aquário. 

[7] Sobre o ano de 1793, veja a nota número 6, acima.

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O texto acima foi publicado inicialmente na edição de maio de 2011 de “O Teosofista”.

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Em setembro de 2016, depois de cuidadosa análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas, que tem como uma das suas prioridades a construção de um futuro melhor nas diversas dimensões da vida.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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