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18 de julho de 2023

O Progresso na Arte de Destruir

 O Notável Avanço da Ciência Permite Matar
Milhões de Seres Humanos em Pouco Tempo

Visconde de Figanière


Profeticamente, Figanière usa a imagem de uma briga de gatos de Kilkenny
para resumir a atual situação humana: a imagem é perfeita para o século 21.



Creio que foi Paul Émile quem certa vez disse que o talento é tão necessário para servir um banquete, quanto para formar um exército. Se ele falou a verdade, a ideia ainda deve ser válida hoje; a questão precisa ser resolvida entre os generais e os mordomos.

Sem dúvida, concordaremos em reconhecer que o talento não depende do progresso; e que se todas as cozinhas da cristandade se transformassem em escolas, a proporção entre o talento e o nível comum permaneceria igual, ou seja, o talento ainda seria a exceção. O progresso ocorre em ideias e processos materiais.

A tese de que a gastronomia e a arte do banquete progrediram, desde a época de Luculle, é algo que não se pode admitir de modo algum. Mas ninguém ousaria negar o progresso na guerra.

É apropriado registrar aqui, entre parênteses, que há menos de um quarto de século [1] os cristãos, ou pelo menos a grande maioria deles, tinham plena convicção de que o uso da guerra estava chegando ao fim. Uma longa paz de quarenta anos os fez sonhar com a esperança de que a doutrina de Cristo, o bem-estar, o progresso e a força moral das ideias modernas tornassem a guerra cada vez mais difícil, cada vez menos provável, ao ponto de que um partido da paz foi fundado com o objetivo de estabelecer a harmonia e a amizade entre todas as potências, e promover o desarmamento geral. Mas a ilusão não durou muito; no espaço dos últimos vinte anos, vimos cinco grandes guerras na Europa, sem falar na América do Norte e na América do Sul, na Índia, na China, na Abissínia e em outras partes do mundo a que os cristãos tiveram acesso. As pessoas estão lutando pelas armas neste momento na Espanha e todas as nações estão se armando até os dentes!

Como o homem não pode, portanto, ser curado de sua inclinação para a guerra, a ciência se comprometeu a fornecer-lhe meios “aperfeiçoados”, permitindo-lhe satisfazer essa paixão inata. Essa melhoria está avançando aos trancos e barrancos, e seria difícil prever até que ponto de excelência a arte de matar uns aos outros ainda avançará. Já no século 18 o historiador Gibbon dizia a respeito da pólvora:

“Se compararmos o rápido progresso desta perniciosa descoberta com a lenta e laboriosa marcha da razão, da ciência e das artes da paz, o filósofo, conforme seu estado de espírito, irá rir ou chorar sobre a loucura da raça humana.”

- O que ele diria hoje ao ver os fuzis automáticos, as metralhadoras, e os canhões Krupp? Graças à rapidez dos meios de transporte e comunicação, a estratégia militar vem fazendo progressos que têm o seu lado útil mesmo para mais além dos interesses puramente bélicos. O moderno sistema de ambulâncias e a instituição desta associação verdadeiramente cristã que é a Cruz Vermelha constitui, como todos reconhecem, um motivo de legítimo orgulho para os europeus, e eles dirão talvez que as suas invenções para organizar e acelerar massacres apresentam, ao mesmo tempo, um lado humanitário e civilizador.

Civilizador, uma vez que a propriedade é poupada, o tempo e as despesas são economizados. Esses objetivos são civilizadores. Para conseguir isso, a campanha militar deve ser curta. Portanto, o objetivo em vista deve ser o extermínio do inimigo o mais rápido possível. A conclusão é inquestionavelmente muito lógica, e a ciência profunda dos cristãos mostrou-se à altura do problema. Enquanto antigamente uma guerra exigia várias campanhas, hoje ela é decidida por algumas batalhas, graças aos meios de massacrar homens à razão de 50.000 por hora. Viva o progresso!

Quanto ao seu lado humanitário, pergunto-lhe se não é melhor derrubar cem mil homens de uma só vez, com doze disparos por minuto, dos quais pelo menos seis tiros acertam, e depois ir para casa para limpar a sua arma, ao invés de estar em marchas e contramarchas por um ano inteiro, observando um ao outro, evitando um ao outro, depois entrando em confronto e recarregando, disparando tiros um no outro, 80% dos quais erram o alvo, tudo com uma dor infinita e resultados relativamente mínimos, conforme aconteceu no tempo de nossos pais? E não é mais caridoso - com um único tiro certeiro de canhão - lançar um navio encouraçado ao abismo sem muito barulho e levando junto com ele toda a sua carga humana, ao invés de usar as velhas técnicas de abordagem de navios inimigos, para depois ter de lutar corpo a corpo? Ou usar a técnica de tomar a proa do navio inimigo usando ganchos, içá-lo para fora da água para fazê-lo cair de volta ao mar, como o tolo sonhador Arquimedes fez em Siracusa, dando assim aos nadadores uma chance de escapar?

Quando se trata de concluir uma tarefa penosa, certamente é melhor terminá-la o antes possível. Além disso, a era da ciência já deixou para trás a era da cavalaria.

Grandes rendimentos com menos problemas e a um custo menor, essa é uma regra canônica do progresso moderno. Economia de tempo e dinheiro é uma exigência da civilização. A indústria também precisa viver; e, para citar apenas um dos belos resultados da guerra, grandes batalhas adubam o seu território a ponto de, muitas vezes, durante séculos, não ser preciso jogar mais estrume nela!

As nações renovam seus armamentos uma vez a cada dez anos; vamos reduzir este intervalo sem dúvida pelo menos para cinco anos, pois as invenções se sucedem com perfeição progressiva e rápida, em benefício dos exércitos em geral, e dos inventores e dos fabricantes em particular. O processo só terminará quando a perfeição chegar ao ponto de garantir a aniquilação mútua, conforme o destino dos dois gatos de Kilkenny [2], que terminaram sua batalha engolindo um ao outro.[3] De qualquer forma, viva o progresso.

NOTAS:

[1] Este texto do Visconde de Figanière foi publicado em 1875, o mesmo ano em que o movimento teosófico foi fundado. Um quarto de século antes seria 1850. (CCA)

[2] Gatos de Kilkenny. Referência a um conto que narra uma briga de gatos durante a qual os dois gatos desapareceram, deixando no local apenas as suas caudas. A expressão indica um conflito em que há destruição mútua total. Kilkenny é uma cidade na Irlanda. (CCA)

[3] Escrita na década de 1870, a frase irônica do Visconde antecipa o conceito de “Mútua Destruição Assegurada”, no caso de uma guerra nuclear. Cabe registrar que o dilema da Mútua Destruição Assegurada surgiu depois que os Estados Unidos destruíram em 1945 as cidades inteiras de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, como meio de defender a democracia e os direitos humanos contra a violência de um regime político considerado autoritário, quando o Japão já estava militarmente derrotado. As guerras do Vietnam, do Iraque e do Afeganistão foram outros exemplos notáveis de defesa da democracia e da liberdade por parte dos Estados Unidos, país profundamente cristão. (CCA)

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O texto acima foi publicado neste website teosófico dia 18 de julho de 2023. Trata-se de uma tradução do francês. Consiste do capítulo X do livro do Visconde de Figanière intitulado “Lettres Japonaises”, subtítulo “Sur la Civilisation en Europe Comme un Produit du Christianisme et la Voie Qu’elle Suit Actuellement”; ou “Cartas Japonesas”, subtítulo “Sobre a Civilização na Europa como Produto do Cristianismo e o Rumo que Ela Segue Atualmente”, páginas 83 a 90. A obra “Lettres Japonaises” está disponível nos websites da Loja Independente de Teosofistas: clique aqui para vê-la

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Clique para ler outros textos do Visconde de Figanière (1827-1908), em vários idiomas. Amigo e discípulo pessoal de Helena Blavatsky, Figanière é o grande pioneiro do movimento teosófico em língua portuguesa. Constitui uma referência para o trabalho da Loja Independente de Teosofistas.

Você está convidado a imprimir os textos que estuda dos websites associados: com frequência a leitura em papel permite uma compreensão mais profunda. Ao estudar um texto impresso, o leitor pode sublinhar e fazer comentários manuscritos nas margens, ligando o texto à sua realidade concreta. 

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Leia mais:





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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”. 

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27 de agosto de 2020

Guesto Ansures

Quadros da Vida Neo-Gótica: Um
Romance Histórico Ambientado no Século Oito

Visconde de Figanière

O Visconde de Figanière e a capa da edição original de “Guesto Ansures”



Nota Editorial de 2020:

Publicado pela primeira vez em Lisboa em 1883, o romance histórico “Guesto Ansures” retrata a vida em determinado momento da Idade Média na Península Ibérica.  

De sabor clássico, a obra tem algo essencial em comum com os dramas da Grécia e de Roma antigas, assim como com William Shakespeare.

A vantagem relativa de Guesto Ansures - obra de um teosofista espiritualmente experiente - é que nele a integridade de caráter e a luz espiritual têm mais poder do que em outros dramas clássicos. Compare-se por exemplo com “Romeu e Julieta”.

“Guesto Ansures” é um estudo notável, realista, sobre a força e a fragilidade da alma honesta nas condições probatórias do cristianismo medieval. A eventual dificuldade do vocabulário clássico do livro é um fator desprezível se comparado com o valor real da obra, e serve apenas para testar e fortalecer a  vontade do leitor atento.

“Guesto Ansures” transmite mais de uma lição estoica e ensina pelo exemplo uma ética teosófica impecável. Também mostra quais são a atitude e o método de ação de um verdadeiro chefe de estado.

O Visconde de Figanière (1827-1908) foi um discípulo direto de Helena Blavatsky e constitui uma referência para a Loja Independente de Teosofistas.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Guesto Ansures

Visconde de Figanière


ADVERTENCIA

N’este livro apresentam-se ao leitor typos das diversas classes da sociedade neo-gothica com referencia aos fins do periodo de transição em que predominou no governo a influencia mosarabica, fundado n’um estudo dos documentos coevos.

A descripção dos sitios em que se desenvolve a acção, que ocupa o espaço de quatro dias e meio, é conforme aos apontamentos do author, tomados por ensejo de uma viagem às provincias de Orense e Lugo, e especialmente ao districto montanhoso entre os rios Sil e Sárria.



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O romance histórico “Guesto Ansures” foi publicado nos websites associados dia 27 de agosto de 2020, com o Sol em Virgo e a Lua em Sagitário. Sua publicação em papel ocorreu em primeiro lugar em Lisboa em 1883.

A tradução de “Guesto Ansures” ao espanhol foi inicialmente publicada como um seriado, ou folhetim, no jornal “El Correo de Galicia” a partir de 6 de maio de 1911. A segunda edição em espanhol ocorreu também em forma de folhetim seriado na Espanha, em 1915, sendo publicada pela revista “La Integridad”.  

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Clique para ler outros escritos do Visconde de Figanière.

Veja a biografia do Visconde escrita por Pinharanda Gomes: “Gnose e Liberdade”.

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18 de agosto de 2020

A Justiça e a Equidade

As Leis Podem Caducar, Mas o
Princípio da Equidade Permanece

Visconde de Figanière




Nota Editorial de 2020:

Um Mestre de Sabedoria escreveu em 1884:

“Todo teosofista ocidental deveria saber e lembrar - especialmente aqueles que quiserem ser nossos seguidores - que em nossa Fraternidade todas as personalidades submergem em uma ideia - o direito abstrato e a justiça prática absoluta para todos.” [1]

O notável texto A Justiça e a Equidade, do Visconde de Figanière, é a primeira parte do Memorando ou “Memória” enviado dia 7 de abril de 1881 ao Conselheiro Miguel Martins d’Antas, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa.

A Loja Independente de Teosofistas possui cópia fac-similar do documento manuscrito, assim como do processo administrativo de aposentação do Visconde, do qual o texto faz parte. [2] 

Miguel d’Antas fora nomeado Ministro de Estado em 25 de março daquele ano.

Sendo um experiente diplomata de carreira, como o Visconde, o novo ministro partilhava até certo ponto a mesma visão de mundo de Figanière. É significativo, e pode não ser coincidência, o fato de que o Memorando de Figanière foi submetido ao ministro poucos dias depois de este assumir o cargo. No entanto, a permanência de Miguel d’Antas no ministério foi breve. Em novembro de 1881, o governo foi dissolvido e d’Antas voltou ao posto que ocupara na representação diplomática de Portugal em Londres.

As circunstâncias históricas são sempre mutáveis, mas permanece indelével o valor filosófico do texto do Visconde sobre o princípio universal da equidade. O estudo é agora publicado pela primeira vez desde que foi redigido em 1881.  

(Carlos Cardoso Aveline)


A Justiça e a Equidade

Visconde de Figanière


Imperfeição de toda a lei humana

O bem conhecido princípio dos Legistas “summum jus, summa injuria” (“muita lei, muita injustiça”) [3], ou, segundo a variante de um poeta, “jus summum saepe summa est malitia” (“a suprema justiça é com frequência a suprema maldade”) [4], enuncia uma verdade confessada por todos; se não expressamente desde a remota antiguidade, ao menos implicitamente, visto que, resolvendo-se no conceito da injustiça, é esta intuitiva no homem, despertando-se espontaneamente até nos indivíduos de menor idade, como bem observa um dos mais estimados publicistas [5] contemporâneos. (Bluntschli, Das Moderne Volkerrecht, Einleit., p. 1)

É uma consequência da imperfeição a que se acham sujeitas as leis humanas, a qualquer ramo que pertençam, internacional, político, civil ou criminal; que, tendo por objetivo a generalidade, não podem prever todos os casos particulares que estão na esfera da sua ação, o que é uma prerrogativa, um condão, uma excelência exclusiva da Lei Natural, da Lei Divina.

Recurso à Equidade como princípio corretivo

O princípio corretivo chamado de epikeia pelos teólogos, que conservaram o termo grego, é chamado pelos juristas de equidade. Sua virtude é mitigar o rigor da lei quando, pela sua universalidade, ela se torna, por circunstâncias imprevistas, defeituosa ou deficiente na sua aplicação a casos particulares. O princípio é reconhecido tanto pelos publicistas - que, desde Grócio, têm escrito sobre o direito convencional das nações e concretamente quanto à interpretação dos Tratados - como pelos legisladores, teólogos e jurisconsultos desde tempos antigos.

Princípio reconhecido na prática, desde a remota antiguidade

A ideia da equidade é tão ingênita no homem que, como sempre sucede em tais casos, os seus efeitos apareceram muito antes de se lhe ter achado a fórmula. Se Aristóteles a definiu, a ideia contudo tinha já, havia tempo, de certo modo uma manifestação positiva nas leis civis dos atenienses, pois que estas reconheciam a arbitragem como meio extrajudicial de resolver pleitos, ou, pode mesmo dizer-se, quase judicial, porque os árbitros estavam sujeitos a determinadas regras e condições.

O fato deu-se de um modo mais completo em Roma. Muito antes da criação do cargo de Pretor, cujos decretos tinham ou deviam ter por base a equidade, esta, já nos começos da República, adquirira certa força pela confirmação que obtinham, em casos de unanimidade, os responsa prudentium [6]; e uma vez que estes sábios ou peritos interpretavam o direito, o ofício fundava-se forçosamente na ideia da equidade; embora em sentido menos amplo [7] do que subsequentemente, quando o Pretor veio suavizar o rigor da própria lei por virtude de “ficções legais”, antecipando assim a máxima dos juristas ingleses: Lex fingit ubi subsistit aequitas (“A lei finge, onde a equidade subsiste”).

Particularidade significativa

Uma circunstância que dá certo relevo a essas primitivas manifestações da equidade na legislação romana é que, naqueles primeiros tempos, a interpretação das leis cabia ao Colégio dos Pontífices (Just. Digest., L.1,T.2, C.6) [8], sendo digno de reparo que, em Inglaterra, única nação, exceto a romana, na qual a equidade mereceu a importância de uma prática forense independente (porque sem dúvida o direito individual e as suas consequências lógicas na ação das leis tomaram no povo romano e no inglês um desenvolvimento e um rigor de princípios muito além de quanto se tenha visto em outros povos); em Inglaterra, dizíamos, o cargo de Chanceler-mor do Reino, de cuja alçada, abaixo do poder régio, se originaram mais tarde os diversos recursos em equidade, foi igualmente sempre desempenhado por um eclesiástico, até o século XVI. Se tal circunstância se pode atribuir à necessidade que havia de habilitações literárias para o exercício de tão alto cargo (as quais, nos primeiros séculos, eram raras fora do sacerdócio), nem por isso se destrói a importância do fato devido ao maior respeito que aquela ordem de pessoas merecia em matéria de equidade, que em última análise é filha da consciência.

Subsiste a equidade, apesar da lei

Há casos em que o permitido pela letra da lei deve todavia ser reprovado em vista do seu verdadeiro intento e da sua legítima significação; há casos também em que o determinado por ela seria uma verdadeira injustiça em presença de circunstâncias imprevistas. Não porque a lei seja injusta, mas somente imperfeita. Não porque a equidade seja contrária à lei, mas apenas porque lhe é superior. A lei pode caducar; mas a equidade subsiste eternamente, dominando a consciência do homem naquilo que a lei não pode atingir ou afetar.

Assim como a equidade privada, servindo de regra nas relações íntimas em que a lei guarda silêncio, não contraria nem pode contrariar a lei - que se cala -, assim também não se pode dizer que a equidade pública seja oposta à lei que rege os negócios em que todos têm interesse; embora a equidade conceda a algumas pessoas em condições especiais aquilo que a lei, conforme as regras gerais da Justiça, proíbe na generalidade.

Os princípios e as regras da Justiça, por mais amplamente que sejam formulados, sempre envolvem, tanto como se assim expressamente o declarassem, uma exceção nos casos particulares em que a sua aplicação literal equivalesse a uma quebra da equidade.

Circunstância que justifica a aplicação da Equidade

Sem entrar num estudo mais profundo do assunto, nem considerar as diversas circunstâncias que podem ser causa justificada da interpretação de qualquer cláusula de uma lei, basta, para o objeto deste Memorando, estabelecer em tese, ainda que como um postulado, que uma das supostas circunstâncias se verifica quando a aplicação da lei, num caso especial, se mostra demasiado dura e onerosa, dando lugar a dizer-se: “Hoc quidem perquam durum est: sed ita Lex scripta est” (“Isto é de fato excessivamente duro, mas é assim que a lei está escrita e esta é a lei”). (Just. Digest. L.40, T.9, C.12) E isto embora a respectiva cláusula pareça muito clara, o que não obsta a que seja omissa.

Como deve ser aplicada

Então cabe ao Juiz procurar quais sejam o pensamento e a vontade do legislador, ou, por outra, o espírito e a alma da lei, que, até certo ponto, se deve preferir à sua simples letra (P. Dens, Theol. Ad us. Sem. tom. 2, Tract. de Leg. nº 56; Ligor. Theol. Mor., L.1, N.200; et al.); procurar esse pensamento na razão da lei:

A razão de uma lei ou tratado, ou seja, o motivo pelo qual a lei ou o tratado foram feitos, a visão que o texto pretende expressar, é um dos meios mais seguros de estabelecer o seu verdadeiro significado; deve-se ter muita atenção, sempre que se trata de explicar um ponto obscuro, ambíguo, indefinido, seja de uma lei ou de um tratado, ou de fazer a sua aplicação a um caso particular”. [9] (Vattel, Droit des Gens, L. 2, Ch. 17, § 287) Ou, por outra, procurar este pensamento pela interpretação lógica, como a chama o exímio jurisconsulto português Pascoal José de Mello Freire (Hist. Jur. Civ. Lus., § 124); e determinar se, pelo imprevisto do caso, a lei não poderá ser atenuada na sua aplicação a tal caso.

NOTAS:

[1] “Cartas dos Mahatmas”, Editora Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, ver volume II, Carta 120, de 1884, página 260. (CCA)

[2] Na transcrição do texto a seguir, eliminamos algumas abreviaturas e atualizamos a ortografia. Quando necessário para a compreensão do texto por parte dos leitores do século 21, substituímos termos caídos em desuso por sinônimos mais conhecidos. Um exemplo disso é o termo editos (sem acento), que se refere a documentos emitidos pelos pretores. Colocamos seu equivalente “decretos”. (CCA)

[3] Ou seja, leis em excesso não produzem efetiva justiça. Veja-se Cícero, De Officiis, I, 33. (CCA)

[4] Terêncio, Heauton Timorumenos, IV, 5. (Nota do Visconde de Figanière)

[5] Publicistas - autores que escrevem sobre direito público. (CCA)

[6] Respostas e pareceres de advogados ou juristas notáveis sobre questões submetidas a eles. (CCA)

[7] Para facilitar a compreensão, nesta frase substituímos “porquanto” por “uma vez que”; “posto que” por “embora”; e “lato” por “amplo”. (CCA)

[8] O Colégio de Pontífices reunia na Roma antiga os principais sacerdotes. (CCA)

[9] No manuscrito original, a citação está em francês: La raison de la loi ou du traité, c’est-à-dire, le motif qui a porté  à les faire, la vue que l’on s’y est proposée, est un des plus sûrs moyens d’en établir le véritable sens; l’on doit y faire grande attention, toutes les fois qu’il s’agit ou d’expliquer un point obscur, équivoque, indéterminé, soit d’une loi, soit d’un traité, ou d’en faire l’application à un cas particulier.” (CCA)

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O texto acima foi publicado nos websites associados dia 18 de agosto de 2020.

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Veja a biografia do Visconde escrita por Pinharanda Gomes: “Gnose e Liberdade”.

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15 de agosto de 2020

Os Aspectos Superiores do Casamento

Um Sonho e um Ideal que Conduzem à Felicidade

Visconde de Figanière

O Visconde de Figanière (1827-1908) e sua esposa Josephine
Hunt de Figanière: em um casal, cada um é a metade de um todo.



Nota Editorial:

O casal humano é o centro da família e da civilização. Os aspectos filosóficos do amor que gera vida não são ignorados pelos Mestres de Sabedoria, e um deles escreveu:

“…Onde um amor verdadeiramente espiritual busque consolidar-se através de uma união pura e permanente de duas pessoas, no sentido terreno, não há pecado nem crime aos olhos do grande Ain-Soph [1], pois esta é somente a repetição divina dos princípios Masculino e Feminino - o reflexo microcósmico da primeira condição da Criação”. [2]

Reproduzimos a seguir, do romance “Palmitos”, do Visconde de Figanière, um fragmento que aborda o tema.  

(Carlos Cardoso Aveline)

Os Aspectos Superiores do Casamento


O encontro ou comunhão de duas almas feitas uma para a outra (algo difícil de acontecer nesta vida, e que quando acontece é com frequência demasiado tarde para uma comunhão completa porque outros compromissos foram assumidos) constitui, na verdade, o talismã mais poderoso que pode transformar o mundo num paraíso, seja o paraíso pré-concebido ou não; e que pode dar o tom para todo o círculo da nossa existência.

Ele é ainda assim um sonho, uma ilusão do cérebro; alguns dirão que é pura idealidade! Pois que seja assim; e o que é a existência, exceto o ideal? Por que é que o mesmo objeto impressiona diferentes pessoas de maneiras diferentes? Por que motivo alguns veem o mundo como belo e agradável, enquanto outros, colocados em circunstâncias de destino similares, veem o mundo como tedioso e detestável? 

Estas próprias perguntas podem inspirar muitas respostas diferentes; mas as reações a elas irão todas unir-se mais ou menos claramente ao ideal, e confirmar o fato de que sem o ideal a existência humana não é possível. Isso vale tanto para o avaro que abraça o seu ouro, e cuja alma nunca encontrou a comunhão e nunca encontrará, embora case uma e outra vez (porque há muitas almas, e a alma do avaro é uma delas, que são unidades fechadas em si mesmas), quanto para aquele que é capaz de amar verdadeiramente, e que, através do processo de reencarnação, tornou sua alma completa, embora fosse - até isso ocorrer - apenas a metade de um todo, voando para lá e para cá sem rumo certo, como um fantasma solitário que avança pelo vácuo.

Não devemos tratar de compreender ou realizar tudo repentinamente, mas cabe alimentar o sonho, e felizes são aqueles que podem fazer isso.  

NOTAS:

[1] Ain-Soph - na tradição da Cabala, o princípio Absoluto e imanifestado. (Nota de “Cartas dos Mestres de Sabedoria”)

[2] Carta 19, segunda série, no volume “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Editora Teosófica, Brasília. Veja as p. 190. Em inglês, veja “Letters From the Masters of the Wisdom - Second Series”, pp. 41-42.

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O artigo “Os Aspectos Superiores do Casamento” está publicado nos websites associados desde o dia 15 de agosto de 2020. Carlos Cardoso Aveline fez a tradução deste trecho do romance em língua inglesa “Palmitos”, do Visconde de Figanière. A obra tem três volumes. Ambientado no Brasil, o romance foi escrito enquanto o Visconde morava na Rússia e publicado em Londres em 1873 por T. Cautley Newby Publisher. Veja o vol. I, de 396 pp., nas pp. 196-197. O trecho de Palmitos sobre os aspectos superiores do casamento foi publicado pela primeira vez online na edição de agosto de 2020 de “The Aquarian Theosophist”, pp. 17-18.

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12 de agosto de 2020

O Ser Absoluto e o Progresso Infinito

Mudança Não Traz Sempre Progresso, e
Progresso Nem Sempre Provoca Mudança

Visconde de Figanière

O Visconde de Figanière nasceu em 02 de outubro de 1827



O “absoluto” é deveras o silêncio perpétuo da filosofia, ou um mero non liquet [1], situado além da desesperada incapacidade da linguagem de dar plena expressão ao pensamento.

O mundo dos fenômenos é a instabilidade mesma; o que está sempre em vias de ser, sem nunca ser, deixando de ser o que foi e o que será, conforme a expressão de Schopenhauer. Sim, falta aí alguma coisa; coisa essencialíssima, o ser; o que está sempre, o que desconhece a mudança, sem o qual a matéria não seria realizável no espaço e no tempo; o que tem cem nomes, sem que nenhum lhe seja próprio e exclusivo, a não ser a PALAVRA PERDIDA. Entre aquilo e a eternidade há equipolência. (Vide Apêndice, Nota C, I)

A Filosofia Esotérica traz a ordem das coisas mais ao alcance das nossas luzes, enunciando que os fenômenos são sujeitos a alternações, sendo resultados do envolvimento e da evolução, e acabando pela dissolução; e que a curva dos ciclos, sob todos os seus aspectos, tem a essência não do círculo, mas da espiral (Vide parágrafo 30, g., onde se diz o porquê). Segue-se do primeiro postulado que a vida cósmica é finita; e do segundo, que há progresso, sendo este infinito.

A mudança não envolve necessariamente o progresso; e embora o progresso pressuponha mudança de alguma ordem, progresso não é mudança. Se a eternidade é independente do repouso e da atividade, a mudança está no tempo (fenômeno); mas se o progresso é infinito, a realidade do progresso está fora do tempo (númeno). Embora esteja sujeito à relação, o verdadeiro progresso (que todavia não é progresso real) difere do progresso relativo. O último é mudança progressiva; pertence-lhe ser atual. O primeiro nunca deixa de ser potencial, porque a sua realidade é o plano ou estado eterno. O verdadeiro progresso realiza-se no meio, ou na potência, de futuras manifestações; nenhuma outra mudança conhece senão o grau.

Quando a potência chega a enteléquia [2] - a posse ad actum - a mudança nos fenômenos é progressiva. O poder é indestrutível, mas nada vale fora da relação; ao passo que o resultado da mudança progressiva é uma causa final. O círculo, com que se costuma figurar o infinito, é também apto a simbolizar o verdadeiro progresso; conserva a propriedade do círculo, fosse qual fosse a circunferência, representando esta o grau de progresso atingido. A espiral, dentro do círculo, seria emblema da mudança progressiva; o contido mede-se, limita-se pelo fator que o abrange, sendo todavia tão infinito quanto é infinita a potência do círculo em ampliar a circunferência.

Desejo não ser mal compreendido: o círculo não representaria a eternidade, mas a realidade condicionada (estado manifesto) que, tendo ação no tempo, não tem poder no eterno; pois que a realidade incondicionada desconhece o potencial. Oportunamente ficará mais claro o meu propósito. Dizem os Ocultistas que o progresso no indivíduo - isto é, no ego individualizado - consiste no melhoramento do upadhi - ou seja, do veículo - de maneira que o Logos ou Atma - o ego cósmico - possa usar o dito upadhi com crescente eficácia até que o indivíduo “morra no logos”, extinguindo-se o upadhi.

NOTAS:

[1] Non liquet - expressão do antigo direito romano. Aplica-se aos casos em que o juiz deixa de julgar porque a lei não oferece meios de avaliar ou enquadrar os fatos em questão. (CCA)

[2] Enteléquia: o estado de perfeição máxima de um processo criativo ou de um processo de evolução. Termo de Aristóteles. (CCA)

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O pensador português Visconde de Figanière (1827-1908) foi discípulo direto de Helena Blavatsky e é o maior pioneiro da teosofia moderna em língua portuguesa. Sua obra merece especial atenção por parte da Loja Independente de Teosofistas.

O fragmento acima - cujo parágrafo final contém uma alusão à conquista do adeptado - foi reproduzido das páginas 50 e 51 da obra “Submundo, Mundo, Supramundo”. Sua publicação como item independente nos websites associados ocorreu no aniversário de Helena Blavatsky dia 12 de agosto de 2020. Na transcrição, a ortografia foi atualizada. Algumas palavras caídas em desuso foram substituídas por sinônimos usados no século 21.

O retrato de Figanière é uma cortesia de www.EliotsofPortEliot.com para “The Aquarian Theosophist” e seus websites associados. A autorização para publicar a foto original foi concedida ao Aquarian dia 10 de agosto de 2020.

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Em 14 de setembro de 2016, depois de uma análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável.

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11 de agosto de 2020

O Restabelecimento do Reino de Israel

A Identidade das Populações
Britânicas com a Casa de Israel

Visconde de Figanière

Atrás da Esfinge vemos a pirâmide de Quéops,
a Grande Pirâmide do Egito, no planalto de Gizé




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Nota Editorial de 2020

O autor do texto a seguir é o principal pioneiro
da teosofia moderna em língua portuguesa, e
também um de seus pioneiros no idioma inglês.

De família judaica, o Visconde de Figanière
(1827-1908) foi amigo pessoal  e aluno de Helena
Blavatsky. Diplomata português, nasceu nos Estados
Unidos. Morou no Brasil, na Rússia, na Inglaterra, na
Espanha e na França. Escreveu entre outros livros a
obra “Submundo, Mundo, Supramundo”, de 1889.

Reproduzimos “O Restabelecimento do Reino
de Israel” do diário “Jornal do Commercio”,
de Lisboa, edição da quarta-feira, dia 16 de junho
de 1880, página 01. A ortografia foi atualizada.

Quando necessário para a compreensão do texto,
substituímos algumas palavras hoje em desuso por
seu equivalente no vocabulário empregado atualmente.
Alguns dos parágrafos mais longos foram divididos
em parágrafos menores. Acrescentamos notas numeradas.

O leitor constata facilmente que caso este artigo
seja somado às obras referidas pelo Visconde,
pode funcionar como um curso sobre aspectos
importantes da história da humanidade, e um curso,
aliás,  que não é dos menores. Apesar disso, o artigo
 foi apresentado com toda humildade pelo seu autor.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Sr. Redator.

Com referência a um dos negócios de que se diz ser incumbido Mr. Goschen [1], novo embaixador inglês em Constantinopla - o restabelecimento do reino de Israel nos territórios a leste do rio Jordão - não é geralmente sabido entre nós (ao menos não tenho visto alusão ao fato na imprensa portuguesa) que existe em Inglaterra, há bastantes anos, uma associação ou seita, hoje numerosa, com ramificações nos Estados Unidos e no Canadá, a qual é diversamente conhecida pelos nomes de “The Identity”, “Modern Israel” ou “Identity of Israel”, cuja doutrina, fundada em profecias bíblicas, se pode sumariar assim:

Identidade das raças britânicas e da casa de Israel, ou das “dez tribos perdidas” isto é, do que ficou das onze tribos depois da passagem da tribo de Benjamin para a de Judá. Os judeus de hoje são a descendência da casa de Judá e dos Levitas. No seu regresso definitivo para a Palestina, os judeus serão não somente acompanhados da casa de Israel, senão que esta (ou por outra, a nação britânica) é destinada a ser o meio da recondução daqueles, e do restabelecimento do reino.

O fim da era atual, o começo do intervalo de grandes sofrimentos universais que irá preceder o completo restabelecimento do “reino de Israel”, deve verificar-se em tempo muito próximo a nós; a data não é precisamente determinada, mas a de 1881 ou 1882 é a mais aceita. [2]

É tendência já muito antiga entre as nações aplicar cada qual a si os textos bíblicos, e aos acontecimentos contemporâneos dos intérpretes, e não valeria talvez a pena demorar-se muito tempo em considerar a doutrina dos “Identificados” (que julgam acomodado à Grã Bretanha o célebre texto do capítulo 18 de Isaías, que o nosso padre António Vieira, na História do Futuro, aplicou à colônia portuguesa do Brasil, onde julgava achar o povo terrível, a gente pisada, e, au besoin, a gente sem pelo, mais particularmente no Maranhão), se não fosse o fato de que a seita propagandista de que se trata parece ter feito bastante progresso, formando uma associação muito numerosa, com uma literatura sua especial assaz desenvolvida e avolumada.

Não me proponho entrar no âmago da questão, para o que aliás não sou competente; nem sequer apontar em resumo os argumentos arqueológicos, históricos, e científicos com que os “Identificados” se esforçam em mostrar que as raças britânicas são os verdadeiros representantes das tribos compondo o reino de Israel, as quais foram deportadas por Salmanasar [3] para o sertão da Ásia (A.C. 718), e se conservaram sempre distintos do outro ramo dos hebreus formando o reino de Judá, cujo cativeiro se realizou em 587 antes da era de Cristo, sendo este, o ramo de Judá, o único representado no regresso a Jerusalém setenta anos depois.

Sem me ocupar pois desta parte do assunto, apontarei apenas algumas, entre muitas, condições da Grã-Bretanha a que eles aplicam os textos, os quais, a seu modo de ver, corroboram aqueles argumentos. Ver-se-á também que não poucos destes textos são os mesmos que o padre Vieira empregou ao seu propósito; limitar-me-ei a citá-los, porque reproduzi-los na íntegra seria dar a esta comunicação proporções indevidas.

Eis pois aqui algumas das condições que, conforme os textos, devem acompanhar os “representantes modernos de Israel” às quais se aplicam à Grã-Bretanha, a saber: existirem como nação (Jer. XXXI 36); como nação insular (Ibid. 10); acharem-se a N.O. da Palestina (Ibid. III, 12, XXII 8; Isa. XXIV 15, LIX 19); apertados nas suas ilhas (Isa. XLIX 19); terem experimentado este inconveniente mais do que uma vez (Ibid. 20); serem governados por monarca (Ibid. 23); sair deles outra nação independente (Ibid. 20; Gen. XLVIII 19); possuírem inúmeras colônias (Isa. XLIX 8, LIV 3); terem a supremacia no mar (Gen. XXII 17, XXXV 11); triunfarem com pequenos exércitos (Lev. XXVI 8); serem poderosos por toda a terra (Isa. XLI 8-12; Mich., V 8); cingirem a terra por suas possessões (Deut. XXXII 8, 9; Jer. XXXI 7); serem a nação mais opulenta (Deut. VIII 18); emprestarem a outras nações, sem nunca tomar-lhes emprestado (Deut. XV 6); serem como Hebreu nisto, que (todo o inglês) possa viver seguro “debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira” (Reis IV 25, Zach. III 10) - e assim por diante. E quanto a questões do dia temos: abolirem o tráfico de escravos (Isa. LVIII 6); serem potência do Oriente, assim como do Ocidente (Ibid. XLI 2-25, XLV 6, LIX 19; Hos. XI 10); ser ouvida a sua voz na questão do Oriente (Sl. LX 9-12, LXVIII 35; Isa. XLIX 9, 23-26) - e assim outros exemplos do mesmo gênero. Cumpre notar, quanto ao último, que em linguagem dos Identificados, o Edom do salmo LX significa a Rússia.

Pretendem também provar que por Inglaterra está cumprido, ou quase cumprido, aquele texto do Gênesis, cap. XXII ver. 17: “… e tua semente possuirá em herança as portas de seus inimigos”. As portas, já adquiridas, são: Perim, Gibraltar, Malta, Canal de Suez, Aden, Socotorá, Bombaim, Madras, Calcutá, Peshawar, Rangun, Singapura, Hong-Kong, Cabo da Boa Esperança, Natal, Castelo da Costa, Serra Leoa, Mombaça - ao que sem dúvida terão acrescentado Chipre; pois que, tendo, nestes dois últimos anos, perdido o assunto de vista, ignoro em que altura estará hoje a exegese dos “Identificados”.

Quanto à data em que se irá consumar a grande obra, além de outros subsídios, socorrem-se também, e principalmente, das revelações da grande Pirâmide do Egito, cuja construção é, quanto a eles, simbólica. O padrão do sistema métrico piramidal é, no interior, a polegada; padrão que também se manifesta exteriormente no cubito sagrado de 25 polegadas. A polegada piramidal foi deduzida das medidas determinadas na Câmara Real, contendo unicamente um cofre em granito sem tampa, entre cujas dimensões e as da própria câmara, existem relações científicas muito notáveis, e de alta significação.

Adotando aquele padrão como base, estabeleceram, por diversos cálculos, a simbologia de diferentes partes do monumento. Assim, por exemplo, a muralha do norte da grande galeria simboliza a data do nascimento do nosso senhor; e a dita galeria, que dali vai subindo, para o lado do meio-dia, simboliza a era atual, até à muralha do sul. O plano inclinado da galeria acaba na 1:813ᵃ polegada piramidal, sendo horizontal no resto da distância, até à muralha “iminente” (impending), ou do “extremo”; e o comprimento total é de 1:881, polegadas, segundo uns, ou de 1:881 4/10, segundo outros. Produzem outros cálculos que se ligam ao assunto, assim como a medição do ponto que simboliza o êxodo, os quais tendem a confirmar-se mutuamente num todo harmônico.

Um dos problemas a cujas soluções aplicam o padrão de medida da câmara real, ou a polegada piramidal, é determinar o número de dias do ano solar, obtendo-se por solução 365 242/1000 dias; e a distância do Sol da Terra, que segundo o mesmo sistema métrico seria de 91.810.000 milhas inglesas. [4]

Não será fora de propósito dizer, em conclusão, que cientistas da seita dos Identificados têm achado uma relação íntima entre o sistema inglês de medidas, tanto de sólidos como de líquidos, e o sistema métrico piramidal. Eis aqui um dos resultados do estudo que tenho encontrado; é de um americano.

Constou-lhe, por indagações na casa da moeda, que o peso do dólar de prata americano tinha por razão a sua correspondência exata com o de uma moeda corrente no comércio da Ásia Oriental; e que portanto deve ser um peso tradicional conhecido há milhar de anos. O dólar de prata americano pesa 412 5/10 grãos ingleses [5]; o meio dólar 206 2/10 grãos, e o quarto de dólar, 103 1/10 grãos. A sua atenção fora pois atraída a estas particularidades pelo fato de coincidirem os três grupos de algarismos com os das medições piramidais, sendo que a câmara real mede 412 5/10 polegadas inglesas, e a sua largura 206 2/10 polegadas; ao passo que o número 103 1/10, ou melhor, 103 09/1000, entra em outras computações importantíssimas relativas à pirâmide.

Isto posto, prossegue: a área de um quadrado, cujo lado mede 103 3/1000, iguala a área de um círculo, tendo de diâmetro 116 26/100. Ora, havendo 360 graus na circunferência de um círculo, o diâmetro em termos de segundos é 412: 529, e a sua circunferência é 1290:000. O número 412 5/10 é pois a milésima parte do diâmetro de um círculo em termos de segundos, e 1: 296, precisamente o número de polegadas numa jarda quadrada inglesa, e a milésima parte da circunferência de um círculo em termos de segundos. Continua mostrando que da jarda [6] se deduzem todas as outras medidas inglesas.

É desnecessário acrescentar que os “Identificados” condenam in limine o sistema métrico francês, como falso e indigno de aceitação, forcejando para que os ingleses e os americanos conservem o seu padrão atual por corresponder com o padrão piramidal.

Pondo remate a esta comunicação, que já vai longa, direi que a doutrina da “Identidade”, que, fato curioso, parece não ter-se originado num cérebro britânico, mas no de um estrangeiro, o dr. Abbadie, cuja obra em quatro tomos Le Triomphe de la Providence et de la religion [7] foi publicada em Amsterdam há mais de um século e meio, em 1723. A doutrina, pois, da Identidade tem tido nestes últimos tempos como apóstolos mais constantes Mr. John Wilson, Mr. Edward Hine, e Philo-Israel, cujo verdadeiro nome ignoro; destes há muitos escritos. Entre outras muitas obras, podem citar-se as seguintes:

Our Inheritance in the Great Pyramid, que já passou por três edições, e cujo autor é Mr. C. Piazzi Smyth, astrônomo real da Escócia.[8]

De Mr. William Carpenter há The Israelites Found in the Anglo-Saxon [9], Scientia Biblica [10], Scripture Natural History [11], etc., é também editor da 3ª. edição de Calmet’s Dictionary of the Holy Bible.[12]

De Mr. Charles Casey há Philitis [13]; do reverendo F.R.A. Glover, England the Remnant of Judah and the Israel of Ephraim [14], Jacob’s Stone [15] e outras obras.

Do Dr. George Moore, The Lost Tribes and the Saxon of the East and of the West [16]; do cônego Titcomb, The Anglo-Israel Post Bag. [17]

Há ainda outros muitos eruditos e cientistas que têm publicado escritos sobre a matéria, como a sra. Cockburn-Muir, o professor Tanner, Protheroe Smith, coronel Gawler, St. John Vincent Day, Groom Napier, etc. A Identidade tem diversos jornais que se publicam semanalmente, sendo os principais The Banner of Israel [18], Israel’s Identity Standard, e The Nation’s Glory Leader.

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Se v. julgasse o assunto de suficiente interesse para dar cabida a esta carta ou a extratos dela nas colunas do seu jornal, ter-se-ia por muito lisonjeado quem é de v., etc.,

Visconde de Figanière

(Lisboa, 26 de maio de 1880.)

NOTAS DE 2020:

[1] Sir William Edward Goschen, durante algum tempo embaixador britânico em Constantinopla, nasceu em 18 de julho de 1847 e viveu até 20 de maio de 1924. (CCA) 

[2] Em 1882 completou-se o primeiro ciclo de sete anos após a fundação do movimento teosófico moderno em Nova Iorque em sete de setembro de 1875, ou, exotericamente e de modo público e oficial, no dia 17 de novembro de 1875. (CCA)

[3] Salmanaser V ou Salmanasar V, rei da Babilônia e da Assíria. (CCA)

[4] A ciência do século 21 afirma que a distância média entre Sol e Terra é de cerca e 92.955.000 milhas. (CCA)

[5] O grão (grain) é uma unidade de medida de massa. Antigamente, grãos de cereais eram usados para balancear o peso do ouro. Fonte: Wikipédia. (CCA)

[6] A jarda equivale a 91,4 centímetros. (CCA)

[7] Os quatro volumes da obra “Le Triomphe de la Providence et de la religion”, do Dr. Abbadie, foram impressos em Amsterdam em 1723 e têm cópias digitalizadas que fazem parte da biblioteca da Loja Independente de Teosofistas, LIT. (CCA)  

[8] Uma cópia digital de “Our Inheritance in the Great Pyramid”, de C. Piazzi Smyth, pertence à biblioteca da Loja Independente de Teosofistas, LIT. (CCA)

[9] A LIT possui uma cópia digital do livro “The Israelites Found in the Anglo-Saxon”, de William Carpenter. (CCA)

[10] A LIT possui uma cópia digitalizada de “Scientia Biblica”, de William Carpenter. (CCA)

[11] A biblioteca da LIT dispõe de uma versão digital de “Scripture Natural History”. (CCA)

[12] A LIT possui cópia digital do “Calmet’s Dictionary of the Holy Bible”. (CCA)

[13] A biblioteca da LIT tem versão digitalizada do livro “Philitis”, de Charles Casey. (CCA)

[14] Uma cópia da obra “England the Remnant of Judah and the Israel of Ephraim”, de F. Glover, pertence à biblioteca da LIT. (CCA)

[15] “Jacob’s Stone”. Trata-se de um texto publicado em várias partes na revista “Life from the Dead”. A biblioteca da LIT possui uma cópia da publicação. (CCA)

[16] Uma cópia da obra “The Lost Tribes and the Saxon of the East and of the West”, de George Moore, pertence à biblioteca da LIT. (CCA)

[17] “The Anglo-Israel Post Bag, or How Arthur Came to See It”, obra escrita pelo Rev. J.H. Titcomb. Uma cópia deste livro pertence à LIT. (CCA)

[18] A biblioteca da LIT possui uma cópia do volume V, de 1881, da revista “The Banner of Israel”. (CCA)

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O artigo “O Restabelecimento do Reino de Israel” foi publicado nos websites associados dia 11 de agosto de 2020.

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Em 14 de setembro de 2016, depois de uma análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável.

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Clique para ler a biografia do Visconde de Figanière, escrita pelo autor português Pinharanda Gomes: “Gnose e Liberdade”.

Veja nos websites associados a obra clássica do Visconde de Figanière “Submundo, Mundo, Supramundo”, de 1889.

Examine outros escritos do Visconde de Figanière, em português e em inglês.

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