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26 de março de 2018

Mario Roso de Luna no Brasil

Palavras de Gratidão Aos
Pioneiros do Movimento Teosófico

Raymundo Pinto Seidl

Foto de teosofistas brasileiros com Mario Roso de Luna,
reproduzida de “O Theosophista”, abril de 1920, p. 252.



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Nota Editorial de 2018:

O texto a seguir foi publicado pela primeira vez
em “O Theosophista”, abril de 1920, pp. 251-252,
sem indicação do nome do autor. Foi seguramente
escrito por Raymundo Pinto Seidl, editor da revista
e primeiro presidente da seção nacional do movimento
teosófico. Título original: “Palavras de Gratidão”.

O texto e a legenda original da foto que o ilustra
documentam a forte participação de oficiais do
Exército nas origens do movimento teosófico brasileiro.

Agradecemos a colaboração editorial do pesquisador
Ailton Santoro, atual presidente  da Loja Rio de Janeiro.    

(Carlos Cardoso Aveline)

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Comemora a 28 deste mês a Loja teosófica Perseverança o 10º aniversário da sua fundação.

Não por vanglória, mas como testemunho da gratidão pelo auxílio que os fundadores dessa loja têm recebido dos irmãos habitantes no plano físico e dos irmãos que em outro plano vivem e atuam, podem e devem, os membros da Perseverança, considerar um grande dia o da fundação dessa Loja.

Até então, a propaganda teosófica não tinha conseguido no Brasil romper o círculo de indiferença traçado pela rotina e pelo interesse em torno de todas as ideias que divergem das opiniões consagradas pela maioria.

Os esforços de um núcleo de estudantes de Teosofia já conseguira fundar, em 1902, uma loja na cidade de Pelotas - a Loja Dharmah.

O abnegado Paulino Diamico vinha, desde anos, semeando os ensinamentos teosóficos em Porto Alegre.

Em Santa Catarina, segundo relata o nosso irmão K.S., no número de fevereiro da revista rio-grandense Die Selbsterziehung [1], um grupo de teosofistas alemães, os Srs. Adolf Schwab, Albert Feiss e E. Friedmann, vindos da Europa com esse objetivo, haviam tentado fundar uma Colônia Teosófica.

E, aqui, no Rio de Janeiro, por influência de um professor do Instituto Benjamin Constant, cunhado do teósofo argentino Sr. Sorondo, algumas senhoras e cavalheiros se reuniam semanalmente em casa de um conhecido clínico de Botafogo para estudarem Teosofia.

Tudo isto constituía trabalhos preparatórios valiosos, porém esparsos, sem conexão.

Não havia chegado o momento de se enfeixarem esses esforços.

A feliz oportunidade para isso surgiu com a fundação da Loja Perseverança. Criado na capital da República, esse foco de irradiação dos ensinamentos teosóficos pôde em breve ver surgirem em outras cidades do Brasil novos focos idênticos.

E a luz dos Mestres começou a expandir-se em todo território nacional, num terreno que os nossos irmãos espíritas haviam desbravado, com uma coragem e uma constância dignas da grande causa espiritualista.

Sem o trabalho desses primeiros, desses valorosos vanguardeiros do Neoespiritualismo, ainda mais difícil do que tem sido, seria o surto e desenvolvimento da propaganda teosófica. É preciso que proclamemos bem alto essa verdade.

Outra coisa também digna de registro é que o movimento benéfico que terminou pela fundação da loja Perseverança teve início nas conferências realizadas nesta capital, pelo eminente filósofo e astrônomo Dr. Mario Roso de Luna, de 7 a 14 de março de 1910.

O anúncio dessas conferências fez com que acorressem ao salão nobre da Associação dos Empregados do Comércio muitos estudantes de Teosofia, quase todos conhecedores da Doutrina, graças à magistral obra de Aimée Blech “A Ceux qui Souffrent” [2], em boa hora traduzida pelo benemérito irmão Henrique Serra.  O verbo ardente de Roso de Luna ressoou no ambiente como um verdadeiro toque de reunir. Com o perpassar dos anos, cada vez melhor avaliamos os benefícios resultantes da vinda e da permanência de Roso de Luna ao Rio de Janeiro.

E como esse benefício foi devido ao nosso caro irmão Capitão de Fragata reformado da Marinha Argentina Frederico Washington Fernandes, e aos dignos irmãos cujos retratos figuram no grupo fotográfico com que ornamentamos hoje as nossas colunas, grupo em que infelizmente faltam os retratos do falecido general Bellarmino de Mendonça e do tenente-coronel Bernardino do Amaral, a todos esses nossos irmãos se devem tornar extensivos, embora num grau menor, os agradecimentos devidos ao benemérito apóstolo Roso de Luna.

NOTAS:

[1] “A Autoeducação”.

[2] “Aos que sofrem”.

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Veja em nossos websites o livro “O Duque de Caxias”, de Raymundo Pinto Seidl, e também o documento histórico “Carta de Seidl Para Gervásio, Sem Data”.

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Em 14 de setembro de 2016,  um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável. 

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3 de novembro de 2017

Centenário da Independência do Brasil

Um Teosofista Pioneiro Examina
Em 1918 o Tema do Amor à Pátria

Raymundo Pinto Seidl

Uma rua da Tijuca no Rio de Janeiro em 1918



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Nota Editorial de 2017:

O texto a seguir discute como o Brasil
deve encarar a celebração de um centenário
da sua independência, e é extremamente
atual na primeira metade do século 21.

Pioneiro da teosofia no Brasil, Seidl esclarece a
natureza do sentimento de amor à pátria dentro
do contexto teosófico. A fraternidade universal
se constrói em escala planetária através do respeito
às nações. A cooperação une os povos com base
na correta valorização de cada comunidade e de
todas as culturas. Nas obras de Helena Blavatsky e  
nas Cartas dos Mahatmas, fica claro que é natural e
saudável o profundo amor pelo país em que nascemos.

O texto foi publicado pela primeira vez com
o título de A Grande Data Nacional”, na edição
de setembro de 1918 de “O Theosophista”, Rio de
Janeiro, páginas 89 e 90. A ortografia foi atualizada.

(Carlos Cardoso Aveline)

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De hoje a quatro anos será comemorado o primeiro centenário da Proclamação da nossa Independência.

Já se discutem os modos de solenizar tão importante data nacional. Monumentos grandiosos, publicações comemorativas, festejos cívicos retumbantes, congressos científicos e literários têm sido lembrados para rememorar esse dia, em que o Brasil surgiu como nação.

Membros de uma associação cujo objetivo primordial é a constituição de um núcleo de fraternidade universal na Humanidade, sem distinção de espécie alguma, inclusive de nacionalidades, não devem esquecer, entretanto, os teósofos, de trabalhar em prol da pátria de seu nascimento e de estar prontos para defender a sua integridade, porque “se viver para a Humanidade trabalhando pelo progresso da pátria é a mais nobre das vidas - morrer pela Humanidade defendendo a integridade da pátria é a mais gloriosa e santa das mortes”.

O patriotismo do teósofo é inspirado no verdadeiro amor, pois não traz na sua contextura o menor laivo de ciúme ou de prevenção contra qualquer nação ou contra qualquer povo. Deve, por isso mesmo, ser mais veemente, mais entusiástico, mais vibrante.

O teósofo sabe que a Terra é uma escola e que os atuais cidadãos de uma determinada pátria, nas suas encarnações anteriores, em outras pátrias já nasceram e lutaram. O espírito é levado a encarnar-se na família, no povo, na pátria, no continente onde pode receber as lições mais convenientes ao seu progresso; e em relação ao continente, à pátria, ao povo e à família em que surge, tem o homem dívidas cármicas a pagar.

O conhecimento dessas verdades mostra ao teósofo que o amor da família e da pátria não é senão um caso mais restrito do amor à Humanidade e que as nações “verdadeiramente” civilizadas não devem buscar elevar-se sobre as outras nações, porém, aprestar-se para bem servir à Humanidade. Somente assim orientado, o patriotismo é uma virtude, porque visa o Bem e o Justo; de outra forma, não.

Sirva a exposição desses princípios comuns a todos os estudantes sinceros de Teosofia, para justificar o modo como julgamos que a nossa pátria querida deverá comemorar o Centenário da sua Independência.

Pensamos que não poderia o Brasil de melhor maneira comemorar a sua Independência do que provando que é realmente um país civilizado cristão. E de nenhuma outra forma tão eloquente poderia a pátria brasileira mostrar-se digna desse qualificativo, do que declarando-se liberta do analfabetismo, do alcoolismo, do jogo, do lenocínio, da desonestidade política e administrativa; demonstrando o seu sentimento de fraternidade universal pela devolução dos troféus e cancelamento da dívida de guerra dos nossos irmãos paraguaios [1]; fazendo cessar as questões de limites entre os Estados; estabelecendo leis “justas” reguladoras da exploração do trabalho do operário; assegurando aos trabalhadores a mesma assistência que o Estado outorga aos seus funcionários; reconhecendo às mulheres os mesmos direitos civis e políticos de que os homens gozam e muitas vezes abusam; impedindo que os argentários deem ao capital o emprego indigno e inumano que costumam [2] dar; encarando, em suma, os problemas nacionais, sempre e sempre, pelo prisma excelso da lei da fraternidade universal.

Para conseguirmos a realização desse programa cívico, precisamos trabalhar muito e muito. Numerosos serão os obstáculos que o egoísmo fará surgir. Nada, porém, de desânimos. Trabalhe cada um de nós dentro de sua esfera de atividade pelo pensamento, pela palavra e pela ação, e se não pudermos realizar esse programa na íntegra, ao menos alguns de seus pontos poderemos conseguir.

A vitória depende da energia, da vontade, da perseverança, e acima de tudo, do sentimento de fraternidade dos soldados dessa grande campanha em prol do progresso do Brasil.

R.S.

NOTAS:

[1] Alusão à Guerra do Paraguai, travada entre os anos de 1864 e 1870. Sobre este conflito militar, veja em nossos websites associados o livro “O Duque de Caxias”, de Raymundo Pinto Seidl. (CCA) 

[2] “Costumam”: no original, “soem”. Sinônimo de “costumar”, o verbo “soer” é hoje pouco usado. (CCA)

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Veja em nossos websites associados o artigo “General Raymundo Pinto Seidl”, de Aleixo Alves de Souza.

Sobre a história do movimento teosófico no Brasil, veja os artigos “Breve Histórico da Teosofia no Brasil”, “Origem do Movimento Teosófico no Brasil”, “Bispo Católico Visita Plantações em Marte”, “A Teosofia no Brasil”, “Besant Anuncia Que é Mahatma” e “Leadbeater Diz Que Matou Brasileiros”.

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31 de outubro de 2017

A Virtude da Fé Intuitiva

Os Veículos Através dos Quais se Manifesta
a Centelha Divina Latente em Cada um de Nós

Raymundo Pinto Seidl




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Nota Editorial de 2017:

O texto a seguir transcreve o trabalho
lido em 21 de abril de 1913 na  loja
teosófica Perseverança, do Rio de Janeiro.

Foi publicado pela primeira vez na edição
de maio de 1913 da revista “O Theosophista”,
pp. 29-30. A ortografia foi atualizada.

(CCA)

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Meus irmãos,

Quando o nosso bom irmão presidente me designou para, juntamente com o caro irmão Permínio, discorrer sobre o assunto escolhido para estudo da sessão de hoje, confesso, o meu primeiro impulso foi o de me eximir, de uma forma qualquer, dessa incumbência. Tanto a dificuldade do tema, como o reconhecimento da minha incapacidade a isso me aconselhavam.

Felizmente, o sentimento do dever venceu a minha hesitação. Lembrei-me do fim que tivemos em vista fundando esta Loja - o de estudar e difundir as consoladoras doutrinas teosóficas - e pareceu-me uma deserção ao dever de membro da Sociedade Teosófica o me escusar da obrigação de contribuir com o meu esforço, embora desautorizado e incompetente, para o estudo dos ensinamentos dos nossos Mestres Venerados.

Outra razão ainda preponderou em meu espírito, para não me furtar a esse imperioso dever: tendo, durante três anos, dirigido mal os trabalhos desta loja, sinto-me obrigado a concorrer com o mais vivo esforço do sentido da melhor orientação dada em boa hora aos nossos estudos.

Que os Mestres Misericordiosos me auxiliem!

As palavras que ides ouvir eu as digo como se estivesse pensando alto. Somos todos partículas do mesmo Todo; os raciocínios que me surgirem à mente, os aspectos com que eu encarar o tema, não serão, por isso, ditos para vos convencer, mas para nos convencer.

As personalidades que nesta existência servem de veículo ao Ego Superior que constitui o nosso verdadeiro Ser, eu as esqueço neste momento, e falo como se só a mim mesmo falasse.

Em primeiro lugar, veremos em que consiste a virtude da Fé intuitiva; e, depois, como se poderá adquirir essa virtude.

A Fé pode ser definida como um impulso que nos leva a crer em uma dada afirmação.

Pode apresentar-se de dois modos: passivamente e ativamente.

A Fé se manifesta passivamente quando sem raciocinar aceitamos uma afirmação qualquer. É própria dos seres ainda no início da evolução no reino humano.

A Fé se manifesta ativamente quando o impulso que nos leva a crer em uma afirmação qualquer atua sobre nós mediante raciocínios decorrentes do conhecimento de fatos análogos aos expostos na afirmação feita. É apanágio dos seres que já conseguiram galgar um degrau relativamente elevado da evolução no reino humano, dos seres que, em verdade merecem o nome de homem, palavra cuja raiz sânscrita significa pensar.

Conforme o seu campo de ação e a natureza dos fenômenos ou princípios, a cuja crença nos impulsiona, pode a Fé ser classificada em Fé científica (matemática, em seus diversos aspectos, física, química, mecânica, astronômica, biológica, sociológica,) graças à qual, somos levados, após a observação de fenômenos de natureza análoga, a crer em afirmações concernentes a fatos que os nossos sentidos físicos e o nosso mental inferior podem observar e deduzir; Fé psíquica, que concerne aos fenômenos e fatos do mundo astral; Fé do intelecto superior, que, de certos princípios abstratos já aceitos, nos leva a deduzir e a aceitar princípios análogos de ordem mais elevada, ainda eivados, porém, do espírito de separatividade. (Comte, e outros grandes pensadores); Fé intuitiva, graças à qual aceitamos princípios de ordem religiosa e moral, meditando profundamente sobre outros princípios de natureza análoga.

A esses diferentes modos de manifestação da Fé, correspondem degraus cada vez mais elevados na evolução dos veículos, através dos quais se manifesta a centelha divina, latente em cada um de nós.

Como se pode adquirir a virtude da Fé intuitiva? Eis aí o segundo aspecto pelo qual devemos encarar o assunto a estudar.

Meditando sobre a lei da Unidade e vivendo a lei da Fraternidade, que daquela decorre como uma consequência lógica e inevitável; purificando os veículos através dos quais a Mônada divina, nosso verdadeiro Eu, se tem de manifestar nos mundos que habitamos; esforçando-nos por ouvir, a voz de Deus latente em nós [1] e, para isso, fazendo calar as nossas paixões e sopitar o sentimento de separatividade; ou, por outras palavras, desenvolvendo os veículos inferiores do nosso Eu - Consciência, a fim de que, em estado de vigília, possamos receber e perceber a luz provinda do plano búdico, através dos resquícios abertos nos nossos corpos inferiores, pelo esforço titânico do finito em busca do Infinito, do homem em busca de Deus; em resumo, avançando no caminho da Evolução e, para isso, procurando iluminar a nossa razão, fortificar a nossa vontade e purificar o nosso coração.

NOTA:

[1] Conforme Seidl mencionou pouco mais acima, cada ser humano tem em sua alma, latente, uma centelha ou fagulha sagrada das inteligências universais. Em teosofia não há um deus monoteísta, mas uma pluralidade eterna e ilimitada de divindades. (CCA)

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Veja em nossos websites associados, em PDF, o livro “O Duque de Caxias”, de Raymundo Pinto Seidl. Leia também o artigo “General Raymundo Pinto Seidl”, de Aleixo Alves de Souza.

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30 de outubro de 2017

Quarto Ano da Guerra Mundial - 1918

A Felicidade da Paz Não é uma Dádiva
dos Céus: o Homem Deve Conquistá-la

Raymundo Pinto Seidl

Uma Cena da Primeira Guerra Mundial (1914-1918)



Nota Editorial de 2017

A vida e o trabalho de Raymundo Seidl resumem nas primeiras décadas do século 20 as contradições e lutas do movimento teosófico após a morte de Helena Blavatsky em 1891.

Embora movido por um idealismo nobre e elevado, o movimento caiu nas ilusões produzidas pela pseudoclarividência ritualística de Annie Besant e seus assessores. O artigo a seguir, que aborda a primeira guerra mundial, menciona a expectativa sincera de que um Instrutor Divino venha de público a esta civilização para ajudar a humanidade.

A razão disso é que Annie Besant havia abandonado os ensinamentos originais de teosofia, preferia conversar com mestres imaginários, e estava dedicada à tentativa de inventar um “novo Cristo”.

O leitor encontrará em nossos websites associados vários artigos sobre o processo de fabricação de Jiddu Krishnamurti como falso avatar da “nova era”. [1] A ilusão estava no auge nos círculos esotéricos em 1918. Krishnamurti acabou com a farsa messiânica em 1929 e abandonou definitivamente o movimento teosófico.

O erro bem-intencionado de Seidl, ao acreditar na fraude adventista da pseudoteosofia, em nada prejudica o valor do presente artigo.

Para a teosofia original, não se trata de receber na Terra algum Mestre personalizado. Os instrutores nunca abandonaram a humanidade, mas trabalham sem alarde. Trata-se, isso sim, de fazer predominar em nosso planeta, passo a passo, a sabedoria universal comum a todos os povos. O conhecimento eterno não depende de algum “deus”, mas da alma espiritual de cada ser humano e da sua responsabilidade ética. O general Seidl é lúcido e possui bom senso. Apesar das suas limitações, sabe do fato básico:

“A felicidade na Terra não é uma dádiva dos céus. O homem deve conquistá-la pelo seu esforço perseverante e consciente.”

Na primeira metade do século 21, a essência do artigo de Seidl permanece perfeitamente atual.

O texto é reproduzido da revista “O Theosophista” de agosto de 1918, pp. 69-70. Título original: “O Quarto Aniversário da Grande Tragédia”. A ortografia foi atualizada.

(Carlos Cardoso Aveline)


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Quarto Ano da Guerra Mundial - 1918 

Raymundo Pinto Seidl

A grande tempestade de sangue, de ferro e de fogo continua a devastar terras europeias, repercutindo em todo o planeta, semeando a viuvez e a orfandade, destruindo velhos monumentos da civilização ocidental, arrasando cidades, talando os campos; e nos ares, sobre a terra e debaixo da terra, na superfície dos mares e debaixo das ondas, milhões de homens se digladiam, armas em punho, ferindo e matando com fúria infernal.

A Humanidade assiste à derrocada de uma civilização.

E se não fosse o concurso, primeiro da Bélgica, depois da Inglaterra, da Itália, Japão e Portugal, e, por fim, e principalmente dos Estados Unidos da América do Norte, a Alemanha teria conseguido vencer e aniquilar a França gloriosa.

Talvez falte ainda muito para a vitória final do Direito Humano. Talvez ainda outras nações venham a ter de concorrer com o esforço de seus soldados para a santa causa da Humanidade.

Porém, a todos os olhos já ressalta que a vitória final será ganha pelo Direito, contra a Força.

Mas, para que essa vitória seja completa e duradoura, indispensável é que todas as nações, aproveitando a dolorosa lição atual, reconheçam que a Paz somente reinará no planeta, quando o santo princípio da Fraternidade Universal constituir a nota fundamental das relações entre os povos, entre as classes sociais, entre os sexos.

Enquanto houver na terra povos explorados por outros, a pretexto de colonização; enquanto, dentro das nações, existirem classes sociais dominantes e classes sociais dominadas e exploradas; enquanto o homem não reconhecer que a mulher tem os mesmos direitos políticos e civis que ele; enquanto os animais continuarem a ser vítimas da gula e da ferocidade dos comedores de cadáveres - certo, não reinará a Paz na Terra, permanentemente.

E destruído o militarismo prussiano, instrumento da política de salteadores dos imperialistas germânicos, outros instrumentos de ódio, de conquista e destruição surgirão alhures; o ódio e a ambição deixarão de lado o emprego das armas, mas continuarão enlutando os corações, espargindo dores, com o concurso de outros meios.

Somente a difusão da Fraternidade entre todos os povos, e a extirpação da heresia da separatividade, levar-nos-ão ao reconhecimento das leis da Unidade, segundo a qual todos os seres constituem um Ser Único, manifestação de Deus [2] no plano objetivo e mudarão de fato e definitivamente o aspecto da vida humana sobre a Terra.

É preciso cumprir-se por toda a parte, e sempre, a lei da Fraternidade. Os sofrimentos de agora, não são mais do que as reações cármicas dos maus atos, más palavras e maus pensamentos de outrora. Todos nós, mais ou menos diretamente concorremos, portanto, para a dolorosa tragédia de hoje.

Cumpre aproveitarmos a dolorosa lição fazendo transcender o nosso amor da nossa família à nossa Pátria; da nossa Pátria à Humanidade; da Humanidade, a Deus.

Depende da nossa compreensão das leis divinas que regem a vida, e da exata obediência a essas leis, firmar-se a Paz.

A felicidade na Terra não é uma dádiva dos céus. O homem deve conquistá-la pelo seu esforço perseverante e consciente. E é tempo de fazê-lo.

O divino Instrutor da Humanidade, Aquele que há dois mil anos se manifestou na Palestina, mediante o corpo puríssimo de Jesus de Nazaré, apresta-se para novamente vir trazer à Terra a bênção da Sua presença consoladora. Mas preciso é que deixe o nosso planeta de ser um campo de lutas sanguissedentas, para que o Senhor do Amor e da Compaixão possa vir e demorar-se entre nós.

Unam-se todos os homens de boa vontade nesse esforço sublime de preparar o caminho do Divino Instrutor que se aproxima.

Objetivo mais alto do que esse, nenhum homem pode ambicionar. Façamos desse ideal a constante preocupação dos nossos dias, a fim de que a dolorosíssima lição de agora não fique desaproveitada.

R.S.

NOTAS:

[1] Leia entre outros, em nossos websites associados, os artigos “O Movimento Teosófico, 1875-2075”, “Fabricando um Avatar” e “Besant Anuncia Que é Mahatma”. (CCA)

[2] Em teosofia não há um deus monoteísta, mas uma pluralidade ilimitada de divindades nos mais diversos planos da realidade. O fato de que um deus “único” não existe fica claro se olharmos para o mundo das religiões monoteístas,  regido há milhares  de anos pela neurótica  disputa de poder entre numerosos deuses - cada um deles supostamente “único e onipotente” - que procuram prejudicar uns aos outros usando meios quase sempre questionáveis. Na primeira guerra mundial, por exemplo, diferentes deuses “monoteístas”, fabricados por sacerdotes e colocados a serviço de cada nação, abençoavam os diversos lados do conflito em suas batalhas sangrentas contra os demais.  (CCA)

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Veja em nossos websites associados, em PDF,  o livro “O Duque de Caxias”, de Raymundo Pinto Seidl. Leia também o artigo “General Raymundo Pinto Seidl”, de Aleixo Alves de Souza.

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11 de setembro de 2017

O Duque de Caxias

Esboço de Sua Gloriosa Vida

Raymundo Pinto Seidl

Raymundo Pinto Seidl (esq.) e o Duque de Caxias



Prefácio da Edição Online de 2017

O livro que agora reproduzimos em PDF foi publicado em 1903 para marcar o primeiro centenário do nascimento do Duque de Caxias.  Luís Alves de Lima e Silva, mais conhecido como Caxias, nasceu a 25 de agosto de 1803 e viveu até 7 de maio de 1880.

Raymundo Pinto Seidl foi um grande pioneiro da filosofia esotérica no Brasil. Poucos anos depois da publicação de seu livro, ingressou no movimento teosófico ainda durante a primeira década do século 20. Em 1910, esteve entre os fundadores da loja Perseverança, no Rio de Janeiro. Em 1919, Seidl foi eleito como primeiro presidente da seção nacional da Sociedade Teosófica, e liderou o movimento até 1927, quando já pressentia o final da vida física. [1]

Embora tivesse uma leitura ingênua da filosofia esotérica e abraçasse as ilusões de Annie Besant, a centralidade da ética em sua postura diante da vida é mais importante do que os erros bem intencionados que apoiou, e que faziam parte das limitações daquela época. 

Ao escrever a biografia do Duque de Caxias, Seidl era capitão do exército. Mais tarde alcançou o posto de general. Sua obra sobre a vida do maior militar da história brasileira tem interesse teosófico por diversos motivos, entre os quais cabe citar pelo menos os seguintes:

* O livro constitui um estudo de História desde o ponto de vista da alma e da boa vontade para com todos;

* Seidl desenvolve um enfoque teosófico do Brasil ao adotar como prioridade uma ética impessoal diante da vida, que é o ponto decisivo em filosofia esotérica clássica;

* O autor transcende a visão romântica superficial do homem do povo como alguém necessariamente bondoso, e mostra com clareza a luta amarga entre egoísmo e altruísmo na alma humana, em todas as classes sociais. Ele descreve, na história do Brasil, a vitória de Caxias sobre a ignorância e a crueldade;

* A obra torna mais fácil perceber a conexão sutil entre o centro da aura do movimento teosófico - com o qual se relaciona a missão de vida de Seidl - e o centro da aura do Brasil, com o qual se relaciona a missão de vida do Duque de Caxias;

* O amor altruísta ao país em que nascemos, exaltado por Seidl, é correto desde o ponto de vista teosófico. O sentimento foi defendido tanto por Helena Blavatsky, em “A Chave da Teosofia”, como pelos Mahatmas Orientais, em suas Cartas. Nada tem a ver com xenofobia, e é coerente com a ideia de fraternidade universal.

Durante o trabalho dos editores, Joana Maria Pinho trabalhou na reconstituição técnica de letras e palavras que apresentavam problemas ortográficos ou de clareza de impressão na edição de 1903.

Numa das páginas de abertura do exemplar que usamos como original da presente edição, o leitor verá a dedicatória e o autógrafo do autor, “R. Seidl”, datados de 19-03-04, ou seja, 19 de março de 1904.

Introduzimos algumas notas explicativas, que estão identificadas pelas palavras “Nota da Edição Fac-similar de 2017”.  Depois do fim do texto da edição original, acrescentamos uma “Lista Parcial de Temas de Interesse Teosófico, Com suas Páginas”. 

(Carlos Cardoso Aveline, em setembro de 2017)



NOTA:

[1] Veja em nossos websites associados o artigo “Origem do Movimento Teosófico no Brasil”.

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Sobre a história do movimento teosófico no Brasil, veja os artigos “Leadbeater Diz Que Matou Brasileiros”, “Bispo Católico Visita Plantações em Marte”,  “Besant Anuncia Que é Mahatma” e “A Fraude da Escola Esotérica”. Todos estão disponíveis nos websites associados.

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Em 14 de setembro de 2016, depois de uma análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável

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