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26 de maio de 2016

O Carma

Pioneiro em Teosofia, Poeta
Clássico Aborda a Lei Universal

Múcio Teixeira

Foto de Múcio na obra “Terra Incógnita”, edição de 1916


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Nota Editorial:

Múcio Teixeira nasceu em 13 de setembro de 1857 e
viveu até agosto de 1926. É um dos principais pioneiros
do pensamento teosófico em língua portuguesa, e está
entre os maiores poetas brasileiros de todos os tempos.

Há pelo menos dois motivos para que seu nome seja
ainda relativamente pouco conhecido. Um deles é que foi
amigo leal do imperador Dom Pedro II, e não arrependeu-se
disso quando veio a República. Depois de 1889, deixou
de ser politicamente correto valorizar a sua obra.

O segundo motivo é que, sendo Múcio um estudante
da Teosofia de Helena Blavatsky, o consenso “católico”
dos sepulcros caiados das letras brasileiras armou em
torno dele a ação do “silêncio organizado contra os
hereges”. No século 21, cabe resgatar a sua valiosa obra.

(Carlos Cardoso Aveline)

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A Natureza não pode escravizar
a Alma que obtém o Poder por meio
da Sabedoria, e em ambos emprega a
Lei do Carma, que nos conduz à Verdade.

(Helena Blavatsky)
  

O Deus da Teosofia
Não é esse das seitas religiosas,
Que dorme noite e dia
Nas aras [1] luminosas
Das antigas mesquitas maometanas,
Ou das modernas catedrais romanas. 

Força motriz dos múltiplos sistemas
Que dirigem os vultos planetários,
É a vibração, que despedaça algemas
Na eterna irradiação dos Setenários.

Essência pura, primordial, divina,
Desce do Todo à simples unidade;
E, se a matéria anima,
Volta de novo à espiritualidade.

E tanto impele as simples criaturas
Como equilibra os astros no infinito,
Por leis evolutivas e seguras
Do seu poder universal prescrito.

Pois bem: nós somos parte desse Todo;
Não o verme no lodo,
Mas a faísca que partiu da chama
Que este Universo inflama,
Semeando na amplidão as nebulosas
Entre as constelações mais radiosas,
E os errantes cometas solitários
Que fogem sempre aos corpos planetários.

Mas no eterno vaivém das existências,
Restritas da matéria às contingências,
Desde que o livre arbítrio nos foi dado,
Temos em nossa mão o próprio fado.

A lei, que determina a recompensa
Dos males e dos bens que praticamos,
A lei de causa e efeito, que aplicamos,
Por lógica permuta
De princípios inatos,
É também aplicada em nossos atos,
Desde que o homem sente, e quer, e pensa,
E pode, e executa.

O homem é senhor do seu destino;
Mas já que tem tamanha liberdade,
Não deve se queixar do Ser Divino,
Nem recuar ante a Fatalidade.

Se o raciocínio é arma,
De que até nos servimos contra a crença,
Já foi lavrada Além nossa sentença,
Temos de obedecer à lei do Carma.

O que semeia o mal nesta existência,
Na seguinte existência há de expiá-lo:
Assim como o que nós hoje sofremos
É o castigo do mal que praticamos
Na vida já vivida
Neste mesmo planeta, onde ora estamos,
Ou em outra qualquer região perdida
Na multiplicidade das estrelas
Que povoam o azul do Firmamento,
Pois não foram criadas, todas elas,
Para estar em inútil movimento.

Os rápidos prazeres e alegrias
Que embalam nossos dias,
Já são as recompensas merecidas
Do bem que semeamos noutras vidas.

Quanto ao céu e o inferno, de que falam
As velhas escrituras,
São coisas que afinal já não abalam
As consciências seguras:
Por cinquenta ou noventa anos de vida
Na terra pervertida,
Lentas penas não há de
Penar a alma em toda a Eternidade.

A lei de causa e efeito
Sabiamente aplicada às nossas dores,
Como castigo ao mal que temos feito,
E às nossas alegrias
Premiando, com o bem, o bem perfeito,
É a corrente que enlaça os nossos dias
Desde a série das vidas anteriores
Até às mais remotas existências,
Nesses núcleos solares, onde as flores
Têm alma, e as almas - divinais essências.

(Rio de Janeiro, 1909)


NOTA:

[1] De “Ara”, altar. (CCA)

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O poema “O Carma” é reproduzido do volume “Terra Incógnita”, de Múcio Teixeira, Casa Duprat Editora, São Paulo, 1916, 407 pp., ver pp. 139-143.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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30 de abril de 2015

Pregar no Deserto

Uma Lição de Desapego e Perseverança

Múcio Teixeira




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Nota Editorial de 2015:

No poema a seguir há um aparente desânimo
diante da lentidão  do progresso humano. A
amargura, no entanto, é uma licença poética.

O ritmo da evolução da alma e da natureza não
deve obedecer às ansiedades humanas. A aceitação
madura do tempo de longo prazo liberta mais do
que o sentimento de pressa ou o desejo pessoal de
bem-estar. Nenhum esforço feito na direção correta
é jamais perdido. Por outro lado, o ser humano hoje
vive uma grande quantidade de dor desnecessária,
e é hora de abrir mão do cômodo apego à ignorância
organizada. Um Mestre de Sabedoria escreveu:

“Quanto à natureza humana em geral, ela é igual agora
a como era há um milhão de anos atrás: preconceito
baseado no egoísmo; uma resistência generalizada a
renunciar à ordem estabelecida das coisas em função
de novos modos de vida e de pensamento - e o estudo
oculto requer tudo isso e muito mais -; orgulho e uma
teimosa resistência à Verdade, quando ela abala as suas
noções prévias das coisas - tais são as características da
sua época, especialmente nas classes inferiores e médias.” [1]

O poema do brasileiro Múcio Teixeira faz uma
denúncia do velho hábito humano de rejeitar a sabedoria. 

Diante do desafio, cabe trabalhar em paz. Pregar no deserto
significa emitir um mantra. A tarefa requer discernimento: se o
trabalho for bem feito, no ritmo certo surgirá e crescerá um oásis.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Pregar no Deserto

Múcio Teixeira

Sócrates diz: “Conhece-te a ti mesmo”.
E o mundo, que isto ouviu, caminha a esmo.

Abelard sentenciou: “Tudo é conceito”.
E o mundo segue desse mesmo jeito.

“Eu penso, logo sou” brada Descartes,
E o mundo lembra o Pedro Malasartes.

Locke exprimiu-se assim: “Sou, quando sinto”.
E o mundo anda no mesmo labirinto.

Hume, a cismar: “Sonho que sinto e penso”.
E o mundo sempre num nevoeiro denso...

Kant: “Tudo está no eu”. - E tudo e todos,
Num eterno vaivém, parecem doidos!  [2]


NOTAS:

[1] “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Brasília, Vol. I, Carta 1, p. 38. (CCA)

[2] “Num eterno vaivém”. Alusão à teoria dos ciclos e da periodicidade da vida, que inclui a reencarnação. (CCA)

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O poeta Múcio Teixeira nasceu em Porto Alegre em 13 de setembro de 1857, e viveu até agosto de 1926.

O poema “Pregar no Deserto” foi publicado no volume “Brasas e Cinzas”, de Múcio Teixeira, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, quarta edição, 1922, 477 pp., ver pp. 256-257.  A ortografia foi atualizada.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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16 de abril de 2015

O Infinito

A Morte Psicológica Da Ignorância
Permite Nascer No Mundo da Sabedoria

Múcio Teixeira


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Nota Editorial:

Na conclusão deste poema, “deixar
de ser” significa “deixar de existir no
mundo psicológico do apego e da ausência
de sabedoria”.  A filosofia esotérica ensina
que todo progresso espiritual deve ser obtido
enquanto vivemos fisicamente, e se possível
 enquanto temos boa saúde. O “despedaçar
 dos elos da matéria” é metafórico. A morte
para a ignorância é um processo emocional.
A lei da reencarnação garante que haverá tempo
suficiente para aprender o que deve ser aprendido.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Onde o corpo não vai - projeta-se o olhar;
Onde pára o olhar - prossegue o pensamento;
Assim, nesse constante, eterno caminhar,
Ascendemos do pó, momento por momento.

Muito além da atmosfera e além do firmamento,
Onde os astros, os sóis, não cessam de girar,
Há de certo mais vida e muito mais alento
Do que nesta prisão mefítica, sem ar...

Pois bem! Se não me é dado, em vigoroso adejo,
Subir, subir... subir - aos mundos, que não vejo,
Porém um não sei quê me diz que ainda hei de ver,

- Quero despedaçar os elos da matéria:
Perder-me pelo azul da vastidão etérea
E ser o que só é - quem já deixou de ser!...

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O poema acima é reproduzido de “Poesias”, de Múcio Teixeira, edição em dois volumes, H. Garnier, Livreiro-Editor, Rio de Janeiro-Paris, 1903, Tomo II, p. 34. 

Múcio Teixeira nasceu em Porto Alegre em 13 de setembro de 1857 e viveu até agosto de 1926. É um dos principais pioneiros do pensamento teosófico em língua portuguesa.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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12 de abril de 2015

Aum

Um Poema Sobre a
Sabedoria da Tradição Maçônica

Múcio Teixeira

Pirâmides de  Gizé, no Egito

  

A-u-m... esta palavra sagrada poderosa
nunca deve ser pronunciada muito alto, quando
as trevas espirituais nos envolvam, ou quando os
membros da Nossa Ordem estiverem presentes.

(Van der Naillen)



Memento, homo, qui Deum
est, et in Deum reverteris.[1]




Há na maçonaria
Claros vestígios do sagrado rito
Que nas priscas idades florescia
No topo das Pirâmides do Egito.[2]

Mais de quarenta séculos passaram
Sob o giro dos corpos planetários,
E as gerações de espanto recuaram
Ante esses Três Arcanos solitários.

Imóveis, como estátuas levantadas
No duro chão dos frios cemitérios,
Encerram as Pirâmides sagradas,
       Setenta e três Mistérios...

Eram elas os templos primitivos
       Onde se iniciavam
Nos Segredos da Morte os seres vivos
Que as vivas leis da Morte desvendavam. [3]

Inda hoje vemos, nos iniciados
Do principesco grau de Rosa-Cruz,
Símbolos - que já eram explicados
Muitos séculos antes de Jesus.

Moisés e Salomão, almas celestes,
Derramam sobre nós forças ocultas;
E ostentam-se, mais firmes que os ciprestes,
A sombrear vegetações incultas...

Santo Agostinho sintetiza a ideia
Do Magismo da Pérsia em Zoroastro:
Nesse tempo em que os sábios da Caldeia
Passeavam à noite de astro em astro!...

De Mêmfis [4] na janela de granito
- Invisível aos olhos dos ateus -
Serve o Carma de escada do infinito
Por onde a Aura nos conduz a Deus.

(Rio de Janeiro, 1900)


NOTAS:

[1] Tradução do Latim: “Lembra-te, homem, de quem é Deus, e a Deus voltarás.”  Quem é Deus para a filosofia esotérica?  Não é “alguém”. Os deuses monoteístas fabricados pelas várias igrejas cristãs não existem.  A palavra “deus” gera grande quantidade de confusão, guerras e manipulação mental e emocional. Existe, isto sim, uma pluralidade de inteligências divinas. No singular, existe a Lei Universal. (Carlos Cardoso Aveline)

[2] Embora a tradição maçônica seja respeitável e a sua filosofia tenha alguns dos seus principais pontos em comum com a filosofia esotérica, as organizações maçônicas ritualistas estão descaracterizadas desde início do século 19, e afastaram-se da autenticidade, mantendo aqui e ali sinais da antiga luz.  Helena Blavatsky escreveu sobre isso em “Ísis Sem Véu”. As falsificações pseudomaçônicas fabricadas por Annie Besant e outros desinformados do século 20 são especialmente infelizes e daninhas para a tradição de autêntica ética e sabedoria. (CCA)

[3] Um Mahatma dos Himalaias escreveu: “...Aquele que possui as chaves dos segredos da Morte é possuidor das chaves da Vida.” (“Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Volume II, p. 315.) (CCA)

[4] Mêmfis, nome antigo de Gizé, onde estão as principais pirâmides do Egito antigo. Mêmfis foi a capital do Egito na época das pirâmides. (CCA)

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O poema “Aum” é reproduzido do volume “Terra Incógnita”, de Múcio Teixeira, Casa Duprat Editora, São Paulo, 1916, 407 pp., ver pp. 183-185. Título original: “Aoum”. A ortografia foi atualizada. O poeta Múcio Teixeira nasceu em 13 de setembro de 1857 e viveu até agosto de 1926. 

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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6 de abril de 2015

Kratu

O Laboratório Alquímico das Utopias

Múcio Teixeira



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Nota Editorial:

O poeta brasileiro Múcio Teixeira (1847-1926)
é um dos pioneiros do pensamento teosófico em
língua portuguesa. A palavra sânscrita “Kratu”
significa iluminação espiritual, sacrifício, propósito
nobre, compreensão, determinação, inspiração, devoção.
O poema a seguir é reproduzido do volume “Terra
Incógnita”, de Múcio Teixeira, Casa Duprat Editora,
São Paulo, 1916, 407 pp., ver pp. 131-132.

(Carlos Cardoso Aveline)
 
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“A minha farmacopeia é muito simples:
contém apenas doze remédios, só doze;
e não há mais nenhum que seja necessário
ao mecanismo humano. São todos produzidos
por suco de plantas, e seis deles são elétricos.”

(Heliobas, o Mago)




No meu laboratório de utopista,
Manuseando alfarrábios e retortas,
Tenho no herbário a floração das hortas
E os filtros misteriosos do alquimista.

Fluido vital, que não deslumbra a vista,
Alenta a inanição das coisas mortas:
E eu abro assim da Evolução as portas
A tudo quanto à análise resista.

Posso às pedras - dar sensibilidade;
Das lágrimas - verter a hilaridade;
Dar asas de falena [1] - aos diamantes.

E num bazar de extravagâncias raras,
Reduzindo a carvão as gemas caras,
Mais valorizo os Ideais triunfantes!

NOTA:

[1] “Falena”. Borboleta noturna. (CCA)

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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