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28 de fevereiro de 2025

O Jogo de Máscaras em Torno de Saint-Germain

 
Uma Forma de Desrespeito Para
Com os Verdadeiros Mestres de Sabedoria
 
John Garrigues
 



Depois da morte de H. P. Blavatsky, médiuns e pessoas sensitivas começaram a publicar mensagens, contatos e visões recebidos no plano astral da própria H.P.B., como privilégios especiais. Um escritor teosófico daquela época exclamou, com humor: “Há uma quantidade extraordinária de jogos de máscaras no mundo pós-morte de hoje em dia.”

Atualmente, um jogo de máscaras semelhante está ocorrendo, mas no qual Saint-Germain ganha roupas novas graças à imaginação dos sensitivos. De acordo com as “experiências” do momento em que vivemos, o “Mestre Ascensionado” Saint-Germain frequentemente vem para baixo, com o objetivo de “instruir” seus discípulos obedientes. Na verdade, o “Mestre” entrou no mundo do comércio em sociedade com esses sensitivos e a  empresa está desenvolvendo  atividades lucrativas.[1]

Não é difícil ver algumas razões pelas quais este cavalheiro das altas cortes europeias e elevado Adepto do século dezoito se tenha tornado objeto da exploração espiritualista e da publicidade comercial no século vinte. Por um lado, ele foi “o maior” (os norte-americanos sempre gostam de superlativos) Adepto Oriental “visto na Europa durante os últimos séculos”. Além disso, ele está suficientemente perto de nós no tempo para parecer humanamente próximo, mas distante o suficiente para ser transformado num mito. A história geral, que nada sabe sobre Adeptos, deixa o conhecimento dele convenientemente vago. As biografias dele estão cheias de histórias exageradas de aventura, bem calculadas para inspirar uma credulidade supersticiosa e até mesmo para dar talvez aos seus atuais associados de mentalidade comercial uma sugestão valiosa, por meio dos relatos, de que ele era um transmutador de metais e um fabricante de diamantes.

Portanto, uma pequena quantidade de conhecimento sobre o homem real, sobre a América do século dezoito e a antiga Atlântida, combinados com um alto grau de imaginação paranormal, estão produzindo para os seus sócios comerciais de hoje resultados bastante satisfatórios. Usar a palavra “Mestre” como um trunfo é um recurso inteligente, porque sem essa palavra o antigo espiritismo poderia ser facilmente identificado. A sugestão misteriosa transmitida pela palavra “Ascensionado” é um trunfo para atrair os curiosos e os crédulos.

Este espiritismo mais recente imita as características eficazes da atividade econômica mais exitosa de hoje - a publicidade. O Mestre “Descensionado” Conde de Saint-Germain não aparece “em pessoa”, mas os seus administradores contam histórias que podem manter os olhos fixos e as bocas abertas - histórias falando de ligações em vidas anteriores entre o “Mestre” e o administrador. Isso atrai não apenas os curiosos, mas algumas pessoas que buscam honestamente a verdade. Gente que ouviu falar, mas nunca investigou Teosofia autêntica, é dominada por supostos sinais divinos e maravilhas extraordinárias. Além disso, para o público em geral que se reúne gratuitamente, são oferecidas como atrativo extra as “instruções” - práticas que trazem resultados “ocultos”, comprovações pessoais e “experiências”, por meio de círculos avançados especiais, aos quais se consegue ingressar pagando uma taxa razoável. Nessas sessões, o próprio “Mestre” tem o “controle”, e ele fala por meio de seus “representantes escolhidos”. Pense na possibilidade de ouvir a Sua voz, e tudo isso por um preço que é quase barato.

Em seu “Glossário Teosófico”, H.P.B. tratou de resgatar e defender o caráter caluniado do verdadeiro Conde Saint-Germain. Aparentemente, ela não conseguiu este objetivo por completo, entre outros fatores porque ela própria foi obrigada a defender-se de calúnias fabricadas contra ela, e que exigiam a sua atenção. Mas H.P.B. mostrou claramente que o Conde Saint-Germain era um Adepto, e que ele trabalhou na Europa pela melhoria das pessoas, antes e durante a Revolução Francesa. Ele fez avisos e profecias para o Rei, para a Rainha e os seus conselheiros, com a esperança de que uma orientação saudável pudesse prevenir e impedir o pior. “Mas a Europa não o reconheceu”, diz H. P. B. - assim como não o reconhecem os atuais médiuns disfarçados que usam o Seu nome. “Talvez”, continua ela fazendo um comentário sugestivo, “talvez alguns possam reconhecê-lo no próximo ‘período de terror’, que quando surgir alcançará a Europa toda e não apenas um país”.

Seria muito melhor - ao invés de aderir à prática de iludir almas, promovida por uma forma mal-disfarçada de espiritismo - seria muito melhor se as pessoas trabalhassem para elevar o seu próprio nível ético e de seus amigos e companheiros, e assim evitar que surja um “Reinado de Terror” em seu próprio país! Nós, ocidentais, precisamos aprender que os verdadeiros Adeptos, quer trabalhem no Oriente ou no Ocidente, não seguem nem os objetivos nem os métodos indicados acima. Eles não têm o desejo de produzir fenômenos para deixar as pessoas assombradas ou boquiabertas. O propósito deles é despertar nos seres humanos o verdadeiro Altruísmo. Tudo o que a nossa parte do mundo sabe de fato sobre os Mestres autênticos veio primeiro através de H. P. Blavatsky. Os Mestres para os quais ela trabalhou, e sobre os quais escreveu e que representou fielmente, mostraram uma e outra vez que Seu desejo é “levar os seres humanos a buscar a verdade única que está na base de todas as religiões, a única verdade que pode guiar a ciência na direção do progresso ideal”. Qualquer grupo que trate de encontrar e ensinar esta Verdade precisa vencer, disseram Eles, por meio da “força moral, e não por fenômenos que com tanta frequência se tornam degradantes”.

NOTA:

[1] Este Saint-Germain imaginário foi fabricado inicialmente por falsos clarividentes da Sociedade de Adyar, e é usado ainda hoje nos rituais “maçônicos” adotados por Annie Besant, Charles Leadbeater e seus seguidores. (CCA)

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O artigo acima foi publicado nos websites da Loja Independente de Teosofistas dia 28 de fevereiro de 2025.

Ele apareceu pela primeira vez de modo anônimo na revista “Theosophy”, de Los Angeles, em fevereiro de 1936, páginas 155-156. A sua versão original em inglês está disponível nos ambientes de estudo da Loja: The Masquerade Around Saint-Germain. A tradução ao português é de CCA.

Sobre o critério para identificar J. Garrigues como autor deste artigo, veja “A Vida e os Escritos de John Garrigues”.

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Leituras recomendadas:









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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”.

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8 de outubro de 2020

O Livro Tibetano dos Mortos é Ningma

Uma Advertência aos
Estudantes de Filosofia Esotérica

John Garrigues

John Garrigues (1868-1944)
 
 
 
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Nota Editorial de 2020:
 
O breve texto a seguir foi publicado pela primeira
vez anonimamente na revista “Theosophy”, em
dezembro de 1935, p. 96. Um exame do seu conteúdo
e estilo indica que foi escrito por Garrigues.
Título original: “The Tibetan ‘Book of the Dead’”.
 
O livro que este artigo discute pretende indicar
caminhos para evitar a Lei do Carma. A obra é lida
por aqueles que não têm interesse em Ética e que
gostariam de evitar as consequências das suas próprias
ações, ao invés de aprender com seus erros. Apesar
de propor o caminho desastrado dos que fogem da Lei,
o livro abordado por  John Garrigues goza de prestígio
em círculos pseudoteosóficos, e muitos estudantes sinceros
ainda se iludem pensando que ele tem alguma validade. 
 
(Carlos Cardoso Aveline)
 
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A contraparte tibetana do Ritual para os mortos usado pela Igreja Católica Romana - da qual o senhor W. Y. Evans-Wentz fez uma tradução ou versão - talvez seja em mais de um sentido o protótipo histórico do ritual da igreja cristã, e constitui, tal como os livros Tântricos da Índia, um formulário de práticas mágicas; de práticas de magia negra, aliás.[1]
 
Vários livros derivados desta obra vêm sendo publicados, todos a partir de um ou outro praticante oriental de “Ioga”. Os teosofistas não deveriam confundir a palavra “Tibetano”, presente no título do livro do senhor Evans-Wentz, com a palavra “Tibetano” usada com tanta frequência por H.P. Blavatsky. 
 
O “Livro dos Mortos” de Evans-Wentz é um ritual de magia dos “Gorros Vermelhos” [Ningmas], não dos “Gorros Amarelos”. O livro tampouco deve ser confundido com o Livro Egípcio dos Mortos, porque é exatamente o oposto dele.
 
O fato de que uma advertência precisa ser registrada a respeito ganha força quando um escritor muito conhecido, Augustin Thierry, parece não perceber - numa publicação destacada como “Temps”, de Paris - qual é a natureza básica deste ritual. O mesmo erro foi cometido pelo próprio senhor Evans-Wentz, embora este último seja, segundo acreditamos, membro de uma das sociedades teosóficas e deveria estar melhor informado.[2]
 
NOTAS:
 
[1] “O Livro Tibetano dos Mortos”, de W.Y. Evans-Wentz (Org,), com estudos introdutórios de C.G. Jung e outros; Ed. Pensamento, São Paulo, 192 páginas. O livro foi entusiasticamente divulgado por C.G. Jung, que cooperou com o Nazismo na Alemanha durante os anos 1930. A relação entre o nazismo e os Ningmas Tibetanos ou “Gorros Vermelhos” é relativamente bem conhecida. (CCA)
 
[2] Para saber mais sobre a filiação do “Livro Tibetano dos Mortos” com os Ningma-pa e Dug-pa ou “Gorros Vermelhos”, o leitor pode ler “A Teosofia e o Bardo Thodol”. (CCA)
 
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O artigo “O Livro Tibetano dos Mortos é Ningma” foi publicado nos websites associados dia 08 de outubro de 2020.
 
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1 de junho de 2016

Fragmentos do Livro das Imagens

O Ensinamento Teosófico em Poucas Palavras

John Garrigues



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Nota Editorial:

Os trechos a seguir podem ser encontrados no
volume “From the Book of Images”, que foi escrito por
John Garrigues e publicado sob o pseudônimo de Dhan Gargya
por The Cunningham Press, em Los Angeles, EUA, com 192 pp.,
em 1947. A presente compilação foi publicada pela primeira vez
na edição de novembro de 2015 de “O Teosofista”. O número
da página é dado entre parênteses no final de cada citação.

(Carlos Cardoso Aveline)

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* A Alma pura irradia justiça e boa vontade igualmente em casa e fora de casa. (p. 179)

* Os sábios não pensam em termos de grande êxito ou completo fracasso. Eles não pensam em termos do que é passageiro, mas do ponto de vista da Alma. (p. 163)

* A mente calma e tranquila pode atender todas as necessidades dos outros e fazer frente a todas as experiências, encarando-as como bênçãos dadas e como conhecimento adquirido. (p. 163)

* De que modo o peregrino pode saber qual é o instrutor verdadeiro, e qual o verdadeiro ensinamento? Através da decisão de ser sincero e verdadeiro, ele próprio. (…) Ao ser verdadeiro neste mundo de ilusões, o indivíduo é transportado para o mundo da verdade. Este caminho é percorrido sem necessidade de movimentar-se. (pp. 120-121)

* Não há uma única relação na vida, e nem um só dever cujo cumprimento não te transfira conhecimento. Primeiro observa, depois aprende, e mais tarde ensina pelo exemplo. Ensina por preceitos quando tiveres encontrado o teu dever para com todos os seres humanos - humildes e grandes - em cada tarefa que cumpres. Só então terão sido dados passos para que o mundo todo encontre o dever. (pp. 150-151)

* Isso eu sei: que quando um homem tirou do seu coração todo desejo de algo para si mesmo, quando deixou de ter expectativas ou exigências e espera dos outros apenas aquilo que lhe seja dado livremente, quando deixou de alimentar suspeitas e reclamações e já não se preocupa com refutar qualquer crítica feita a seu respeito, então ele pode compreender os princípios da harmonia em sua própria alma, e da sua alma se irradiam para todos uma paz e uma sinfonia. Outros podem não escutar, mas a sua única meta é assegurar que a palavra dita por ele seja a palavra correta. Os outros podem não perceber o sentimento generoso que movimenta a sua alma; podem não ver os sinais que identificam alguém livre do desejo, e da raiva, e da autodefesa. Mas o seu propósito claro e constante os abençoará de qualquer modo. A sua firme benevolência, embora irrite a parte pior dos outros, algum dia estimulará a parte melhor e um rumo mais correto será adotado, do qual a verdadeira vida dele é um testemunho. (pp. 162-163)

* Deves pensar firmemente nos sofrimentos dos seres humanos da terra. Isso te levará inteiro através dos cinco véus das esferas intermediárias. Teu coração deve estar ancorado com firmeza na devoção, para aliviar os sofrimentos dos seres humanos da terra. Isso possibilitará aos deuses do alto mandar alimento para os homens e as mulheres da terra. Firmemente deve a tua mente permanecer concentrada no que é imortal, em meio às coisas não-duráveis. Deste modo encontrarás o caminho de volta para a comunidade dos deuses, deixando para trás a esfera escura da Terra. [E o discípulo responde: ] Eu assumo o compromisso solene de prestar o serviço mais elevado possível aos homens da Terra. (p. 114)

* Todos os mundos estão unidos por um elo. O caminho comum a eles, que sobe e desce, é o trajeto da Peregrinação. Quem segue o caminho do serviço altruísta entra no trajeto ascendente. Ele é íngreme e avança morro acima o tempo todo. No começo a satisfação que ele dá é como um veneno, mas no fim é como as águas da vida, porque ele avança na direção do conhecimento dos três mundos. O caminho começa como um serviço prestado sem recompensa. Se há perseverança, ele leva a um serviço altruísta cuja recompensa são palavras. Havendo persistência, ele leva a um serviço altruísta recompensado pela gratidão daqueles que não necessitam de serviço algum. Se a perseverança prosseguir, o trabalho altruísta - acompanhado da gratidão daqueles que não necessitam de serviço algum - leva a um sentimento de devoção por aqueles que agradecem. Esta devoção e mais trabalho altruísta levam ao local do compromisso solene. A partir de então, se o peregrino perseverar, o trabalho feito por todos os seres humanos a partir de um sentimento de gratidão e devoção por aqueles que sustentam os três mundos sem qualquer ideia de recompensa o levará ao final do caminho, que é a bênção da Emancipação. (p. 69)

* O Ser não pode ser encontrado fora do ser [1]. Mas o ser humano sensato vê o Ser em seu próprio interior. Como uma criança, como um sábio, ele enxerga o Ser em todas as coisas e todas as coisas no Ser. Não há religião fora deste princípio. (p. 120)

*...Só um tolo coloca sua fé e confiança em personalidades, por mais próximas e agradáveis que pareçam. Será possível que você leve em conta apenas uma máscara, ao invés do ser humano em si, e em lugar da Alma, que abandona cada máscara para assumir outra? A natureza humana [em seus aspectos externos] não merece confiança: os Sábios de todas as idades sabem disso. (p. 152)

NOTA:

[1] Isto é: o eu superior, ou alma imortal, cuja substância é a mesma substância do universo, não pode ser encontrado fora do eu inferior. (CCA)

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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27 de abril de 2016

Consciência Ética e Interesse Pessoal

Superando o Aparente
Conflito Entre Dois Pontos de Vista

John Garrigues  




A menos que a teosofia tenha algo definido a oferecer ao homem comum, ela bem pode desaparecer do campo de interesse humano. Caso a sua missão seja dirigida apenas a grupos de curiosos e gente que está interessada em obter conhecimento, a teosofia não merecerá a devoção daqueles que a promulgam e defendem.

Se ela é  inadequada para qualquer uma das necessidades humanas, se ela se afasta confusa diante de algum problema que envolva o destino e o futuro, se não consegue tornar a vida mais digna de ser vivida e a morte mais digna de ser enfrentada, os seus defensores bem podem admitir,  então, que desperdiçam as suas energias e dedicam suas vidas a algo que não vale a pena.

Mas é ao homem comum que a teosofia dirige o seu principal apelo.  É para as massas humanas -  e não para os poucos ou para os eleitos - que os seus principais presentes são oferecidos. Ela convida para o seu estudo todos os que gostariam de ver uma lei organizadora da vida, ao invés do acaso caótico. Ela convida os que estão dispostos a reconhecer as operações de uma absoluta justiça dominando os assuntos humanos; os que gostariam de entrar conscientemente em uma existência individual cuja imensidão não está limitada pela morte ou por mudanças.

Ao protestar contra o poder limitante das religiões, não devemos subestimar o efeito da crença sobre a ação e sobre o caráter. Cada ato das nossas vidas  é governado pelas nossas concepções de autointeresse, embora essas concepções possam ser tão elevadas que passam a ser com frequência distorcidas e degradadas. Entre os pobres, aquele que trabalha intensamente é motivado por um sentido elevado de autointeresse que exige trabalho e compaixão. O ladrão acredita que será beneficiado por  seu roubo. A crueldade, a ganância, e a paixão são todos sentimentos honestos se vistos do ponto de vista de que são interpretações, ou melhor, distorções, do interesse pessoal.  Nossas ações estarão sempre de acordo com as visões que temos  da vida, do tempo e da lei divina. A crença governa a conduta. Ela é a fita métrica  pela  qual medimos a importância dos acontecimentos e o significado deles para nós. Uma hora de luz solar é a vida de um mosquito, uma nuvem é a sua tragédia,  uma gota d’água a sua extinção. O período de alguns minutos é o seu padrão de valores.

Parece, assim, que a religião - apenas outro nome para a filosofia - é na verdade um padrão de valores. Uma crença religiosa é uma fita métrica pela qual medimos a importância dos acontecimentos. Se concebemos a vida humana como sendo limitada pelo nascimento e pela morte, e se pensamos que há um nada antes da vida e uma aniquilação depois dela, é óbvio que todos os acontecimentos parecerão grandes em proporção inversa à brevidade do período. Uma criança chora pelo brinquedo quebrado porque a  sua concepção de vida é tão estreita que  faz esse pequeno acontecimento parecer uma tragédia. O seu padrão de valores é inadequado.  Se ampliarmos a nossa concepção do tempo e da vida, estaremos reduzindo  o tamanho relativo dos seus eventos e mudaremos completamente o ângulo de  visão. 

Do mesmo modo, um ponto de vista religioso ou filosófico pode mudar a nossa percepção do que é interesse próprio. Se aceitarmos a ideia de uma vida individual perpétua e consciente devemos, no mesmo momento, revisar o modo como calculamos o valor das coisas. Se acreditarmos que a vida perpétua e individual é governada por uma lei precisa de causa e efeito, estaremos tranquilos diante das dificuldades porque saberemos que foram criadas por nós mesmos, e teremos a esperança de um futuro em que haverá menos sementes más para germinar.

Reconhecendo a unidade da vida que se estende por todo o universo, teremos cuidado para não agredir a nenhuma das suas manifestações, e reconheceremos que a fraternidade não é apenas um sentimento, mas uma lei em vigor que não pode ser  evitada. Ao perceber o domínio de uma lei imutável e irresistível que se movimenta inexoravelmente para sua meta, teremos aprendido a afastar o medo do coração. Todas estas coisas são realizações práticas. Não existe uma só pessoa a quem elas não digam respeito. Elas estão ao alcance do intelecto humano médio. E dão à vida uma confiança, uma força e uma tranquilidade que não poderiam vir de qualquer outra fonte.

É evidente, portanto, que cada homem tem algum tipo de filosofia de vida, mesmo que ela não tenha sido formulada,  e mesmo que ele não tenha consciência da  sua existência.

Todo homem sem exceção está tentando ser feliz,  e sua vida é governada por alguma estratégia pela qual ele acredita que alcançará a felicidade. Todo homem tem algum padrão de tempo, normalmente a duração da sua própria vida, ou até a duração da sua juventude, pelo  qual ele mede a importância das coisas que acontecem a ele. A teosofia, assim, faz um duplo apelo ao homem médio. Ela tenta mostrar como ele pode adquirir uma felicidade verdadeira e permanente. E tenta dar a ele um novo padrão de tempo de modo que ele possa revisar o valor relativo das suas diferentes experiências diárias.  

Mas a teosofia não busca atingir o seu objetivo pela imposição de dogmas nem pelo peso da autoridade espiritual. Ela pede apenas que haja uma observação corajosa dos fatos conhecidos, e convida a fazer deduções lógicas a partir destes fatos. Em outras palavras, a teosofia apela ao conhecimento universal e à capacidade de raciocinar.     

Examinemos então os dois grupos de fatos mais claros para nós, isto é, os fatos da consciência e os fatos da experiência.

É óbvio que a consciência e o caráter estão sendo continuamente mudados pelos fatos da experiência. Cada evento que acontece a nós acrescenta algo ao conhecimento que governa as nossas ações futuras. Em outras palavras, o fato muda o nosso caráter, por menor que seja a mudança. E cada uma destas alterações aumenta a nossa felicidade, ou a reduz. Isso é tão verdadeiro que todo homem faz para si mesmo uma certa lista das coisas que ele não deve fazer porque trazem infelicidade, e das coisas que ele deveria fazer, porque elas trazem felicidade. Ele pode estar inteiramente errado nesta avaliação, a sua conclusão pode ter como base a ignorância, mas pelo menos ele tentou avaliar e diferenciar as coisas que são boas para ele e as coisas que são más.

E cada experiência vivida, seja boa ou má,  mudou o seu caráter. É evidente, portanto, que a natureza está tentando ensinar algo a ele, que na medida em que o seu caráter está sendo constantemente mudado pela experiência, deve haver em algum lugar na grande mente da natureza uma destinação, um plano, uma intenção. Se vemos os alicerces e a estrutura de uma casa inacabada, podemos conhecê-los exatamente como são, e podemos até prever a forma e a aparência da obra acabada, quando o construtor tiver terminado o seu trabalho. Sabemos que em algum lugar há um plano do arquiteto, um esquema; que há um propósito e um projeto detrás de cada golpe de martelo;  que todo detalhe, por mais insignificante que pareça, tem o seu lugar.

A pequena bolota de carvalho que rompe o solo é uma predição do carvalho adulto. Onde quer que haja movimento ou mudança também há uma intenção, uma destinação, e um projeto de um arquiteto. A teosofia convida o homem comum a olhar as mudanças com o seu próprio caráter, a olhar para o elogio e a acusação da sua consciência, que traz felicidade e infelicidade, e a perguntar a si próprio qual é a intenção da natureza evolucionária em relação a ele; o que é que a natureza gostaria que ele fosse. Em outras palavras, qual é o plano do arquiteto em relação a esta casa humana inacabada. Seguramente não pode haver outra pergunta mais prática do que esta.

Assim que reconhecemos a existência de um plano e percebemos que nós próprios somos estruturas incompletas, fica claro de imediato que os limites de uma vida terrena são lamentavelmente inadequados para a sua finalização. E este projeto só pode ser completado na Terra, já que diz respeito principalmente à nossa relação com os nossos semelhantes. Nascemos com determinado caráter, ou seja, com certas tendências em nossa interação com os outros. À medida que vivemos nossas vidas, o caráter é gradualmente mudado pela experiência. Como a experiência é o único fator na mudança de caráter, é evidente que o caráter com o qual nascemos deve ter sido formado em algum momento por experiências do mesmo tipo que aquelas que o estão mudando agora. E já que é igualmente evidente que o nosso caráter ainda  é uma estrutura inacabada, e está bastante distante do plano da natureza, o processo de acumulação de experiência deve continuar, prosseguindo sob condições semelhantes às do presente, isto é, pelo contato humano nas condições terrenas. E assim chegamos ao que pode ser considerado como o princípio teosófico mais importante,  segundo o qual toda evolução tem uma destinação e avança na direção da sua meta através de um processo de reincorporação ou reencarnação que é governado pela lei ética da causa e do efeito: “O que um homem planta, isso ele colherá.”  E nisso não há dogma, nem autoridade, nem revelação sobrenatural. É simplesmente uma dedução inegável, feita a partir de fatos óbvios.

Seria possível argumentar longamente em defesa das seguintes teses:

1) Há uma Vida Universal que permeia todos os reinos da natureza e nós mesmos somos expressões desta Vida Una, estando separados uns dos outros apenas pelas ilusões da personalidade egoísta. 

2) A evolução  ocorre através de constantes reincorporações ou reencarnações que são entretecidas pela lei da causa e do efeito. Esta lei assume um aspecto ético na evolução humana e produz em cada vida terrestre as circunstâncias que foram estabelecidas pelos pensamentos e ações das vidas que a precederam.

3) Todos os movimentos evolucionários são regulados por uma lei precisa e cíclica, e em nenhum lugar do universo ou do reino humano pode haver algo como acaso ou injustiça permanente.

Seria fácil mostrar que estes grandes postulados estão na base de todas as religiões conhecidas em algum momento no mundo, e que eles são confirmados tanto pela razão como pela experiência. Mas o objetivo no momento não é argumentar em relação a esses princípios; a meta é simplesmente afirmá-los, colocando-os para que sejam avaliados, e sugerindo o efeito que eles devem ter sobre a vida de quem os aceita como verdadeiros.

O efeito deve ser imenso e radical. Em primeiro lugar, estes postulados mudam toda a nossa concepção de tempo e, portanto, dos valores relativos dos eventos que se  movimentam no tempo. Teremos alcançado uma avaliação nova  e mais correta da importância das coisas, e portanto um ponto de vista desde o qual podemos observar sem preocupação a carga melancólica de ansiedades que agora afligem os nossos dias. Ao invés de imaginar que chegamos ao nascimento saindo de uma impenetrável escuridão, e que teremos como destino a escuridão, veremos a nós mesmos agora como seres que vivem desde sempre, que viverão para sempre, e nos quais a consciência nunca pode ser extinta, nem sequer por um momento.

A memória do cérebro pode ser incapaz de fazer a ponte entre os abismos de tempo, mas em algum lugar dentro do nível profundo do nosso ser, ou melhor, nos seus pontos mais elevados, reconheceremos a existência de uma alma na qual estão guardadas todas as memórias do passado, todo o conhecimento e todo o poder; e nada nos afasta daquele brilho, exceto as limitações autoimpostas da personalidade e o amor do eu inferior. Na presença desta compreensão, que espaço pode haver para as ambições pequenas, a cobiça, os medos, e os sofrimentos que agora preenchem nossas vidas torturadas? Comparadas com aquela dimensão estupenda de tempo, todas estas coisas passam a ser insignificantes e são reconhecidas em seu verdadeiro valor. Elas parecem grandes apenas quando são vistas num contexto de algumas dezenas de anos; apenas quando nós as medimos pelo padrão de algumas décadas. Olhemos para elas desde o ponto de vista de uma eternidade consciente, e elas perderão para sempre o poder de ferir-nos. Aprendemos finalmente o verdadeiro valor dos acontecimentos, e somos elevados por aquela nova sabedoria que está além do alcance da dor pessoal. Deixamos de ser crianças que choram por causa de brinquedos quebrados.

Mas a filosofia teosófica faz mais do que isso. A luz da lei nos eleva definitivamente para um lugar acima do território em que atua o medo, porque passamos a saber que um acaso cruel e indiferente não faz parte do nosso destino, e não encontra espaço nele. Somos mestres do nosso destino e capitães da nossa alma.

E como é lamentável, e abjeto, o modo como nós agora nos humilhamos diante dos nossos medos.  Temos receio da pobreza, da morte e da doença. Vemos a nós mesmos como cidadelas fortificadas, sofrendo a ameaça de uma natureza hostil e impiedosa. Sentimentos de terror esperam por nós nos lugares escuros da vida, e em cada canto vemos um inimigo. Uma paralisia perpétua, resultado do medo, destrói a nossa força e esconde a luz do sol com suas sombras perniciosas.

E como isso tudo é desnecessário! Avançamos com uma nova confiança, à luz de uma lei que tem compaixão porque é justa; que revela a sua presença nos menores acontecimentos de nossas vidas; que mantém o universo dentro do seu campo de ação de modo a beneficiar a alma humana, e desperta prazer e dor com o propósito de assinalar o caminho para a felicidade.

Esta não é uma filosofia para os eleitos. Não exige grande erudição para ser compreendida. Não deve coisa alguma a qualquer autoridade ou revelação. Está dirigida a cada ser humano capaz de observar os fatos da sua própria vida e de dar um passo à frente, desde o que já foi visto para o que ainda não foi visto. 

Estaremos com medo de que a adoção de uma filosofia espiritual prejudique o que chamamos de “sucesso na vida”? Seria estranho se a ignorância fosse mais proveitosa que o conhecimento, e se a fraqueza trouxesse mais vantagens que a força.

O maior de todos os êxitos na vida está reservado para aqueles que sabem o que é a vida e conhecem a sua origem, seu propósito, suas leis e seu destino. 

A força necessária para o trabalho é obtida por quem se torna um aliado da natureza, e não por aqueles que resistem contra ela. A força é obtida por aqueles que obedecem às leis naturais, e não por quem as desobedece.
                 
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artigo acima foi publicado inicialmente em inglês em março de 1913 pela revista “Theosophy”, de Los Angeles,  pp. 169-173. Título original: “To the Man in the Street”. Uma análise de seu conteúdo indica que foi escrito por John Garrigues (1868-1944). Está disponível em português nos websites associados desde 2016. 

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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26 de fevereiro de 2016

A Vida Silenciosa da Alma

Descobrindo o Mundo da Sabedoria Eterna

John Garrigues



Falar da Alma que não tem forma é o mesmo que materializá-la: é dar-lhe uma forma. Falar sobre o silêncio é quebrá-lo. Pensar sobre a Alma que vive no silêncio significa tentar invadi-la, e deste modo é impossível encontrá-la.

Não é só o barulho dos sentidos que transforma este mundo num ambiente cheio de conflito e obstáculos para a meditação. É relativamente fácil fechar a casa da vida e colocar chave nas suas portas, de modo que a confusão de nobres e plebeus lutando pelo domínio seja deixada do lado de fora. Quando isso é feito de modo firme e deliberado, descobrimos que o verdadeiro campo de batalha está dentro de nós e não fora.

É revelado então que a memória, a imaginação, o desejo, o pensamento e o sentimento não são simples ajudantes a serviço da Alma, mas usurpadores instintivos, traidores ferozes, rápidos e dotados de uma vida própria, que crucificam quem está buscando entrar no silêncio daquele “Salão da Sabedoria que está mais além”.[1]

O indivíduo que não consegue dominá-los com as palavras sacramentais “paz, fiquem quietos”, deve experimentar inevitavelmente o gosto amargo da derrota e do desespero; deve cair, de fato,  no silêncio conhecido pelo homem comum, o silêncio do sono ou da morte, do qual não há qualquer saída que não seja inconsciente. Seja qual for o significado da palavra Meditação para os perplexos, uma coisa é certa: que Meditação significa entrar conscientemente no silêncio.

Aquele que pode permanecer atento enquanto prossegue a batalha interna e externa da Alma pode ter esperança. No entanto, a Esperança em si mesma apenas leva a Alma ao longo de algum corredor cuja única saída é também situada no local de combate e não no território da Alma.

O silêncio consciente da Meditação é aquele mundo desconhecido povoado apenas pela Alma, e no qual a Alma é um espectador sem espetáculo. No entanto, esta é uma maneira de falar por aproximação daquilo que não pode ser falado, porque o silêncio está além de todo discurso, assim como a Alma está além de toda ação.

Para aqueles cujo coração está colocado na fala e para quem a ação é vida, o Silêncio é vazio. Para aquele cujo coração está colocado na finalidade do mundo, na meta da jornada, o Silêncio é o local em que mora a Alma. Quem entra no silêncio volta ao seu lugar próprio. O Ser Indescritível lá situado sabe que o Tempo, o Espaço e a Causalidade são três nomes do Silêncio, aquele silêncio em que é tecido o fio tríplice dos três mundos. Nesta ausência de sons “a Alma cresce como a flor sagrada sobre a lagoa de águas imóveis”. [2]

NOTAS:

[1] Alusão ao Fragmento I do livro “A Voz do Silêncio”, de HPB. A obra está disponível em nossos websites associados. (CCA)

[2] O florescimento da alma no território da sabedoria é uma das metáforas mais usadas em “A Voz do Silêncio”. (CCA)

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O texto acima foi publicado pela primeira vez como uma nota anônima na edição de dezembro de 1929 da revista “Theosophy”, de Los Angeles, p. 84. Uma análise do seu conteúdo, estilo e contexto histórico indica que seu autor é John Garrigues (1868-1944). Título original: “The Silent Soul”. Em português, o artigo foi publicado também na edição de maio de 2015 de “O Teosofista”.

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Sobre o crescimento interior e a transformação pessoal no século 21, leia a obra “O Poder da Sabedoria”, de Carlos Cardoso Aveline.


O livro foi publicado pela Editora Teosófica, de Brasília, tem 189 páginas divididas por 20 capítulos e inclui uma série de exercícios práticos. Está na terceira edição. 

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16 de fevereiro de 2016

A Energia da Luz e da Esperança

Como a Força do Conhecimento
Universal Ilumina o Mundo da Ignorância

John Garrigues



Ao longo do esforço por praticar e divulgar a teosofia e ter uma vida correta, há momentos em que o indivíduo enfrenta uma falta de vitalidade interior e um tédio. A luz viva e o amor universal que antes se irradiavam espontaneamente do nosso coração, e se dirigiam a todos os seres, parecem perder força, e deixam de aquecer e provocar satisfação.

É nesse ponto que temos uma tendência de dirigir nossa atenção para fora, procurando nas ideias e nos trabalhos de outros por aquilo que já não encontramos em nossos próprios corações. Como pessoas que se afogam, nos agarramos às práticas e às formas externas que antes buscávamos; mas nisso permanecemos divididos, e caímos mais profundamente nos jogos mentais de ideias e frases de efeito.

Quando tudo em nosso interior parece frio e sem vida, olhamos para fora, em busca de luz e ajuda, enquanto a alma fica muda e esquecida dentro de nós. Este é o momento para pegar as rédeas com firmeza e erguer o nosso olhar outra vez, com uma motivação firme e pura, para enxergar a profundidade dos nossos corações, e para sentir com o coração, pensar com o coração, e falar desde o coração. A luz está nele; o amor divino e a compaixão estão lá. 

Quem já ouviu alguma vez o sussurro deste prisioneiro solitário em seu coração, quando ele acorda para a vida, sabe que a ele deve ser dado espaço para que possa despertar e crescer. Não deve estar imobilizado pelas correntes da mente pensante e do raciocínio intelectual; ele deve poder falar, ou ficará mudo e morto ao longo de eras, talvez para sempre.

Caminhe pelas ruas cheias de gente da cidade e veja a multidão indo para lá e para cá, todos sobrecarregados pelo peso de mágoas e lutas criadas por eles próprios. Veja os rostos expressando sofrimento e ansiedade, acabrunhados e sem esperança, ou os rostos que riem com riso sem alma, cada indivíduo pensando em suas pequenas intenções e planos pessoais, tendo na melhor das hipóteses alguns poucos anos de existência pela frente, e suas almas saturadas, sem esperança, desesperadas, ignorantes do fato de que aquilo que é divino está adormecido tão perto, dentro delas. Deixe que o divino dentro de você fale a estes seres. Isso é possível, e irá acontecer, se você deixar de lado seu pequeno eu e aproveitar a oportunidade.

Um raio de luz e esperança entrará nestes outros fragmentos do divino, voando numa linha reta desde o seu coração até o coração deles. Esta é a voz do eu superior que fala por si próprio, e palidamente se transmite até o próprio cérebro físico deles, sussurrando que em algum lugar há esperança, contentamento, compaixão; que em algum lugar há uma vida mais ampla, uma vida que não é limitada pelo tempo que morre, nem pelos medos mortais. Quando o coração fala deste modo, e vive apenas a solidariedade, não há necessidade de esperar para sentir a presença da “iluminação” em nosso interior, porque, veja, ela já está lá.

Como foi possível que durante a vida de H.P. Blavatsky, onde quer que ela estivesse, para lá fossem atraídas pessoas às centenas e aos milhares? Era aquele coração ígneo, vivo, pulsante, que as chamava. Um raio daquele coração atravessou as profundezas sombrias da ignorância delas, tocando interiormente os adormecidos. As almas sonolentas agitavam-se e escutavam com atenção, e eram atraídas para aquele centro de luz e amor.

Ignorando o que as atraía, incapazes de interpretar os fatos internos exceto no plano pessoal, muitos (mais da metade, embora nos entristeça admitir isso) perderam a oportunidade pela qual suas almas haviam esperado durante eras. Mas não foi em vão que aquela grande luz brilhou no mundo dos seres humanos, porque aqueles que acordaram, mesmo que apenas por algum tempo, nunca mais voltaram a ser o que eram. A alma não esquece. Cada coração pode tornar-se um foco para os raios daquele grande coração universal. Cada coração pode tornar-se um centro vivo de luz, um canal que faz fluir para todos os humanos a corrente vitalizadora da verdade.

É necessário apenas um esforço centrado no coração, decidido, firme, e também a renúncia incondicional a todos os planos e propósitos pessoais.

Nós com frequência dizemos, “Ah, eu posso fazer tão pouco pela teosofia e pela humanidade. Não tenho dinheiro, nem talentos. Não sei falar em público, não sei escrever para publicações.” Será difícil ver que estas palavras só expressam um desejo, um desejo de fazer algo pessoalmente? Não se trata de desenvolver alguma atividade pessoal. Trata-se, isso sim, de ser; a tarefa é viver como um centro da energia impessoal do coração puro. Garantido isso, as ações práticas surgirão como resultado natural. 

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O artigo “A Energia da Luz e da Esperança” foi publicado pela primeira vez de modo anônimo pela revista “Theosophy”, em dezembro de 1920, pp. 46-47. Ele está disponível em inglês em nossos websites associados sob o título de “The Energy of Light and Hope”. Em português, apareceu pela primeira vez na edição de outubro de 2015 de “O Teosofista”.

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Para acompanhar um diálogo com a sabedoria de vida de grandes pensadores dos últimos 2500 anos, leia o livro “Conversas na Biblioteca”, de Carlos Cardoso Aveline.


O livro foi publicado pela Edifurb, de Blumenau, Santa Catarina. Com 170 páginas divididas em 28 capítulos, ele foi publicado em 2007.

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