18 de janeiro de 2014

A Felicidade da Família Portuguesa

Notas Sobre a Alegria e o
Sofrimento nos Laços Familiares

Carlos Cardoso Aveline e Joana Maria Pinho

A imagem reproduz um quadro de Joana Maria Pinho pintado em 2011:  o
amor, que é inseparável do respeito, faz parte do modo correto de olhar para a vida. 



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Embora o artigo a seguir se refira
à família portuguesa, o seu conteúdo
se aplica  às famílias de qualquer  nação.  

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Os portugueses buscam paz e felicidade, e elas devem ser encontradas pelo indivíduo sobretudo dentro de si mesmo, e depois no mundo externo. 

Nenhum português é uma ilha: para encontrar a paz dentro de si mesmo, é necessário  construir a paz nas suas relações mais íntimas e mais pessoais.

E para construir a paz, é preciso compreender a guerra.

Há uma guerra familiar em Portugal, e ela é frequentemente surda. Funciona disfarçada de amor. Também anda misturada como veneno inconsciente e involuntário ao mais puro e mais verdadeiro amor.

A violência doméstica não é feita só de pancadas físicas.  Existem pancadas emocionais.  As agressões verbais provocam feridas difíceis de sarar. Há uma cultura da violência verbal na tradição familiar “tuga”.  Há ditaduras familiares e elas provocam exilados. As famílias autoritárias podem ser patriarcais ou matriarcais. Possuem os seus  Antónios Salazares,  que às vezes respondem pelo nome de “Mãe”. 

Tais pessoas são amorosas, praticam o autossacrifício, mas abusam, e desrespeitam, porque foram vítimas de agressões em sua infância e não conhecem outra linguagem. Matriarcas e patriarcas têm o poder de decretar que tal ou qual pessoa “não pertence mais à família”, ou decidir  que “nunca pertenceu”. Fabricam a fantasia segundo a qual um filho, ou filha, chamado de “rebelde”, de “maluco” ou “inútil”, é destituído de qualidades positivas e não merece consideração.

Tais “figuras de autoridade” fazem-se de fortes.  E fazem isso para fugirem da percepção das suas próprias fragilidades interiores.  Usam de astúcia, porque temem usar a inteligência.  Mas podem, e merecem, chegar a um ponto em que se libertarão da fantasia do autoritarismo para viver o amor com equilíbrio, autorrespeito e discernimento.

A Sabedoria Cura a Violência

Formas erradas de busca da felicidade estão na base do sofrimento que vemos ao nosso redor, e também do que vemos dentro de nós.  A cura existe: ela está na sabedoria  impessoal e imparcial que cada um pode encontrar em seu próprio coração.

O amor e a verdade, inseparáveis, governam o universo. Mas nem todos sabem disso.  As guerras emocionais são modos agressivos de exercer a ignorância, e de administrar uma cegueira que às vezes é voluntária.  Melhor seria abrir os olhos, porque toda agressão a outrem é uma agressão a si mesmo.  Em uma certa dimensão da vida, aquele a quem amamos ou odiamos é um espelho nosso, conforme explicam a psicanálise e a teosofia. Um dos nomes do “efeito espelho” é “projeção”. 

Aquele que agride familiares - física, emocional ou mentalmente - é, pois, alguém que está desinformado sobre o modo como a vida funciona.  Está a atacar o espelho. Atrai mau carma para si. Ainda não saiu da infância psicológica.

A  agressão e a raiva são modos de disfarçar a frustração consigo mesmo, e com relações íntimas baseadas no egoísmo.  A violência física no âmbito doméstico provoca milhares de eventos registados a cada ano em Portugal.

Em grande parte, os dramas familiares são verdadeiramente teatrais. Incluem gritos, tapas na mesa, acusações absurdas. Os dramalhões vividos por parte da família “tuga” seguem velhos roteiros inspirados na idade média. As farmácias saem ganhando com a infelicidade.   As agressões verbais e emocionais elevam a níveis absurdos o consumo de calmantes e antidepressivos, assim como as crises de nervos, as manias de vítima, as ameaças de suicídio, a tristeza profunda, a culpa, e as consultas aos psiquiatras que estão a serviço das indústrias químicas. Sem falar nas numerosas doenças físicas que decorrem do sofrimento emocional.

E esta dor é desnecessária. Está condenada a desaparecer. Não existe mais lugar para ela no século 21. Não há necessidade de permanecer na idade média.

O sentimento de afeto é a energia da vida. Ele cura todos os males, quando vivido com um nível razoável de sabedoria. O amor está no modo como olhamos para a vida: mas também deve haver, no mesmo olhar, um sentido de justiça, um sentimento de responsabilidade, um respeito incondicional.  Estas são coisas que não se pode comprar nas farmácias, obter nas igrejas, ou aprender nas escolas: mas se aprenderá.

O amor é inseparável da verdade e da sinceridade. Ele deve ser incondicional. Ele é válido em si mesmo. Não pode estar sujeito a trocas comerciais e chantagens, como quando alguém diz:

“Eu amo-te e respeito-te se tu fizeres o que eu quero.” 

É melhor amar do que ser amado, compreender do que ser compreendido, cuidar de alguém do que ser cuidado. Mas a bem-aventurança surge da reciprocidade. Em última instância, é a capacidade de querer o bem dos outros, e de olhar para a vida do ponto de vista do amor-verdade, que nos aproxima da felicidade plena. 

Vossos Filhos Não São Vossos Filhos

O bem-estar, o amor, o carinho e a violência (subtil ou brutal) se mesclam para formar um emaranhado e um paradoxo na vida familiar portuguesa.

A agressão é mais frequente no plano verbal e emocional. Ela é, em grande parte, subconsciente. Agride-se sem saber ou sentir que se agride. Mas a compreensão da infelicidade nos liberta dela. 

Um aspecto essencial do sofrimento é a atitude destrutiva do indivíduo em relação a si mesmo.  O pensamento negativo é uma forma de autoagressão. Outros exemplos são o apego ao sofrimento, e a fuga dele. 

Milhares tentam escapar de si mesmos através da violência química e alucinógena. Inúmeros jovens “tugas” agridem seus organismos físicos e emocionais através do consumo de drogas e bebidas alcoólicas.   O problema atinge várias gerações. Alguns drogados, ainda jovens, já são pais e colocam em risco a formação emocional das suas crianças. 

Há pais de drogados - em alguns casos já avós - que preferem “não saber de nada”.  Decidem ignorar os fatos porque estão emocionalmente distantes dos seus filhos.  Amam-se todos, mas é como se vivessem em planetas diferentes.  O problema tem solução: a alternativa está em perceber desde o início e como um primeiro passo que amar não basta. É preciso amar e profetizar incondicionalmente o bem. Deve-se amar e pensar o que é bom, e dizer, repetidamente, o que é bom.

O carma plantado no passado deve ser colhido, mas sempre é possível plantar bom carma para o futuro. O pensamento é uma arma. Cada palavra é um mantra e uma profecia que pressiona pelo seu próprio cumprimento. Assim, cada frase deve ter uma força predominantemente construtiva, tanto no diálogo interno consigo mesmo, como no diálogo com os outros. Não há um minuto que passe em vão: toda emoção e toda ideia criam carma. Além de amados, os filhos devem ser apoiados incondicionalmente em seu crescimento. Sua autonomia interior precisa ser respeitada. Isso implica renúncia. Khalil Gibran escreveu:

“E não imagineis que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos achar dignos, determinará ele próprio o vosso curso.” [1]

Gibran disse:

“Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E, embora vivam convosco, não vos pertencem. Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, porque eles têm os seus próprios pensamentos. Podeis abrigar os seus corpos, mas não as suas almas; pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procurei fazê-los como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.” [2]

Ninguém é dono dos seus filhos, portanto.   E ninguém tem o direito de abusar dos mais velhos. Da sabedoria nas relações pessoais, surge uma sabedoria social. O Portugal do futuro surge hoje, de dentro para fora.  Já é possível acordar do pesadelo da ignorância.    

Há séculos, a nação portuguesa abre caminhos. O futuro de Portugal depende de uma retomada do seu pioneirismo. Tudo se comunica, e o exemplo de cada um chega misteriosamente a todos os outros: a vida da nação irá encontrar o seu ponto ótimo quando a porção mais criativa e pioneira dos seus cidadãos reconquistar com força suficiente a visão planetária da vida, o que deve ocorrer com base na experiência direta do autoconhecimento.  

O Equilíbrio Entre Alegria e Tristeza

A família portuguesa é um pouco brasileira, e vice-versa. Os dois países estão mais unidos do que parece. 

No povo luso-brasileiro, como em todas as nações, alegria e tristeza estão unidas por uma relação de simetria. Para eliminar as causas da dor, os membros de cada família podem transcender ao mesmo tempo o apego cego e aquela rejeição que insiste em nada enxergar.  Alegria e tristeza devem ser observados com serenidade, e Khalil Gibran escreveu:

“Vossa alegria é vossa tristeza mascarada. E o mesmo poço que dá nascimento a vosso riso foi muitas vezes preenchido com vossas lágrimas. E como poderia não ser assim? Quanto mais profundamente a tristeza cavar suas garras em vosso ser, tanto mais alegria podereis conter.”

Este é um paradoxo, e a sua aceitação permite a paz. Gibran acrescentou:

“Quando estiverdes alegre, olhai no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu  tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria. E quando estiverdes  triste, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo  mesmo que constituiu vosso deleite.”

O escritor alertou:

“Alguns dentre vós dizeis: ‘A alegria é maior que a tristeza’, e outros dizem: ‘Não, a tristeza é maior’. Eu, porém, vos digo que elas são inseparáveis. Vêm sempre juntas;  e quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama. Em verdade, estais suspensos como os pratos de uma balança entre vossa tristeza e vossa alegria.  É somente quando estais vazios que estais  em equilíbrio.” [3]  

O Portugal do futuro é fraterno, é sábio, e é rigoroso. Ele está a ser construído de modo quase invisível, mas eficaz. Cabe a cada um acelerar a substituição do ódio pela solidariedade, da hipocrisia pela sinceridade, da ambição material pela simplicidade voluntária.  Deste modo a tristeza e o sofrimento se esgotam, se transmutam e renascem na forma de felicidade.

O Quinto Império, no Século 21    

O mundo exterior reflete o território subtil da alma. O velho sonho do Quinto Império português, formulado por António Vieira, é correto. O mais belo sonho de grandeza dos portugueses surgirá inevitavelmente, mas devemos atualizar a forma como colocamos em palavras o sentimento do Quinto Império.

Dominar povos ou pessoas é uma brincadeira de crianças. É uma meta banal, insustentável, e sem valor.  É coisa de quem não tem mais o que fazer.  Só o Quinto Império é realmente grandioso, verdadeiro, durável e sagrado. E ele é o império sobre si mesmo.   Este é o único império que tem importância, porque é durável. Ele surge no século 21, mas é tão antigo quanto a sabedoria.

Três mil anos atrás, Gautama Buddha explicou:

“Melhor que um homem que vence em batalhas mil vezes mil homens, é aquele que vence a si mesmo. Ele é, na realidade, o maior dos guerreiros.” [4]

Fonte de toda verdadeira nobreza, o real Império sobre si mesmo tem importância sociológica decisiva porque permite agir criativamente desde o centro da nação inteira.

E onde está o centro do mundo lusitano? 

A nação portuguesa é semelhante ao famoso círculo de Pascal. Seu limite não está em parte alguma, porque há portugueses por todo lado neste planeta.  O seu centro está em todas as partes - onde quer que haja uma alma consciente.  O centro de Portugal não é, pois, geográfico. Não está na região de Coimbra ou de Lisboa. Cada família portuguesa é o centro do país. E o centro da família é a relação de casal.

Há um segredo que leva ao bem-estar na nação e na vida familiar, e ele está num conceito prático que decorre do império sobre si mesmo: o conceito de Okeidade, a capacidade de ver que a vida está OK.

A felicidade possível aos seres humanos não surge por acaso.  Ela se instala quando alguém se recusa a pensar mal de si mesmo ou dos outros,  combate ações erradas - mas não  combate pessoas -, age corretamente, e reconhece o potencial positivo de todos os seres.  Ao vivermos por mérito próprio em uma atmosfera emocional correta, mesmo contra o vento e contra a maré, fazemos com que o mundo que nos rodeia fique um pouco melhor. 

A consciência de que a cada minuto plantamos com nossos pensamentos e ações o que colheremos no futuro é uma chave para a felicidade da família portuguesa. É esta chave que abre o portal do Quinto Império. Ela permite o reencontro com a grandeza interior e a nobreza de alma, no âmago de todas as nações, isto é: na família.

NOTAS:

[1] “O Profeta”, Gibran Khalil Gibran, tradução de Mansour Challita,  ACIGI,  Rio de Janeiro, 89 pp., ver p. 11.

[2] “O Profeta”, Gibran Khalil Gibran, obra citada,  pp. 15-16.

[3] “O Profeta”, Gibran Khalil Gibran, obra citada, ver pp. 27-28.

[4] “O Dhammapada”, capítulo 8.  O Dhammapada completo está disponível em nossos websites associados.  

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Uma versão inicial do texto acima foi publicada na página “Portugal Teosófico” do Facebook, em julho de 2013. O artigo também foi divulgado na edição de outubro de 2013 de “O Teosofista”.  

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Para conhecer a teosofia original desde o ângulo da vivência direta, leia o livro “Três Caminhos Para a Paz Interior”, de Carlos Cardoso Aveline.


Com 19 capítulos e 191 páginas, a obra foi publicada em 2002 pela Editora Teosófica de Brasília.   

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