24 de outubro de 2016

O Tao da Paz

 O Clássico Chinês ‘Wen-tzu’ Traz
Uma Proposta para os Países Ocidentais

Carlos Cardoso Aveline

Uma imagem de Lao-tzu, e a capa do livro  



Quem olha para o cenário político dos países ocidentais percebe que é oportuno expandir na vida comunitária fatores como a ética e a cooperação.

E para isso será útil levar em conta uma obra de linguagem suave e misteriosa, escrita na China há mais de 2000 anos.

O “Wen-tzu” é uma escritura do taoismo filosófico, e tive a honra de traduzi-la para o português. A obra contém ensinamentos de Lao-tzu. Transmite ao leitor uma sabedoria milenar que é útil para resolver os males atuais da civilização.

Com o subtítulo “A Compreensão dos Mistérios”, o “Wen-tzu” foi escrito meio século antes da era cristã, mas sua tradução para o inglês só apareceu nos Estados Unidos em 1991. A obra mostra com clareza impressionante a proposta eterna e cíclica de uma sociedade ideal. Mas ela revela também como funcionam os mecanismos da decadência e da destruição.

O Caminho do Equilíbrio

O taoismo pode ser definido como uma forma de mergulho no que é autêntico e natural. Para esta religião-filosofia, o Tao ou Caminho é o princípio supremo do equilíbrio e da harmonia, que está presente em todas as coisas. Usando uma linguagem simbólica, o “Wen-tzu” rejeita a astúcia e a manipulação:

“Uma orquídea não perde sua fragrância só pelo fato de ninguém cheirá-la, um barco não afunda só porque não há ninguém dentro dele; e uma pessoa não deixa de praticar o Caminho apenas porque ninguém tem consciência disso: a orquídea, o barco e a pessoa exemplar são assim por natureza [1]”.

Ao ler este trecho pela primeira vez, pude ver a diferença moral entre uma orquídea e um hipócrita. A orquídea é sempre a mesma, esteja ou não sendo observada. O hipócrita só é ético enquanto há alguém a observá-lo.

Essa ideia, porém, dá lugar a algumas perguntas:

“Quem são os hipócritas? Serão sempre os outros? Nós nunca erramos?”

Esse trecho do “Wen-tzu” pode ser surpreendentemente incômodo, quando o aplicamos a nós mesmos. Ele nos convida a refletir sobre o nosso grau de autenticidade pessoal. Até que ponto fazemos a coisa certa, mesmo quando não há alguém olhando e ninguém sabe do que fazemos? Será que exageramos nossa boa conduta na frente dos outros? Por acaso perdemos parte do nosso entusiasmo pela ética e pela virtude, quando estamos sozinhos e sabemos que não haverá aplausos? Este não é apenas um dilema que cada um de nós enfrenta: ele também é vivido, em escala maior pelos políticos profissionais.

É claro que o êxito de curto prazo dos líderes depende especialmente da imagem e da aparência das coisas. Isso empurra os políticos de visão curta para aquela “filosofia” segundo a qual “em política não há fatos, só há versões”.

Os que se consideram espertos trocam a realidade pela aparência. Buscam muito mais parecer honestos e eficazes do que ser, de fato, uma coisa ou outra. Quando opta pela astúcia, o político profissional renuncia à inteligência espiritual e abandona as propostas e ideias claras. Ele evita comprometer-se, adota uma ambiguidade capaz de sugerir vários significados diferentes, e dá a entender uma coisa para cada interlocutor.

Um pensamento atribuído a um líder político deste tipo diz o seguinte:

“Em política é melhor não falar; se você falar, é bom não dizer; se disser, é bom não escrever; se escrever, é bom não assinar; se assinar, assine com a mão errada”.

O líder adequado é aquele que tem algo útil a dizer a todos os setores, porque capta a situação de conjunto e sabe onde a comunidade inteira deve avançar. Ele tem uma visão universal e não precisa ser ambíguo ou dizer uma coisa para cada pessoa, na tentativa fragmentária de agradar a todos.

Para evitar a prática da hipocrisia e da propaganda mentirosa, é preciso que os cidadãos construam um novo tipo de liderança baseada em uma visão integral da vida, e afastem os políticos contorcionistas.

Porém, não é possível exigir dos líderes políticos algo que não fazemos como cidadãos na vida privada. Cada um deve começar a reforma por si. O espaço público de um país revela de modo ostensivo aquilo que a média das pessoas costuma fazer de modo discreto. Quando na vida cotidiana as pessoas dizem pequenas mentiras umas para as outras, os políticos dizem mentiras em escala maior, dirigidas à população toda. Há uma relação inevitável entre o espaço público e o espaço privado. Por isso só um ser humano justo pode construir uma sociedade solidária.

Para o “Wen-tzu”, quando alguém sabe governar com sabedoria a sua própria vida é capaz, também, de liderar um povo. Mas quem não governa bem a si mesmo não pode liderar corretamente uma cidade, uma família ou uma nação. É preciso viver com sabedoria para construir melhores estruturas de relacionamento em sindicatos, câmaras de vereadores, igrejas, associações de moradores e partidos políticos. E também nos grupos familiares.

De um modo geral, cada povo tem não só o governo, mas também a classe política e a legislação que merece. O mérito cármico de um povo se reflete nas condições em que ele vive. As leis dão uma estrutura à vida comunitária e determinam em grande parte o grau médio de felicidade. Leis incoerentes, aprovadas por motivos demagógicos, assim como leis que não são aplicadas ou que não valem igualmente para todos, causam confusão e sofrimento. O mesmo ocorre com as leis demasiado rigorosas, porque não são respeitadas e levam ao caos.

Cumprir a Lei, e Evitar o Excesso de Leis

O “Wen-tzu” ensina:

“As leis das sociedades recentes colocam suas medidas no alto e punem aqueles que não podem viver de acordo com elas; as leis tornam as responsabilidades pesadas e castigam aqueles que não podem suportá-las; tornam as dificuldades perigosas e castigam aqueles que não ousam confrontá-las. Quando as pessoas ficam sobrecarregadas (...), elas fazem uma demonstração de esperteza para enganar seus governantes; as pessoas se tornam falsas e atuam de modo perigoso. Neste caso nem mesmo leis severas e castigos rigorosos podem evitar que as pessoas sejam traiçoeiras”.[2]   

O “Wen-tzu” afirma no capítulo 10 que “as leis rígidas e as punições rigorosas não são obras de grandes líderes: bater excessivamente no cavalo não é a maneira de chegar a uma longa distância”. Em outro trecho, a obra adverte:

“A lei não desce do céu, e tampouco emerge da terra; ela é criada através da autorreflexão e da autocorreção humanas. (...) Se você tem algo em você mesmo, não o negue para os outros; se você não o tem em si mesmo, não lance a culpa sobre a condição social. O que está estabelecido para os escalões inferiores não deve ser ignorado nos escalões superiores; o que é proibido para o povo não deve ser praticado por indivíduos privilegiados. Por isso, quando os líderes humanitários estabelecem leis, primeiro eles devem aplicá-las a si mesmos para testá-las e comprová-las. Assim, se uma regulamentação  funciona para  os próprios governantes,  ela pode ser aplicada à população”.[3]

Infelizmente, algumas leis dos países ocidentais induzem o cidadão à ilegalidade, e as consequências morais disso são graves.

O excesso de leis e regulamentações, somado ao fato de que elas são muitas vezes distantes da realidade e destituídas de bom senso, acaba empurrando o povo para a mentira e a ilegalidade. Quando há desprezo pela lei, os políticos corruptos se multiplicam no poder legislativo. Em consequência, as leis ficam ainda mais inadequadas.

O “Wen-tzu” destaca a necessidade de que as leis de um país sejam planejadas de modo que estimulem um comportamento adequado por parte do povo:

“Abra um caminho para que eles possam ser bons, e os indivíduos se voltarão para a direção correta”. [4] 

Vejamos o que significa este princípio básico, por exemplo, no caso concreto da segurança pública. Abrir caminho para que os seres humanos sejam bons implica garantir casa, comida, educação e oportunidades profissionais para as crianças e jovens do país. Feito isso, os índices de criminalidade cairão radicalmente.  

É verdade que os órgãos policiais precisam ter eficiência para enfrentar e vencer o mal que já não pode ser evitado preventivamente. Mesmo assim, é possível abrir espaço para a recuperação humana de milhares de pessoas que erraram. Basta organizar cursos de reabilitação e de formação profissional dos presos no sistema penitenciário. 

O dirigente que tem um respeito profundo por si mesmo também respeita o povo. Ele possui uma visão de longo prazo, não abandona a ética nem a decência e por isso consegue criar uma situação social luminosa e saudável:

“Quando os líderes da humanidade pensam, os seus espíritos não se agitam em seus peitos, seu conhecimento não é exibido aos quatro cantos, mas eles abraçam o coração da benevolência. (...) Eles alimentam bem o povo: a autoridade não é exigente, o sistema legal não é complicado, a educação é espiritual. As leis são amplas, as punições são leves, as prisões ficam vazias.” E ainda: “Os sábios (...) procuram ter poucas coisas, e assim ficam satisfeitos; são benevolentes sem esforço, inspiram confiança sem falar”. [5]  

No capítulo 136, o “Wen-tzu” avança na descrição de um povo feliz:

“Uma ordem social clara e calma se caracteriza por harmonia e tranquilidade, franqueza e simplicidade, serenidade e ausência de agitação. As pessoas estão internamente unidas com o Caminho, externamente harmonizadas com a justiça, a fala é breve e lógica, a ação é sensível e movida pelo contentamento. Os corações são pacíficos e verdadeiros, as obras são simples e sem adornos. Não há estratagemas no início e não há debate no final. Imóveis quando calmas, ativas quando estimuladas, as pessoas formam uma continuidade com o céu e a terra.”

O capítulo 137 amplia a ideia:

“Em uma sociedade bem organizada os empregos são fáceis de manter, o trabalho é fácil de fazer, as boas maneiras são fáceis de colocar em prática, as dívidas são fáceis de pagar. Por isso as pessoas não têm mais de um cargo simultaneamente, e os cargos não são ocupados por mais de uma pessoa ao mesmo tempo.”

O “Wen-tzu” ensina ao guerreiro sábio e ao dirigente eficaz como podem identificar-se com a água:

“Nada no mundo é mais suave do que a água. O caminho da água é infinitamente largo e incalculavelmente profundo; ele se estende indefinidamente e flui ilimitadamente longe. (...) Bata nela, e ela não fica prejudicada; perfure-a, e não fica ferida; atravesse-a com uma faca, e ela não é cortada; queime-a, e ela não faz fumaça. Suave e fluida, não pode ser dispersada. Ela é suficientemente penetrante para perfurar metais e pedras, suficientemente forte para submergir todo o mundo. (...) A razão pela qual a água pode corporificar essa virtude suprema é que ela é suave e escorregadia. Por isso eu digo que o que é mais suave no mundo dirige aquilo que é mais duro no mundo (...). O que não tem forma é o grande ancestral dos seres, o que não tem som é a grande fonte das espécies.”

Esta é uma maneira sábia pela qual o cidadão pode orientar também sua vida individual. A autenticidade produz a paz:

“A prática da virtude não é agressiva; o seu uso não é forçado. Você não vê a virtude quando a olha, e não a ouve quando tenta escutá-la. Ela não tem forma, mas as formas nascem dela. Ela não tem som, porém todos os sons são produzidos nela...”. [6]

Em qualquer país ou cidade do mundo, a democracia nasce do respeito e da tolerância mútuos, que parecem “vazios” e não ocupam espaço.

Quem sabe ceder, sabe ganhar. O bom dirigente pensa nos outros. Ele avança usando firmeza e flexibilidade em meio aos extremos da vida:

“O Caminho dos sábios é ser magnânimo porém severo, rigoroso mas solidário, amável porém correto, agressivo mas humanitário. O que é muito duro quebra, e o que é excessivamente brando se dobra: o Caminho está exatamente no meio entre a dureza e a suavidade”. [7]

NOTAS:

[1] “Wen-tzu, a Compreensão dos Mistérios, Ensinamentos de Lao-tzu”. Tradução do chinês de Thomas Cleary. Tradução do inglês, Carlos Cardoso Aveline.  Editora Teosófica, Brasília, maio de 2002, 198 pp. Veja a p. 98.

[2] “Wen-tzu”, pp. 150-151.

[3] “Wen-tzu”, obra citada, p. 176.

[4] “Wen-tzu”, capítulo 53, p. 69.

[5] “Wen-tzu”, capítulo 19, pp. 44-45.

[6] “Wen-tzu”, capítulo 7, p. 31.

[7] “Wen-tzu”, capítulo 153, p. 165.

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