29 de julho de 2012

Autossacrifício Traz Felicidade?

O Eu Superior Produz Uma
Satisfação Interna e Essencial Diante da Vida

Carlos Cardoso Aveline




A filosofia esotérica faz uma afirmação aparentemente contraditória. Ela ensina que o caminho para a felicidade é, na verdade, o caminho da renúncia às satisfações de curto prazo.  

Qual é a explicação deste paradoxo?

Por estranho que pareça, a fonte de sofrimento está no eu inferior. É dali que vem tudo que é incômodo. Quem renunciar ao eu inferior renuncia à fonte de sofrimento. Quando faz isso, ainda que de modo imperfeito, o indivíduo passa a utilizar o eu inferior como instrumento prático para alcançar a felicidade nos planos da realidade em que a felicidade realmente existe, isto é, nos planos superiores da consciência. Quando um estudante de filosofia observa o funcionamento deste processo em sua própria vida, ele consegue compreender melhor por que H. P. Blavatsky escreveu o seguinte em “A Chave para a Teosofia”:

“Todo verdadeiro teosofista tem a obrigação moral de sacrificar o que é pessoal para o que é impessoal, e seu próprio bem atual para o futuro benefício de outras pessoas.”[1]

Para ilustrar este ponto, vale a pena ler outro trecho da mesma obra, que foi escrita em forma de perguntas e respostas entre um curioso questionador e um teosofista experiente. 

Diz o diálogo, depois de ficar claro que o caminho da sabedoria não é cômodo:

“P: Sua posição não me parece muito invejável.”

“R: E não é. Mas você não acha que tem de haver algo muito nobre, muito exaltado e muito verdadeiro por trás da Sociedade e de sua filosofia, quando os líderes e fundadores do movimento ainda continuam a trabalhar por ele com todas as forças? Sacrificam a ele todo conforto, toda prosperidade e sucesso mundanos, mesmo seu bom nome e reputação - e até a sua honra - recebendo em troca uma incessante maledicência, contínua perseguição e incansável calúnia, constante ingratidão e má compreensão de seus melhores esforços, golpes e bofetadas de todos os lados - quando simplesmente abandonando seu trabalho eles se livrariam imediatamente de toda responsabilidade e se escudariam de todo ataque posterior.”

“P: Confesso que tal perseverança me parece estarrecedora, e me pergunto o porquê de terem feito tudo isso”.

R: Acredite-me que não por gratificação pessoal; apenas na esperança de treinar alguns indivíduos para conduzir o nosso trabalho pela humanidade, conforme o programa original, quando seus fundadores estiverem mortos e se forem. Eles já encontraram algumas almas nobres e devotadas para substituí-los. As gerações futuras, graças a esses poucos, encontrarão o caminho que conduz à paz um pouco menos espinhoso, e a estrada um pouco mais larga, e então todo esse sofrimento terá produzido bons resultados, e seu autossacrifício não terá sido em vão. No presente, o principal e fundamental objetivo da Sociedade é lançar sementes nos corações dos homens, que a seu tempo poderão germinar, e sob circunstâncias mais propícias conduzir a uma reforma mais saudável, que ofereça às massas maior felicidade do que até agora usufruíram.”[2]

Este é o desafio que está diante dos estudantes do século 21. E é necessário que cada um se aproxime do ideal em seu próprio ritmo. Devemos contemplar com calma o mistério da relação diretamente proporcional entre o total autossacrifício e a completa felicidade interior.

A combinação entre estes dois fatores ocorre quando se está em um Caminho autêntico. Mas seu processo não pode ser forçado.

A vida de H.P.B. é um claro exemplo de como a felicidade interna é causada pelo sacrifício externo. E há os exemplos de Alessandro Cagliostro, de Giordano Bruno, de William Judge, de Robert Crosbie e muitos outros, incluindo milhares de trabalhadores anônimos pelo bem da humanidade. Pitágoras, Platão, Epicteto, Cícero, Marco Aurélio, e Lúcio Sêneca são alguns poucos exemplos, na tradição da filosofia ocidental.

A vida do aprendiz é de certo modo a jornada do herói. O sexto princípio da consciência, buddhi, tem uma forte dimensão emocional, porque graças a ele ocorre a renúncia. Quando alma mortal decide seguir seu mestre interno, o eu superior, ela faz a trajetória heroica do caminho das provações. Então o eu inferior abre mão da vida para si mesmo e coloca sua breve existência a serviço da lei universal. Assim, ele renasce em planos mais elevados de consciência.

NOTAS:

[1] “The Key to Theosophy”, H. P. Blavatsky, Theosophy Co., Índia, p. 280.

[2] “A Chave Para a Teosofia”, de H. P. Blavatsky, Editora Teosófica, Brasília, pp. 222-223. 

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Uma versão inicial do texto acima foi publicada de modo anônimo na edição de julho de 2009 de “O Teosofista”. 

Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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