7 de dezembro de 2012

A Arte de Aprender Dormindo

Um Estudo Sobre o
Sono, o Sonho e  a Inspiração

Carlos Cardoso Aveline

 O ato de dormir é potencialmente sagrado 



Algum tempo depois que alguém começa a estudar com regularidade a teosofia clássica de H. P. Blavatsky, é normal que comecem a surgir ideias inspiradoras  no momento em que a pessoa acorda pela manhã.

Em outros casos, isso acontece quando o estudante está para adormecer. Compreensões, percepções,  e até frases inteiras podem vir à mente. Algumas delas são  respostas para perguntas. Outras são  maneiras de entender e de explicar questões relacionadas à vida.  São ideias sobre situações abstratas. Em geral, é difícil fixá-las na memória.

Isso ocorre porque o estudo calmo e profundo de teosofia, feito com regularidade, não muda apenas a qualidade de vida no estado de vigília. Ele transforma também a qualidade e a substância do sono e dos sonhos.   

O aluno começa a ter acesso a ensinamentos essenciais  enquanto seu corpo está adormecido.  A expansão de consciência durante o estudo em estado de vigília permite alcançar novos níveis de libertação durante o sono.  

O aprendizado do eu superior inclui planos da  realidade que só se pode vivenciar  quando o “eu” está fora do corpo. O resultado deste aprendizado sutil “desce” como um orvalho sobre o cérebro físico quando este desperta. O processo é tão suave que o cérebro físico dificilmente o registra com palavras ou lembra dele com precisão. Depois de alguns anos de estudo de teosofia, esta dificuldade tende a diminuir pouco a pouco. Porém, mesmo quando o cérebro físico capta alguma coisa do processo, ele só consegue trazer uma “fatia” estreita e limitada do que ocorreu em níveis sutis. 

Nada se perde do ensinamento ou das vivências “fora do corpo”. O que é aprendido no plano sutil vai inspirando “por osmose” a vida do indivíduo em vigília, à medida que ele avança no estudo e na reflexão da filosofia teosófica. A vida em vigília passa a ter uma relação renovada com a vida durante o sono e o sonho. A aprendizagem espiritual abrange então as 24 horas do dia.

Cedo ou tarde, todo estudante dedicado desperta para o processo em que é ajudado por seu próprio eu superior e por outros seres.

Embora o princípio da independência seja fundamental, nenhum estudante sério está interiormente isolado ou esquecido.  A ajuda sutil a receber depende do seu discernimento, do seu esforço e do seu mérito. Para merecer ajuda, ele deve  ter autonomia e deve ajudar os outros. O fluxo da aprendizagem é impessoal. Ele não será ajudado “por alguém”, mas sim pela própria Vida, pela Lei, ainda que isso ocorra através de uma ou mais pessoas.

Há em “Cartas dos Mahatmas” uma passagem em que um Raja-Iogue dos Himalaias menciona algumas das maneiras pelas quais os Mestres se comunicam com seus discípulos leigos em qualquer lugar do mundo. Entre elas está a técnica de colocar ideias ou “sementes de ideias” junto à aura do aprendiz, de modo que ao despertar  ele as perceba.[1] 

O mais frequente, quando temos ideias inspiradoras ao despertar, é que elas sejam impressões vindas de nossos próprios processos meditativos, ocorridos durante o sono e que se imprimem tenuemente e por um momento ou dois sobre o cérebro físico. Em alguns poucos casos as impressões ficam registradas na memória duradoura.

Os Mestres usam este sistema de comunicação com aqueles que colocam suas vidas a serviço da ética e da evolução humana. Existem “discípulos leigos inconscientes”. Mesmo  sem ter uma clara consciência cerebral do processo, os aprendizes informais participam da corrente  sutil da consciência anônima  e planetária dos Mestres e seus Discípulos. Enquanto seus corpos estão adormecidos, eles fazem parte da corrente magnética da “boa vontade planetária”. Fazem isso com plena autonomia e livre arbítrio,  mas, por diversos motivos, que dependem das circunstâncias e do seu carma individual, ao acordar podem não lembrar de detalhe algum do processo em seus cérebros físicos.

Há várias razões para que estes fatos sutis raramente sejam captados pelas áreas densas do cérebro. Uma delas é que o nível comum de ação do cérebro físico só consegue registrar informações de modo visual ou verbal. Tanto as imagens como os sons dependem dos cinco sentidos, mesmo que sejam subjetivos. Os dois processos têm uma relação estreita com o  hemisfério cerebral esquerdo. Porém, os ensinamentos e as vivências realmente  espirituais estão acima de todo som, palavra ou imagem, e ocorrem sobretudo no hemisfério cerebral direito.   

Quando o aprendiz consegue colocar em palavras uma parte da inspiração alcançada durante o sono-sonho, ele é consciente de que, na medida exata em que registra o fato no papel, deixa de fora a maior parte do que foi essencialmente captado ou “percebido”.  

A diferença entre o relato ou registro na memória e a percepção em si mesma é como a diferença entre olhar diretamente o nascer do sol, pela manhã cedo, ou  ver uma descrição escrita e detalhada do nascer do sol, no jornal do  dia seguinte.

A descrição e a memória podem ser úteis, mas serão sempre um pálido reflexo do  fato que tentam registrar.  

Por esse motivo, para alguns estudantes o mais importante é capturar a “sensação espiritual” e não tanto transformar aquela percepção complexa em palavras precisas. Neste caso, a “sensação” sintetiza tudo.  

Para outros indivíduos, o mais eficiente é dormir tendo papel e caneta ao alcance da mão, na mesa de cabeceira, e tomar nota das ideias que surgem quando sua consciência está na fronteira entre o sono e a vigília, mesmo durante a noite. A noção de tarefas importantes pode surgir de um sonho e então cabe registrar em papel. Em algumas situações, as  imagens e “lições” parecem acordar o estudante no meio da noite e ele percebe que deve anotá-las. [2]

Cada um deve experimentar e descobrir o que é mais eficiente em seu caso. É válido incorporar os dois métodos.  Vários tipos de ideias, decisões e percepções podem surgir na fronteira entre sono,  sonho e vigília, e esta fronteira comum é uma área sagrada da consciência, porque contém a chave para a meditação.

O estudo calmo e regular da teosofia clássica amplia no aprendiz o contato entre os estados de  consciência do sono,  do sonho, da vigília, e da contemplação. As “paredes divisórias” entre a vigília e o sonho se tornam mais finas, e o eu inferior aumenta nestas duas dimensões o seu intercâmbio com a alma imortal.   

NOTAS:

[1] “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Brasília, volume I, Carta 5, página 60. A expressão usada pelo Mahatma é “impressões ao despertar”.

[2] Damodar Mavalankar e William Judge escreveram sobre processos de meditação integral, que ocorrem ao longo das 24 horas do dia.  São os mais eficazes. 

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Uma versão inicial do texto acima foi publicada sem indicação de nome de autor na edição de julho de 2008 do boletim “O Teosofista”.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”. 

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