20 de dezembro de 2012

O Espiritismo e a Teosofia

Sete Questões Para um Diálogo Franco

Carlos Cardoso Aveline

Helena P. Blavatsky (1831-1891)


Desde o século 19, as relações entre o movimento teosófico e o movimento espírita têm sido complexas, com  aspectos harmoniosos e difíceis - o que, aliás, ocorre com bastante   frequência entre seres humanos. A longo prazo, parece ter ocorrido um progresso lento e constante. O avanço só tem a ganhar,  se o diálogo for cada vez mais aberto e mais sincero.

Em 2010, uma pessoa engajada no movimento espírita escreveu para os associados da Loja Unida de Teosofista. Havia um desejo de conhecer melhor o ponto de vista da teosofia original em relação ao espiritismo, em relação à mediunidade - e algumas outras questões.  O texto a seguir é um resultado da correspondência trocada. 

1. Crença Cega e Teosofia Original

Pergunta:

Sugiro que você examine se, ao priorizar a literatura original do movimento teosófico, os associados da LUT não estão presos à letra morta nem apegados ao passado. Sua atitude não será excessivamente rígida? Por que, afinal, valorizar o que é antigo?

Comentário:

O dogmatismo foge ao debate franco e sereno e teme o exame independente das questões filosóficas.

Cabe a cada leitor examinar  por si mesmo e decidir se os textos de teosofia original induzem alguém à crença cega, ou se, ao contrário, estimulam a livre investigação e o estudo individual.  O que podemos adiantar, como elemento para a reflexão de cada um, é que o fato de trocar um texto clássico por outro texto, mais recente e menos original, não significa ir além da letra morta. Ainda que possa provocar durante um breve tempo uma agradável sensação de novidade, esta troca do que é autêntico por versões açucaradas não constitui garantia de coisa alguma.

Ir além da letra morta não é mudar de textos, ou plagiar obras clássicas. É compreender o ensinamento na sua complexidade,  examiná-lo bem, vivenciá-lo, e elevar a consciência individual.  Nada deve ser aceito automaticamente: deve-se fazer um exame crítico não só da filosofia esotérica clássica, mas também das já envelhecidas e rotineiras “novidades”, para então saber por mérito próprio o que é joio e o que é trigo.  

2. São Válidas as “Canalizações” de Supostos Mestres?  

Pergunta:

Há hoje numerosas canalizações mediúnicas. Considera-se bastante comum e até corriqueiro conversar pessoalmente com Maitreya, Cristo e diversos tipos de Mestres, personagens que, aliás,  costumam fazer afirmações bastante óbvias, dizendo coisas que todos já sabem, mas sempre com um tom professoral, solene e grandioso.    

Comentário:

As canalizações mediúnicas de Mestres imaginários são uma forma natural de folclore popular. Elas também revelam as limitações intelectuais e filosóficas dos bem intencionados “canais” e “médiuns”.  Basta estudar as Cartas dos Mahatmas  e comparar o seu conteúdo com os lugares-comuns e os chavões água-com-açúcar dos chamados “Mestres Ascensos” e outras  figurações  semelhantes,  para que se veja a diferença entre o joio e o trigo. 

Colocando as obras “A Doutrina Secreta”  e “Ísis Sem Véu”, de Helena Blavatsky, ao lado de livros espíritas  ou obras atribuídas aos “Mestres” das canalizações, podemos ver em seguida a enorme diferença que existe em profundidade e em abrangência. A verdade é que um número apreciável de espíritas se aproximam a cada ano do movimento teosófico, ou, no mínimo, passam a  estudar teosofia. E qual é a causa disso? O motivo está no fato de que a teosofia é imensamente mais ampla, precisa e coerente. 

Apesar das suas limitações, o espiritismo tem algumas vantagens em relação aos que acreditam em canalizações.  Grande parte do espiritismo leva a sério a prática da ética e da caridade, o que nem sempre ocorre com os grupos “canalizantes”.

3. A Sabedoria Eterna Está Desatualizada? 

Pergunta:

O espiritismo não é uma versão mais moderna e atualizada das velhas doutrinas pitagóricas sobre metempsicose?  Por que estudar coisas antigas se há tantos livros recentes, em linguagem fácil e que não requerem qualquer esforço mental?

Comentário:

O caminho fácil é um não-caminho.

O correto esforço mental é indispensável, porque cria novos modos de raciocinar e faz gradualmente com que desperte a inteligência espiritual que abrirá espaço para a civilização do futuro. Só se pode trilhar o caminho espiritual através de um intenso esforço. E não há nada de “desatualizado” em Platão ou Pitágoras, e tampouco nos Upanixades, no Tao Te King, no Bhagavad Gita ou no conceito de Metempsicose. A sabedoria eterna só fica fora de moda do ponto de vista dos modismos superficiais.  O caminho espiritual não foi inventado no século vinte, e até mesmo a limitada Bíblia cristã afirma que há uma sabedoria anterior ao mundo.  Repetindo a antiga filosofia oriental, o Eclesiástico afirma:

“A areia do mar, os pingos da chuva, os dias da eternidade, quem os poderá contar? A altura do céu, a amplidão da terra, a profundeza do abismo, quem as poderá explorar?  Antes  de todas estas coisas foi criada a Sabedoria, e a inteligência prudente existe desde sempre.” [1] 

A Sabedoria eterna  é  a theosophia. Ela não pertence ao movimento teosófico. É o movimento teosófico que tenta pertencer humildemente a ela. Esta sabedoria está presente na essência de cada grande religião e filosofia antiga e moderna. Está presente em nosso passado, mas também é uma coisa do momento presente, e do nosso futuro. As grandes verdades universais são tão atuais hoje quanto eram há dois mil anos, e continuarão perfeitamente atuais não só durante os próximos três milênios, mas muito além disso.    

4. Os Espíritas Conversam Com Cascas Astrais?

Pergunta:

Em fevereiro de 2010, após um terremoto que matou milhares de pessoas no Haiti, afirmou-se que “foram atendidos em um centro espírita brasileiro inúmeros irmãos vitimados no terremoto, que ainda se encontravam perdidos e em completo desespero”. 

O que a filosofia teosófica tem a dizer sobre isso? 

Comentário:

As Cartas dos Mahatmas ensinam que, em geral, as pessoas mortas de modo súbito devido a desastres naturais passam para um estado de “sono akáshico” - e não para algum estado de “desespero”.  Este sono akáshico dura até o momento em que sua morte deveria ocorrer naturalmente.

Esta é a tendência geral destas situações: o tema é complexo, e vale a pena estudar o processo da reencarnação em detalhe, incluindo  a Carta 68 de “Cartas dos Mahatmas” e as outras Cartas que abordam o tema. [2]

Do ponto de vista teosófico, há algo que é básico e elementar. As tentativas de atrair pessoas que morreram para um diálogo no plano físico - violentando assim a fisiologia sutil dos médiuns -  são uma forma de necrofilia.  Necrofilia é a atenção excessiva e equivocada à morte. Constitui um problema amplo, lucidamente descrito - em outros contextos -  pelo pensador e psicanalista Erich Fromm.

A teosofia não se apega a cadáveres astrais,  e valoriza a vida na sua dimensão transcendente.
Mas vamos supor, por um momento, que fosse possível e desejável um contato entre almas e médiuns. Neste caso, por que motivo os mortos do Haiti viriam procurar orientações e conselhos precisamente no Brasil?

Todas as afinidades cármicas dos haitianos, tanto individual como coletivamente, estão no Haiti. Aquele país tem as suas próprias tradições religiosas - algumas das quais são, aliás, pouco recomendáveis,  e estão ligadas ao pesado carma daquela nação: um exemplo disso  é o Vudu.   

Não faz sentido pensar que houvesse algum caminho energético e cármico que passasse a ligar de fato - subitamente e fora do contexto - estas almas a algum ambiente sutil brasileiro.  A lei do carma não é algo que opera de vez em quando. Ela funciona em todos os aspectos da vida, sem exceção, sempre, e faz isso através do processo de afinidades e sintonias, harmoniosas ou não. 

O carma de uma nação constitui uma aura.  O carma de uma pessoa constitui uma aura.  O carma individual é um processo dinâmico, sistêmico, que tem o seu próprio centro de gravidade.  Não há casuísmos no processo pós-morte.  Colhe-se após a vida física o que se plantou durante a vida.  

As  almas que parecem ter surgido nesta instituição espírita brasileira são do Haiti, e o desastre natural do Haiti foi motivo de ampla cobertura da mídia. Poderíamos perguntar:

“Mas por que não é mencionada a aparição em círculos espíritas brasileiros de vítimas da catástrofe de Darfur, na África, onde tantos milhares de pessoas vêm morrendo há anos,  de fome e inanição ou por massacres promovidos por tropas tribais hostis?  Será porque Darfur hoje não é notícia na mídia? Será porque os espíritas, em geral,  desconhecem tudo sobre as mortes por fome e por massacres na África, enquanto que o desastre do Haiti foi - durante alguns dias - um fenômeno de mídia?”

Examinemos isso com calma, sabendo que os nossos irmãos espíritas são honestos e bem-intencionados. 

Uma explicação possível para o mistério está no fato de que na luz astral tudo é plástico e multiforme.  A luz astral, nos seus planos inferiores, é essencialmente maiávica, isto é, ilusória.  Não há, nela, qualquer diferença clara entre fantasia e realidade.  Assim, as cascas astrais não-evoluídas que flutuam pelo astral inferior depois de serem abandonadas pelos seus eus superiores têm todas as condições de adotar a forma dos pensamentos e das expectativas emocionais e mentais dos presentes em qualquer sessão espírita.  Fazem isso de modo natural e inconsciente. Ocorre deste modo um processo de osmose e de “empatia vampirizadora”: as cascas astrais  sugam  a energia vital dos médiuns e de outras pessoas ali presentes, obtendo uma fugaz sensação de sobrevida física. O fato é gravemente prejudicial para todos os envolvidos. [3]

Se há nos presentes à  sessão espírita a expectativa de conversar com Napoleão Bonaparte, qualquer casca astral atraída para aquele círculo mediúnico terá grande prazer em fazer-se passar por Napoleão Bonaparte e obter assim energia vital dos pobres médiuns e  ajudantes da sessão.

O mesmo vale para Elvis Presley, para Sigmund Freud, São Francisco de Assis, o escritor francês Vitor Hugo, e assim sucessivamente.  A capacidade humana de autoilusão não pode ser subestimada. Basta alguma pessoa famosa morrer para que as cascas astrais que rondam os círculos espíritas comecem a adotar em suas aparições as imagens e as frases da pessoa  que  estão presentes nas auras e nas memórias dos médiuns, e nas auras e memórias dos que participam das sessões mediúnicas, atendendo, assim as expectativas emocionais dos ingênuos movidos por boas intenções.    

5. O Contato Real  Com Os Que Partiram

Pergunta:

Há alguma forma de contato real com os que morreram?

Comentário:

O contato substancial e não-verbal da alma de quem morreu com os seres queridos ocorre de modo natural, num plano sutil, através do processo de afinidade cármica e sem “intermediários”.

Pretender trazer o contato sutil para o plano externo, verbal e físico, através de intermediários sem afinidade cármica, é algo que avilta, materializa  e torna falso um processo que, quando  ocorre no plano elevado, é autêntico. O processo mediúnico pelo qual se tenta conversar fisicamente com cascas astrais deste ou daquele falecido é literalmente antievolutivo, porque a evolução natural pede que a alma avance, e não se detenha - e muito menos retroceda - na sua marcha libertadora em direção a planos mais sutis.

Há um aspecto central do mundo da luz astral que o espiritismo parece ignorar. Os nossos amigos espíritas creem, ingenuamente, que o mundo astral é estável e homogêneo. Eles chegam a imaginar a existência de complexas cidades astrais. 

Na verdade, todo o processo pós-morte é estritamente individual. Ele é causado pelos processos de causa e efeito da vida concreta do indivíduo.  A trajetória pós-morte ocorre na aura individual.  

O contato verbal de uma alma do mundo do pós-morte com o plano físico é irreal, e, caso fosse possível, seria frontalmente contrário à lei da natureza, porque a lei impele a alma para o plano sutil e superior. O que fica no astral inferior são as cascas abandonadas pela alma imortal que seguiu viagem para o alto.  

Parte do espiritismo é involuntariamente materialista, porque suas ações giram em torno da ideia de um contato físico e verbal com os mortos. O apego a “fenômenos”, a fascinação por “passes magnéticos” -  tudo isso fica mais próximo do xamanismo inferior do que de uma real espiritualidade.  Mesmo os conceitos de caridade e fraternidade do espiritismo se limitam a uma dimensão excessivamente material.

Ao lado disso, também é verdade que a ação física não pode ser desprezada, e o espiritismo mostra um potencial positivo muito grande para a ação solidária e a vivência da fraternidade universal.

O espiritismo vive o respeito à diversidade de visões do mundo. Os aspectos positivos da vida e da obra de Francisco Xavier - por exemplo -, ou de Bezerra de Menezes, não podem ser ignorados.

6. Helena P. Blavatsky Foi Médium?

Pergunta:

Os teosofistas criticam com razão a mediunidade espírita. Mas devemos examinar honestamente a hipótese de que Helena P. Blavatsky tenha sido, ela própria, uma médium. Afinal, mesmo vivendo em meio à civilização atual, a fundadora do movimento esotérico moderno mantinha diálogos telepáticos e outras formas de contato a distância com Mestres de Sabedoria que vivem em locais secretos e inacessíveis da cordilheira dos Himalaias.  Haverá alguma diferença importante entre estes fenômenos teosóficos e a mediunidade espírita? 

Comentário:

Ótima pergunta.  Os mestres dos Himalaias  são seres humanos fisicamente vivos. Eles têm corpos físicos, tanto quanto os demais membros da nossa humanidade. Além disso, eles têm o dom da telepatia. Eles usam a telepatia verbal precisa no diálogo com aqueles discípulos seus que estão mais avançados e que passaram por treinamento específico nos seus ashrams nos Himalaias, como era o caso de Helena Blavatsky. 

Quando necessário,  os Raja-Iogues que inspiraram a criação do movimento teosófico também podem transportar-se fisicamente, de modo instantâneo,  a longas distâncias. Com um esforço muito menor, eles podem projetar-se astralmente para qualquer local em que for necessária a sua presença mais ativa. Isso, porém, foi feito raramente, e apenas na fase pioneira do movimento teosófico (1875-1891), durante a qual houve um esforço especial por parte deles.  Os mestres  evitam todo desperdício de energia. A telepatia não-verbal em planos superiores de consciência (ao nível de Buddhi-Manas) é o seu meio normal de contato com pessoas de boa vontade, discípulos e  aspirantes ao discipulado. Tais contatos ocorrem quase sempre de modo imperceptível.  Além de pouco frequente, este processo é supraverbal, ou seja, não ocorre através de palavras.  

Há uma regra do aprendizado que não poderia ser quebrada nem pelos Mestres, ainda que eles quisessem: cada um deve avançar por mérito próprio. A função dos  raja-iogues, portanto, não é distribuir muletas. O ensinamento da filosofia esotérica original  é mais do que suficiente para que cada um aprenda a andar por vontade própria. 

Dito isso, vejamos a questão da mediunidade. 

Em geral, entende-se mediunidade como implicando uma perda de autoconsciência e de autocontrole por parte do indivíduo que é chamado de médium. Isso, para a teosofia, é condenável. 

Considera-se inaceitável a perda de autoconsciência em todas as situações referentes à aprendizagem espiritual. Só o indivíduo  consciente pode ser responsável e, agindo corretamente,  criar bom carma.  A teosofia coincide com a pedagogia de Paulo Freire, que valoriza a autonomia do aprendiz.  Se o altruísmo, por exemplo,  não for uma decisão própria, não há mérito, nem progresso, nem verdadeiro altruísmo.

Além de perder a autonomia, na mediunidade espírita o médium faz - supostamente - contato verbal com a alma de alguma pessoa que já está fisicamente morta. Isso também é condenável. A filosofia esotérica não vê nada de positivo nas tentativas de contato verbal intermediado com almas de pessoas que morreram, em primeiro lugar porque é impossível, e em segundo lugar é indesejável.  Para a teosofia, o Jesus do Novo Testamento está correto ao ensinar, no evangelho segundo Mateus:

“Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos.” (Mt, 8: 22)

E a passagem é repetida no evangelho segundo Lucas:

“Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos. Tu, porém, vai e anuncia o reino...”. 
(Lc, 9: 60) 

“Anunciar o reino” é refletir e falar sobre as coisas realmente espirituais, universais  e elevadas, deixando para trás todo apego ao passado de ordem pessoal.

Com a perda de controle do corpo, a mediunidade inferior rompe e destrói a fisiologia oculta do indivíduo,  causando problemas sérios durante a vida atual -  e ainda mais graves depois da vida física, inclusive nas encarnações posteriores. 

A mediunidade inferior atrai as cascas astrais - os cadáveres e semicadáveres astrais -  para junto do médium. Isso é sumamente insalubre. Ao dar sobrevida astral a tais restos sutis semi-inteligentes, o espiritismo faz com que este material astral inferior se transforme  em “habitantes do umbral” que atuarão de modo potencialmente terrível durante a próxima encarnação  do indivíduo a quem tais cascas pertenceram. Os “habitantes do umbral”  funcionam como “alter egos” sombrios que obstaculizam o progresso da alma na encarnação seguinte.[4]  

No caso do discípulo esotérico, a situação é inteiramente diferente. O contato se dá em planos superiores de consciência e, portanto, não há perda de autoconsciência nem de autocontrole. Tampouco existe qualquer violência contra o processo sutil, mas natural,  pelo qual uma alma controla o seu próprio corpo. [5]  O discipulado não reduz, mas acentua, a autorresponsabilidade e o autocontrole no que diz respeito ao caminho espiritual.

7. Concluindo: Alguns Pontos Essenciais

Pergunta:

Onde está, então, o erro básico do espiritismo? Qual a lição que deve ser aprendida?

Comentário:

Uma falha central está no seguinte fato: o espiritismo, assim como a pseudoteosofia, não percebe que nem tudo o que ocorre no plano astral é espiritual. A verdade é que - muito pelo contrário -  tudo é ilusório nos planos inferiores do mundo astral.

Pensar que qualquer coisa situada além do mundo físico é necessariamente autêntica e espiritual constitui uma grave ingenuidade cujos resultados práticos são dos mais negativos. É só depois da  segunda morte, a morte astral,  que a alma se prepara para renascer no Devachan - a esfera purificada da sua própria aura individual - e pode finalmente obter um renascimento “no paraíso”, o plano da verdade e da autenticidade.

Mas este é um “paraíso” individualmente criado e individualmente vivido. Ele é impessoal e está situado muito além do mero plano astral inferior, em que “vivem” as cascas e dejetos da alma que se elevou.   

Todo o processo entre duas vidas físicas é determinado pelo histórico cármico individual,  que se organiza segundo a lei de causa e efeito. A cadeia de plantios e colheitas ocorre no microcosmo da aura da alma imortal reencarnante. A alma imortal também pode ser chamada de Atma-Buddhi,  de Mônada,  de Alma Espiritual,  de Eu Superior ou Tríade Imortal.

O espiritismo não vê com nitidez a diferença entre eu superior e eu inferior, e parece pensar que a reencarnação do eu inferior é normal.

Na verdade, porém, o eu inferior só reencarna no caso das mortes durante a infância, quando ele não teve tempo de cumprir sua função - que é dupla. De um lado, ele deve recolher material para o aprendizado do eu superior; de outro lado, deve expressar ativamente no mundo a presença e a energia deste eu superior.

Além das situações de morte infantil,  há algumas outras poucas ocorrências  excepcionais em que o eu inferior reencarna, e então isso ocorre num tempo relativamente breve depois da morte física.  O normal, porém, é que o eu inferior passe pela morte astral e se dissolva. Isso dá lugar à longa e abençoada experiência do Devachan, o “local divino” entre duas encarnações. O intervalo normal entre duas vidas varia entre mil e quatro mil anos, fato que os autores espíritas também parecem não levar em conta. Eles imaginam que os intervalos são pequenos.  

Estes são alguns pontos básicos a serem compreendidos e assimilados. A visão teosófica do pós-morte vem atraindo crescentemente  a atenção dos espíritas.  O diálogo entre espíritas e teosofistas tem se ampliado.  Uma tendência natural parece ser que, no futuro, o espiritismo acelere a marcha já iniciada na direção do resgate das dimensões filosóficas do pensamento. Este processo saudável de resgate implica uma renúncia a ilusões e ingenuidades, enquanto se valoriza com discernimento aquilo que o espiritismo tem de melhor: a ética, a caridade, a fraternidade, e a mística do amor universal.

É igualmente importante, porém, estimular o respeito incondicional pela verdade em si, seja ela agradável ou desagradável a curto prazo.   

NOTAS:

[1] Eclesiástico, 1: 2-4. “A Bíblia de Jerusalém”, Ed. Paulinas.   

[2] A indicação dos números destas cartas pode ser obtida através do “Guia de Leitura das Cartas”.  Sobre reencarnação, veja também os capítulos seis a onze de “A Chave da Teosofia”, de H. P. Blavatsky, e os capítulos quatro a treze de “O Oceano da Teosofia”. A obra “O Oceano da Teosofia” está disponível em nossos websites associados. 

[3] Este processo é especialmente negativo não só para o médium, mas também para a alma imortal a que um dia pertenceram estas cascas astrais. Porque, ao invés de desaparecerem rapidamente,  tais  cascas -  ou os registros delas - estarão esperando pelo novo nascimento da alma imortal. Quando uma nova encarnação ocorrer, serão atraídas pelo processo de afinidade cármica para a aura do novo ser, trazendo a ele desafios e obstáculos sérios.

[4] A este respeito, veja-se o romance “Zanoni”, de Edward Bulwer-Lytton, do qual há mais de uma edição em língua portuguesa.   

[5] Sobre a questão do discipulado versus mediunidade, há um texto extremamente esclarecedor de H.P.B.,  intitulado “Os Chelas São ‘Médiuns’?”.   O artigo pode se encontrado em nossos websites associados.   

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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