28 de abril de 2014

A Magia da Ajuda Mútua

Os Conflitos Psíquicos São Superados  
Através da Autopurificação e do Amor à Vida 

Carlos Cardoso Aveline 



“Num grupo de pessoas que têm uma meta
nobre em comum (....) a  crítica é (...) um modo
de exigir o melhor do outro, e não uma maneira
de rebaixar alguém para engrandecer a si mesmo.” 



A moderna civilização ocidental é herdeira de Atlântida no que tem de melhor e de pior.

O vodu, que inclui formas de magia antievolutiva provavelmente herdadas de Atlântida, possui uma técnica de ataque psíquico em que um boneco ou objeto físico pequeno representa o alvo do rancor - e é atacado com alfinetes.

Instrumento da ignorância, o boneco de vodu serve de ponte astral para ferir ocultamente alguma pessoa.

O ignorante e o infeliz que sentem ódio descarregam sobre o boneco uma carga de rancor ou inveja que se transferirá, através da luz astral, à vítima do ataque. Ao fazer isso, o agressor ataca o espelho. Ele prepara sobretudo a sua própria destruição e o seu sofrimento. 

Tudo o que fazemos aos outros volta a nós próprios: esta é a lei inevitável. As nações em que a prática da feitiçaria é comum vivem na dor e na miséria, e os povos em que o pensamento positivo predomina são os mais desenvolvidos. A lei do equilíbrio faz com que as civilizações e os indivíduos se ergam pela prática da solidariedade e do respeito, e se afundem, como Atlântida, pela falta de ética.   

Nos aspectos em que há decadência na civilização atual, o problema se deve ao mau uso da força do pensamento. O passo evolutivo da humanidade no século 21 consiste em perceber que é pouco inteligente pensar mal uns dos outros; e que é inteligente, e eficaz, pensar bem.

Em grande número de casos, as relações entre pessoas são definidas por clichês e imagens fixas. Considera-se que alguém está sempre certo, ou erra sempre. Este automatismo deve ser abandonado.

Na vida comercial, a propaganda fabrica a imagem de um produto que, seja útil ou inútil, passa a ser visto como bom e necessário. Líderes políticos têm suas imagens fabricadas como se fossem marcas de sabão em pó ou refrigerantes. E nem sempre a imagem criada é positiva. Na família como na vida política, a representação de alguém é usada com frequência como um boneco de vodu: ataca-se a imagem, para agredir a pessoa. Espeta-se a representação do outro com os alfinetes da inveja, do rancor, da maledicência e do mau pensamento, para que a pessoa se sinta mal.  

Na vida política do Brasil e de Portugal, a luta para destruir a imagem pessoal dos adversários ou para construir artificialmente sua própria imagem idealizada consome há séculos grande parte da energia.

Na estrutura familiar e em diversos outros tipos de grupo social, usa-se a imagem de adversários como um boneco abstrato de feitiçaria agressiva. Assim surgem as “ovelhas negras” de algumas famílias e os “fracassados” de certas empresas. Há pais e mães que atribuem seu êxito a uma criança sua, e projetam seu próprio fracasso sobre outra criança, também sua. 

A família e outros grupos humanos são salas de espelhos. Cada membro do grupo a que alguém pertence o vê de um modo específico e distorce de certa maneira o seu ser, devido ao modo imperfeito de olhar para ele.

Uns exageram suas qualidades. Enxergam virtudes que ele não possui. Outros só veem seus defeitos, e talvez inventem imperfeições. Lançam sobre ele, de modo transformado, medos e outros sentimentos negativos que os perseguem.

Do mesmo modo criam-se na vida coletiva heróis nacionais e inimigos públicos cuja substância brota do uso da imaginação. Cada igreja cristã fabrica seu próprio deus, assegurando que ele é único, e sugerindo talvez que ele protege especialmente a quem paga o dízimo.

No teatro e no drama da vida familiar, há episódios com frequência trágicos, ou cômicos. Ali são distribuídos papéis. Todo grupo humano tem diferentes personagens. No grupo saudável os papéis que eles cumprem são dinâmicos, refletindo os diferentes aspectos de cada ser humano e as várias fases por que todos passam. A bondade e outros sentimentos  construtivos devem predominar.  

Quando o grupo não tem como base e alicerce a verdade, a justiça, o respeito  e a sinceridade, o mal-estar se acumula e o teatro escorrega para um clima negativo. A frustração pessoal leva a invejar os outros.  

Uma vez lançados sobre alguém os dardos repetidos do sentimento destrutivo, começa o que se pode chamar de ataque invisível. O processo é especialmente venenoso quando disfarçado por uma camada de falsa amabilidade. 

Em todos os casos, ao pensar na vítima, o atacante passa a ver nela a substância que deseja subconscientemente lançar para fora de si. E passa a ver com grande convicção a imagem destrutiva que está fabricando do outro como se fosse algo verdadeiro. Prefere ignorar o fato de que está apenas projetando ou exteriorizando o seu próprio sentimento de insatisfação interior. 

A vítima terá dificuldade de evitar o dardo ou alfinete astral, porque ele vem sem aviso e, normalmente, não está sujeito a um exame raciocinado.

A imagem lançada sobre o alvo do ataque não está aberta ao debate honesto. Sua origem é frequentemente inconfessada. Seu conteúdo aparece disfarçado de aparências legítimas. O ataque oculto estimula no grupo humano em que ele ocorre a tentação de transformar a pessoa-alvo em um bode expiatório automaticamente responsável por toda situação negativa.

Reagindo a um Ataque Emocional

O que deve fazer a pessoa atacada?

Alguns tenderão a ficar paralisados. Isso abre as portas a mais ataques. Para outros, uma resposta automática será responder na mesma moeda, o que implicaria renunciar à ética e cair no mesmo nível de ignorância dos agressores.  

Cabe lembrar-se do ditado popular segundo o qual “a mentira tem pernas curtas”. É recomendável perseverar na ação correta até que o carma da situação amadureça e cada um possa colher o que plantou.

Conflitos fazem parte do mundo humano, mas eles podem ser leais. Num grupo de pessoas que têm uma meta nobre em comum, a crítica é um modo de exigir o melhor do outro, e não uma maneira de rebaixar alguém para engrandecer a si mesmo. Assim se prepara um futuro saudável.

A curto prazo, a resposta baseada em represália pode ser eficaz, porque impede a continuação impune do processo de ataque. A médio e longo prazo, um sistema permanente de represálias é desastroso porque cria um sistema estável de produção de rancor. 

Todo teosofista deve vigiar a si mesmo para evitar transformar-se em um atacante que comete injustiças sem querer. Há uma euforia da mente a ser evitada. O eu inferior é capaz de decidir como vê a realidade e como vê os outros seres. Por isso pode sentir-se poderoso e pensar talvez subconscientemente que é o “criador da realidade”. Surge neste caso uma arrogância perigosa. O antídoto para este veneno está em lembrar que o modo como vemos a realidade é sempre imperfeito. Para sermos pioneiros da civilização do futuro, devemos aprimorar a cada instante nossa visão da vida.   

A produção sistemática de rancor precisa ser evitada a todo custo pelo estudante de filosofia esotérica. É verdade que o pensamento positivo artificial, destituído de espírito crítico, deve ser evitado. Ele leva à hipocrisia dos sepulcros caiados, denunciada pelo Jesus do Novo Testamento em Mateus, 23. Porém o outro extremo, do pensamento sempre negativo, é ainda pior.

Em grande parte dos casos o atacante psíquico é um covarde. Ele teme olhar para si mesmo. Com sua conduta agressiva, mal disfarça seu medo diante da vida ou seus sentimentos autodestrutivos. A agressão é uma fuga medrosa do seu inferno pessoal.  

O que deve fazer então quem é atacado no plano das emoções? 

O acertado é manter-se em contato com a sua própria alma espiritual e desmentir as projeções negativas. Se as mentiras parecerem verdadeiras aos olhos de outros, será necessário suportar a situação enquanto se age corretamente. O carma desfará a injustiça no tempo certo.   

Em todos os casos, o primeiro passo para o estudante de teosofia atacado é driblar internamente a projeção. Seu trunfo maior está em evitar as sugestões, a carga hipnótica e as induções contidas no ataque, permanecendo imantado e iluminado pela sua própria inspiração superior. A lealdade para com a voz da sua consciência ética deve ser reforçada. Seu olhar não pode desviar-se daquilo que é bom e correto.

Em seguida, o teosofista deve neutralizar até onde possível o ataque na sua natureza ou dimensão externa, grupal, política ou institucional. Se esta meta não for realista a curto prazo, cabe ignorar o ataque de modo deliberado e firme.

Em terceiro lugar, o estudante de teosofia deve profetizar o bem, para si mesmo e para os outros.  

Esta prática usa a força dos mantras de modo responsável e tem como base um conhecimento sóbrio da Lei da Vida, que é a lei da justiça. A profecia positiva deve ser feita de modo impessoal, visualizando e expressando a visão de um futuro saudável que inclua essencialmente o atacante, já que um dia ele aprenderá a lição ética.  

A vitória da ética é inevitável, e ela não produzirá derrotados, no plano pessoal, embora esmague o egoísmo. O guerreiro do bem deve indicar ao atacante, serenamente e sem qualquer expectativa de curto ou médio prazo,  a saída que leva ao equilíbrio.

Os Sistemas de Apoio Mútuo

Olhamos para a vida ao nosso redor desde o ponto de vista da paisagem da nossa própria alma. 

Quando estamos em contato ampliado com nosso eu superior ou alma espiritual, vemos a miséria da condição humana que nos rodeia. Mas também vemos - e com ainda mais força - o potencial sagrado da vida. 

Em um sistema de magia branca, as pessoas projetam mutuamente uma luz solidária, e esta luz vem do coração. Assim é criada uma atmosfera pioneira e que antecipa as civilizações fraternas do futuro. Neste caso, a visão das limitações humanas é sempre inevitável, mas as autocríticas são sinceras. Os relatos sobre erros são bem documentados, impessoais, e ocorrem com a intenção clara de que os problemas sejam superados e as fontes de ilusão e sofrimento, eliminadas.

Conhecendo-se o jogo humano de ataques e contra-ataques emocionais, é possível a um grupo de pessoas bem intencionadas criar um sistema de apoio mútuo em que cada impulso de projeção psicológica é sempre um dardo que alimenta; um dardo que faz crescer; uma imagem que busca o bem do outro, mesmo quando aborda os seus defeitos.

Um dos fatores que possibilitam isso é a linguagem franca. Outro é a força da boa vontade mútua. Um terceiro ponto essencial é a existência de um marco referencial comum, uma filosofia universal e ética que é compartilhada com sinceridade. Em quarto lugar, a decisão individual de purificar sua vida e dedicá-la em todos os aspectos ao bem universal.

Não é possível projetar o bem sobre mim mesmo sem projetar o bem sobre os outros. Toda atividade mental é uma projeção. É um dardo de luz, que deveria ser benigno. É um raio que, ao iluminar, também fabrica aquilo que mostra. Toda projeção mental é multidirecional e vai tanto para fora como para dentro. O que lançamos sobre os outros é sempre mandado, em primeiro lugar, para nós mesmos.

A Filosofia da Fraternidade

Em teosofia, trabalha-se com a fraternidade: todos são mestres e discípulos. Ninguém é tão sábio que não tenha algo  a aprender. Ninguém é tão ignorante que não possua algo importante a ensinar. Devido à presença da boa vontade, cada um projeta luz sobre todos os outros, e é mais agradável ver as qualidades dos outros do que os seus defeitos. O crescimento de cada um acelera o crescimento dos outros. O erro de um dificulta o progresso dos seus colegas. Quando um é abençoado, todos são abençoados. Por isso mestres dos Himalaias exigem dos aspirantes ao discipulado uma ajuda mútua absolutamente sincera. [1]

A vida de um grupo é, entre outras coisas, um sistema de hábitos. Cabe criar costumes e procedimentos que reforcem a sabedoria e impeçam as formas mais agressivas de egoísmo. O estudante de teosofia deve observar as movimentações da ignorância principalmente em si mesmo e secundariamente nos outros. Ele deve ter claro o motivo pelo qual vive: se a meta é sinceramente a sabedoria, a ignorância em si irá morrer pouco a pouco, e não sem crises. A caminhada para a vitória será protegida pela força do ideal de perfeição. [2]  

É necessário ter autoestima para projetar luz branca sobre a realidade. Perdoar é uma forma de desapego, e de liberdade.

Todo ataque emocional deve ser observado, decodificado e compreendido. A resposta pode ser forte, quando feita no momento oportuno, mas deve produzir o bem. A energia do ataque precisa ser redirecionada; ela produzirá efeitos, mas seus efeitos podem ser purificadores.

As diferenças e os conflitos não devem ser reprimidos. O correto é colocá-los dentro do contexto maior e mais positivo em que se aprende conscientemente a arte de viver.  

A Anatomia do Fracasso

A inveja é sintoma de entupimento de Antahkarana, a ponte entre eu inferior e alma espiritual. Sentimentos negativos em relação aos outros refletem situações de baixa autoestima.

O teosofista deve lidar de modo sereno com pessoas espiritualmente doentes. Além de neutralizar possíveis ataques vindos delas, é preciso induzi-las à paz interior e dar elementos para que alcancem o caminho da ética.   

Vejamos como exemplo uma situação hipotética.

Cidadão A, honesto, projeta luz sobre Cidadão B, desonesto. B fica ofendido pela projeção de luz sobre si, porque essa projeção o lembra do seu fracasso ético perante sua própria consciência. Vê que não está à altura da projeção positiva. A frustração de B é tanta que se enche de ódio e quer quebrar  a ética e a paz de A, como sua própria ética e sua paz foram quebradas, e deste modo “confirmar” a tese de que sua ética quebrou porque “é inevitável mentir e ser desonesto”. Para B, ver alguém honesto é doloroso. Por isso ele ataca: pretende justificar o seu fracasso pessoal. Mas há outra possibilidade.

Do ponto de vista consciente, quando vê o cidadão A projetar luz sobre si, o cidadão B também pode chegar à conclusão, de que A é um idiota. A seria desprezível por sua ingenuidade e burrice. Ele pensa subconscientemente: “só um idiota veria bondade em mim”.

Mas AB à luz do seu próprio conteúdo interno de bondade, e não porque seja idiota, assim como BA à luz do seu próprio conteúdo interno de frustração e despeito.

A Chave da Vitória

A terá de transformar-se em um guerreiro para alcançar discernimento. Quando cansar de viver em um beco sem saída do mundo emocional, B terá de mergulhar em sua frustração até compreendê-la, para então alcançar o caminho da ética e da sabedoria.

A deve procurar a companhia de amigos sábios, emocionalmente saudáveis. Deve estimular a autoestima e o autorrespeito como bases de uma firmeza amável diante dos outros, invejosos ou não. Deve buscar o estabelecimento de situações em que todos ganham, e em que rege a regra “eu estou OK, você está OK”. Assim, para ele o aprendizado espiritual acelerado se torna possível e a busca da sabedoria passa a expandir o seu grau de eficiência.

NOTAS:

[1] Veja a respeito o artigo “Um Por Todos e Todos Por Um”, de Carlos Cardoso Aveline. O texto está disponível em nossos seus websites associados. 

[2] Leia o texto “Comentários à Escada de Ouro”, de Carlos Cardoso Aveline, que pode ser encontrado em nossos websites associados. 

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Veja também os artigos “Um Segredo do Trabalho Teosófico”, “Transcendendo a Competição”, “Um Por Todos e Todos Por Um” e “Quatro Ideias Para Um Poder Solidário”, de Carlos Cardoso Aveline. Veja ainda “Aprendendo Com Cada Detalhe da Vida”, de Helena P. Blavatsky. Todos estes textos podem ser encontrados em nossos websites associados. 

Sobre a missão do movimento teosófico, que envolve o despertar da humanidade para a vivência da fraternidade universal, veja o livro “The Fire and Light of Theosophical Literature”, de Carlos Cardoso Aveline. 


A obra tem 255 páginas e foi publicada em outubro de  2013 por “The Aquarian Theosophist”. O volume pode ser comprado através de Amazon Books.

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