28 de setembro de 2014

Cinco Poemas Filosóficos

 A Pedra, o Céu, o Voo, a Alma, a Felicidade

Hermes Fontes





1. A Primeira Pedra

Corpo que se encontrou abandonado de alma,
corpo que se não pôde à ação do ar decompor, -
uma pedra é uma vaga imóvel... É uma calma
recordação do mar de  que foi leito a estrada,
uma  vaga do mar dos Tempos, retardada,
que por aí ficou sem sentidos, parada,
adormecida por um íntimo torpor.

É a Impassibilidade esculturada. Dorme.
Secou-lhe o sangue, e não consegue apodrecer.
Vive? É possível. Morre? É provável. Conforme
a Vida e a Morte... A pedra é um ponto de partida.
É o princípio da Morte, é o princípio da Vida...
É um gesto contrariado, é uma força contida,
é o Ser que adormeceu em caminho do Ser...

2. Céu

Céu - teto universal dos vários povos,
de horizontes monótonos, não raro,
mas, espiritualmente, sempre novos!

Céu, firmamento, nebuloso ou claro,
nunca me falte aos olhos teu exemplo,
o teu abrigo, o teu feliz amparo!

Teu bojo azul é o verdadeiro templo,
a confluência final dos vários cultos
cujas lutas, de longe, aqui contemplo.

E os teus astros, visíveis ou ocultos,
são símbolos de fé, imagens  santas
de soberanos, misteriosos vultos...

Sobre todas as coisas te levantas:
dás vista aos olhos e dás luz às vistas,
dás cor às águas e dás água às plantas...

E sob as tuas névoas imprevistas
o horizonte se coalha, de repente,
de esmeraldas, turquesas e ametistas...

Não tens pátria, região, nem continente.
Não se sabe porque - o egoísmo humano
vê muitos céus, um do outro diferente:

Céu inglês, céu gaulês, céu italiano...
Mentira! o céu é uno e eterno: apenas,
varia pelas quatro fases do ano.

Querem manchá-lo nas paixões terrenas
em que o interesse regional se agita
entre despeitos, cóleras e penas!

É universal a abóbada infinita.
O céu é, como o amor e o pensamento,
livre, volúvel e cosmopolita...

Por isso, vivo sôfrego e sedento
de no teu seio eternamente voar
e de aprender contigo, Firmamento,
coisas que ensinas, em segredo, ao Mar...

3.Voo de Ícaro

E esta alma simples! e esta idealidade incauta!
- Reviver, previver... O Passado e o Porvir...
Navegar com Jasão, ser, de novo, argonauta,
ou, Perseu redivivo, ascender e fulgir...

Por esta alternativa aspiração, se pauta
anseio de zênite... angústia de nadir!
Pan... mas a Natureza é surda à tua flauta,
e a Civilização - poeta - só te ouve, a rir!

Foram-se os deuses. Veio o desencantamento...
A floresta desola: é catedral vazia.
A fé se extingue. O céu desmaia, em derredor...

Dilui-se em vácuo o incenso azul do Firmamento...
- Sonhos de Prometeu... Ilusão... Fantasia...
Quanto maior é o voo - ai! da queda! - é maior...

4. Alma

Alma, fonte das fontes! alma humana,
fonte de ideias e de sentimentos! -
Dela goteja e flui, dela espadana
a água letal dos ímpetos violentos...
- Estranha fonte, fonte da alma humana!

Vêm dela, excelsa fonte da alma, a insana
cólera, o desespero, ais e tormentos...
Dela, o desgosto que nos desengana
e mata à míngua os corações sedentos...
- Fonte maldita, fonte da alma humana!

Mas dela é o sonho que me banha e engana
na sua água lustral de fluídos lentos
os meus dias felizes... Dela emana
o rio eterno dos meus pensamentos...
- Miraculosa fonte, a da alma humana!

Fonte das fontes, fonte da alma humana,
fonte matriz das outras almas!... Poentos
da dolorosa luta quotidiana,
nela se apuram nossos sofrimentos,
na alma, na eterna fonte soberana!

Dela nascem as lágrimas. Promana
pranto aos olhos; aos lábios, os lamentos...
Da luminosa fonte da alma humana,
chora a Tristeza em fúnebres “mementos”,
canta a minha alegria, soberana.

Dela, da fonte da alma, sobre-humana,
- tal dos marinhos flóculos nevoentos
Afrodite nasceu - dela dimana
o Amor - a glória, o bem, os elementos
supremos da Felicidade humana...

5. A Felicidade

Existe. Eu a conheço. Ouço-a e lhe falo: fito
os meus olhos nos seus, e, exaltando-a, me exalto.
Vou tocá-la, porém... - há entre nós o infinito!
- foge o horizonte, o céu esfuma-se em cobalto...

Minha Felicidade!... hei de atingi-la!... salto
muralha por muralha, ergo-me, voo, agito
todas as asas da Alma, ando, de sobressalto
em sobressalto, atrás desse enganoso Mito...

Antes de te sonhar, vi-te, e, antes de buscar-te,
vieste... mas, para amar-te, urge-me que descentre
o Ideal para a Ambição... E ai! dos meus sonhos de arte!

Ai! de mim que sonhei ser feliz, e deponho
minha felicidade e minhas glórias, entre
a grilheta da Vida e a redenção do Sonho!...

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Os poemas acima são reproduzidos da edição de fevereiro de 2014 de “O Teosofista”. Foram publicados anteriormente no livro “Gênese”, de Hermes Fontes (1888-1930), Typographia W. Martins & C., Rio, 1913, 261 pp. A ortografia foi atualizada. “A Primeira Pedra” está na p. 34 da obra. “Céu” está nas pp. 57-58. “Voo de Ícaro” está na p. 194.  “Alma” está nas pp. 123-124.  “A Felicidade”, na p. 196.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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