30 de janeiro de 2015

Atuando no Plano das Causas

Por Que os Teosofistas
Não Dão Demasiada Atenção aos Efeitos

Carlos Cardoso Aveline




Tanto no mundo material como no plano da realidade sutil, tudo o que ocorre de modo perceptível já aconteceu antes, necessariamente, no plano das causas.

Cada evento que é percebido por alguém teve a sua cadeia de causação colocada em movimento antes de se tornar um fato consumado.

As causas, em si mesmas, são invisíveis.  Os fatos externos podem ser detectados pelos cinco sentidos, mas quando os mesmos fatos se transformam em Causas e geram consequências, a sua ação já não é tão fácil de perceber, a menos que haja uma atenção e um exame adequados por parte do observador. Aquele que busca a verdade deve ter uma estrutura de consciência que não fique presa à vasta rede cármica dos efeitos que interagem entre si.

As causas dos fenômenos são Ocultas à visão externa, e o Ocultismo ou teosofia é uma ciência das Causas. Ela estuda o que está além dos aspectos aparentes dos seres, das ações e das situações.  

Os estudantes atentos de teosofia buscam as Fontes dos acontecimentos.  Eles combatem os Alicerces, e não apenas os sintomas, do Sofrimento e da Ignorância.  Eles produzem e estimulam as Causas de libertação interior. Preferindo agir no plano Causal, frequentemente deixam que os efeitos cuidem de si mesmos. Este é um sentido oculto da famosa frase “Que os mortos enterrem os seus mortos” (Mateus, 7: 22).

De fato, a vida está sobretudo nas causas. Os pequenos fatos são a origem dos grandes acontecimentos. A vitalidade flui desde o plano oculto - a dimensão da semente - para o plano da germinação, isto é, dos pequenos resultados. Em seguida, o que é pequeno se transforma no que é grande.  Finalmente, as grandes estruturas tendem a desaparecer, de acordo com a Lei dos Ciclos. Deste modo elas abrem espaço para que novas sementes germinem e novas formas de vida cresçam, tornando visíveis outros aspectos da Vida Oculta e Infinita.

O Desejo de cada indivíduo tem uma relação preferencial com os efeitos, assim como a sua Vontade ativa está relacionada com o mundo das Causas.  Os Sábios e os Ocultistas seguem a lei da conservação da energia e focam seu esforço central nas Causas, para não perder demasiado tempo com aquilo que dificilmente pode ser mudado ou evitado - os efeitos.

Dirigindo as Causas, o indivíduo pode influenciar melhor o mundo dos efeitos. Geralmente a recíproca não é verdadeira. É bem mais difícil influenciar o mundo das Causas agindo desde o mundo dos efeitos. No entanto, causa e efeito não podem ser separados. Cada efeito é também uma causa, e cada causa, um efeito.  No Tripitaka, o cânone budista, o “Sutra dos Preceitos do Discípulo” afirma:

“Meu filho, se o bodhisattva pode contemplar causa e efeito, o efeito da causa e a causa do efeito, ele pode deste modo romper as causas e os efeitos, e obter causas e efeitos. Se o bodhisattva pode romper e obter causas e efeitos, isso é chamado de  ‘o  efeito do Dharma’ [1], o rei de todos os dharmas, e o autocontrole de todos eles.” [2]

Nas “Cartas dos Mahatmas” encontramos a seguinte definição sobre o que é filosofia esotérica:

“Nossa filosofia se encaixa na definição de Hobbes. Ela é preeminentemente a ciência dos efeitos pelas suas causas e das causas por seus efeitos (...).” [3]

De acordo com o budismo, os doze Nidanas formam a “cadeia de causação” da vida e do sofrimento dos seres humanos.  Os nomes tradicionais dos Nidanas [4] servem como exemplos para estimular o estudo e a observação da cadeia de causação presente em cada aspecto da vida. Tal cadeia de causação é, naturalmente, a cadeia do carma. Ela é a rede simétrica de apegos e rejeições, desejos e medos, formas de prazer e formas de dor.  É esta cadeia que transforma os seres humanos em prisioneiros cegos do ciclo desconfortável de nascimento e morte.

Nas Cartas dos Mahatmas, depois de descrever o mundo nidânico dos apegos humanos, um Mestre de Sabedoria faz uma pergunta difícil a um discípulo leigo que queria ter um diálogo mais de perto com os sábios dos Himalaias. O Mestre escreveu, referindo-se aos homens e mulheres comuns:

“Irá você tentar - para diminuir a distância entre nós - libertar-se da rede da vida e da morte em que todos eles estão presos (.....) ?” [5]

De fato, tudo depende de cada indivíduo. A libertação só pode ser verdadeira se for autolibertação.

O Carma é o grande professor, e a Vida nos dá valiosas oportunidades para que aprendamos.

No início de cada novo ciclo do tempo - um novo ano, uma nova década ou um novo dia de 24 horas - nós temos condições mais propícias para focar nossa consciência em uma compreensão adequada das Causas da ignorância, para evitá-las; e das Causas da obtenção da Sabedoria, para colocá-las em movimento de modo mais intenso, definido e eficaz.

NOTAS:

[1] Dharma: Do sânscrito, dever, lei, doutrina, ensinamento.

[2] “The Sutra on Upasaka Precepts”, BDK English Tripitaka, Translated from the Chinese of Darmaraksa, Numata Center for Buddhist Translation and Research, 1994, 225 pp., ver p. 38.

[3] “Cartas dos Mahatmas”, Editora Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, Carta 88, volume II, p. 54.

[4] Veja a lista dos doze Nidanas no item correspondente do “Glossário Teosófico” de H. P. Blavatsky, Ed. Ground,  SP.

[5] “Cartas dos Mahatmas”, Editora Teosófica, Carta 47, volume I, p. 214. 

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O artigo acima foi publicado pela primeira vez em inglês em nossos websites associados. Título original: “Setting Causes in Motion”. A presente tradução foi feita pelo próprio autor e, portanto, não é necessariamente literal em todos os parágrafos.

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Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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