30 de setembro de 2015

O Poder do Pensamento

 Algumas Ideias Práticas Para Quem
Deseja Assumir o Comando da Sua Própria Vida

Carlos Cardoso Aveline



Calmamente sentado entre meus livros, penso no duro combate entre sabedoria e ignorância que ocorre dentro da mente humana. É uma luta sem tréguas, e a sabedoria nunca fica parada.

O conhecimento divino é tão vivo e dinâmico como o universo. Ele se manifesta o tempo todo em fatos concretos que o confirmam e reforçam. Se ficasse imobilizado, perderia terreno. A ignorância espiritual faz o mesmo. A energia da sombra imita a luz e se disfarça e esconde. Finge que não existe mais, para depois ressurgir do nada, quase sempre disfarçada de justiça, amor e compaixão.

No palco de guerra da mente humana, bons e maus pensamentos lutam pelo comando das ações. Não basta que as ideias sejam nobres. Embora possa parecer elevado, o pensamento que não gera um ato correspondente produz com frequência mais confusão que ajuda. O pensamento é a semente da ação. A semente que não germina é perigosa, porque sua aparência engana e desinforma.

Na prática, qualquer desligamento entre sentimentos e pensamentos é inviável. Amar e compreender são dois processos diferentes, mas inseparáveis. As emoções devem estar em paz para que haja clareza no pensamento, e o pensamento deve estar límpido para que haja tranquilidade emocional.

Vejamos, por exemplo, o que ocorre na vida diária de quem busca a verdade. Sabemos que a paz está dentro de nós, mas estamos acostumados a procurar pela felicidade no mundo externo. Decidimos deixar que os nossos sentimentos e pensamentos apressados se extingam para que possamos contemplar a paz. Mas ondas de ansiedade fazem de tudo para desviar a atenção e virar o barco da serenidade.

Quando estabelecemos um pensamento para contemplar e meditar ao longo do dia, o pensamento-chave se mantém como uma casca de amendoim oscilando em mar agitado. E no entanto, se há força de vontade suficiente, a casca de amendoim tem o poder de acalmar o mar de emoções ao seu redor.  

Se dividirmos em três setores o campo total da energia humana, teremos o espaço supraconsciente, o consciente e o subconsciente; ou, se preferirmos, a dimensão divina, a humana e a animal. O grande campo da luta sem tréguas é o setor intermediário, o território do “eu” separado, o nível humano, onde se encontram a energia divina e as tendências animais. Em meio a esta batalha, o “eu” só pode influenciar gradualmente o processo da vida. As tentativas de acelerar o curso do rio ou antecipar o amanhecer serão, em parte, inúteis. Queiramos ou não, o método é sempre o mesmo. O aprendizado tem etapas, e elas giram como um carrossel. O esforço vai da observação da vida à definição de uma meta, depois à tentativa, e ao erro. Então há uma nova observação, uma nova meta, e assim sucessivamente.

As energias humanas, divinas e animais estão registradas no campo sutil que rodeia nossos corpos físicos. O coração, o cérebro, cada órgão e célula do corpo vivem um processo ondulatório de expansão e retração eletromagnéticas. A emoção, o pensamento e a intuição são também ondas elétricas, embora de frequência vibratória e sutileza diferentes. As emoções, como os pensamentos, se diferenciam muito entre si. Algumas trazem para nosso corpo padrões vibratórios harmoniosos, que produzem saúde e bem-estar, e outras não.  

O campo magnético ao redor dos nossos corpos físicos é chamado de “aura”, uma palavra latina que significa “ares”. O “ar” sutil - akasha ou luz astral - contém o registro de quem somos. Nele estão os registros do nosso passado distante e próximo, e também as sementes do futuro de curto, médio e longo prazo, que desenvolveremos desta ou daquela maneira, usando nosso livre arbítrio.

Para saber o estado da nossa aura, podemos examinar honestamente se o foco médio da nossa consciência obedece mais à nossa natureza divina ou ao nosso “eu” animal. Estaremos já preparados e dispostos a usar o poder do pensamento, sendo autores dos nossos próprios pensamentos e sentimentos? Ou ainda preferimos ser arrastados pelas circunstâncias externas?

Ao chegar a casa depois do trabalho, podemos empregar o tempo para serenar emoções, elevar os pensamentos e fazer algo útil enquanto descansamos.

Ou podemos renunciar ao uso responsável do poder do pensamento, ligar a televisão ou rádio em programas inúteis e deixar que nossas mentes sejam transformadas em depósitos de lixo mental e emocional, recebendo imagens nocivas de filmes violentos, propagandas inúteis ou pseudonotícias que giram em torno de imagens destrutivas.  

Aparentemente queremos ser donos das nossas vidas. Será que temos o poder e a força necessários para definir de fato o rumo dos nossos próprios sentimentos e pensamentos? Quando quisermos, assumiremos o poder. No livro Porta Para o Infinito, Dom Juan explica para Carlos Castaneda que a comunicação dos segredos da sabedoria iniciática nunca é verbal.[1] O segredo só se transmite quando o aprendiz é capaz de viver a lição de corpo e alma. 

Dom Juan chama de “poder pessoal” a capacidade de aplicar as verdades universais à nossa vida concreta. A pessoa que não possui “poder pessoal” pode ler, ouvir ou mesmo falar da sabedoria divina enquanto continua vivendo da mesma forma que antes, ou com mudanças apenas externas, porque não tem força suficiente para alterar sua realidade específica.

Enquanto alguém não assume a direção dos seus próprios pensamentos, a sua atitude diante da realidade é formada automaticamente por reações instintivas, mesmo que ele discurse sobre temas intelectuais e até teosóficos. A pessoa é levada pelo turbilhão superficial do oceano da vida. No fundo, porém, cada um é sempre autônomo num nível fundamental. Embora alguém possa postergar o momento em que assumirá pleno domínio da sua vida, é impossível libertar-se totalmente do seu livre-arbítrio, ou da responsabilidade pelo que pensa, sente e faz. Até mesmo a omissão é uma decisão tomada livremente, e as suas consequências retornarão a seu devido tempo para aquele que se omite. Um mestre de raja ioga escreveu, no século 19:

“... Cada pensamento do homem, ao ser produzido, passa ao mundo interno e se torna uma entidade viva associando-se - amalgamando-se, poderíamos dizer - com um elemental, isto é, com uma das forças semi-inteligentes dos reinos. Ele sobrevive como inteligência ativa - uma criatura gerada pela mente - por um período mais curto ou mais longo, proporcionalmente à intensidade da ação cerebral que o gerou. Desse modo um bom pensamento é perpetuado como força ativa e benéfica, um mau pensamento como demônio maléfico. Assim, o homem está constantemente ocupando sua corrente no espaço com seu próprio mundo, um mundo povoado com a prole de suas fantasias, desejos, impulsos e paixões; uma corrente que reage sobre qualquer organização sensível ou nervosa que entre em contato com ela na proporção da sua intensidade dinâmica. A isto os budistas chamam de ‘Skandha’. Os hindus lhe dão o nome de ‘Carma’. O adepto [um sábio] produz essas formas conscientemente; os outros homens as atiram para fora inconscientemente.”[2]

Nos seus escritos esotéricos, dirigidos inicialmente a uns poucos estudantes selecionados, Helena Blavatsky ensinou sobre a aura externa e maior de um ser humano, o ovo áurico. Imediatamente em torno do nosso corpo físico estão energias magnéticas de frequências vitais (o prana), emocionais (desejos, apegos e rejeições) e mentais (pensamentos e opiniões pessoais).

Por fora deste conjunto de carmas de curto prazo está o invólucro ou ovo áurico, o akasha puro e primordial em que estão registrados o passado e o potencial a ser desenvolvido no futuro pelo indivíduo. O ovo áurico é para o ser humano individual o que o espaço absoluto (Parabrahman) é para o universo. Quando nascemos, ele nos contém e nos inspira. Quando morremos, ele nos recolhe. Em todos os momentos, ele observa nosso crescimento em direção à luz e dialoga misteriosamente com o nosso Atma, o eu eterno, a fagulha suprema.

Vivemos em grande parte presos por hábitos, apegos e outras limitações emocionais e mentais que nós próprios criamos, direta ou indiretamente. Não temos plena consciência disso, porque um dos hábitos mais limitadores é o de não reconhecer que o mundo mental e emocional em que vivemos foi criado por nós próprios.  

O que é, afinal, que nos leva a postergar o momento em que assumiremos voluntariamente as rédeas da nossa vida?

A ciência esotérica ensina a plantar um futuro luminoso através de pensamentos, sentimentos e atos corretos. Viver sabiamente é uma questão científica e deve ser resolvida no laboratório experimental da existência cotidiana de cada um.

As grandes verdades universais, filosóficas e religiosas, provocam reações químicas purificadoras. O costume de navegar no silêncio interior nos faz despertar para o poder ilimitado de compreender e de amar o universo. Ao mesmo tempo, nos preparamos para renunciar lenta e irreversivelmente ao que não é divino. Vejamos neste ponto um exercício prático.  

Abrindo Espaço Para a Sabedoria

Pensamentos, emoções e informações são como os móveis de uma sala. Se há móveis em excesso, não existe liberdade de movimento. Um excesso de ideias na mente não permite pensar com clareza.

A mente vazia, como uma sala sem móveis, tem um potencial ilimitado. Para despertar o poder do pensamento é interessante retirar do nosso espaço mental os velhos armários cheios de lembranças inúteis, os tapetes bolorentos de emoções inferiores, o lixo acumulado das frustrações e as poltronas rasgadas das expectativas pessoais. Cabe abrir a janela para que entre ar puro.

Sete pontos básicos:

1) Todos temos assuntos que nos preocupam, mas devemos simplificar ao máximo essa “agenda de preocupações”. É preciso fazer o melhor que podemos e deixar que a vida se desenvolva livremente. Toda tentativa de ser onipotente gera sofrimento.

2) Prepare-se para o pior. Não finja que você ou os seres que ama são imortais ou jamais irão envelhecer, ou que outras coisas desagradáveis jamais ocorrerão. Esteja preparado. Seja realista. Isso elimina os medos subconscientes, desperta a coragem diante da vida e liberta o poder do pensamento.

3) Livre de medos, pense no melhor. Visualize o bem. Construa o que deseja e mantenha o pensamento positivo. A imaginação é a ação de criar imagens. Ela constrói sua vida física, emocional e mental.

4) Examine suas relações pessoais. Elas valem a pena? Decida melhorar as relações valiosas. Afaste-se das pessoas cuja influência é daninha ou desacelere, respeitosamente, as relações com elas. Ouça seu próprio coração e busque pessoas que façam o mesmo. Jamais deseje a infelicidade de outra pessoa. Você seria o principal prejudicado. Irradie, sem expectativas pessoais, sua energia positiva para as pessoas com quem você convive.

5) Abra mais espaço na sua agenda para silenciar, meditar, parar, ler lentamente bons textos sobre a arte de viver. A leitura vagarosa desperta o poder do pensamento.

6) Não deixe sua mente ociosa. Selecione pensamentos elevados dos bons livros que ler - ou crie seus próprios - e medite neles nos momentos de espera, no trabalho, no trânsito e sempre que sua mente correr o risco de ficar ociosa ou dispersa.

7) Pratique a auto-observação. Aprenda com seus erros e sua margem de êxito, clareza mental e força interior aumentarão radicalmente.

NOTAS:

[1] “Porta Para o Infinito”, Carlos Castaneda, Editora Record, RJ, 258 pp., ver capítulo um.

[2] “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Brasília, 2001, edição em dois volumes, ver volume II, Anexo I, p. 343.

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Uma versão inicial do texto acima apareceu na revista “Planeta”, de São Paulo, em agosto de 2000. Reproduzimos a presente versão atualizada da edição de novembro de 2014 de “O Teosofista”. 

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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