30 de maio de 2016

Marxismo Não Promove o Crime

Verdadeira Esquerda Jamais Apoiou Ladrões

Carlos Cardoso Aveline

Karl Marx (foto) era um idealista: viveu na pobreza
por opção pessoal e sonhava com um mundo melhor


A partir do momento em que partidos comunistas chegaram ao poder, a debilidade ética original da ideologia marxista deu origem a monstruosidades como o stalinismo e outras.

O tema do fracasso dos partidos marxistas quando chegam ao poder merece estudo, mas a falta de um enfoque ético das questões sociais tem impossibilitado a esquerda de aprender com suas derrotas. Diante dos genocídios e roubos promovidos sistematicamente em nome dos mais belos ideais socialistas, os marxistas e seus herdeiros são geralmente incapazes de raciocinar.

De qualquer modo, alguns fatos precisam ser esclarecidos.

Karl Marx, criador do materialismo dialético, não foi um grande pensador, e caiu num materialismo economicista e estreito. Mas também não foi um ladrão nem justificava governos corruptos. Longe disso. A “esquerda” fraudulenta do século 21 distorce Marx ou jamais o leu, e abraça o crime organizado como modo de obter poder político de curto prazo. Para compreender o fracasso das organizações da pseudoesquerda, cabe examinar livros sérios que abordam a presença, mesmo precária, de ética na filosofia marxista. [1]  A esquerda ignora a centralidade da questão moral.

O Materialismo Não Percebe a Alma

O marxismo é fundamentalmente errado, desde o ponto de vista teosófico. Ele não percebe nem leva em conta o fato central de que as pessoas têm uma alma. Nega, portanto, a ideia de que a evolução desta alma seja o processo mais importante da vida.

Para o chamado “socialismo científico”, o espírito não existe, ou não interessa. Os marxistas vivem, filosoficamente, presos ao delírio e à ilusão segundo os quais a felicidade depende do mundo material. No entanto, é preciso admitir que o materialismo histórico ou materialismo dialético - nomes técnicos do marxismo -, têm como premissa básica que os seus estudantes e seguidores devem ser pessoas honestas e altruístas.

Tradicionalmente, os militantes de esquerda estão voltados para o bem da comunidade e optam pela simplicidade voluntária. Eles dedicam-se a um ideal nobre, evitam a política de ataques pessoais e, naturalmente, abstêm-se de roubar o dinheiro do povo e de assaltar qualquer pessoa.

Isso, porém, não é o que se vê no Brasil, especialmente desde que o Partido dos Trabalhadores (PT) chegou à presidência da república e passou a viver uma implosão - primeiro moralmente, depois politicamente - devido à prática constante do roubo e do suborno.  

É significativo o fato de que desde a fundação do PT, no início da década de 1980, os seus militantes raramente estudam a filosofia marxista clássica. Tampouco tiraram qualquer lição da queda do Muro de Berlim, em 1989, ou do final da União Soviética, no início dos anos 1990.

A falta de valores profundos e de uma filosofia abrangente condena todo partido político à irrelevância dos jogos eleitorais e alianças táticas sem ética ou ideal. 

Luciana Genro Examina a Fraude

A luta pela ética na política é uma necessidade de todos os povos e de cada cidadão honesto. Os ladrões que se apresentam como sendo “de esquerda” estão na verdade atacando de modo encoberto e traiçoeiro os ideais básicos de justiça social.

O sentido de responsabilidade moral não é de esquerda, ele não é de direita, ele é de todas as pessoas decentes e autoconscientes, independentemente de opinião política ou clube de futebol. Marx, Engels, Lênin e Trotsky sonharam com uma ética mais elevada. De outro lado, o populismo puramente verbal, aliado a políticas fraudulentas que favorecem banqueiros e empresas capitalistas dominantes, é trivial, corrupto e criminoso. 

Para compreender os aspectos políticos internos do processo autodestrutivo vivido no século 21 pela pseudoesquerda eleitoral, vale a pena ler o livro “A Falência do PT”, de Luciana Genro e Roberto Robaina.[2] A obra tem uma perspectiva radical, cheia de impaciência, mas honesta.


Escrito em um estilo estridente, o livro mostra com fatos inegáveis que a direção nacional do PT abandonou os ideais da esquerda, adotou a mentira como método e passou a adorar o dinheiro, o poder e as conveniências de curto prazo. Isso é dito e demonstrado por militantes sinceros da esquerda clássica que não entraram no jogo sujo, e foram perseguidos dentro do partido por denunciarem o esquema.

Gerações de ativistas que buscavam a justiça social enfrentaram exílio, prisão, tortura e, em muitos casos, foram mortos ao defenderem um ideal nobre.

Viveram pobremente por opção própria. Rejeitavam toda forma de desonestidade. Sua meta jamais foi ver um partido político falar em nome dos trabalhadores enquanto assalta os cofres públicos e tenta estabelecer uma cleptocracia, regime político que dá o poder aos ladrões. É preciso deixar claro que a prática da mentira não é de esquerda, e que o roubo não favorece o povo.

A Lei Fundamental de Kant

Toda filosofia e conhecimento autênticos estão ligados a alguma forma de Ética altruísta, devendo a ela a sua legitimidade. E cabe lembrar que em qualquer tempo e lugar o grau de honestidade dos líderes políticos ou espirituais está em relação direta com o nível médio de ética da população em geral.

Os dois fatores alimentam-se um ao outro.

Por isso, em toda atividade humana, as pessoas devem fazer um esforço para retirar ladrões e mentirosos das posições de liderança. É igualmente necessário que os cidadãos examinem a si mesmos e aceitem um fato básico: cada um tem o dever de agir de um modo que, se todos os outros seguissem o seu exemplo, a comunidade mundial viveria com um grau correto de justiça e ética. Este princípio é o que Immanuel Kant chama de “Lei Fundamental da Razão Pura Prática”.

O Renascimento da Honestidade

A filosofia esotérica ilumina cada aspecto da vida diária de dentro para fora, de modo a desmantelar as ilusões.  

A ética, a atitude moderada e a autorresponsabilidade são três fontes de cura em todas as atividades sociais. No berço da doença estão o fanatismo, a intolerância e a projeção de tudo o que há de errado sobre uma imagem distorcida dos adversários.

Vistos em si mesmos os rótulos superficiais como “esquerda” e “direita”, ou “progressista” e “conservador”, têm escassa utilidade. É preciso saber se as políticas e campanhas eleitorais expressam sentimentos de solidariedade e compaixão, ou estimulam ódio e má vontade. Cabe examinar se as propostas políticas abordam questões reais. Talvez estejam limitadas a propaganda e ao uso de palavras-de-ordem enganosas.


Um partido ou associação eficaz lida respeitosamente com os adversários e discute questões prioritárias, de modo impessoal. O uso de ataques a esta ou aquela pessoa é um modo de disfarçar o fato de que não há verdadeiramente ideias a apresentar. Toda ação política durável tem como base o respeito pela verdade e o conhecimento de que aquilo que se planta, se colhe.   

A franqueza é importante: os conflitos ocorrem, e a sinceridade com frequência é algo difícil de aceitar. O cidadão deve observar em que partidos a honestidade é mais forte, e ajudar a desmascarar as ações mentirosas. O dever de cada líder é estimular as melhores intenções em todos e articular a boa vontade comum.  

Cabe seguir os debates e ações comunitárias com cuidado, porque as aparências enganam. A crítica impessoal aos adversários deve ser compensada com um grau saudável de autocrítica. A sinceridade fica comprovada quando a liderança admite os erros cometidos e aprimora o trabalho, identificando e corrigindo as falhas. 

NOTAS:

[1] Um exemplo é a obra de “The Ethical Foundations of Marxism”, de Eugene Kamenka, Routledge & Kegan Paul, Ltd., London and Boston, 208 pp., 1962. Em português, como prova de que o marxismo, mesmo errado, propõe uma visão ética e generosa do mundo e não apoia criminosos, leia-se “Princípios Fundamentais de Filosofia”, de Georges Politzer, Guy Besse e Maurice Caveing, Editora Fulgor, SP, 1962, 396 pp. Veja-se também o histórico “Manifesto do Partido Comunista”, de K. Marx e F. Engels. Entre as suas numerosas edições está a de Publicações Notícias, Moçambique, 1975, 57 pp.

[2] “A Falência do PT, e a Atualidade da Luta Socialista”, Luciana Genro e Roberto Robaina, L&PM Editores, 2006, 160 pp.

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Uma versão inicial do artigo acima foi publicada na edição de maio de 2016 de “O Teosofista”, pp. 1-4. Título original: “A Verdadeira Esquerda Jamais Defendeu o Crime”.

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Para conhecer um diálogo documentado com a sabedoria de grandes pensadores dos últimos 2500 anos, leia o livro “Conversas na Biblioteca”, de Carlos Cardoso Aveline.


Com 28 capítulos e 170 páginas, a obra foi publicada em 2007 pela editora da Universidade de Blumenau, Edifurb.  

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