8 de agosto de 2016

Um Encontro com HPB

Um Trecho da Melhor Biografia de
Helena P. Blavatsky Escrita Até Hoje

Sylvia Cranston 

Anita Atkins (à esquerda), usava o pseudônimo literário de Sylvia Cranston



Nota Editorial

O texto a seguir é reproduzido da obra “Helena Blavatsky” de Sylvia Cranston, Editora Teosófica, Brasília, 1997, 678 pp., pp. 365-370. Foi também publicado na edição de junho de 2015 de “O Teosofista”.  

Sylvia Cranston é o pseudônimo literário de Anita Atkins. Nascida a 12 de dezembro de 1915, Anita associou-se ainda jovem à Loja Unida de Teosofistas e trabalhou a vida toda em aliança com a LUT. Autora de diversos livros, Anita viveu até junho de 2000.

(Carlos Cardoso Aveline)

Um Encontro com HPB

Sylvia Cranston

Charles Johnston, um jovem irlandês, visitou HPB enquanto ela vivia em Maycott [Londres]. Ele foi um dos fundadores da Sociedade Teosófica em Dublin, à qual pertenceram William Butler Yeats e outros escritores irlandeses. Hoje em dia, Johnston é mais conhecido pelas suas inspiradas traduções de alguns clássicos hindus.

Ele aprendeu sânscrito enquanto se preparava para assumir um posto no Serviço Civil Indiano, e depois de retornar da Índia ensinou o idioma em Londres. Um livro seu a respeito dessa antiga língua recebeu elogios do orientalista Max Müller. Na virada do século, e até muitos anos depois, Johnston viveu em Nova Iorque, onde trabalhou ativamente no movimento teosófico e ensinou sânscrito na Universidade de Columbia.

Segue-se uma versão resumida da sua entrevista com HPB.

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Conheci a velha e querida “HPB”, como ela fazia com que todos os seus amigos a chamassem, na primavera de 1887. Alguns discípulos seus tinham alugado uma casa bonita em Norwood, de onde se via a enorme cúpula de vidro e as torres gêmeas do Palácio de Cristal, brilhando acima de um labirinto de ruas e terraços. Londres, mesmo suja, era bela. HPB estava terminando seu trabalho diário. A primeira visão que tive foi a do seu cabelo ondulado enquanto se voltava, e depois dos seus olhos maravilhosamente poderosos quando me dava as boas-vindas: “Meu querido amigo, estou tão feliz em vê-lo! Venha conversar comigo! Você chegou justamente a tempo de tomar um pouco de chá!” Então, um grito agudo por “Louise” fez sua empregada doméstica suíça aparecer para receber uma grande quantidade de ordens, em francês.

Quando ficamos comodamente sozinhos, ela me contou uma história fascinante sobre a devoção de Louise. HPB tinha ficado, em algum lugar, desprovida da sua fonte de renda, penso que foi na Bélgica, e as coisas ficaram bastante difíceis por um tempo. Um cavalheiro rico pediu para ver a famosa feiticeira russa e deu uma gorjeta generosa à sua empregada doméstica. Logo depois que ele partiu, Louise apareceu ruborizada e pedindo desculpas: “Talvez a senhora não fique ofendida”, ela gaguejou, “mas eu não preciso do dinheiro”; e tentou transferir a gorjeta para a sua patroa.

A chegada de Louise cortou a história, e HPB mudou de assunto com um sorriso cheio de humor e ironia:

“Naturalmente você já leu o Relatório da S.P.P. - a Sociedade de Pesquisa de Fantasmas - e sabe que sou uma espiã russa, a campeã de fraudes dos tempos atuais?”

Sim, eu havia lido o relatório. Mas já conhecera o seu conteúdo anteriormente. Havia estado na reunião onde ele foi lido pela primeira vez, dois anos antes. Mas até onde posso ver [Hodgson] nunca investigou realmente qualquer fenômeno oculto completamente. Ele simplesmente investigou lembranças fracas e confusas deles nas mentes de testemunhas indiferentes. [Myers] veio até nós, depois da reunião, e perguntou-me sorrindo o que eu pensava do relatório. Respondi que era a coisa mais injusta e unilateral que eu ouvira alguma vez, e que se já não fosse um membro da Sociedade Teosófica, teria me unido a ela diante da força de tal ataque. Ele deu um sorriso pálido e mudou de assunto.

“A coisa engraçada a respeito dos pesquisadores psíquicos”, disse eu, “é que eles provaram para si mesmos que a maioria desses poderes mágicos são exatamente o que você diz que são, e eles parecem ter adotado em conjunto, para não dizer roubado, o seu ensinamento sobre a Luz Astral. Pegue a coisa que eles mais ridicularizaram: as viagens dos adeptos e dos seus discípulos em corpo astral. Você sabe como eles são severos com o pobre Damodar e suas viagens em corpo astral de uma parte da Índia para a outra e mesmo da Índia para Londres. Bem, eles mesmos têm provas perfeitamente consistentes sobre esses fatos. Conheço um membro do comitê deles, um professor de Física, que descobriu a transferência de pensamento e fez as primeiras experiências nessa área. Ele me mostrou um bom número de documentos ainda não publicados, e entre eles havia uma narrativa dessas viagens astrais, feitas de modo completamente consciente. Penso que o viajante astral foi um jovem médico, mas isso é apenas um detalhe. O ponto principal é que ele escreveu um diário das suas visitas, e um registro delas foi feito também pela pessoa que ele visitava, e os dois relatos coincidem perfeitamente. Eles têm toda a coisa devidamente autenticada e impressa, e já quando você diz exatamente a mesma coisa eles a chamam de impostora. Por quê?”

“Eles nunca farão muito. Eles ficam muito presos a linhas materiais”, disse HPB, “e são muito temerosos. Esse é o motivo secreto pelo qual eles se voltaram contra mim. Eles têm medo de causar um terremoto se disserem que nossos fenômenos são verdadeiros. Imagine o que isso significaria! Bem, isso praticamente submeteria a ciência moderna aos nossos mahatmas e a tudo que tenho ensinado sobre os habitantes do mundo oculto e os seus poderes tremendos.”

Nunca vi admiração e reverência mais autêntica em um rosto humano, do que quando ela falava a respeito do seu Mestre. Perguntei algo a respeito da idade dele. Ela respondeu: “Meu caro, não posso dizer com exatidão, pois não sei. Mas posso contar a você o seguinte. Eu o conheci quando tinha vinte anos - em 1851. Ele era um homem jovem no auge da sua força. Agora eu sou uma mulher velha, mas ele não está nem um só dia mais velho. Isto é o que posso dizer. Você pode tirar as suas próprias conclusões.”

Ela contou-me então alguma coisa sobre outros Mestres e adeptos que havia conhecido - pois ela fazia uma diferença, como se os adeptos fossem os capitães do mundo oculto, e os Mestres, os generais. Ela havia conhecido adeptos de várias raças, do norte e do sul da Índia, Tibete, Pérsia, China, Egito; de várias nações europeias, da Grécia, Hungria, Itália, Inglaterra; de certos povos da América do Sul onde, ela dizia, havia uma Loja de Adeptos.

“Segundo essa tradição, os conquistadores espanhóis encontraram a cidade de ouro de Manoah ou El Dorado”, disse ela. “A raça tem uma origem comum com os antigos egípcios, e os adeptos ainda preservam em segredo inviolável o lugar onde moram. Há certos membros das lojas que passam de centro em centro, mantendo permanentes linhas de contato entre eles. Mas eles estão sempre conectados de outras maneiras.”

“Em seus corpos astrais?” - “Sim”, ela respondeu, “e de outras maneiras ainda mais elevadas. Eles têm em comum sua vida e seu poder. À medida que se elevam espiritualmente, eles se colocam acima das diferenças de raça, e para eles há uma só humanidade comum a todos. A série é ininterrupta. Os adeptos são uma necessidade na natureza e na super-natureza. Eles são os elos entre os homens e os deuses; e a palavra ‘deuses’ refere-se às almas de grandes adeptos e Mestres de raças e idades anteriores, e assim por diante, até o limiar do Nirvana. A continuidade é ininterrupta.”

“E o que eles fazem?”

“Você dificilmente poderia compreender, a não ser que fosse um adepto. Mas eles sustentam e mantêm ativa a vida espiritual da humanidade.”

“Como os adeptos guiam as almas dos homens?”

“De muitas maneiras, mas principalmente dando ensinamentos diretamente às suas almas, no mundo espiritual. É difícil entender isso. Mas é compreensível. Em certos intervalos regulares, eles tentam transmitir ao mundo como um todo um conhecimento correto das coisas espirituais. Um deles vem à frente para ensinar as massas, e é considerado, segundo a tradição, o fundador de uma religião. Krishna foi um desses Mestres; e Zoroastro; assim também foram Buda e Shankaracharya, o grande sábio do sul da Índia. E o Nazareno [Jesus].”

“Os adeptos têm algum registro secreto de suas vidas?”

“Eles têm que ter”, ela respondeu, “pois eles têm registros das vidas de todos os Iniciados. Certa vez eu estava numa grande caverna-templo nas montanhas do Himalaia, com o meu Mestre. Lá havia muitas estátuas de adeptos e, apontando para um deles, ele disse: ‘Este é aquele que você chama de Jesus. Nós o consideramos um dos maiores entre nós’.”

“Mas esse não é o único trabalho dos adeptos. Em períodos muito mais curtos, eles enviam um mensageiro para tentar transmitir ensinamentos ao mundo. Tais períodos acontecem no último quarto de cada século, e a Sociedade Teosófica representa o seu trabalho para esta época.”

“Como isso beneficia a humanidade?”

“Qual é o benefício, para você, de conhecer as leis da vida? Isso não o auxilia a escapar da doença e da morte? Bem, há uma doença da alma e uma morte da alma. Só o verdadeiro ensinamento da vida pode curar isto. As igrejas dogmáticas, com o seu inferno e condenação, o céu de metal, seu fogo e enxofre, tornaram quase impossível aos seres pensantes acreditar na imortalidade da alma. E se eles não acreditam numa vida após a morte, então não terão vida após a morte. Esta é a Lei.”

“Como é possível que aquilo que as pessoas acreditam as afete? Qualquer coisa que pensem pode ser verdadeira ou falsa.”

“As crenças das pessoas as afetam da seguinte maneira. A vida após a morte é determinada pelas aspirações e pelo desenvolvimento espiritual que ocorre no mundo sutil. De acordo com o crescimento de cada um [em nosso mundo], assim será a sua vida no pós-morte. Ela é o complemento da sua vida aqui. Todos os anseios espirituais não-satisfeitos, todos os desejos por uma vida mais elevada, todas as aspirações e sonhos por coisas nobres florescem na vida espiritual, e então a alma tem o seu dia, porque a vida na terra é a sua noite. Mas se você não tem aspirações nem anseios mais elevados, nem acredita em qualquer tipo de vida após a morte, então não há substância para a sua vida espiritual; sua alma é uma folha em branco.”

“O que acontece a você então?”

“Você irá reencarnar imediatamente, quase sem qualquer intervalo, e sem alcançar a consciência no outro mundo.”

“O que mais vocês - como teosofistas - ensinam?”

“Bem, meu senhor! Parece que estou passando por um exame completo esta noite”, respondeu ela com um sorriso. “Nós ensinamos algo muito antigo e que precisa ser ensinado. Ensinamos a fraternidade universal.”

“Não vamos perder-nos em noções. Explique exatamente o que você quer dizer com isso.”

“Vou pegar um fato concreto”, disse ela. “Consideremos os ingleses. Como eles são cruéis! Como maltratam os meus pobres hindus!”

“Eu sempre pensei que eles fizeram bastante bem para a Índia do ponto de vista material”, objetei.

“Mas qual é a utilidade de benefícios materiais se você é desprezado e tripudiado moralmente todo o tempo? Se os seus ideais de honra nacional e glória forem esmagados na lama, e se você tiver de sentir todo o tempo que é uma raça inferior - uma ordem inferior de mortais? Os ingleses os chamam de porcos e acreditam sinceramente nisso. Bem, a fraternidade universal seria exatamente o contrário disto. Nenhum benefício material, por maior que seja, pode compensar a ferida nas suas almas e o esmagamento dos seus ideais. Há também outro aspecto nessa questão, que os teosofistas sempre apontam. Não há realmente ‘raças inferiores’, pois todos são um na nossa humanidade comum; e como todos nós tivemos encarnações em cada uma dessas raças, devemos ser mais fraternais com elas. Estes povos são os nossos protegidos, foram confiados a nós; e o que fazemos? Nós invadimos suas terras e atiramos neles diante de suas próprias casas, ultrajamos suas mulheres e roubamos os seus bens, e depois, com uma expressão amável e hipócrita no rosto, viramos as costas e dizemos que estamos fazendo isso para o bem deles. Mas há uma lei justa; ‘a língua falsa sofrerá com a sua mentira; o saqueador rouba para entregar-se. Você não progredirá enquanto não pagar tudo o que deve’.”

“Então os adeptos a mandaram para ensinar isto?”

“Sim, isto e outras coisas - coisas que são  muito importantes, e em pouco tempo serão ainda mais importantes. Há o perigo da magia negra, para a qual todo o mundo, especialmente a América, está correndo tão rapidamente quanto pode. Só um conhecimento amplo da real natureza psíquica e espiritual do homem poderá salvar a humanidade de graves perigos.”

“Histórias de feiticeiras neste chamado século dezenove, nesta era iluminada?”

“Sim, senhor! Histórias de feiticeiras nesta era iluminada! E guarde bem as minhas palavras! Você terá histórias de feiticeiras como a Idade Média jamais sonhou. Países inteiros cairão sem perceber na magia negra [1], com boas intenções, sem dúvida, mas preparando o caminho para o inferno, mesmo assim! Você não vê o mal tremendo do culto ao hipnotismo? O hipnotismo e a sugestão são poderes grandes e perigosos, exatamente porque a vítima nunca sabe quando está sujeita a eles; sua vontade é roubada. Essas coisas podem começar com objetivos bons e propósitos corretos. Mas sou uma mulher velha e já vi muito da vida humana em muitos países, e gostaria imensamente de poder acreditar que esses poderes serão utilizados apenas para o bem! Se você pudesse prever o que eu prevejo, você começaria, de corpo e alma, a difundir o ensinamento da fraternidade universal. Ele é a única garantia!”

“Mas como a fraternidade universal pode defender as pessoas do hipnotismo?”

“Pela purificação dos corações das pessoas que fariam mau uso dele. E a fraternidade universal tem como base a alma comum. É porque há uma alma comum a todos os homens que a fraternidade, ou mesmo uma compreensão comum, é possível. Se fizermos os homens apoiarem-se sobre esta base, eles serão salvos. Há um poder divino em cada homem, que rege a sua vida e que ninguém pode influenciar para o mal - nem mesmo o maior mago. Que os homens coloquem as suas vidas sob essa orientação e não terão nada a temer de homem algum nem do demônio.”

“E agora, meu caro, já é tarde e estou ficando com sono. Portanto tenho que desejar-lhe uma boa noite!”

E a Velha Senhora despediu-se de mim com o ar majestoso que possuía e que nunca a deixou, porque era parte dela mesma. Ela foi a mais perfeita aristocrata que jamais conheci.

NOTA DE S. CRANSTON:

[1] Hitler e os principais dirigentes nazistas usavam as artes da magia, segundo se diz, ao executarem as políticas adotadas pelo Terceiro Reich. A lavagem cerebral hipnótica era uma prática comum.

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Para conhecer um diálogo documentado com a sabedoria de grandes pensadores dos últimos 2500 anos, leia o livro “Conversas na Biblioteca”, de Carlos Cardoso Aveline.


Com 28 capítulos e 170 páginas, a obra foi publicada em 2007 pela editora da Universidade de Blumenau, Edifurb.  

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