26 de outubro de 2016

As Bênçãos da Publicidade

E Os Perigos De Um Conhecimento Sem Ética

Helena P. Blavatsky



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Nota Editorial:

Este  texto extraordinário mostra por que
razão certos níveis de conhecimento místico
não podem cair nas mãos erradas e não devem  
ser amplamente divulgados.  Para demonstrar a
necessidade de uma tradição esotérica autêntica,
que fique de fora das epidemias de irresponsabilidade
ética,  HPB exemplifica com a falta de  honestidade
da ciência convencional. Publicado pela primeira
vez em 1891, o texto antecipa a ameaça do terrorismo
e o perigo  de proliferação nuclear que o mundo
enfrenta na primeira parte do século 21.

(Carlos Cardoso Aveline)

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Um orador público bem conhecido, notável egiptólogo, disse algumas palavras sugestivas em uma das suas palestras contrárias ao ensinamento teosófico. Elas são reproduzidas a seguir, e devem ser respondidas:

“É uma ilusão supor que haja alguma coisa, na experiência ou na sabedoria do passado, cujos resultados comprovados só possam ser comunicados sob o manto e a máscara do mistério.... A explicação é a Alma da Ciência. Eles dirão que não podemos obter o conhecimento deles sem viver a vida que eles vivem..... A pesquisa pública e experimental, a publicação impressa e uma plataforma de livre pensamento, aboliram a necessidade de mistério. Já não é necessário para a ciência vestir o véu que ela era forçada a usar, por segurança, no passado”. Etc.

Esta visão tem um aspecto bastante equivocado. Os “segredos de uma vida mais pura e mais profunda” não só podem, mas devem tornar-se universalmente reconhecidos. Mas há segredos que matam, nos arcanos do Ocultismo; e a menos que um homem viva a vida corretamente [1] ele não pode ser autorizado a conhecê-los.

O professor Faraday tinha sérias dúvidas sobre se seria sábio e adequado divulgar ao público em geral certas descobertas da ciência moderna. A Química havia levado em nosso século à descoberta de meios de destruição tão terríveis que não se poderia permitir que caíssem em mãos profanas. Diante de tantas aplicações malignas da dinamite e de outras substâncias explosivas que são promovidas por estas encarnações do Poder Destrutivo que gostam de chamar a si mesmas de Anarquistas e Socialistas − dificilmente um homem de bom senso não se somaria a nós para dizer: “Teria sido muito melhor para a humanidade que nunca se tivesse explodido uma rocha por meios modernos e aperfeiçoados, se com isso se evitasse a destruição da vida mesmo de um por cento dos que foram atingidos desta maneira pela mão impiedosa de niilistas russos, revolucionários irlandeses e anarquistas.”

O fato de que tais descobertas, e principalmente a sua aplicação para fins de assassinato, deveriam ter sido mantidas longe do conhecimento público, pode ser demonstrado com base na autoridade das estatísticas e das comissões nomeadas para investigar e registrar o mal que foi feito. As informações seguintes, reunidas a partir de jornais, permitirão compreender o que talvez aguarde no futuro a infeliz humanidade.

Só a Inglaterra − o centro da civilização − tem 21.268 firmas fabricando e vendendo substâncias explosivas. [2] Mas os centros do comércio de dinamite, de máquinas infernais e outros resultados semelhantes da moderna civilização são, principalmente, a Filadélfia e Nova Iorque. É na antiga cidade do “Amor Fraterno” que prospera agora o mais famoso fabricante de explosivos. E é um dos bem conhecidos e respeitáveis cidadãos que inventou e fabrica os “brinquedos de dinamite” mais mortais. Chamado a depor diante do Senado dos Estados Unidos, que estava ansioso por adotar meios para impedir um comércio demasiado livre de tais instrumentos, ele usou de uma argumentação que deveria ficar imortalizada devido ao cinismo dos seus sofismas:

“Minhas máquinas”, disse o especialista segundo as notícias, “são completamente inofensivas quando olhamos para elas; e elas podem ser produzidas na forma de laranjas, chapéus, barcos e qualquer coisa que se deseje..... Criminoso é aquele que mata pessoas por meio de tais máquinas, e não quem as fabrica. A firma se recusa a admitir que se não houvesse oferta não haveria incentivo para a demanda no mercado; mas insiste em que toda demanda deve ser atendida por uma pronta oferta.”

Esta “oferta” é um fruto da civilização e da publicidade que rodeia a descoberta de cada propriedade violenta da matéria. Do que se trata? Segundo afirma o Relatório da Comissão nomeada para investigar a variedade e o caráter das chamadas “máquinas infernais”, até o momento os seguintes implementos para a destruição instantânea de seres humanos já estão disponíveis. As que estão mais na moda, entre todas as variedades fabricadas pelo sr. Holgate, são a “Tiquetaque” [3], a “Máquina dos Oito Dias”, a “Pequena Exterminadora”, e a “Máquina da Garrafa”. A “Tiquetaque” parece um pedaço de chumbo, com 30 centímetros de comprimento e quatro polegadas de espessura. Ela contém um ferro ou um tubo de aço, cheio de uma espécie de pólvora inventada pelo próprio Holgate. Esta pólvora é aparentemente igual a qualquer outra substância classificada sob o mesmo nome, mas tem um poder explosivo duzentas vezes maior que a pólvora comum. Assim, a “Tiquetaque” contém uma pólvora equivalente a cerca de 100 quilos de pólvora comum. Numa extremidade do mecanismo há uma espécie de relógio sem mostrador, cujo objetivo é regular o tempo da explosão. O tempo pode ser regulado para qualquer momento desde um minuto até 36 horas. A faísca é produzida por meio de uma agulha de aço que dá um golpe em um ouvido de arma-de-fogo, e dali o fogo se transmite para toda a máquina.

A “Máquina dos Oito Dias” é considerada a mais poderosa, mas também a mais complicada de todas que já foram inventadas. É preciso estar bem familiarizado com o seu manejo para que um completo êxito seja possível. Graças a esta dificuldade, o destino terrível que havia sido planejado para a Ponte de Londres foi evitado devido à morte instantânea de dois criminosos, revolucionários irlandeses. O tamanho e a aparência desta máquina muda como Proteu [4], conforme a necessidade de transportá-la clandestinamente, de uma ou de outra forma, sem que as vítimas percebam. Ela pode estar oculta em um pão, em uma cesta de laranjas, em um líquido, etc. A Comissão de Especialistas declarou  − segundo as informações disponíveis −  que o seu poder explosivo é tamanho que poderia reduzir a átomos, instantaneamente, o maior edifício do mundo.

A “Pequena Exterminadora” é um utensílio de aparência simples e inocente, com a forma de uma modesta jarra. Ela não contém dinamite nem pólvora, mas ela emite um gás mortal, e tem um relógio quase imperceptível anexado à sua extremidade, cujo ponteiro aponta para o momento em que o gás será liberado. Em um salão fechado, este novo “vril” [5] de espécie letal irá acalmar até a morte, quase instantaneamente, qualquer ser vivo situado a uma distância de 30 metros, o raio da jarra assassina. Com estas três “últimas novidades” no período de auge da civilização Cristã, o catálogo dos dinamitadores se fecha; todo o resto pertence aos velhos “costumes” de anos anteriores. São os chapéus, os porta-charutos, as garrafas de aparência comum, e mesmo garrafas de sais aromáticos de senhoras, cheios de dinamite, nitroglicerina, etc., etc. Num cumprimento inconsciente da lei cármica, algumas destas armas mataram muitos dos dinamitadores na última revolução de Chicago. Acrescente a isso a próxima energia vibratória de Keely [6], prometida há muito tempo, capaz de reduzir um boi morto a uma pilha de cinzas em alguns segundos, e pergunte a si mesmo se o Inferno de Dante é uma localidade que poderia rivalizar com a Terra na produção dos mecanismos mais infernais de destruição!

Assim, se implementos puramente materiais são capazes de explodir, desde algumas esquinas, as maiores cidades do mundo − desde que as armas assassinas sejam guiadas por mãos hábeis − que perigos terríveis não poderiam surgir, se segredos mágicos e ocultos fossem revelados, e se fosse permitido que eles chegassem às mãos de pessoas mal-intencionadas! Tais segredos são mil vezes mais perigosos e letais, porque nem a mão criminosa, nem a máquina imaterial e invisível usada, podem ser detectadas.

Os magos negros congênitos − aqueles que, além de uma inclinação inata para a maldade, possuem uma natureza mediúnica altamente desenvolvida − são muito numerosos na época atual. Já é hora, portanto, de que os psicólogos e os crentes, pelo menos, cessem de proclamar as vantagens da publicidade, e de exigir que o conhecimento dos segredos da natureza seja dado a todos. Não é em nossa era atual, de “sugestão” [7] e de “explosivos”, que o Ocultismo pode abrir de par em par as portas dos seus laboratórios, exceto para aqueles que realmente vivem de modo correto.

NOTAS:

[1] “Viver a vida corretamente”. No original, “live the life” é uma expressão idiomática. Significa viver corretamente, viver a vida mística, a vida ética, a vida teosófica. (CCA)

[2] Nota de Helena Blavatsky: A nitroglicerina já faz parte de compostos medicinais. Médicos e farmacêuticos estão competindo com os anarquistas para ver quem melhor destrói o excesso de população humana. Diz-se que os famosos comprimidos de chocolate contra dispepsia contêm nitroglicerina! Eles podem salvar, mas podem matar com mais facilidade.

[3] “Tiquetaque”. No original em inglês, “ticker”. (CCA)

[4] “Proteu”. Na mitologia grega, Deus marinho, encarregado de cuidar dos rebanhos de foca do deus Poseidon.  Como todas as divindades marinhas, pode assumir a forma que quiser. (CCA)

[5] “Vril”. Energia invisível, presente na luz astral, de certo modo equivalente a alguns aspectos da energia nuclear, e que foi descrita com este termo por Edward Lytton em seu romance “The Coming Race” (“A Próxima Raça”). (CCA)

[6] “Keely”. Trata-se de John Worrell Keely (1837-1898), que viveu na cidade de Filadélfia e construiu uma máquina para usar a energia da luz astral, ou etérica. Foi, portanto, um pioneiro do “vril” de Edward Lytton e da energia cujas instâncias mais grosseiras são hoje conhecidas como “energia atômica”. Keely é extensamente citado em “A Doutrina Secreta”, de H.P. Blavatsky. O teosofista holandês Theo Pajmans publicou em 1998 uma obra extensa e bem documentada sobre a vida e o trabalho deste pioneiro das pesquisas energéticas: “Free Energy Pioneer: John Worrell Keely”, IllumiNet Press, EUA, 472 pp. (CCA) 

[7] “Sugestão”. Escrevendo no século 19, HPB está em contato também com o futuro. Como se sabe, a propaganda eletrônica é hoje uma forma de sugestão psíquica, e tem elementos em comum com o hipnotismo. A propaganda comercial e seus processos de sugestão são decisivos para a economia consumista, assim como a propaganda política (inclusive subliminar) exerce influência fundamental nas decisões tomadas coletivamente nesta primeira parte do século 21. (CCA)

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O texto acima foi publicado pela primeira vez em agosto de 1891. Título original: “The Blessings of Publicity”. Traduzido da coletânea em três volumes “Theosophical Articles”, H.P. Blavatsky, The Theosophy Co., Los Angeles, 1981, volume II, pp. 393-396.

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Em setembro de 2016, depois de cuidadosa análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas, que tem como uma das suas prioridades a construção de um futuro melhor nas diversas dimensões da vida. 

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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