12 de janeiro de 2017

Fragmentos de Demócrito

A Filosofia Como Uma Sabedoria de Vida

Carlos Cardoso Aveline

Estátua clássica supostamente representando Demócrito


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Nota Editorial:

A fonte das citações neste artigo é o livro
Los Filósofos Presocráticos - Leucipo y
Demócrito, Introdução, Tradução e Notas
de Maria Isabel Santa Cruz de Prunes e Nestor
Luis Cordero, Ed. Planeta DeAgostini/Gredos,
Madrid, Espanha, 1998, 308 pp. A página de
onde foi traduzido cada trecho é indicada  
entre parênteses ao final  das citações. [1]  

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O filósofo grego Demócrito de Abdera, pré-socrático atomista, tem datas controversas. Nasceu em algum momento entre 470 e 460 antes da era cristã, e morreu com uma idade situada em algum ponto entre os 90 e os 109 anos de idade.

Perto do fim, sentindo que o corpo físico estava suficientemente gasto, Demócrito decidiu jejuar até a morte. Depois de quatro dias sem nada comer, conta Hermipo:

“Sendo já muito ancião, próximo à morte, sua irmã estava aflita porque morreria durante a festa das Tesmofórias e ela não poderia, então, cumprir com seu dever para com a deusa. Demócrito pediu-lhe tranquilidade, e lhe ordenou que lhe levasse, a cada dia, pães quentes. Limitando-se a aproximar os pães do nariz, Demócrito conseguiu deste modo manter-se durante a festa. Quando esta concluiu, depois de três dias, ele abandonou a vida sem sofrimentos – como diz Hermipo – com a idade de 109 anos.” (p. 43)

Segundo alguns relatos, Demócrito ria constantemente.  

Ele ria do apego pelas coisas fúteis que é típico do ser humano. Um riso contínuo agitava seu peito. Tudo o que dizia respeito ao homem, para ele, era ridículo. Ele era chamado de “a Sabedoria que ri”. (p. 37)

Demócrito (470 a.C? - 370 a.C.?) foi contemporâneo de Sócrates (470 a.C.- 399 a.C.). Sua inclusão entre os “pré-socráticos”, portanto, tem valor relativo. Seguramente, Demócrito afirma o mesmo princípio fundamental da filosofia socrática (“só sei que nada sei”), e faz isso a partir da sua própria elaboração física e atomista.

Vejamos alguns fragmentos nesse sentido: 

* “Que não compreendemos como é em realidade cada coisa, e como não é, tem sido demonstrado de inúmeras maneiras.”

* “Com ajuda desse princípio, o homem deve compreender que está afastado da verdade.” 

* “Esse argumento mostra também, certamente, que em realidade nada sabemos sobre coisa alguma.”

* “Por convenção é o quente, por convenção o frio; mas, na realidade, existem só átomos e vazio... Na realidade, nada concebemos pois a verdade jaz no que é profundo.” (pp. 207-208)

Os sofistas, que não vivem o que dizem e ensinam apenas por dinheiro, tiram vantagem da dificuldade deste princípio central, distorcem-no, e caem no relativismo moral.  

Esta doutrina de Sócrates e Demócrito, porém, corresponde à doutrina budista e hindu sobre maya, a ilusão.

Na mesma linha, o Tao Te king chinês ensina na abertura do seu capítulo 56:

“Quem fala não sabe, quem sabe não fala.”

O nada saber também é o êxtase místico e o samadhi da ioga. Sobre a ilusão contida neste nada saber, e a bênção profunda que ele oculta, a poeta brasileira Cecília Meireles escreveu:

“Os teus ouvidos estão enganados.
E os teus olhos.
E as tuas mãos.
E a tua boca anda mentindo
Enganada pelos teus sentidos.
Faze silêncio no teu corpo.
E escuta-te.
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.
A verdade sem palavras.
Que procuras inutilmente,
Há tanto tempo (...).” [2]  

O vazio budista também aparece no atomista Demócrito, segundo registra Cícero:

* “Demócrito sustenta que os átomos, como ele os chama, isto é, corpos indivisíveis devido à sua solidez, estão no vazio infinito no qual não há nem alto nem baixo, nem centro nem extremos, e eles se movem de um modo tal que se encontram e se unem entre si, produzindo dessa maneira todas as coisas que existem e nós vemos. Afirma, além disso, que esse movimento dos átomos não tem início algum, mas que se produz eternamente.” (p. 94)

É tocante a simplicidade de Demócrito quando ele revela, como físico e como cientista, o parentesco direto que a alma do homem tem com o sol e a lua:

* “O sol e a lua estão constituídos de átomos lisos e redondos; de modo semelhante está constituída a alma...”. (p. 165)

E o pensador clássico Aécio de Antioquia documenta:

* “Demócrito diz que a alma, que é ígnea, é um composto de integrantes cognoscíveis através da razão, que tem forma esférica e caráter ardente, e que é um corpo.” (p. 165)

Essa segunda afirmação já não parece tão ingênua, e coincide com a filosofia esotérica.

Outros trechos de Demócrito:

* “O mestre dos insensatos não é a palavra, mas o sofrimento.” 

Aqui, cabe a cada um de nós perguntar-se: “Isso tem alguma coisa a ver comigo? Por que eu sofro? Seria eu um insensato na opinião de Demócrito?”

* “O valente não é só o mais forte frente ao inimigo, mas frente aos prazeres. Há quem domina as cidades e é escravo das mulheres.” (p. 254)

* “Muitos são os que parecem amigos sem sê-lo; muitos, ao contrário, são os que não parecem amigos, mas o são.” (p. 255)

* “Quando a sorte nos acompanha, encontrar um amigo é coisa fácil; mas, no infortúnio, é dificílimo.” (p. 255)

Em inglês, há o ditado: “friends in need, friends indeed”: “amigos na necessidade, amigos de verdade”.  

* “Os deuses amam apenas a aqueles que detestam fazer injustiças”. (p. 246)

De fato, a justiça é a base das relações equilibradas.

* “Toda a Terra é acessível para o homem sábio, porque a pátria da alma grande é todo o universo.” (p. 247)  

* “É melhor identificar os próprios erros que censurar os erros alheios.” (p. 249)  

Jesus resgata essa ideia no Novo Testamento, Mt, 7: 3, ao afirmar:

“Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão, quando não percebes a trave que está no teu?”  

NOTAS:

[1] Sobre Demócrito, veja também o volume “Pré-Socráticos”, Coleção Os Pensadores, Ed. Nova Cultural, SP, 2000, 320 pp., especialmente pp. 259-313.

[2] Na obra Cânticos, poema IX, em Poesia Completa, Cecília Meireles, Org. Antônio Carlos Secchin, Ed. Nova Fronteira, RJ, 2001, edição em dois volumes, ver volume um, pp. 125-126.

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