11 de agosto de 2020

O Restabelecimento do Reino de Israel

A Identidade das Populações
Britânicas com a Casa de Israel

Visconde de Figanière

Atrás da Esfinge vemos a pirâmide de Quéops,
a Grande Pirâmide do Egito, no planalto de Gizé




000000000000000000000000000000000000000000

Nota Editorial de 2020

O autor do texto a seguir é o principal pioneiro
da teosofia moderna em língua portuguesa, e
também um de seus pioneiros no idioma inglês.

De família judaica, o Visconde de Figanière
(1827-1908) foi amigo pessoal  e aluno de Helena
Blavatsky. Diplomata português, nasceu nos Estados
Unidos. Morou no Brasil, na Rússia, na Inglaterra, na
Espanha e na França. Escreveu entre outros livros a
obra “Submundo, Mundo, Supramundo”, de 1889.

Reproduzimos “O Restabelecimento do Reino
de Israel” do diário “Jornal do Commercio”,
de Lisboa, edição da quarta-feira, dia 16 de junho
de 1880, página 01. A ortografia foi atualizada.

Quando necessário para a compreensão do texto,
substituímos algumas palavras hoje em desuso por
seu equivalente no vocabulário empregado atualmente.
Alguns dos parágrafos mais longos foram divididos
em parágrafos menores. Acrescentamos notas numeradas.

O leitor constata facilmente que caso este artigo
seja somado às obras referidas pelo Visconde,
pode funcionar como um curso sobre aspectos
importantes da história da humanidade, e um curso,
aliás,  que não é dos menores. Apesar disso, o artigo
 foi apresentado com toda humildade pelo seu autor.

(Carlos Cardoso Aveline)

000000000000000000000000000000000000000000000



Sr. Redator.

Com referência a um dos negócios de que se diz ser incumbido Mr. Goschen [1], novo embaixador inglês em Constantinopla - o restabelecimento do reino de Israel nos territórios a leste do rio Jordão - não é geralmente sabido entre nós (ao menos não tenho visto alusão ao fato na imprensa portuguesa) que existe em Inglaterra, há bastantes anos, uma associação ou seita, hoje numerosa, com ramificações nos Estados Unidos e no Canadá, a qual é diversamente conhecida pelos nomes de “The Identity”, “Modern Israel” ou “Identity of Israel”, cuja doutrina, fundada em profecias bíblicas, se pode sumariar assim:

Identidade das raças britânicas e da casa de Israel, ou das “dez tribos perdidas” isto é, do que ficou das onze tribos depois da passagem da tribo de Benjamin para a de Judá. Os judeus de hoje são a descendência da casa de Judá e dos Levitas. No seu regresso definitivo para a Palestina, os judeus serão não somente acompanhados da casa de Israel, senão que esta (ou por outra, a nação britânica) é destinada a ser o meio da recondução daqueles, e do restabelecimento do reino.

O fim da era atual, o começo do intervalo de grandes sofrimentos universais que irá preceder o completo restabelecimento do “reino de Israel”, deve verificar-se em tempo muito próximo a nós; a data não é precisamente determinada, mas a de 1881 ou 1882 é a mais aceita. [2]

É tendência já muito antiga entre as nações aplicar cada qual a si os textos bíblicos, e aos acontecimentos contemporâneos dos intérpretes, e não valeria talvez a pena demorar-se muito tempo em considerar a doutrina dos “Identificados” (que julgam acomodado à Grã Bretanha o célebre texto do capítulo 18 de Isaías, que o nosso padre António Vieira, na História do Futuro, aplicou à colônia portuguesa do Brasil, onde julgava achar o povo terrível, a gente pisada, e, au besoin, a gente sem pelo, mais particularmente no Maranhão), se não fosse o fato de que a seita propagandista de que se trata parece ter feito bastante progresso, formando uma associação muito numerosa, com uma literatura sua especial assaz desenvolvida e avolumada.

Não me proponho entrar no âmago da questão, para o que aliás não sou competente; nem sequer apontar em resumo os argumentos arqueológicos, históricos, e científicos com que os “Identificados” se esforçam em mostrar que as raças britânicas são os verdadeiros representantes das tribos compondo o reino de Israel, as quais foram deportadas por Salmanasar [3] para o sertão da Ásia (A.C. 718), e se conservaram sempre distintos do outro ramo dos hebreus formando o reino de Judá, cujo cativeiro se realizou em 587 antes da era de Cristo, sendo este, o ramo de Judá, o único representado no regresso a Jerusalém setenta anos depois.

Sem me ocupar pois desta parte do assunto, apontarei apenas algumas, entre muitas, condições da Grã-Bretanha a que eles aplicam os textos, os quais, a seu modo de ver, corroboram aqueles argumentos. Ver-se-á também que não poucos destes textos são os mesmos que o padre Vieira empregou ao seu propósito; limitar-me-ei a citá-los, porque reproduzi-los na íntegra seria dar a esta comunicação proporções indevidas.

Eis pois aqui algumas das condições que, conforme os textos, devem acompanhar os “representantes modernos de Israel” às quais se aplicam à Grã-Bretanha, a saber: existirem como nação (Jer. XXXI 36); como nação insular (Ibid. 10); acharem-se a N.O. da Palestina (Ibid. III, 12, XXII 8; Isa. XXIV 15, LIX 19); apertados nas suas ilhas (Isa. XLIX 19); terem experimentado este inconveniente mais do que uma vez (Ibid. 20); serem governados por monarca (Ibid. 23); sair deles outra nação independente (Ibid. 20; Gen. XLVIII 19); possuírem inúmeras colônias (Isa. XLIX 8, LIV 3); terem a supremacia no mar (Gen. XXII 17, XXXV 11); triunfarem com pequenos exércitos (Lev. XXVI 8); serem poderosos por toda a terra (Isa. XLI 8-12; Mich., V 8); cingirem a terra por suas possessões (Deut. XXXII 8, 9; Jer. XXXI 7); serem a nação mais opulenta (Deut. VIII 18); emprestarem a outras nações, sem nunca tomar-lhes emprestado (Deut. XV 6); serem como Hebreu nisto, que (todo o inglês) possa viver seguro “debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira” (Reis IV 25, Zach. III 10) - e assim por diante. E quanto a questões do dia temos: abolirem o tráfico de escravos (Isa. LVIII 6); serem potência do Oriente, assim como do Ocidente (Ibid. XLI 2-25, XLV 6, LIX 19; Hos. XI 10); ser ouvida a sua voz na questão do Oriente (Sl. LX 9-12, LXVIII 35; Isa. XLIX 9, 23-26) - e assim outros exemplos do mesmo gênero. Cumpre notar, quanto ao último, que em linguagem dos Identificados, o Edom do salmo LX significa a Rússia.

Pretendem também provar que por Inglaterra está cumprido, ou quase cumprido, aquele texto do Gênesis, cap. XXII ver. 17: “… e tua semente possuirá em herança as portas de seus inimigos”. As portas, já adquiridas, são: Perim, Gibraltar, Malta, Canal de Suez, Aden, Socotorá, Bombaim, Madras, Calcutá, Peshawar, Rangun, Singapura, Hong-Kong, Cabo da Boa Esperança, Natal, Castelo da Costa, Serra Leoa, Mombaça - ao que sem dúvida terão acrescentado Chipre; pois que, tendo, nestes dois últimos anos, perdido o assunto de vista, ignoro em que altura estará hoje a exegese dos “Identificados”.

Quanto à data em que se irá consumar a grande obra, além de outros subsídios, socorrem-se também, e principalmente, das revelações da grande Pirâmide do Egito, cuja construção é, quanto a eles, simbólica. O padrão do sistema métrico piramidal é, no interior, a polegada; padrão que também se manifesta exteriormente no cubito sagrado de 25 polegadas. A polegada piramidal foi deduzida das medidas determinadas na Câmara Real, contendo unicamente um cofre em granito sem tampa, entre cujas dimensões e as da própria câmara, existem relações científicas muito notáveis, e de alta significação.

Adotando aquele padrão como base, estabeleceram, por diversos cálculos, a simbologia de diferentes partes do monumento. Assim, por exemplo, a muralha do norte da grande galeria simboliza a data do nascimento do nosso senhor; e a dita galeria, que dali vai subindo, para o lado do meio-dia, simboliza a era atual, até à muralha do sul. O plano inclinado da galeria acaba na 1:813ᵃ polegada piramidal, sendo horizontal no resto da distância, até à muralha “iminente” (impending), ou do “extremo”; e o comprimento total é de 1:881, polegadas, segundo uns, ou de 1:881 4/10, segundo outros. Produzem outros cálculos que se ligam ao assunto, assim como a medição do ponto que simboliza o êxodo, os quais tendem a confirmar-se mutuamente num todo harmônico.

Um dos problemas a cujas soluções aplicam o padrão de medida da câmara real, ou a polegada piramidal, é determinar o número de dias do ano solar, obtendo-se por solução 365 242/1000 dias; e a distância do Sol da Terra, que segundo o mesmo sistema métrico seria de 91.810.000 milhas inglesas. [4]

Não será fora de propósito dizer, em conclusão, que cientistas da seita dos Identificados têm achado uma relação íntima entre o sistema inglês de medidas, tanto de sólidos como de líquidos, e o sistema métrico piramidal. Eis aqui um dos resultados do estudo que tenho encontrado; é de um americano.

Constou-lhe, por indagações na casa da moeda, que o peso do dólar de prata americano tinha por razão a sua correspondência exata com o de uma moeda corrente no comércio da Ásia Oriental; e que portanto deve ser um peso tradicional conhecido há milhar de anos. O dólar de prata americano pesa 412 5/10 grãos ingleses [5]; o meio dólar 206 2/10 grãos, e o quarto de dólar, 103 1/10 grãos. A sua atenção fora pois atraída a estas particularidades pelo fato de coincidirem os três grupos de algarismos com os das medições piramidais, sendo que a câmara real mede 412 5/10 polegadas inglesas, e a sua largura 206 2/10 polegadas; ao passo que o número 103 1/10, ou melhor, 103 09/1000, entra em outras computações importantíssimas relativas à pirâmide.

Isto posto, prossegue: a área de um quadrado, cujo lado mede 103 3/1000, iguala a área de um círculo, tendo de diâmetro 116 26/100. Ora, havendo 360 graus na circunferência de um círculo, o diâmetro em termos de segundos é 412: 529, e a sua circunferência é 1290:000. O número 412 5/10 é pois a milésima parte do diâmetro de um círculo em termos de segundos, e 1: 296, precisamente o número de polegadas numa jarda quadrada inglesa, e a milésima parte da circunferência de um círculo em termos de segundos. Continua mostrando que da jarda [6] se deduzem todas as outras medidas inglesas.

É desnecessário acrescentar que os “Identificados” condenam in limine o sistema métrico francês, como falso e indigno de aceitação, forcejando para que os ingleses e os americanos conservem o seu padrão atual por corresponder com o padrão piramidal.

Pondo remate a esta comunicação, que já vai longa, direi que a doutrina da “Identidade”, que, fato curioso, parece não ter-se originado num cérebro britânico, mas no de um estrangeiro, o dr. Abbadie, cuja obra em quatro tomos Le Triomphe de la Providence et de la religion [7] foi publicada em Amsterdam há mais de um século e meio, em 1723. A doutrina, pois, da Identidade tem tido nestes últimos tempos como apóstolos mais constantes Mr. John Wilson, Mr. Edward Hine, e Philo-Israel, cujo verdadeiro nome ignoro; destes há muitos escritos. Entre outras muitas obras, podem citar-se as seguintes:

Our Inheritance in the Great Pyramid, que já passou por três edições, e cujo autor é Mr. C. Piazzi Smyth, astrônomo real da Escócia.[8]

De Mr. William Carpenter há The Israelites Found in the Anglo-Saxon [9], Scientia Biblica [10], Scripture Natural History [11], etc., é também editor da 3ª. edição de Calmet’s Dictionary of the Holy Bible.[12]

De Mr. Charles Casey há Philitis [13]; do reverendo F.R.A. Glover, England the Remnant of Judah and the Israel of Ephraim [14], Jacob’s Stone [15] e outras obras.

Do Dr. George Moore, The Lost Tribes and the Saxon of the East and of the West [16]; do cônego Titcomb, The Anglo-Israel Post Bag. [17]

Há ainda outros muitos eruditos e cientistas que têm publicado escritos sobre a matéria, como a sra. Cockburn-Muir, o professor Tanner, Protheroe Smith, coronel Gawler, St. John Vincent Day, Groom Napier, etc. A Identidade tem diversos jornais que se publicam semanalmente, sendo os principais The Banner of Israel [18], Israel’s Identity Standard, e The Nation’s Glory Leader.

------

Se v. julgasse o assunto de suficiente interesse para dar cabida a esta carta ou a extratos dela nas colunas do seu jornal, ter-se-ia por muito lisonjeado quem é de v., etc.,

Visconde de Figanière

(Lisboa, 26 de maio de 1880.)

NOTAS DE 2020:

[1] Sir William Edward Goschen, durante algum tempo embaixador britânico em Constantinopla, nasceu em 18 de julho de 1847 e viveu até 20 de maio de 1924. (CCA) 

[2] Em 1882 completou-se o primeiro ciclo de sete anos após a fundação do movimento teosófico moderno em Nova Iorque em sete de setembro de 1875, ou, exotericamente e de modo público e oficial, no dia 17 de novembro de 1875. (CCA)

[3] Salmanaser V ou Salmanasar V, rei da Babilônia e da Assíria. (CCA)

[4] A ciência do século 21 afirma que a distância média entre Sol e Terra é de cerca e 92.955.000 milhas. (CCA)

[5] O grão (grain) é uma unidade de medida de massa. Antigamente, grãos de cereais eram usados para balancear o peso do ouro. Fonte: Wikipédia. (CCA)

[6] A jarda equivale a 91,4 centímetros. (CCA)

[7] Os quatro volumes da obra “Le Triomphe de la Providence et de la religion”, do Dr. Abbadie, foram impressos em Amsterdam em 1723 e têm cópias digitalizadas que fazem parte da biblioteca da Loja Independente de Teosofistas, LIT. (CCA)  

[8] Uma cópia digital de “Our Inheritance in the Great Pyramid”, de C. Piazzi Smyth, pertence à biblioteca da Loja Independente de Teosofistas, LIT. (CCA)

[9] A LIT possui uma cópia digital do livro “The Israelites Found in the Anglo-Saxon”, de William Carpenter. (CCA)

[10] A LIT possui uma cópia digitalizada de “Scientia Biblica”, de William Carpenter. (CCA)

[11] A biblioteca da LIT dispõe de uma versão digital de “Scripture Natural History”. (CCA)

[12] A LIT possui cópia digital do “Calmet’s Dictionary of the Holy Bible”. (CCA)

[13] A biblioteca da LIT tem versão digitalizada do livro “Philitis”, de Charles Casey. (CCA)

[14] Uma cópia da obra “England the Remnant of Judah and the Israel of Ephraim”, de F. Glover, pertence à biblioteca da LIT. (CCA)

[15] “Jacob’s Stone”. Trata-se de um texto publicado em várias partes na revista “Life from the Dead”. A biblioteca da LIT possui uma cópia da publicação. (CCA)

[16] Uma cópia da obra “The Lost Tribes and the Saxon of the East and of the West”, de George Moore, pertence à biblioteca da LIT. (CCA)

[17] “The Anglo-Israel Post Bag, or How Arthur Came to See It”, obra escrita pelo Rev. J.H. Titcomb. Uma cópia deste livro pertence à LIT. (CCA)

[18] A biblioteca da LIT possui uma cópia do volume V, de 1881, da revista “The Banner of Israel”. (CCA)

000

O artigo “O Restabelecimento do Reino de Israel” foi publicado nos websites associados dia 11 de agosto de 2020.

000

Em 14 de setembro de 2016, depois de uma análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável.

000

Clique para ler a biografia do Visconde de Figanière, escrita pelo autor português Pinharanda Gomes: “Gnose e Liberdade”.

Veja nos websites associados a obra clássica do Visconde de Figanière “Submundo, Mundo, Supramundo”, de 1889.

Examine outros escritos do Visconde de Figanière, em português e em inglês.

000

O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


Para ingressar no SerAtento, visite a página do e-grupo em YahooGrupos e faça seu ingresso de lá mesmo. O link direto é este:   


000