12 de agosto de 2020

O Ser Absoluto e o Progresso Infinito

Mudança Não Traz Sempre Progresso, e
Progresso Nem Sempre Provoca Mudança

Visconde de Figanière

O Visconde de Figanière nasceu em 02 de outubro de 1827



O “absoluto” é deveras o silêncio perpétuo da filosofia, ou um mero non liquet [1], situado além da desesperada incapacidade da linguagem de dar plena expressão ao pensamento.

O mundo dos fenômenos é a instabilidade mesma; o que está sempre em vias de ser, sem nunca ser, deixando de ser o que foi e o que será, conforme a expressão de Schopenhauer. Sim, falta aí alguma coisa; coisa essencialíssima, o ser; o que está sempre, o que desconhece a mudança, sem o qual a matéria não seria realizável no espaço e no tempo; o que tem cem nomes, sem que nenhum lhe seja próprio e exclusivo, a não ser a PALAVRA PERDIDA. Entre aquilo e a eternidade há equipolência. (Vide Apêndice, Nota C, I)

A Filosofia Esotérica traz a ordem das coisas mais ao alcance das nossas luzes, enunciando que os fenômenos são sujeitos a alternações, sendo resultados do envolvimento e da evolução, e acabando pela dissolução; e que a curva dos ciclos, sob todos os seus aspectos, tem a essência não do círculo, mas da espiral (Vide parágrafo 30, g., onde se diz o porquê). Segue-se do primeiro postulado que a vida cósmica é finita; e do segundo, que há progresso, sendo este infinito.

A mudança não envolve necessariamente o progresso; e embora o progresso pressuponha mudança de alguma ordem, progresso não é mudança. Se a eternidade é independente do repouso e da atividade, a mudança está no tempo (fenômeno); mas se o progresso é infinito, a realidade do progresso está fora do tempo (númeno). Embora esteja sujeito à relação, o verdadeiro progresso (que todavia não é progresso real) difere do progresso relativo. O último é mudança progressiva; pertence-lhe ser atual. O primeiro nunca deixa de ser potencial, porque a sua realidade é o plano ou estado eterno. O verdadeiro progresso realiza-se no meio, ou na potência, de futuras manifestações; nenhuma outra mudança conhece senão o grau.

Quando a potência chega a enteléquia [2] - a posse ad actum - a mudança nos fenômenos é progressiva. O poder é indestrutível, mas nada vale fora da relação; ao passo que o resultado da mudança progressiva é uma causa final. O círculo, com que se costuma figurar o infinito, é também apto a simbolizar o verdadeiro progresso; conserva a propriedade do círculo, fosse qual fosse a circunferência, representando esta o grau de progresso atingido. A espiral, dentro do círculo, seria emblema da mudança progressiva; o contido mede-se, limita-se pelo fator que o abrange, sendo todavia tão infinito quanto é infinita a potência do círculo em ampliar a circunferência.

Desejo não ser mal compreendido: o círculo não representaria a eternidade, mas a realidade condicionada (estado manifesto) que, tendo ação no tempo, não tem poder no eterno; pois que a realidade incondicionada desconhece o potencial. Oportunamente ficará mais claro o meu propósito. Dizem os Ocultistas que o progresso no indivíduo - isto é, no ego individualizado - consiste no melhoramento do upadhi - ou seja, do veículo - de maneira que o Logos ou Atma - o ego cósmico - possa usar o dito upadhi com crescente eficácia até que o indivíduo “morra no logos”, extinguindo-se o upadhi.

NOTAS:

[1] Non liquet - expressão do antigo direito romano. Aplica-se aos casos em que o juiz deixa de julgar porque a lei não oferece meios de avaliar ou enquadrar os fatos em questão. (CCA)

[2] Enteléquia: o estado de perfeição máxima de um processo criativo ou de um processo de evolução. Termo de Aristóteles. (CCA)

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O pensador português Visconde de Figanière (1827-1908) foi discípulo direto de Helena Blavatsky e é o maior pioneiro da teosofia moderna em língua portuguesa. Sua obra merece especial atenção por parte da Loja Independente de Teosofistas.

O fragmento acima - cujo parágrafo final contém uma alusão à conquista do adeptado - foi reproduzido das páginas 50 e 51 da obra “Submundo, Mundo, Supramundo”. Sua publicação como item independente nos websites associados ocorreu no aniversário de Helena Blavatsky dia 12 de agosto de 2020. Na transcrição, a ortografia foi atualizada. Algumas palavras caídas em desuso foram substituídas por sinônimos usados no século 21.

O retrato de Figanière é uma cortesia de www.EliotsofPortEliot.com para “The Aquarian Theosophist” e seus websites associados. A autorização para publicar a foto original foi concedida ao Aquarian dia 10 de agosto de 2020.

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Em 14 de setembro de 2016, depois de uma análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu criar a Loja Independente de Teosofistas. Duas das prioridades da LIT são tirar lições práticas do passado e construir um futuro saudável.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


Para ingressar no SerAtento, visite a página do e-grupo em YahooGrupos e faça seu ingresso de lá mesmo. O link direto é este:   


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