8 de setembro de 2025

Lições Espirituais de Manuel Bernardes

 
Disciplina Diária: o Jejum e o Desapego 
No Fortalecimento da Vontade Espiritual
 
Carlos Cardoso Aveline
 

Visão parcial da página de abertura da edição de 1725 de “Direcçam”, de M. Bernardes



A teosofia transcende as fronteiras do tempo e espaço convencionais. A pedagogia do espírito é em grande parte atemporal e suas dimensões espaciais são flexíveis, especialmente em seus níveis superiores.

Um exemplo do caráter maleável do espaço-tempo nos níveis espirituais da realidade é dado pelo religioso oratoriano Manuel Bernardes. Nascido em Lisboa em 20 de agosto de 1644, e tendo vivido até o ano de 1710, Bernardes é no século 21 um autor cujos textos têm o poder de inspirar e ajudar a quem estuda os ensinamentos esotéricos do movimento teosófico moderno, fundado por Helena Blavatsky em 1875.   

A pensadora russa nasceu em 1831, quase 190 anos depois do religioso da Congregação do Oratório.

Nascida como ele sob o signo de Leão, Blavatsky era discípula de sábios orientais e não leu as obras de M. Bernardes, nem conhecia o idioma português. Ainda assim, encontramos nos escritos do religioso ibérico informações de grande utilidade para os estudantes da Loja Independente de Teosofistas, cuja principal referência está nas Cartas dos Mestres orientais de Helena Blavatsky.

O Que Significa Fazer um Retiro

Digamos que você queira passar alguns dias retirado, dedicando-os completamente à busca da sabedoria mística.

O que é exatamente “afastar-se da vida externa” para mergulhar por algum tempo no mundo do espírito? 

Em um Aviso para os participantes de um retiro de nove dias, o místico de Lisboa recomenda:

“[Cabe] abstrair-se durante o tempo dos Exercícios de tudo o que é negócios, cartas, visitas, conversações, notícias, preocupações, estudos, curiosidades, e qualquer outro emprego [de energia] que costuma impedir a devoção e dissipar o recolhimento do espírito. Porque a oração não é outra coisa (como disse Santo Astério Bispo) do que um esquecimento das coisas terrenas, para subir, o espírito, às coisas celestiais: Oratio est oblivio terrenorum, ascensus in Coelum.” [1]

O caminho da alma implica um parcial desligar-se do mundo externo. Para Bernardes, o momento da prática espiritual deve ser um “tempo vazio” a ser preenchido com o espírito da Oração - que um teosofista chamaria de espírito da Contemplação.

Este é um dos pontos em que o ensinamento do místico português parece muito semelhante ao que encontramos nas Cartas dos Mahatmas e nas Cartas dos Mestres de Sabedoria. Um instrutor oriental escreveu:

“Como pode você discernir o real do irreal, o verdadeiro do falso? Só através do autodesenvolvimento. Como conseguir isso? Primeiro, precavendo-se contra as causas do autoengano. E isso você pode fazer dedicando-se, em determinada hora ou horas fixas, a cada dia, totalmente só, à autocontemplação, a escrever, a ler, a purificar suas motivações, a estudar e corrigir seus erros, ao planejamento do seu trabalho na vida externa. Estas horas deveriam ser reservadas como algo sagrado para este propósito, e ninguém, nem mesmo o seu amigo ou seus amigos mais íntimos, deveriam estar com você naquele momento. Pouco a pouco sua visão ficará clara, você descobrirá que as névoas se dissipam, que suas faculdades interiores se fortalecem, sua atração por nós ganha força e a certeza toma o lugar das dúvidas.” [2]

É perceptível a afinidade entre as obras de Bernardes e a teosofia clássica.

Uma vez que se compreenda o simbolismo místico da linguagem do século 18, os livros de Bernardes são uma reserva técnica de grande valor para o estudo prático da filosofia esotérica. (Veja “Notas Para um Dicionário Teosófico da Mística Cristã”.)

A Renúncia Como Base da Caminhada

Entre os temas em que o estudo de Bernardes é útil para o movimento teosófico está a prática regular da abstenção de alimentos. O jejum ocupa lugar de destaque entre as austeridades ou penitências recomendadas no mundo cristão. Está presente no judaísmo e no islamismo, e constitui uma prática regular entre as religiões orientais.

No plano físico, o jejum feito com bom senso fortalece a saúde e cura diversas doenças. A prática ocupa lugar de destaque na medicina da antiguidade. Seu efeito curativo é bem conhecido até hoje. No entanto, o jejum é boicotado pelas medicinas que giram em torno da farmácia e visam servir o interesse das indústrias de remédios.

No plano do pensamento e do sentimento, a abstenção parcial ou total de alimentos promove a humildade, purifica os sentimentos, aumenta a lucidez, fortalece o autocontrole, expande a atividade cerebral e reconstitui a harmonia interior da alma. Consolida significativamente a vontade e a disciplina.   

No plano do espírito, o jejum recupera ou amplia o contato com o eu superior, com a alma imortal, com o mundo divino, o Mestre. Constitui também um instrumento central na tradição religiosa do mundo lusófono. Está enraizado na história luso-brasileira, e é recomendado pela literatura teosófica clássica.

Nas Cartas dos Mahatmas, um raja-iogue dos Himalaias afirma que a prática do jejum é um fator básico da caminhada espiritual.

O instrutor enumera alguns fatores inseparáveis do jejum: a prática do silêncio e da meditação; a prática da castidade em pensamento, em palavra e ação; o domínio das paixões e dos impulsos animais; a busca de uma completa ausência de egoísmo nas intenções - e o uso de certos tipos de incenso. O Mestre acrescenta que estes instrumentos do aprendizado espiritual são amplamente conhecidos desde a antiguidade, e que o seu uso deve ser regulado e dirigido pelo estudante, individualmente, ouvindo a sua própria consciência e consultando suas fontes de inspiração.[3]

Otimizando o Uso do Prana

O livro “Direçam para Ter os Nove Dias de Exercicios Espirituaes”, de Manuel Bernardes, foi publicado em Lisboa no ano de 1725.  

Empregando a linguagem da sua época, Bernardes aborda ali quase todos os fatores citados acima.

Para Bernardes, as práticas espirituais dão vida e alimento não só à alma, mas também ao corpo. O místico português examina a possibilidade de o praticante, mesmo depois de ser nutrido espiritualmente com o Manjar Divino, ingerir também alimentos físicos durante o seu Retiro.  

Cabe aqui um comentário. A ideia de “nutrição espiritual” está ligada ao fato de que, conforme a Ioga, a prática moderada de jejum amplia a capacidade natural que o corpo possui de absorver Prana (vitalidade) não só através dos alimentos físicos mas também através da respiração e de outros meios.

A energia vital (prana) está presente na natureza e é absorvido através da respiração, através dos alimentos, e também por osmose.

Perceber a existência do prana está ao alcance de todos. Ao nascer do Sol, em um ambiente natural, podemos sentir diretamente a intensa vitalidade presente no ar. O mesmo acontece durante a maior parte da manhã, especialmente num dia ensolarado.

Mas há uma espécie superior de prana que pode ser alcançada na meditação e na atmosfera elevada da consciência mística. Este prana sutil, “a vitalidade da vitalidade”, é obtido como resultado da prática espiritual. E ter acesso a ele reduz a necessidade de alimentos físicos.

Há, portanto, dois níveis de prana ou vitalidade que, se forem reforçados em nossa vida, tornam mais fácil a prática do jejum.

O primeiro é o prana da vitalidade física, absorvido via respiração (especialmente em exercícios de respiração ao ar livre e com atmosfera pura). O segundo é o prana espiritual, tipicamente obtido em oração e meditação, mas que pode ser absorvido também ao mesmo tempo que se obtém prana físico ao ar livre, ou em exercícios de respiração.

Há uma certa simetria entre a vida física e a vida espiritual.

A prática regular do jejum físico moderado (ou a redução dos alimentos ingeridos) estimula e abre caminho para a alma buscar com mais eficiência o alimento sutil da energia vital presente na atmosfera elevada da oração. Em outras palavras, o jejum físico estimula uma sublimação do prana, e torna a vitalidade mais espiritual.  

O Jejum é a Alma da Oração

Depois de examinar a nutrição espiritual,  processo que reduz a necessidade de alimentos materiais, Manuel Bernardes escreve sobre o jejum ou redução dos alimentos físicos:  

“Depois de dar graças, o Exercitante pode tomar alguma refeição corporal, se a sua compleição é muito fraca e ao Diretor parece razoável esta permissão. Porém é necessário que seja muito limitada e melhor será que a evite totalmente, não havendo claros inconvenientes. Porque de outro modo o espírito da Oração é atrasado sensivelmente, sobre a qual disse o anjo a Tobias que era boa em companhia do jejum, e S. Pedro Crisólogo [4] chamou ao jejum alma da Oração.”

Bernardes prossegue:

“Porque os antigos monges sabiam esta verdade; por isso, para terem muita e boa Oração, tinham muita e boa abstinência, e a punham como primeiro passo da vida espiritual, para consumir os vícios: E S. Nilo Abade (que foi um Oráculo celebérrimo nos seus tempos) disse que se espantaria se alguém fartando-se de pão, e água, pudesse alcançar o império sobre suas paixões; e o que dizer da abundância de outros manjares mais saborosos, e menos necessários? Muitas pessoas entendiam não poder evitar estes subsídios, as quais, fazendo-se depois violência, descobriram que podiam; porque Deus coloca a sua ajuda sobre os que se esforçam, e o costume se transforma em natureza.”[5]

A força de vontade permite abrir caminho, ali onde parece não haver caminho.

O ensinamento dos Mestres é claro: cabe a cada um, consultando as suas fontes de orientação, achar o caminho mais eficaz, nesta e em outras questões. A palavra “jejum” é flexível, e pode incluir desde uma restrição parcial nas refeições até uma ausência total de nutrição durante vários dias.

A prática concreta precisa ser adequada à realidade específica, mas o princípio geral está solidamente estabelecido.

A abstenção parcial ou total de alimentos constitui um fator básico no caminho da sabedoria. Promove a saúde, aumenta a vitalidade e melhora a qualidade da vida nos vários níveis de consciência. Esta prática deve portanto ser reconhecida por todos como parte importante dos ensinamentos espirituais, e como um elemento-chave da vida teosófica.

NOTAS:

[1] Página 8 da obra “Direcçam Para Ter os Nove Dias de Exercicios Espirituaes”, do padre Manoel Bernardes, da Congregação do Oratório de Lisboa, edição de 1725.

[2] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, editadas por C. Jinarajadasa, Editora Teosófica, Brasília, DF. Ver página 146.

[3] Veja “Cartas dos Mahatmas”, Ed. Teosófica, Brasília, volume I, Carta 20, metade superior da p. 135.

[4] Venerado por católicos e ortodoxos, Pedro Crisólogo nasceu no ano de 380 da era cristã e viveu até o ano de 450. 

[5] “Direçam para Ter os Nove Dias de Exercicios Espirituaes”, Manuel Bernardes, Lisboa Ocidental, 1725, Impresso na Oficina da Música, 280 páginas, ver pp. 39-40.

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O artigo “Lições Espirituais de Manuel Bernardes” foi publicado nos websites da Loja Independente de Teosofistas no dia 08 de setembro de 2025. Uma versão anterior e bastante menor dele faz parte da edição de março de 2023 de “O Teosofista”, pp. 3-4, sob o título “O Treinamento Esotérico Segundo Manuel Bernardes”. 

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Helena Blavatsky (foto) escreveu estas palavras: “Antes de desejar, faça por merecer”.

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