24 de julho de 2012

A Força de um Compromisso Sagrado

O Que Acontece na Prática Quando é
Tomada Uma Decisão Firme de Trilhar o Caminho

Carlos Cardoso Aveline 

Uma imagem dos Himalaias, em quadro de Nicholas Roerich


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Nota Editorial de 2016:

Abordando um tema que merece ser estudado
a vida toda, o texto a seguir teve duas versões
anteriores. A primeira delas apareceu na  revista
Theosophia”, da Sociedade Teosófica de Adyar no
Brasil, edição de outubro a dezembro de 1997, pp.
43-55. A segunda foi publicada na revista “Planeta”,
de São Paulo, em janeiro de 2003. A presente versão
foi liberada pelo autor para publicação em julho de 2012.

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Não é por acaso que os votos e juramentos fazem parte de todas as culturas humanas. Sejam formais ou informais, religiosos ou não, os compromissos solenes aumentam a força das decisões de longo prazo. E também trazem testes.

Não há a possibilidade de  uma relação  humana estável sem uma aliança sincera entre as pessoas. O compromisso pode ser tácito, ou implícito. Às vezes ele é tão evidente que não necessita ser verbalizado, como no caso de pais e filhos. Em qualquer caso, as duas partes de uma relação humana duradoura têm comportamento mutuamente previsível e aceitável, e há um acordo não-verbal de cooperação e simpatia mútua.

As crises sociais resultam da decadência ética e da falta de confiança entre os cidadãos. Os compromissos solidários mantêm de pé o relacionamento entre marido e mulher, as amizades, o afeto entre os membros de uma família, e também as relações sociais.  Apesar da sofisticação da tecnologia moderna, ainda é a credibilidade que domina as relações econômicas e políticas.  E para que haja credibilidade a longo prazo é preciso honrar a palavra dada a cada momento.

Quando assinamos um cheque, empenhamos nossa palavra de honra e afirmamos que há dinheiro suficiente na conta bancária.  Antigamente, casas e terras eram vendidas a prazo com base na força da palavra de comprador.  

Quando não há confiança mútua, as possibilidades de convivência se desmancham  gradualmente no ar.  Por isso, desde os tempos mais remotos os seres humanos têm feito promessas, juramentos e votos solenes prometendo agir corretamente e cumprir seus deveres, não só entre si, mas também em relação às divindades e à alma imortal que vive dentro de cada um.

O Antigo Testamento é uma história da aliança entre o homem e uma divindade.  Na narrativa simbólica da queda do paraíso, Adão rompe os compromissos que havia assumido diante do Senhor e perde o estado de unidade primordial com a natureza. Assim o homem é condenado a desenvolver sua própria mente para aprender a decidir por si mesmo entre o bem e o mal. A partir de então, após cada período de decadência, diferentes instrutores divinos reconstroem a teia  de compromissos éticos que possibilita a vida da humanidade. A responsabilidade do ser humano diante do mundo divino está no centro da sua evolução.   

A teosofia, assim como o budismo, o taoísmo e outras filosofias orientais, não trabalha com a ideia de que haja um deus monoteísta.  Ao ler a Bíblia, o estudante de filosofia esotérica entende a palavra “Deus” como significando a Lei Universal.  Mas o termo “Deus” também pode significar o eu superior ou alma espiritual de cada indivíduo.  Em Deuteronômio 23: 22-25, Moisés recomenda:

“Quando ofereceres um voto a teu Deus [tua alma espiritual],  não tarda em cumpri-lo, pois Deus irá certamente reclamá-lo de ti, e em ti haverá pecado (em caso de descumprimento). Se te absténs de fazer o voto, não haverá pecado em ti. Contudo, cuidarás de cumprir o voto que teus lábios proferiram, uma vez que com tua própria boca ofereceste espontaneamente um voto a teu Deus [tua alma espiritual].”

É verdade que em geral os votos religiosos promovidos por instituições são usados como meio de concentrar poder político na mão de poucos, que se aproveitam disso para manipular as mentes de buscadores sinceros mas desinformados.  

Os votos de obediência suprimem a liberdade de pensamento. Organizações religiosas são quase sempre ambientes autoritários em que a obrigação de segredo impede a transparência. Surge então uma chantagem emocional institucionalizada, e a boa vontade é transformada em uma mordaça que leva à perda do bom senso. 

Para a caminhada espiritual autêntica, a responsabilidade pessoal é uma condição indispensável. Ninguém pode pensar por nós. Não haverá progresso se nos limitarmos a imitar o comportamento alheio. A lealdade para com os outros só pode ser resultado da nossa lealdade a nós próprios  - e isso requer uma boa dose de coragem. 

Por esse motivo, os melhores votos e os mais eficazes são feitos livremente perante a nossa própria consciência. É suficiente, por exemplo, um voto como “tentarei colocar em prática, em minha vida diária, aquilo que já aprendi sobre a arte de viver corretamente”.

É certo que tropeçaremos mil vezes. Mas uma sucessão de tentativas honestas produzirá um progresso gradual e seguro.    

A decisão interior de buscar o melhor pode ser expressa de muitas formas diferentes. Embora tenha flexibilidade externa,  ela é uma decisão de longo prazo, que envolve e transforma o conjunto do nosso ser e não apenas sua parte consciente.

Segundo o escritor Napoleon Hill, quem deseja obter êxito na vida pode firmar um compromisso declarando a si mesmo que trabalhará de modo correto até alcançar sua meta. E pode  meditar constantemente sobre o voto feito e sobre como ele se reflete de diversas maneiras concretas na vida diária.

Vejamos um exemplo de resolução, adaptado do livro de Hill:

“Creio em mim mesmo.  Creio nos que trabalham comigo. Creio nos meus amigos. Creio que a Lei Universal, a Vida, colocará ao meu alcance o que necessito para triunfar, contanto que eu me esforce para alcançá-lo por meios lícitos e honestos. Nunca fecharei os meus olhos para dormir sem pedir antes a orientação do meu eu superior. Serei paciente com os outros e tolerante com os que não pensam como eu.  Creio que tirarei da vida exatamente o que colocar nela. Serei  cauteloso ao tratar com os outros, como quero que eles sejam comigo. Não caluniarei aqueles de quem não gosto. Prestarei o melhor serviço que puder, porque jurei a mim mesmo triunfar na vida e sei que o triunfo é resultado de um  esforço consciente e eficaz. Perdoarei os que me ofendem, porque compreendo que algumas vezes ofendo os outros e necessito do seu perdão.” [1]

Uma resolução como essa -  livre, individual e aberta à transformação em seus termos à medida que a experiência evoluir  - é um  sinal dos tempos da nova era de Aquário.  

Para a tradição esotérica autêntica, a suprema autoridade é a própria consciência individual de cada estudante. Ele faz um voto solene perante sua própria alma. É a ela que ele obedece, e não a algum esquema institucional.

Nos antigos mistérios, os votos e juramentos de segredo e fidelidade constituíam condição essencial para ter acesso aos ensinamentos.  Evitava-se, assim, segundo a expressão usada por Jesus no Novo Testamento, que “as pérolas fossem dadas aos porcos”.

A manutenção de segredo sobre certos aspectos do ensinamento espiritual  pode ser importante  porque o processo de aprendizado é gradual. Nem todos estão prontos, o tempo todo, para compreender tudo. Há um momento adequado para o acesso a novas quantidades de informação.

Mas a prática do segredo também pode ocultar um equívoco. A verdade eterna não está nas palavras - secretas ou não -; e não pode ser alcançada pelo mero conhecimento de informações, sejam elas quais forem.

A compreensão é interior. Assim, a prática do segredo nas organizações espirituais, se acompanhada de obediência cega, não só gera manipulações de poder, mas cria privilégios e abre espaço para um discreto orgulho pessoal que envenena o ambiente coletivo, e tira de muitos a autoconfiança  e a autorresponsabilidade necessárias para avançar pelo caminho.

Nenhum dirigente é capaz de avaliar  perfeitamente o desempenho futuro dos outros.  O grau de acerto de alguém em suas ações depende da sua pureza e da firmeza das  suas intenções e  motivações mais íntimas, mas também está sujeito a testes e alterações devido ao surgimento do carma de vidas passadas que será evocado durante o inevitável processo probatório da caminhada. A firmeza e a honestidade das intenções também serão testadas pelas movimentações às vezes violentas e profundas do carma coletivo, cujas marés reduzem o espaço da autodeterminação. No entanto, a longo prazo, é sempre o espaço da autodeterminação que cumpre o papel decisivo. 

Devido a estes fatores, a auto-responsabilidade e a independência de cada estudante constituem  um elemento fundamental da pedagogia esotérica autêntica, porque protegem tanto o indivíduo quanto o líder, e o trabalho coletivo de que ambos participam. Deve-se desmistificar, portanto, o ato de “ingressar em um movimento esotérico”.  O esforço é individual.  A ajuda mútua e a solidariedade visam dar elementos para que o esforço individual seja mais eficaz.  Além disso, o estudante não pode “obter” a verdade lendo ou vendo alguma coisa,  como se a verdade estivesse em algum livro secreto, em uma organização, ou em uma escritura sagrada.  

Perceber a verdade é uma questão de sintonia interior.

O indivíduo precisa transformar-se, gradualmente, na sabedoria  universal que busca. Através do pensamento sincero, da vida limpa e da conduta correta, ele deve reconstruir a si mesmo com a substância da verdade que procura contemplar

O filósofo Thomas Stanley [2] relata que Pitágoras aconselhava a seus discípulos que tivessem muito cuidado antes de assumir um compromisso ou fazer um juramento; mas que, depois de fazê-lo, fossem muito firmes no seu cumprimento. E, em seus comentários aos Versos de Ouro dos Pitagóricos, Hierocles, o sábio do século 5 d.C., escreve:

 “Ao dissipar a ambiguidade e incerteza dos propósitos dos homens, o juramento ou compromisso solene torna-os claros e firmes, torna-os estáveis e faz com que continuem sendo sempre os mesmos, tanto em palavras como em atos.” [3]

Assim, o voto feito perante sua própria consciência dá um foco mais definido e maior poder de concentração aos esforços de quem busca a verdade.

Para Hierocles, “o respeito devido a um juramento é o mais inviolável dos nossos compromissos; e esta observância é a virtude que dá a firme estabilidade e a verdade do Hábito Divino a aqueles que mantêm suas palavras dadas, graças a uma necessidade inteiramente livre e inteiramente voluntária.”

Por outro lado, o homem tomado pela cobiça não pode ser leal nem sequer em questões de dinheiro, alerta Hierocles.

E ele pergunta:

“O homem que não tem moderação, e o covarde, será que eles podem cumprir seus compromissos religiosos? Será que eles não irão, sempre que isso lhes trouxer vantagens, deixar de lado todo respeito pelo que juraram fazer, renunciando à felicidade eterna em troca de bens mundanos e frágeis?  Só quem nunca se afasta do caminho da virtude é capaz de manter o respeito que o caráter solene de um juramento requer.” [4]

A teosofia moderna está em harmonia com a tradição pitagórica.  Em uma carta escrita em 1882, um mestre de sabedoria adverte aos teosofistas:

“Como um espectador profundamente interessado, apenas posso discernir alguma coisa da verdade oculta nos corações de todos vocês. São todos vocês sinceros em suas promessas? Tomem cuidado para que promessas feitas impetuosamente não sejam quebradas, voltando-se contra vocês e tornando-se suas maiores punições. Trabalhem pela causa e nossas bênçãos estarão sempre com vocês. Duvidem e esqueçam suas promessas sagradas e na escuridão da culpa e da tristeza vocês irão arrepender-se.” [5]

No final de 1883, um discípulo de um dos Mahatmas dos Himalaias estava a um passo da completa deslealdade quando recebeu uma carta. Nela o instrutor faz uma advertência sobre a relação cármica entre o eu inferior e a alma espiritual. Dedicar-se a uma causa nobre não apaga o carma dos erros cometidos antes. O Mestre pergunta:

“Então, você realmente imaginou que - quando lhe fosse permitido considerar-se meu chela [discípulo]  - as negras recordações dos seus erros passados estariam também ocultas do meu conhecimento, ou que eu sabia e mesmo assim perdoava? Você imaginou que eu era conivente com eles? Tolo...! três vezes tolo! Foi para ajudar a salvá-lo do seu Eu mais vil, despertar-lhe melhores aspirações; fazer com que a voz de sua ‘alma’ desrespeitada fosse ouvida, para dar-lhe motivo para fazer alguma reparação ...  por estes motivos, somente, seu pedido para se tornar meu chela foi atendido.”

O único verdadeiro juiz de alguém é Atma, ou o eu superior de cada um, e poucas linhas mais abaixo, o Mestre acrescenta:

“Lembre-se ... de que está diante de seu Atma, o qual é seu juiz, e que nem sorrisos, nem falsidades, nem sofismas podem enganar. (...) Você não precisa fazer promessas da boca para fora para Ele [Atma] ou a mim, nem confissões pela metade.  Ainda que ... você derrame  oceanos de lágrimas e rasteje na poeira, isso não alterará em  nada a balança da Justiça. Se quiser recuperar o terreno perdido, faça duas coisas: promova a mais ampla, mais completa reparação ... e dedique suas energias ao bem da humanidade... Tente preencher cada dia com pensamentos puros, palavras sábias, ações amáveis. (....) Mas se sair pregando com um coração e uma vida prática que contradizem seu discurso - bendiga o raio que cause sua morte, pois cada palavra irá acusá-lo no futuro.” [6]

A seriedade das decisões solenes tomadas na vida espiritual é tão grande que, no Novo Testamento, Jesus recomenda a sinceridade a todo momento, deixando de lado a ideia de jurar em nome de alguma coisa:

“Ouviste também o que foi dito aos antigos: ‘não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos com o Senhor [eu superior]’. Eu, porém, te digo: não jures em hipótese alguma, nem pelo Céu, porque é o trono de Deus, nem pela Terra, porque é o apoio de seus pés, nem por Jerusalém porque é a cidade do grande Rei,  nem jures pela tua cabeça, porque tu não tens o poder  de tornar um só cabelo branco ou preto. Seja o teu sim, sim, e o teu não, não.” (Mateus, 5: 33)

Esta era, também, a posição dos essênios, segundo H. P. Blavatsky revela em “Ísis Sem Véu”:

“Os essênios nunca faziam juramentos a respeito de nada, mas os seus ‘sim’  e os seus ‘não’ tinham o mesmo valor de um juramento.”

Poucos parágrafos mais adiante, ela acrescenta:

“Nenhum compromisso sagrado funciona, a menos que seja feito por alguém que, mesmo quando não há qualquer compromisso sagrado formal, cumpre, solenemente, a sua simples palavra de honra.” [7]

O compromisso com a verdade deve ser silencioso, interno, e independente de formalidades.  “‘Ousar, querer, agir e permanecer em silêncio’, este é o  lema nosso e de todo cabalista e ocultista”, escreveu um Mahatma. [8]

Mas há um aspecto coletivo no compromisso espiritual consigo mesmo. A ajuda mútua faz parte da caminhada.  Os manuscritos do Mar Morto, descobertos a partir de 1947, mostram uma comunidade, semelhante em muitos pontos à dos essênios, cujos membros adotavam livremente um  compromisso. Eles tinham muito em comum, também, com as comunidades pitagóricas.  Preferiam morrer a descumprir suas decisões sagradas.  E cada novo membro devia ingressar na Aliança “na presença de todos os que se comprometeram livremente antes”. [9]

Este modo de iniciação parece ter estado vivo nos primeiros tempos do Cristianismo. São Paulo, na primeira epístola a Timóteo, escreve:

“Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado, como reconheceste em uma bela profissão de fé feita diante de muitas testemunhas...”

Os votos e compromissos feitos durante a busca espiritual traduzem uma situação em que a personalidade  toma a decisão básica de obedecer ao seu eu superior. Para isso o eu inferior deve ter desenvolvido antes uma devoção e um amor pela verdade até o ponto de colocar este sentimento acima de outras considerações.  O voto que o peregrino faz silenciosamente no santuário do seu próprio coração formaliza esta atitude, e também amplia a sua força e os seus efeitos, fazendo com que ela se desdobre com mais força na vida diária.

Há votos que são feitos e compromissos que são assumidos em níveis mais elevados de consciência. O eu superior também assume compromissos, e o eu inferior nem sempre sabe disso. Votos solenes podem ser feitos num plano sutil, fora do corpo, enquanto o organismo físico dorme e sem que fiquem registros na memória cerebral.

Quando ainda havia contato ostensivo entre os Adeptos e alguns membros do movimento teosófico, um Mestre escreveu sobre a situação contraditória vivida por uma candidata ao discipulado:

“Ela queria ser transformada em chela regular antes mesmo de ter-se mostrado preparada para ser uma candidata em provação. ‘Não sou chela’, ela continua dizendo, ignorando os votos pronunciados inconscientemente e quando fora do corpo.” [10]

Os Mestres de Sabedoria unificaram, através dos seus próprios votos, as suas vontades individuais com a vontade da lei universal em nosso planeta. Mas eles mantêm plena consciência dos seus compromissos feitos em épocas passadas. Em um esforço para fazer-se entender, um Mahatma escreveu em 1881 a um discípulo leigo:

“Meus votos de ‘Arhat’ foram pronunciados, e eu não posso nem buscar vingança nem ajudar outros a obtê-la.” [11]

Nos mais diferentes estágios da caminhada espiritual, e em todas as tradições religiosas e filosóficas, uma decisão solene dá um rumo mais definido e maior poder de concentração a quem busca a verdade.

São bem conhecidos, por exemplo, os três refúgios do budismo, que também constituem um mantra tradicional:

“Eu me refugio em Buda (no Mestre), eu me refugio na Lei (no ensinamento), eu me refugio na Sangha (a comunidade daqueles que buscam a Verdade)”.

O zoroastrismo, religião da Pérsia antiga, é marcado pela busca do  discernimento entre verdadeiro e falso. Esta característica se reflete nos votos reafirmados diariamente pelos seus seguidores:

“Estou de acordo com bons pensamentos,
E não estou de acordo com maus pensamentos.
Estou de acordo com boas ações,
E não estou de acordo com más ações.
Estou de acordo com a obediência (aos preceitos éticos e morais),
E não estou de acordo com a desobediência (aos preceitos).
Estou de acordo com pessoas corretas,
E não estou de acordo com pessoas indignas ou sem ética.” [12]

A reafirmação regular dos votos feitos é considerada importante. As palavras do compromisso possuem uma vibração mental e emocional que eleva a consciência do praticante. Ao definir com o voto a meta da sua vida, o indivíduo pode tomar o mundo divino - e os seus habitantes -  como testemunhas das suas intenções.

Isso o torna mais consciente de que o cosmo inteiro é um espelho da sua vida, assim como ele é uma miniatura do cosmo. Mas não há necessidade de exagerar o aspecto ritualístico do fato. Através da milenar obra chinesa “Wen-tzu”, a filosofia taoista ensina:   

“Aqueles que adotam atitudes humildes, palavras tolerantes e discurso lógico não têm de fazer promessas ou votos solenes. Aqueles que fazem acordos formais quebram seus votos com facilidade. Portanto as pessoas ideais não constroem uma aparência externa de humanitarismo e justiça, mas cultivam internamente as virtudes do Caminho.” [13]

No hinduísmo, vale a pena destacar um trecho dos Upanixades, levando em conta, porém, que o significado do termo Brahman é “princípio supremo universal e impessoal”. Diz o Aitareya Upanixade:

“Que a minha fala esteja em unidade com a minha mente, e que minha mente esteja em unidade com minha fala. Ó tu, auto-iluminado Brahman, afasta o véu da ignorância da minha frente, para que eu possa distinguir a tua luz. Revela a mim o espírito das escrituras. Que a verdade das escrituras esteja sempre presente para mim. Quero buscar, noite e dia, a correta compreensão do que eu aprendo com os sábios. Que eu possa falar a verdade de Brahman. Que eu possa falar a verdade. Que a verdade me proteja. Que ela proteja meu mestre. OM.... Paz, paz, paz.” [14]

O compromisso com a verdade é fundamentalmente interno.  Colocá-lo em prática não é tarefa fácil, porque a ignorância é subconsciente. Ela constrói armadilhas perigosas e boicota as boas intenções do peregrino. Assim surgem as resistências e os obstáculos. Se o estudante de filosofia não desistir jamais, as suas derrotas serão passageiras, e seu compromisso espiritual produzirá consequências crescentemente positivas ao longo do tempo.     

Segundo Archibald Keightley - um dos discípulos diretos de Helena Blavatsky - o homem que assume um compromisso deste tipo com a atitude correta sente um intenso desejo de colocar-se “sob a proteção da decisão tomada”,  e assim estará sendo protegido pelas forças ativas e benéficas do seu eu superior, Atma. Mas, se quebrar o compromisso, estará atraindo forças destrutivas e dando poder a elas. [15]

O mesmo ocorre em todas as situações em que um ser humano empenha, direta ou indiretamente, a sua palavra. O aprendiz da sabedoria encontra em cada momento da vida um pequeno teste da sua sinceridade e do seu equilíbrio. As palavras que expressam o seu compromisso interior podem mudar de acordo com a idade e as condições em que ele vive. Mas, depois de definida a meta, tudo o que lhe ocorre - alegrias e tristezas, erros e acertos - faz parte da sua jornada de peregrino. Neste processo nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, e cada acontecimento é visto como uma lição a ser compreendida.


NOTAS:

[1] “A Lei do Triunfo”, de Napoleon Hill, José Olympio Editora, RJ, 18a edição, 1997, 736 pp., ver pp. 152-153.

[2] “Pythagoras, His Life and Teachings”, by Thomas Stanley, foreword by Manly P. Hall, Philosophical Research Society, Los Angeles, Califórnia, EUA. Ver p. 546.

[3] “Commentaries of Hierocles on the Golden Verses of Pythagoras”, Theosophical Publishing House, Londres, 1971, 132 pp., ver p. 11.  

[4] “Commentaries of Hierocles on the Golden Verses of Pythagoras”, pp. 12-13.

[5] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Editora Teosófica, Brasília, ver Carta 64, segunda série, p. 240.

[6] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Editora Teosófica, Carta 24, primeira série, pp. 71-72.

[7] “Isis Unveiled”, H. P. Blavatsky, Theosophy Co., Los Angeles, Volume II, ver pp. 373 e 374.

[8] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Editora Teosófica, Carta 65, segunda série, p. 241.

[9] “Os Manuscritos do Mar Morto”, G. Vermes, Ed. Mercuryo, SP, 1992, 326 pp., ver p. 79.

[10] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Editora Teosófica, Primeira Série, p. 152. 

[11] “Cartas dos  Mahatmas”, Ed. Teosófica, Brasília, edição em dois volumes, ver Carta 34, volume I, p. 175.

[12] “Mazda-Yasni and Zoroastrian Tales”, Kuku S. Shabbir, Aruna Publishers, Bombay/Mumbai, Índia, 1993, 102 pp. Ver Prefácio.

[13] “Wen-tzu, A Compreensão dos Mistérios”, de Lao-tzu, Ed. Teosófica, Brasília, 2002. Veja os primeiros parágrafos do capítulo 56.

[14] “The Upanishads”, translated from the Sanskrit by Swami Prabhavananda and Frederick Manchester, Penguin Books Ltd. USA, 128 pp., ver p. 61.

[15] “Collected Writings of H.P. Blavatsky”, volume XII, The Theosophical Publishing House, Wheaton, EUA, 1980, p. 506 e seguintes.

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Veja também os textos “O Significado de um Compromisso”, de Autor Anônimo, e
Uma Escola Esotérica de Três Mil Anos”, de Carlos Cardoso Aveline.

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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