5 de julho de 2012

Sobre a Ação Deliberada

Como Avançar Diretamente Para a Meta

John Garrigues



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Nota Editorial:

O texto a seguir foi publicado inicialmente na
edição de dezembro de 1926 da revista “Theosophy”,
de Los Angeles, pp. 84-86, sem indicações sobre o seu autor.
Uma análise do seu conteúdo e estilo indica que foi escrito
por John Garrigues. Seu título original é “Deliberate Action”.

(CCA)

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Quando um homem é atento e sincero, ele responde ao desafio da Teosofia com a determinação de ocupar o seu lugar como um ser responsável, tentando aplicar os ensinamentos à sua própria vida. Ou, para dizê-lo com outras palavras, ao mesmo tempo que reconhece que a sua barca está indo à deriva e é levada pela correnteza, ele instintivamente pega os remos até agora abandonados e tenta dirigir o seu curso.

O ser humano comum é vítima das circunstâncias; é uma marionete de efeitos cujas causas ele criou e sobre as quais ele atualmente não tem controle. Suas reações a estímulos externos podem ser previstas com uma precisão quase tão grande quanto os resultados de combinações químicas; o menosprezo de alguém despertará sua raiva tão inevitavelmente quanto a sua vaidade florescerá com um elogio imerecido. À medida que ele compreende que sua natureza é diferente e melhor que aquilo que pode ser desprezado ou elogiado, o seu controle sobre as suas reações aumenta. Enquanto ele não aperfeiçoar este controle, deixando de ficar à mercê dos acontecimentos, será tolice que aspire a ter mais poder. Uma bomba é potencialmente tão perigosa nas mãos de uma criança quanto nas mãos de um criminoso mal intencionado, e, ao ver ao seu redor os efeitos devastadores da falta de controle, todo ser humano deve ficar contente de saber que as suas armas são pouco eficazes, e que o alcance delas é muito limitado – enquanto não estiver além das reações de raiva, inveja e ódio.

Não é apenas dos inescrupulosos e dos violentos que os segredos do Ocultismo [1] devem ficar afastados, para uma melhor segurança do mundo. Os irresponsáveis tampouco têm as qualificações necessárias para que se confie a eles o conhecimento que é poder. Reconhecendo que cada palavra ou ação casual traz consigo potencialmente consequências de grande importância, que podem ser desastrosas ou benéficas, o Ocultista não se atreve a deixar de colocar total atenção no que está fazendo. Se alguém que aspira ao Ocultismo não transcendeu enganos e descuidos como mandar uma carta para o endereço errado ou esquecer de um recado, não é necessário procurar muito longe por uma explicação para a sua existência monótona e cansativa.

Erros de avaliação podem ser atribuídos ao nosso estágio de desenvolvimento, e um discernimento certeiro só surge quando há uma maior experiência e o despertar da intuição; mas a desculpa de não prestar atenção é infantil, e constitui uma admissão de que nossa consciência estava fazendo qualquer coisa, menos manter-se estritamente dentro do assunto em questão.

É verdade que há um grau maior de responsabilidade nas ações deliberadas que nas ações impulsivas, e que aquele que age deliberadamente com motivação egoísta se aproxima de um desastre inevitável, porque está se colocando contra a força centrípeta irresistível do arco ascendente do ciclo evolucionário. Mas a ação impensada tampouco tem bons resultados para alguém que deseja ser um colaborador da Natureza. Os movimentos da Natureza sempre têm propósito e ritmo. Assim como há um tempo certo para o retorno do solstício e do equinócio, há também um tempo certo para a realização de cada ação e o cumprimento de cada dever. Do mesmo modo como a Natureza nunca se apressa e nunca se atrasa, também o ser humano de ação deliberada não tem o sentimento atormentado de trabalhar sob pressão; ele tampouco posterga indevidamente a ação necessária, para a qual sempre há tempo. As ações necessárias podem ser distinguidas da perturbadora imensidade de tarefas possíveis quando paramos para perguntar quais delas correspondem ao nosso dever, e não ao dever de outra pessoa; e quais são necessárias para o bem dos outros e para o nosso próprio bem, como almas. Todo o tempo e toda a energia gastos, por exemplo, em acostumar mal o corpo físico, dando-lhe conforto além das necessidades reais para a sua manutenção como instrumento adequado da alma, correspondem a um desperdício inútil.

Mas qualquer ação que alguém considera como necessária para si merece o tempo e o esforço indispensáveis para que seja bem realizada e com todo cuidado. Confiança é algo que só pode ser depositado com segurança no indivíduo consciente que, durante as horas em que está em estado de vigília, permanece com um controle positivo e constante dos seus instrumentos de ação, sendo preciso e atento em todas as ocasiões. A confiabilidade não é uma qualidade espetacular. Ela constitui o alicerce sólido cuja ausência nenhuma decoração superestrutural pode compensar. Ela é algo impossível para quem sonha acordado e para o médium. O desenvolvimento da confiabilidade exige constante vigilância, e uma escrupulosa atenção à tarefa de cada momento. Ser confiável significa viver no presente, alerta e concentrado aqui e agora, e não deixando nossas tarefas pela metade enquanto sonhamos com um futuro glorioso.

Um homem confiável manterá sua promessa a qualquer preço, mas, se não houver um compromisso solene envolvido, a ação deliberada não exige a rígida manutenção de um plano mesmo depois que as circunstâncias reais mudaram. Ignorar fatores novos, quando eles surgem depois que uma decisão é tomada, é loucura, e mostra falta de capacidade de adaptação. A sabedoria nos capacita a economizar energias aproveitando qualquer fato inesperado, uma vez que isso não nos afaste do nosso rumo. Precisamos apenas observar as circunstâncias, momento a momento, e agir à luz delas de acordo com nosso melhor critério.

Um dos nossos instrumentos de ação importantes é o poder da palavra, com suas possibilidades ilimitadas de produzir bem-estar ou aflição. Não devemos subestimar o mal da fofoca. Toda pessoa que aspira sinceramente a aplicar os princípios da Teosofia já foi além da vontade de ferir qualquer semelhante – e certamente foi além do uso desta que é a mais desprezível das armas –; mas frequentemente as pessoas não veem necessidade de controlar a sua fala além da abstenção do ato de falar mal dos outros. A responsabilidade que assumimos ao chamar a atenção dos outros para questões triviais e que não valem a pena é algo frequentemente subestimado. Quem sabe dizer como seria mais fácil a caminhada, se as pessoas pudessem prosseguir diretamente para a meta ao invés de fazer constantes desvios devido a fatores não-essenciais? Desprezamos o ato de colocar obstáculos deliberadamente no caminho de um companheiro para que ele tropece; mas uma frase fútil da nossa parte pode colocar alguém em uma linha errada de pensamento. Poderíamos, nesse caso, alegar que não somos responsáveis pela correspondente demora no desenvolvimento do companheiro? Talvez ainda não sejamos capazes de manter as nossas mentes livres do lixo que é o pensamento desordenado; mas podemos pelo menos deixar de contaminar com ele a nossa vizinhança. 

A fala deliberada não é necessariamente uma fala lenta. Ela significa que deve haver pensamento antes que as palavras sejam ditas, o que bem pode eliminar muitas frases impensadas; mas quando o hábito de pensar antes de falar está estabelecido, a exatidão se torna suprema. Falar ao azar é frequentemente algo tão inexato que chega ao ponto da falsidade. O controle deliberado da palavra e da ação pressupõe equilíbrio. Enquanto formos jogados para lá e para cá pela força dos nossos desejos, estamos em uma situação semelhante à de um hábil desenhista tentando fazer o seu trabalho em um barco que oscila jogado por águas revoltas. Não podemos calcular com exatidão o resultado desta ou daquela movimentação enquanto não estivermos sobre a terra firme do desapego, e enquanto não formos capazes de tomar nossas decisões sem sermos perturbados por atrações e repulsões. Enquanto não chegarmos a este estágio, o que podemos fazer é registrar conscientemente os sentimentos de satisfação e repulsa, para evitar que esses fatores exerçam uma influência inconsciente em nossas decisões. Devemos fazer com que nossas ações sejam deliberadas.

NOTA:
 
[1] A palavra “Ocultismo” pode ser usada como sinônimo de sabedoria divina ou teosofia. Trata-se da Sabedoria Oculta, ou seja; do conhecimento do que é Oculto aos cinco sentidos. O termo Ocultismo se refere igualmente ao conhecimento do potencial interior do ser humano, a ser desenvolvido ao longo do caminho do autoconhecimento. (CCA) 

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Em setembro de 2016, depois de cuidadosa análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas, que tem como uma das suas prioridades a construção de um futuro melhor nas diversas dimensões da vida.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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