5 de fevereiro de 2015

A Necessidade do Infinito

Victor Cousin Discute a Relação
Entre o Ser Humano e a Infinitude

Carlos Cardoso Aveline



“Onde não existe uma concepção do
infinito, nem amor pelo infinito, não há religião.”



O filósofo eclético francês Victor Cousin foi um dos primeiros pensadores que abriram as portas da cultura ocidental para a sabedoria do Oriente. [1]

Ele reconheceu que a filosofia não começou na Grécia antiga, mas muito antes, e parece estar ligado à edição ocidental de obras orientais que influenciaram o pensamento de Emerson e outros filósofos transcendentalistas dos Estados Unidos.

No início do século 19, Cousin proferiu um curso intitulado “Sobre o Verdadeiro, o Belo e o Bom”. Durante o evento ele abordou a relação do ser humano com o Infinito, e defendeu a tese de que as noções de bom, belo e verdadeiro são pontes de contato com a infinitude.[2]  Cousin escreveu: 

“O eu, a natureza e o absoluto são os três elementos da vida intelectual.”

E ainda:

“Não há pensamento sem o EU e o NÃO-EU finitos, isto é, sem uma dualidade fenomênica, e sem uma substância infinita que dá as condições para a existência deles.”

Segundo Cousin, é importante lembrar que tudo o que há de Finito existe no Infinito.  O que é Finito surge do Infinito, e ao Infinito retornará.  

O planeta Terra e cada ser humano existem situados inevitavelmente no Infinito. O Espaço e o Tempo ilimitados nos incluem. Eles permeiam nossa consciência, e nos rodeiam. O Infinito Absoluto investigado por Cousin corresponde ao Parabrahm da filosofia oriental.

Para o pensador francês, os três famosos temas da filosofia clássica grega - o bom, o belo e o verdadeiro - são aspectos externos do infinito.  Cousin afirma que o infinito é uma necessidade humana básica, e está presente de modo oculto - simbolicamente ou potencialmente  - naquilo que é bom, verdadeiro e belo.

Ele escreve:

“Assim como o amor e a razão constituem a vida humana, eles também constituem a religião e a arte, que são expressões desta vida. Explico: a razão concebe o infinito; o amor tem uma aspiração pelo infinito; o que pode haver, além disso, na religião? Onde não existe uma concepção do infinito, nem amor pelo infinito, não há religião. (...) A religião é um olhar em direção ao infinito, lançado desde o âmago do finito; e a arte é uma reprodução do infinito, através do finito.” [3]

O infinito não pode ser encontrado no mundo externo e tridimensional. O que é bom, belo e verdadeiro no mundo apenas aponta e sinaliza para o que é ilimitado. E este só pode ser investigado se voltarmos nossa atenção para o mundo interno. 

O céu estrelado à noite pode ser uma imagem que sugere a infinitude universal: mas o infinito terá de ser encontrado com a visão da alma.

NOTAS:

[1] G. W. Leibniz (1646-1716) foi outro pioneiro. No final da sua vida, Leibniz escreveu longamente sobre a filosofia e a religião da China antiga, defendendo-as.

[2] Du Vrai, Du Beau et tu Bien”, em  “Oeuvres de Victor Cousin”, Société Belge de Librairie,  Haufman et Co.,  Bruxelles, 1840, três volumes. Ver Tome I, 526 pp., p. 373. A coleção reúne algumas de suas obras em volumes de grande porte, com texto em duas colunas. As aulas do curso foram dadas na França entre 1815 e 1818. 

[3] “Oeuvres de Victor Cousin”, Tome I, ver p. 378. 

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Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso-brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C.


Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 páginas, e foi publicada em 2014 por “The Aquarian Theosophist”.

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