8 de fevereiro de 2014

A Tábua de Esmeralda

O Significado de um Documento Alquímico    

Carlos Cardoso Aveline

“O que  está abaixo é como aquilo que está acima…”


A Tábua de Esmeralda é considerada o mais antigo dos ensinamentos que se relacionam com a alquimia e a pedra filosofal  (lapis philosophorum).

Trata-se segundo a tradição de uma pedra preciosa - uma esmeralda - na qual certas inscrições foram feitas  em alto relevo, milhares de anos antes da era cristã.    

O texto pode ser lido desde vários pontos de vista e é  a mais reverenciada das fórmulas alquímicas. Ele se refere tanto à alquimia de metais como à alquimia divina ou regeneração interior da alma humana. Também diz respeito ao indivíduo humano (microcosmo)  e ao sistema solar (macrocosmo).  

A autoria da Tábua é atribuída a Hermes na tradição esotérica. Ela está na origem da lenda maçônica de Hiram  (ou  Chiram). Chiram é o protótipo ou arquétipo do ser humano.

O ensinamento esmeraldino possui uma relação direta com as três proposições fundamentais da Doutrina Secreta, formuladas por H. P. Blavatsky com base na sabedoria esotérica do Oriente.  H. P. Blavatsky escreve na  sua obra “Ísis Sem Véu”:

“A tradição declara que junto ao cadáver de Hermes, em Hebron, um Iniciado, um Isarim, encontrou a  tábua conhecida como Smaragdine. Ela expressa, em poucas frases, a essência da sabedoria hermética. Para quem a lê apenas com seus olhos corporais, os seus preceitos não sugerem nada novo ou extraordinário, porque ela começa simplesmente afirmando que sua mensagem não fala de coisas fictícias, mas daquilo que é verdadeiro e seguro.”

Em seguida vem a transcrição do texto:   

O que  está abaixo é como aquilo que está acima, e o que está acima é semelhante a aquilo que está abaixo, para realizar os prodígios da coisa única.

Assim como todas as coisas foram produzidas pela mediação de um ser, assim também  todas as coisas foram produzidas a partir deste ser por adaptação.

O seu pai é o sol,  sua mãe é a lua.

Ele é a causa de toda perfeição por todo e qualquer lugar da terra.

O seu poder é perfeito  se ele for transformado em terra.

Separe a terra do fogo, o sutil do grosseiro, agindo prudentemente e com critério.

Eleve-se com a maior sagacidade desde a terra até o céu, e então desça de novo para a terra, e unifique o poder das coisas inferiores e superiores. Assim você possuirá a luz do  mundo inteiro e toda escuridão fugirá de você.

Esta coisa tem mais força que a própria força, porque ela domina todas as coisas sutis e permeia todas as coisas sólidas.  

Através dela o mundo foi criado. 

Tal é a Tábua Esmeraldina, na versão publicada em “Ísis Sem Véu”. 

H.P.B. acrescenta:

“Essa coisa misteriosa é o agente universal mágico, a luz astral, que nas correlações das suas forças fornece o alkahest, a pedra filosofal, e o elixir da vida.  A filosofia hermética a chama de Azoth, a alma do mundo, a virgem celeste, o grande Magnes, etc.,etc. A ciência física a conhece como ‘calor, luz, eletricidade, e magnetismo’, mas, ignorando as  suas propriedades espirituais e a potência oculta contida no éter, rejeita tudo aquilo que ignora.” [1] 

Em “A Doutrina Secreta”, H.P.B. comenta:   

“Assim, vemos na Tábua Esmeraldina, que foi desfigurada por mãos cristãs: -  ‘O Superior  está de  acordo com o Inferior,  e o Inferior está de acordo com o Superior, para produzir aquele Trabalho único e verdadeiramente maravilhoso’ - que é o HOMEM. Porque o trabalho secreto de Chiram, ou  Rei Hiram, na Cabala, ‘um em Essência,  mas três em Aspecto’, é o Agente Universal ou Lapis Philosophorum. A culminação do Trabalho Secreto é o Homem Espiritual Perfeito, em uma extremidade da linha; a união dos três elementos é o Solvente Oculto na ‘Alma do Mundo’, a Alma Cósmica ou Luz Astral, na outra extremidade; e, no plano material, é o Hidrogênio em sua relação com os outros gases.” [2]  

Para H.P.B., a combinação do superior e do inferior implica a existência de “duas operações herméticas secretas, uma relativa ao espiritual, a outra relativa ao material, e ambas unidas para sempre”.[3]

HPB reproduz no mesmo trecho algumas ideias centrais da Tábua:

“Separe a terra do fogo, o sutil do sólido ……. aquilo que sobe da terra para o céu e desce de novo do céu para a terra. Isso (a luz sutil) é a força mais forte em toda força, porque vence qualquer coisa sutil e penetra em todos os sólidos. O mundo foi formado assim. (Hermes) ”

Há sete chaves para a interpretação da Tábua de Esmeralda. 

Ao nível da chave antropológica, a “coisa única” mencionada no final do primeiro parágrafo é o ser humano.

Na versão mais oculta e completa da Tábua, jamais publicada, o primeiro parágrafo inclui a afirmação de que “o fogo Espiritual é o instrutor (Guru) da coisa única”.  H.P.B. esclarece que o instrutor, o fogo, é o próprio eu superior,  a alma imortal de cada indivíduo. [4]

Assim, o fogo espiritual a ser separado da terra “prudentemente e com critério”  é o aprendizado. Constitui a provação e o processo alquímico pelos quais a alma inferior  se transforma  à medida que se aproxima da alma imortal.

A transmutação começa quando a alma mortal passa a ouvir diretamente a voz suave da alma imortal, a “voz do silêncio”, a voz da consciência. 

O texto fala de modo mais ou menos velado sobre a reencarnação do individuo, e ao mesmo tempo sobre a manifestação periódica de um universo e de um sistema solar. Ele expressa a lei da harmonia entre céu e terra, corpo e alma, matéria e espírito. 

O Jesus do Novo Testamento navega nas águas da mesma sabedoria quando ensina:

“Em verdade vos digo: tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu.” (Mateus 18:18). 

Há nas mais diferentes culturas uma percepção de que o ser humano constitui uma ponte entre céu e terra. A trindade está presente em cada pessoa na forma  de espírito, alma e corpo. No extremo oriente, a tradição chinesa descreve o homem como formando com o céu e a terra “a grande tríade”. 

Para H. P. Blavatsky, a Tábua de Esmeralda é o único fragmento que se conhece hoje dos verdadeiros livros Herméticos. “Poimandres” e outros textos atualmente atribuídos a Hermes são, segundo ela,  “meras recordações mais ou  menos vagas  e equivocadas de diferentes autores gregos e latinos”.[5]

NOTAS:

[1] “Isis Unveiled”,  H.P. Blavatsky, The Theosophy Co., Los Angeles, vol. I, pp. 507-508.  Veja também a edição brasileira, “Ísis Sem  Véu”, H.P.B., Ed. Pensamento, S.P., volume II, p. 189.  

[2] “The Secret Doctrine” (“A Doutrina Secreta”)  H. P. Blavatsky, The Theosophy Co., Los Angeles, vol. II, p. 113.

[3] Veja, na tradução gradual de  “A Doutrina Secreta” em nossos websites associados, o comentário  ( c ) do item 7, Estância III, no volume I da obra.

[4] “The Secret Doctrine”,  obra citada,  vol. II, p. 109.  

[5] “Alchemy in  the 19th Century”,  H.P.B., texto incluído nos “Collected  Writings” de H.P. Blavatsky, TPH, India/USA, 1973, volume XI, ver p. 549.

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Veja também o texto “Sabedoria Hermética no Século 21”,  de Carlos Cardoso Aveline. O artigo está disponível em nossos websites associados.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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