3 de março de 2014

A Dimensão Sutil da Crença em Deus

Espíritos Antievolutivos
Animam Crenças Religiosas Convencionais

Carlos Cardoso Aveline

Não existe monopólio do conhecimento divino, e cada
tradição cultural aponta para alguns aspectos da verdade eterna


A crença popular em um Deus pessoal é estimulada pelas igrejas e religiões do monoteísmo organizado, e isso ocorre por um motivo prático. 

Elas buscam dominar seus seguidores manipulando sentimentos de medo e esperança pessoais.  Igrejas e sacerdotes se colocam como intermediários em uma relação comercial. O crente ingênuo visa comprar favores e vantagens de um deus todo-poderoso, cujo comportamento poderia ser supostamente controlado através de uma crença, uma promessa, uma vela acesa, ou do pagamento do dízimo a seus representantes. 

A manipulação sacerdotal dos povos acontece há milênios e constitui uma causa desnecessária porém central do sofrimento humano, segundo alerta a Carta 88 das “Cartas dos Mahatmas”. [1]

Obedecendo ao desejo de seus sacerdotes, o deus monoteísta de cada tribo ou nação justifica mentir, matar e oprimir quando tais crimes forem feitos - pelo menos nominalmente - para maior glória dele próprio.

Há milênios os sacerdotes de várias religiões monoteístas abençoam guerras e destruição sempre renovadas, enquanto o budismo, por exemplo - que não trabalha com o conceito de deus -,  jamais promoveu uma guerra. 

Pode ser difícil para alguns perceber o velho mecanismo da credulidade dos povos, pelo qual nações inteiras são vítimas da ignorância da casta sacerdotal, que não sabe o que faz. No entanto, este é apenas um primeiro passo. 

Um documento incluído em “Cartas dos Mahatmas” mostra um aspecto mais sutil e pouco conhecido do processo da crença em deus.

Trata-se da Carta número 30, no volume I, que inclui uma mensagem colocada no papel por H.P. Blavatsky, sob ditado do mestre dela.

O texto revela que os deuses das religiões dogmáticas são energias sutis animadas por  espíritos planetários antievolutivos, cuja função cármica é evitar que a Vitória da Sabedoria Universal  no coração humano ocorra de modo prematuro.

O Mestre designa tais espíritos planetários atrasados pelo nome de Ma-Mo Chohans.

Na mesma Carta, o Mahatma explica por que motivo um Raja-Iogue não pode ajudar em sua caminhada a quem crê em superstições como “Deus” e “Deuses” no sentido convencional.  Este tipo de crença destrói as possibilidades de uma afinidade magnética com a sabedoria divina, porque fecha a aura do indivíduo para a expansão de consciência que constitui a substância do caminho espiritual.  

Diz a Carta 30:

“A fé em Deuses ou em Deus e outras superstições atraem milhões de influências alheias, entidades vivas e poderosos agentes para perto das pessoas, e nos veríamos obrigados a usar algo mais que o exercício comum de poder para afastá-los. Nós decidimos não fazê-lo. Não consideramos necessário nem proveitoso perder o nosso tempo travando uma guerra com planetários [2] atrasados que se deliciam personificando deuses e, às vezes, personagens famosos que viveram na terra. Existem Dhyan-Chohans, e ‘Chohans das Trevas’, não o que eles chamam de diabos, mas ‘Inteligências’ imperfeitas que nunca nasceram nesta ou em qualquer outra terra ou esfera, tanto quanto os ‘Dhyan-Chohans’, e que nunca farão parte dos ‘construtores do Universo’, as Inteligências Planetárias puras que presidem cada Manvantara, enquanto que os Chohans das Trevas presidem os Pralayas. Explique isso ao sr. Sinnett (....)  - diga-lhe que leia de novo o que disse a eles nas poucas coisas que expliquei ao sr. Hume, e que ele se lembre de que, assim como tudo neste universo é contraste (não posso traduzi-lo melhor) assim também a luz dos Dhyan Chohans e sua inteligência pura é contrastada pelos ‘Ma-Mo Chohans’ - e sua inteligência destrutiva. Esses são os deuses que hindus, cristãos, maometanos e todos os demais integrantes de religiões e seitas intolerantes fanáticas adoram; e enquanto a sua influência se fizer sentir sobre os seus devotos, não nos ocorreria a ideia de associar-nos a eles nem de opor-nos a seu trabalho, do mesmo modo como em relação aos Gorros Vermelhos [3] na terra, cujos resultados maléficos tratamos de diminuir, mas com cujo trabalho não temos direito de imiscuir-nos, enquanto eles não se interpuserem em nosso caminho.”

Depois desta mensagem ditada pelo raja-iogue, Helena Blavatsky prossegue na carta acrescentando uma explicação sua. Ela diz o seguinte (colocamos alguns termos explicativos entre colchetes, em itálico  e sublinhados):

“Aqui (...) [o Mestre] quer dizer que eles não têm o direito, nem o poder, de ir contra a natureza, ou contra aquele trabalho que foi destinado pela lei da natureza para cada tipo de seres ou coisas existentes. Os Irmãos [os Mahatmas], por exemplo, podem (....) até certo grau reduzir o mal e aliviar o sofrimento: mas não podem destruir o mal. Do mesmo modo os Dhyan Chohans [espíritos planetários evolutivos, que trabalham pela libertação humana] não podem impedir o trabalho dos Mamo Chohans, pois a Lei destes é trevas, ignorância, destruição, etc., assim como a Lei dos primeiros é Luz, conhecimento e criação. Os Dhyans Chohans respondem a Buddh, Sabedoria Divina e Vida em conhecimento abençoado, e os Ma-mos são a corporificação na natureza de Shiva, Jeová e outros monstros inventados, que têm a ignorância como seguidora.”

Vemos assim que, de acordo com a filosofia esotérica, há de fato “algo real” que interage no plano sutil com as seitas religiosas baseadas em dogmatismo e crença ritualista. Este “algo” são espíritos planetários antievolutivos, que obstaculizam o progresso da humanidade. 

A tarefa da teosofia e da filosofia ocidental clássica é libertar a humanidade do pensamento pré-filosófico, que busca perpetuar a ingenuidade dos povos com base em crença cega e em rituais fabricados na idade média. 

O ecumenismo e o diálogo inter-religioso devem ser incentivados. Eles mostram implicitamente a fraude da pretensão de cada igreja que se propõe como proprietária única do imaginário deus monoteísta, e da verdade.

Não existe monopólio do conhecimento divino: a sabedoria universal está parcialmente presente em cada religião. O cidadão transcende a armadilha sacerdotal ao perceber que a luz espiritual, assim como a luz solar, não tem proprietários.

O debate filosófico e o sentimento de dever intercultural para com o futuro libertam a mente humana de sofrimentos desnecessários, e abrem as portas para uma nova ética planetária - a ética da fraternidade entre todos os seres.  

NOTAS: 

[1] “Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Brasília, dois volumes. Coordenação editorial de Carlos Cardoso Aveline.

[2] Isto é, espíritos planetários. (Nota da edição brasileira de “Cartas dos Mahatmas”.)

[3] Seita asiática cuja ação dificulta a evolução espiritual dos seres humanos.  

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Uma versão inicial do texto acima foi publicada de modo anônimo na edição de fevereiro  de 2010 do boletim mensal O Teosofista.

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Para conhecer a teosofia original desde o ângulo da vivência direta, leia o livro “Três Caminhos Para a Paz Interior”, de Carlos Cardoso Aveline.


Com 19 capítulos e 191 páginas, a obra foi publicada em 2002 pela Editora Teosófica de Brasília.   

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