31 de maio de 2014

Oração Para Aqueles que Curam

Com um Comentário de um Ponto de Vista Teosófico

Carlos Cardoso Aveline

Acima, uma imagem clássica de São Francisco de Assis



Em uma das suas obras, a pensadora Elisabeth Kübler-Ross divulga uma versão da famosa Oração de São Francisco de Assis, adaptada para os terapeutas e os curadores em geral. 

Diz a oração:


SENHOR,
Faça de mim um instrumento da sua saúde:
Onde houver doença,
Que eu leve a cura;
Onde houver ferimento,
Ajuda;
Onde houver sofrimento,
Alívio;
Onde houver tristeza,
Conforto;
Onde houver desespero,
Esperança;
Onde houver morte,
Aceitação e paz.

FAÇA com  que eu procure mais
Consolar do que ser fortalecido;
Entender do que ser obedecido;
Amar do que ser homenageado;
Porque é entregando a nós mesmos
Que nós curamos;
É escutando
que nós confortamos;
E é morrendo, 
que nós nascemos para a vida eterna. [1]


Embora aparentemente específica, esta bela oração não se aplica apenas a aqueles profissionais e estudiosos  da área da saúde que percebem os aspectos éticos e espirituais deste campo de ação.  

Cada ser humano que busca com autenticidade a sabedoria é alguém que irradia ao seu redor sentimentos e pensamentos mais elevados, e portanto constitui, de certo modo, um curador, um terapeuta - alguém que leva alívio aos que sofrem.

Do ponto de vista filosófico, porém, é importante perceber com clareza a linha que estabelece a diferença entre a Cura, de um lado, e a mera Anestesia, de outro; entre o alívio real da dor, e a simples fuga dela; entre a verdadeira libertação,  e o limitado combate aos efeitos externos do sofrimento. Há um abismo sutil entre estas duas possibilidades.

O tratamento que leva à eliminação efetiva do sofrimento pode não ser agradável à primeira vista. O paciente que sofre da doença da ignorância  espiritual terá de reconhecer em si mesmo os fortes adversários que são o medo  da cura e a resistência ao remédio. Estes dois adversários o levam em parte a rejeitar, de modo mais ou menos inconsciente, a percepção e a vivência diretas da sabedoria universal.

Assim, tanto o terapeuta como o peregrino experiente no caminho da sabedoria deverão deixar claro, a quem dialoga com eles sobre o processo da cura ou de busca espiritual, que é indispensável reconhecer um fato básico:

Aquilo que é bom, que cura  e faz o bem,  nem sempre é agradável; e, por outro lado, aquilo que parece agradável frequentemente não é bom, nem cura, nem faz bem.”

Portanto, uma certa dose de indiferença estoica à dor de curto prazo é sumamente importante para que possa ocorrer a verdadeira cura,  física ou espiritual.  O apego emocionalmente infantil à satisfação pessoal, assim como a fuga igualmente imatura de tudo o que parece desagradável, são duas fontes gêmeas do desequilíbrio interno que leva à ausência de saúde, tanto física quanto espiritualmente.

Quando se tem consciência destes fatos, a cura se torna mais fácil, mais profunda, e mais duradoura.

Na  medida  em  que o buscador  da  verdade  e o terapeuta  estão  em  pleno  contato  com  a bem-aventurança e a saúde  em  seu  interior,  eles  irradiam  ativamente coragem, confiança  e bem-aventurança ao seu redor. Onde quer que eles estejam, eles são um estímulo para que outros seres se conectem mais diretamente, em seu próprio interior, com a fonte universal de saúde e bem-estar. 

Os verdadeiros terapeutas, assim como os verdadeiros teosofistas, evitam levar aos outros uma anestesia de curto prazo. Como resultado disso, é preciso discernimento para reconhecê-los;  e é necessário um discernimento maior ainda  para tornar-se, gradualmente, um deles.  

A longo prazo, o processo da cura é um processo de autorrealização, de autorregulação  e de autoplenitude,  e este processo ocorre em solidariedade e comunhão interior com os outros seres.


NOTA:

[1] ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO, modificada por Charles C. Wise, e publicada nas páginas de abertura da obra “Death, the Final Stage of Growth”, de Elisabeth Kübler-Ross, Prentice-Hall, New Jersey, USA, 1975, 182 pp.  

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Leia também o texto “Francisco, o Santo Panteísta”, de Carlos Cardoso Aveline, que está disponível em nossos websites associados. 

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