2 de fevereiro de 2015

A Sala de Espelhos

O Movimento Teosófico É Um Espaço
Alquímico de Autoconhecimento Pelo Altruísmo

Carlos Cardoso Aveline

Em um grupo esotérico, cada um se vê refletido em
todos os outros, com graus diversos de realismo e distorção


A ação teosófica ocorre em duas frentes simultâneas e opostas. O individual e o coletivo são dois fatores em diálogo permanente. A movimentação externa é eficaz quando expressa uma ação interna e fundamental que aponta na mesma direção. Por este motivo aqueles que desejam beneficiar a humanidade devem melhorar constantemente a si mesmos.

Para alcançar a meta de melhorar a si mesmo para beneficiar os muitos, o teosofista encontra um ambiente em geral mais eficaz no grupo teosófico do que no trabalho ou na família. Uma equipe de trabalho teosófico é uma comunidade de aprendizagem, um processo vivo de pesquisa, e não um lugar em que se busca obter conforto, rotina agradável, dinheiro ou vitórias materiais.

O movimento teosófico autêntico é uma federação não-autoritária dos que trabalham pelo bem da humanidade seguindo a proposta da literatura teosófica clássica. Há um processo alquímico, individual e coletivo, pelo qual os teosofistas melhoram a si próprios para ajudarem a humanidade.

Na alquimia coletiva, um grupo teosófico funciona como uma “sala de espelhos”. A dinâmica viva das percepções mútuas, faladas e não faladas, faz com que cada um encontre aspectos de si refletidos em todos os outros, e veja em si próprio reflexos e influências dos seus colegas. O “jogo de espelhos” provoca imagens agradáveis e desagradáveis, projetadas com vários graus de realismo e distorção.

Os erros e os acertos do indivíduo são exagerados ou subestimados conforme as limitações perceptivas de quem os observa.  As percepções mútuas também se alteram ao longo do tempo: a admiração pessoal por alguém pode aprofundar-se ou diminuir. Devoção pessoal, amizades, antipatias e resistências ficam reduzidas ou se expandem sob a ação da aprendizagem.

Um princípio fundamental da ação em grupo afirma que quando estou em contato com o que há de melhor em mim posso enxergar com mais facilidade o que há de melhor no outro. E também verei com mais intensidade os erros alheios. Diante deles, a impessoalidade e a humildade serão a base da moderação e da capacidade de irradiar paz em condições desafiantes. 

Devemos ser lentos em julgar negativamente as ações de outrem, e jamais julgar “definitivamente” uma pessoa. O único tribunal reconhecido em teosofia é o tribunal da consciência individual: cabe a cada um julgar a si próprio. As ações erradas, no entanto, devem ser apontadas, evitadas e corrigidas amplamente. Acobertar erros próprios ou alheios é uma deslealdade para com a causa comum, e as fraudes “devocionais” devem ser evitadas.

Na interação do grupo, meus erros serão refletidos nos erros dos outros e assim poderei corrigi-los, se tiver uma forte vocação de vitória e uma decisão de pagar o preço da aprendizagem. O autoaperfeiçoamento exige deixar de lado o orgulho pessoal e outras fontes de sofrimento que a curto prazo parecem agradáveis. 

No jogo de espelhos do grupo teosófico, a verdade vem de dentro. O Mestre de cada um é o seu próprio eu superior, que fala sem uso de palavras. Para ouvir a voz do silêncio, o modo como olhamos em nosso coração os colegas de caminhada é um fator decisivo.

A tentação de sentir-me superior quando enxergo defeitos dos outros estará presente.  A inveja será um sintoma seguro de um estrangulamento em antahkarana, a ponte que liga meu eu inferior à minha alma imortal. Pensar nos defeitos alheios é uma fuga da tarefa essencial de melhorar a mim mesmo. Pensar mal dos outros é a ilusão dos preguiçosos e dos que desanimam quando pensam em melhorar a si próprios.

Cuspir no espelho não é a melhor maneira de expandir nosso antahkarana.  No entanto, é certo que os aspectos negativos de cada um trarão à vida os medos e as raivas deste ou daquele colega.

Ninguém deve esquecer que, para os budistas, o eu pessoal - a imagem no espelho - é uma ilusão. A tradição pitagórica ensina que os seres humanos são combinações mutáveis de padrões vibratórios. O amigo da sabedoria busca associar-se a padrões corretos e elevados, e faz isso através da transmutação dos padrões inferiores. Sentimentos negativos em relação a colegas de caminhada causam uma falsa satisfação de curto prazo, mas, na verdade, preparam a derrota do desinformado que os alimenta. As ideias e emoções destrutivas vão até o espelho e voltam para nós. Devem então ser novamente rejeitadas. Este pingue-pongue é inútil.   

Tanto física como psicologicamente, o mundo inteiro ao nosso redor é um espelho multifacetado no qual vemos refletido grande número de aspectos daquilo que somos. Desse fato não há fuga possível. Não nos enganemos pensando “secretamente” mal uns dos outros.  Não há “uns e outros”: estamos todos em unidade. A cura está na transmutação alquímica.

Trilhar o caminho teosófico não consiste em adotar uma pose espiritual e combinar palavras bonitas para impressionar os outros ou a si próprio. Trilhar o caminho é buscar o mais elevado enquanto enfrentamos o que há de pior em nós e nos outros, e o transformamos alquimicamente no que haverá de melhor. Quando sentimos que “não gostamos de tal pessoa”, e quando nos sentimos ameaçados por alguém, é algo em nós mesmos que estamos rejeitando indiretamente. É algo dentro de nós próprios que nos ameaça.

Pioneiro é aquele que abre um caminho ali onde não há caminho. Exatamente porque o trabalho teosófico é criativo, ele é probatório.

A busca da sabedoria coloca em cheque grandes blocos de ignorância, e eles reagem estimulando formas novas e traiçoeiras de egoísmo. A resistência à sabedoria, reforçada pela aceleração do carma, pode ser vista de dois modos. 

1) Em primeiro lugar, ela pode aparecer como ignorância “minha”, e neste caso tentará iludir-me causando medo, desânimo, falta de autoestima, sentimento de derrota e coisas semelhantes.

2) Em segundo lugar, a ignorância pode tentar enganar-me convidando-me a projetar sobre outrem meus defeitos e limitações.  Em seguida ficarei com raiva do espelho. O erro passa a ser visto como algo que pertence a este ou aquele colega de caminhada.

O medo e a raiva são as duas caras do mesmo sentimento de frustração. Diante do veneno criado por estes sentimentos opostos, vale o tríplice antídoto da confiança em si mesmo, da confiança nos outros, e da confiança na vida. É mais fácil confiar nos outros quando nós mesmos somos dignos da confiança alheia. Ser confiável é o primeiro passo e a melhor maneira de criar as bases para vínculos de forte lealdade. Mas em teosofia a confiança mútua exclui apegos pessoais e ocorre no interior da luta por uma meta nobre compartilhada. 

A filosofia esotérica ensina que há uma ignorância em nós, mas não somos a ignorância. Ela tampouco é a substância de que são feitos nossos semelhantes. A ignorância egocêntrica é uma casca externa que oculta a sabedoria altruísta presente em nós e nos outros. Esta casca quebra e é removida graças ao crescimento da alma.

A expansão da sabedoria em nós estimula o crescimento da sabedoria nos colegas, assim como o crescimento da sabedoria nos colegas estimula a expansão do conhecimento em nós. Deste modo aumenta o número de pessoas que passam a ser centros energéticos de respeito pela vida. 

O teosofista liberta a si mesmo da ignorância enquanto dá elementos para que os outros façam o mesmo, numa reação em cadeia que, ao longo dos séculos, vem despertando a humanidade como um todo.

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O artigo acima foi publicado pela primeira vez na edição de janeiro de 2015 de “O Teosofista”.

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O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


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