16 de abril de 2016

Aleijadinho e a Alma Brasileira

Como o Sofrimento Humano
Se Transforma em Sabedoria

Carlos Cardoso Aveline


A igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto



Sob a aparência simples de objetos de arte, as obras de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738? - 1814), desafiam o tempo como lições de vida e como expressões da sabedoria humana.

É verdade que a maior parte do que se sabe sobre Aleijadinho é lendário. Mas lendas servem para transmitir verdades. O mito em torno dele conta uma história real da brasilidade vista como um processo de alma. A vida de Aleijadinho é também uma aula sobre como transcender o sofrimento inerente à vida. E as obras atribuídas a ele existem de fato, podendo ser vistas por todos em cidades históricas de Minas.

A herança cultural de Antônio Francisco Lisboa é valiosa no século 21 porque é multidimensional. Seu legado não está apenas nas igrejas e santuários de Minas. Inclui a tradição oral e os documentos históricos da época. Pode ser visto e compreendido de diferentes formas. Ganha novos significados à medida que o tempo passa e uma geração sucede à outra.  

Barroco Mineiro Afirmou a Brasilidade

Durante o ciclo do ouro, Minas Gerais tornou-se um foco do sentimento nacional. Várias décadas antes do grito do Ipiranga, a independência do Brasil foi proclamada no plano abstrato dos ideais. Em Ouro Preto veio à luz o sonho ainda hoje incompleto de que o país seja plenamente independente, solidário e próspero.     

No século 18 não havia ainda uma clara separação entre arte, indústria e artesanato.  O conceito de beleza estava ligado ao que é útil e funcional no cotidiano. Quase todo artista era, ao mesmo tempo, um artesão e um operário. No plano político, é verdade que o barroco europeu foi absolutista. Era uma arte centralizadora, que fortalecia o poder corrupto dos papas e das monarquias e negava a influência do Renascimento. Mas na colônia brasileira a realidade foi diferente: o barroco das Minas Gerais tem um sabor criativo, renovador, inquietante - quase revolucionário por seu compromisso com a terra dos brasileiros.

O Conflito Entre o Sagrado e o Profano

Escultor e arquiteto do século das luzes, Aleijadinho vive o conflito entre o sagrado e o profano. Ele combina esforço e inspiração, talento e tenacidade, imaginação e teimosia - e desse modo consegue ser maior que o sofrimento.   

Para os artistas, como para os místicos, o infinito está dentro do que é finito. A missão da arte é revelar a presença do eterno nas coisas passageiras. A sabedoria quer fazer com que o espírito floresça no corpo, e que a luz surja no mundo; e Aleijadinho vive intensamente esse combate. Deste modo ele ajuda a formar a essência do que há de melhor na alma brasileira.[1] 

É inegável que os dados da sua vida são imprecisos. Sua biografia está envolta em lendas.  Antônio Francisco foi filho natural de Manuel Francisco Lisboa, mestre carpinteiro bem conhecido em Vila Rica do Outro Preto. Há indícios de que ele tenha nascido em 1738, embora seu principal biógrafo indique a data de 1730. [2] Tampouco há um retrato confiável de Aleijadinho. Por sua origem humilde, aquele artista mulato não podia ser membro da elite e não merecia ser retratado. Além disso, sua fisionomia deformada era motivo suficiente para que ele próprio evitasse retratos.  

O escritor Rodrigo Bretas, autor da história não comprovada da sua vida, conta que ele aprendeu desenho, arquitetura e escultura nas escolas práticas do seu pai e do desenhista João Gomes Batista.

Com cerca de 40 anos de idade, Antônio teve um filho a quem deu o nome de Manuel Francisco Lisboa, em homenagem a seu pai.  Até essa época o artista tinha boa saúde e uma vida cômoda. Gostava de bailes, danças e comida farta. Mas Antônio Francisco vivia uma encruzilhada. Era difícil optar entre a beleza sagrada e a beleza mundana. As ilusões ficam mais fortes quando erguemos o olhar para o mundo divino. O dilema de Antônio, inicialmente agradável, foi descrito no “Romanceiro do Aleijadinho”:

“Ó bela a quem amo:
tens rosto de santa.
Mulheres são anjos?
Ó santa a quem amo:
tens corpo profano.
Mulheres. Não anjos.
Ó corpo que eu amo:
és santo ou profano?
Mulheres não anjos.
Ó peito com que amo:
és sacro e profano.
Mulheres ou anjos?” [3]

Dor Pessoal Ensina Transcendência

Os tempos fáceis terminaram em torno de 1777, uma data numerologicamente forte devido à presença nela de três setes. Foi então que o Carma trouxe as moléstias físicas, símbolo das provações do caminho espiritual. Um dia, Antônio Francisco começou a perder os dedos dos pés. Depois de algum tempo, só podia andar de joelhos. Os dedos das mãos atrofiavam-se e curvavam-se, em alguns casos caíam. Restavam os polegares e os índices.  A angústia e o desespero do artista fizeram com que ele próprio cortasse pedaços de suas mãos, usando para isso o formão com que trabalhava.

Há diferentes versões sobre a natureza da sua doença. Seria a zamparina, que causava deformidades e paralisia? Ou era uma doença semelhante ao escorbuto? Seria uma consequência de excessos amorosos, como asseguravam alguns? 

Com o agravamento da doença, as pálpebras dos olhos inflamaram-se e a parte inferior delas ficou visível. Rodrigo Bretas conta que Aleijadinho perdeu quase todos os dentes. A boca entortou-se do modo como ocorre às vezes com os deficientes mentais. O queixo e o lábio inferiores ficaram caídos. O olhar do artista adquiriu uma expressão de ferocidade, que chegava assustar quem o encarasse subitamente. Essa circunstância, e a boca torta, davam-lhe um aspecto medonho.[4]

A impressão causada por sua fisionomia tornava Antônio Francisco agressivo. Com os sentimentos feridos, ele ficava irritado até quando ouvia elogios. Enxergava ironia oculta nas palavras amáveis de gente desconhecida. Embora fosse alegre e bem-humorado entre os amigos, não tolerava a curiosidade do povo. Para evitar o constrangimento, trabalhava oculto. Mesmo que estivesse entre as quatro paredes de uma igreja, isolava-se do resto do salão por meio de lonas.  Conta-se que certa vez um general - provavelmente Luís da Cunha Menezes - decidiu observar de perto enquanto ele trabalhava em pedra. Aleijadinho não pôde afastar diretamente o visitante ilustre, mas fez cair tantas lascas de granito sobre o general que este teve de retirar-se. 

Os trabalhos eram feitos em equipe. Aleijadinho possuía um escravo africano chamado Maurício, que operava como entalhador e lhe era profundamente leal. Além dele, dois outros escravos: Agostinho, também entalhador, e Januário, que guiava o burro em que o artista se deslocava pela cidade. Para não ser visto pelas pessoas, Aleijadinho ia de madrugada para o trabalho e dali só saía à noite.

À medida que o sofrimento o forçava a amadurecer, o artista se elevava até uma percepção superior das coisas. Sua vida pessoal era uma crucificação. A ressurreição ocorria no mundo da arte.  Sobre seu trabalho em meio à dor, a poeta Stella Leonardos escreveu:

“Lá vai Antônio Francisco
pecador talhando santos.(...)

Lá vai Antônio Francisco
um mal do inferno no corpo.

Lá vai Antônio Francisco
mais horrendo que um demônio.

Lá vai Antônio Francisco
das mãos lutando com anjos.

Lá vai Antônio Francisco
ferindo as mãos, asas de anjo.

Lá vai Antônio Francisco,
entre os anjos e os demônios.

Lá vai Antônio Francisco
mais coragem que um demônio.” [5]

Entre os trabalhos famosos de Aleijadinho estão sua atuação na igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Ouro Preto, na igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Sabará, e na igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto.

A capela de São Francisco é considerada a melhor expressão da fase final do barroco mineiro.  Nela, Aleijadinho foi também arquiteto e dirigiu a parte principal da obra, entre 1772 e 1779.  Depois dessa data, outro mestre notável, Manuel da Costa Ataíde, realizou grande parte das pinturas do interior. 

Na imagem que fica acima da porta principal, entre as duas torres da capela, Aleijadinho gravou um alto-relevo que representa São Francisco de Assis, ajoelhado, tendo a visão de Monte Alverne.

O episódio ocorreu em 1224, na Toscana, Itália. Durante uma estadia no eremitério de Monte Alverne, Francisco de Assis vê um anjo de seis asas que paira acima dele pregado numa cruz. Duas asas elevam-se sobre a cabeça do anjo, simbolizando a intenção pura e a ação correta. Duas outras asas servem para voar, e mais duas cobrem seu corpo.

Diante dessa visão, Francisco de Assis é tomado de alegria e tristeza ao mesmo tempo. Ao erguer-se dali, o santo que ama a pobreza sente no corpo pela primeira vez as marcas dos quatro pregos da cruz. São as chagas do Cristo e o anúncio da Paixão de Francisco, que concluiria com sua morte dois anos depois.[6]

A visão de Monte Alverne é uma das obras mais importantes atribuídas a Aleijadinho.
Será possível que o artista, cujo corpo no final da sua participação nessa obra já começava a despedaçar-se, tivesse um sentimento de identidade ou de antecipação em relação aos sofrimentos, e às chagas, de São Francisco? Parece provável.    

“Dor”, ou “Dukkha”, é a primeira nobre verdade do budismo.  Viver implica sofrimento, e ser maior que a dor exige sabedoria.

Examinando o significado místico do sofrimento pessoal na obra artística de Antônio Francisco Lisboa, Stella Leonardos escreveu no poema  “Prece do Aleijadinho”:

“Com dor ou sem dor
ficarei de pé.
Mesmo que os joelhos dobrem,
Mesmo que os pés se ulcerem.

Com dor ou sem dor
usarei as mãos.
Mesmo que as mãos se firam.
Mesmo perdendo os dedos.

Com dor ou sem dor
subirei de joelhos
e mãos postas, meu Deus,
Até meu próprio fim.

Mas dai-me vida
com dor ou sem dor
a fim de que eu termine
minha obra. E ela fique de pé.” [7]

A Verdade Através das Lendas

O conceito de biografia bem documentada é relativamente recente, e não oferece garantias. Ainda hoje as narrativas biográficas de grandes personagens são temas controversos.

A biografia de Aleijadinho, porém, assim como a de São Francisco, é mais do que escassamente documentada. Ela é amplamente lendária, e este não é um fato isolado. As biografias conhecidas de Buddha, Jesus e outros grandes instrutores da humanidade são igualmente lendárias em seus aspectos materiais. Encerram verdades simbólicas.

A sabedoria universal é ensinada por parábolas, como ensina Jesus (Marcos, 4: 1-17). Isso ocorre, entre outros motivos, porque o ensinamento da sabedoria eterna se dirige ao hemisfério direito do cérebro, sede da intuição espiritual. A percepção do sagrado transcende a expressão verbal comum.

A própria noção de Deus, como entidade monoteísta, é uma construção cultural e uma metáfora, infelizmente levadas para o plano literal. As descrições de Deus monoteísta vêm sendo construídas e reconstruídas incessantemente desde a antiguidade, e continuam sendo adaptadas às circunstâncias históricas de curto prazo e aos interesses dos sacerdotes profissionais. O fato de que há inúmeros deuses monoteístas estabelece na prática uma espécie de panteísmo involuntário por parte das numerosas seitas que lutam entre si pelo predomínio político nas grandes religiões monoteístas. 

Lendas, parábolas, metáforas e outras imagens simbólicas servem para transmitir lições mais profundas do que as dadas pelos eventos literais da vida, aos quais se apega a mente rotineira e material.  Tanto o mito criado em torno do Aleijadinho como a lenda em torno de São Francisco são poderosamente verdadeiros. Ecoam na alma humana, transcendem a visão das aparências, e por isso permanecem vivos ao longo do tempo. [8]

Um aspecto dominante da obra atribuída a Aleijadinho e sua equipe está nas esculturas de doze profetas, construídas em pedra-sabão entre 1800 e 1805 no pátio frontal da Igreja de Bom Jesus de Congonhas do Campo.

São quatro profetas maiores - Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel - e oito profetas menores. Todos eles anunciam a vitória da fraternidade universal proposta pela tradição cristã.

No século 20 o movimento modernista reencontrou as raízes da brasilidade nas cidades históricas de Minas. O poeta Oswald de Andrade escreveu:

“No anfiteatro das montanhas
os profetas de Aleijadinho
monumentalizam a paisagem.
As cúpulas brancas dos Passos
e os cocares revirados das palmeiras
são degraus da arte do meu país
onde ninguém subiu jamais.
Bíblia de pedra-sabão
banhada no ouro das Minas.” [9]

Aleijadinho não fez fortuna. Ele era descuidado na administração do dinheiro e foi roubado várias vezes. Além disso, dividia seus ganhos pela metade com o escravo Maurício e dava esmola aos pobres.  No final da vida, libertou seus escravos.

Em 1812 o artista ficou quase totalmente cego e foi viver na casa da sua nora Joana Francisca, que cuidou dele com devoção. O final chegou aos 76 anos de idade, dia 18 de novembro de 1814. [10]

A Força de Aleijadinho no Século 21

O tempo tem mistérios inesgotáveis: séculos depois de sua morte, a presença sutil de Aleijadinho é perceptível em Ouro Preto. As velhas casas, ruas e morros desse município que é patrimônio da humanidade preservam consigo a atmosfera do século 18 e são um poderoso centro de respeito e amor pelas coisas do Brasil.

Em agosto de 2004, estive durante três dias em Ouro Preto. O objetivo era codirigir um pequeno seminário sobre a influência da tradição mística na formação histórica e cultural do Brasil. Verifiquei ali mais uma vez que, dentro de certos limites, não é difícil viajar no tempo.

Meditei à maneira dos iogues nas igrejas da antiga capital mineira. Recitei nelas o Gayatri em sânscrito. Com a mente vazia e o coração pleno, caminhando como se vivesse em outra época, investiguei diretamente um dos mitos mais verdadeiros de Minas e do Brasil. Tive a oportunidade de, conforme sugere o poema, -

“Pisar com carinho as ruas
Que o Aleijadinho pisou
E onde serestas flutuam.

Pisar com carinho as ruas
Que o Aleijadinho pisou
Marcando-as com sua força,
à força de frustração.

Como se as ruas não fossem
de pedra, e as pedras não fossem
Pedaços do coração.” [11]   


NOTAS:

[1] Veja “Idéias Filosóficas no Barroco Mineiro”, Joel Neves, Ed. Itatiaia, BH, 1986, 195 pp., p. 31.

[2] Sobre indícios a respeito da data de nascimento, ver “O Aleijadinho de Vila Rica”, Waldemar de Almeida Barbosa, Ed. Itatiaia, BH, 1984, 95 pp. em tamanho ofício, pp. 09, 10 e 32.

[3] “Romanceiro do Aleijadinho”, Stella Leonardos, Ed. Itatiaia, BH, 1984, 111 pp., ver p. 26.

[4] “O Aleijadinho de Vila Rica”, Waldemar de Almeida Barbosa,  obra citada, pp. 32 e 33.

[5] “Romanceiro do Aleijadinho”, Stella Leonardos, obra citada, p. 17.

[6] “São Francisco de Assis, Escritos e Biografias”, Ed. Vozes, RJ, 1991, 1372 pp., ver p. 246. Sobre as asas ligadas à cabeça, ver p. 263.

[7] “Romanceiro do Aleijadinho”, obra citada, ver p. 52.

[8] Sobre o caráter não-histórico da biografia conhecida de Aleijadinho, veja-se algumas páginas verdadeiramente demolidoras na obra “Arte Religiosa”, de Augusto de Lima Jr., Edição do Instituto de História, Letras e Arte, Belo Horizonte, MG, 1966, 170 pp., mais precisamente pp. 161-169.

[9] “O Aleijadinho de Vila Rica”, obra citada,  p. 45.

[10] A vida de Aleijadinho, na versão mais ou menos lendária de Rodrigo José Bretas, inspirou o bom filme “O Aleijadinho, Paixão, Glória e Suplício”, de Geraldo Santos Pereira, disponível em DVD (Paris Filmes). O filme tem 110 minutos de duração.

[11] “Romanceiro do Aleijadinho”, obra citada, p. 37


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Uma versão inicial do texto acima foi publicada na revista “Planeta”, de São Paulo, em novembro de 2004.  A presente versão, revisada, foi entregue para publicação online em dezembro de 2011.

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Para acompanhar um diálogo com a sabedoria de vida de grandes pensadores dos últimos 2500 anos, leia o livro “Conversas na Biblioteca”, de Carlos Cardoso Aveline.


O livro foi publicado pela Edifurb, de Blumenau, Santa Catarina. Com 170 páginas divididas em 28 capítulos, ele foi publicado em 2007.

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