4 de julho de 2016

Roessler, um Pioneiro da Ecologia

Henrique Luiz Roessler Abriu Caminho
No Brasil Para a Defesa do Ambiente Natural   

Carlos Cardoso Aveline

Foto do primeiro semestre de 1954: Roessler, à direita,
junto a armas e munições apreendidas de caçadores ilegais



Henrique Luiz Roessler (1896-1963) dedicou sua vida desde 1939 à luta contra a pesca ilegal, o desmatamento, a caça clandestina e a poluição.

Contador de profissão, imprimia milhares de folhetos sobre a proibição da caça. Em 1944, foi nomeado delegado florestal no Rio Grande do Sul, cargo não remunerado.

A pioneira Delegacia Florestal tinha sede em São Leopoldo e chegou a contar com 400 guardas voluntários espalhados pelo território gaúcho. Roessler incomodava setores influentes da sociedade, até que na metade da década de 1950 a pressão de madeireiros, caçadores e poluidores industriais chegou a um ponto de não-retorno. Numa tentativa de neutralizá-lo, Roessler foi destituído do cargo de Delegado Florestal sob a estranha alegação de que “não era possível trabalhar gratuitamente para o governo”. Como resposta, ele fundou em janeiro de 1955 uma das organizações ambientalistas mais antigas do país, a União Protetora da Natureza, UPN.

Roessler foi um místico da natureza. Era um contemplativo e, ao mesmo tempo, um homem de ação. Em crônicas semanais no jornal “Correio do Povo”, de Porto Alegre, usava uma linguagem irreverente contra os infratores da legislação ambiental. Seu trabalho preparou o surgimento de uma nova etapa do movimento ecológico e da consciência ambiental brasileira a partir de 1971. Seu exemplo pessoal de bravura, de ética e integridade ainda brilha hoje, e pode inspirar futuras gerações. A seguir, uma breve entrevista com Roessler através dos seus escritos. [1]

Henrique Luiz Roessler, em torno dos 50 anos de idade


1) Você é um homem de contrastes. Foi um místico e um guerreiro. Passava noites em claro no meio de bosques, para surpreender caçadores clandestinos. E sempre lhe faltou paciência para lidar com a demagogia. Como você vê a atitude dos políticos profissionais? 

Vivemos na idade dos anúncios bombásticos, da superficialidade e das expressões inchadas, das palavras infladas de mentiras, do fraseado oco.  Isso é algo que temos de considerar, quando ouvimos as palavras “proteção à natureza”.  Tanto se fala e escreve sobre ela que vale a pena perguntar: “Não será tudo fanfarrice, jactância? Temos realmente uma proteção à natureza ou tudo não passa de uma bonita formulação de palavras? Se a temos realmente, valerá mesmo alguma coisa? Ou é somente um expediente falso, um pretexto para justificar gastos de verbas, uma passagem para a ruína, um último constrangimento, um espernear, uma agonia de morte?”

2) Como você encara a comemoração anual do Dia da Árvore, em setembro?

Em vez de dia de festa, devia ser um dia de luto pela floresta desaparecida, e deviam chorar de vergonha os que deixaram de cumprir o seu dever, especialmente aqueles que foram pagos ou obtiveram lucros e que cometeram o crime da omissão, nada fazendo. O que não dá renda imediata, ninguém gosta de fazer. Quem hoje em dia vai se lembrar do dia de amanhã? Aquele que pensa em um futuro remoto, daqui a 100 ou 200 anos, e planta árvores para as gerações futuras colherem os frutos do seu trabalho, é considerado louco pela mentalidade atual.

3) Uma alternativa para a preservação ambiental  é a educação dos jovens?

A juventude escolar, nossa esperança de um futuro melhor, devia ser ensinada a amar a terra, a floresta e a fauna por meio de um sistema pedagógico moderno, pondo-a em contato direto com a natureza, e isso especialmente em relação à mocidade das cidades, que geralmente fica presa em casa e assim não chega a conhecer a beleza de um mato nativo. A teoria pode servir muito, mas não há nada melhor que a prática, que deixará recordações mais duradouras no espírito das crianças. Levem-nas para dentro da mata, ensinando-as a distinguir as diferentes espécies de árvores pelas folhas, cascas e frutos; mostrem-lhes as minúsculas sementes, das quais se geram os gigantes das selvas, as orquídeas, musgos e cipós que cobrem os galhos, o sub-bosque com a infinidade de arbustos, os capins e folhagens que cobrem o chão tapetado de folhas caídas que formarão o húmus fertilizante, os insetos, borboletas e pássaros que povoam o mato.  Expliquem-lhes no ambiente natural a utilidade da floresta virgem para a humanidade. Arrumem um silvicultor ou simples colono para ensinar aos jovens como usar a pá e a enxada, como preparar canteiros, como semear, regar, sombrear, arrancar inço, enfim, todos os cuidados culturais. (...) Tudo isso deixaria impressões indeléveis na alma das crianças.

A última foto de Roessler, tirada pouco antes da sua morte 


4) Você seguia uma espécie de disciplina interior e alcançava estados meditativos durante suas experiências na floresta. O que você disse à sua neta sobre o modo certo de meditar?

Primeiro, é preciso fazer silêncio por muito tempo. Depois é conviver com essa calma muda, como se fosse algo palpável.

No sossego de dentro, na alma capaz de ficar quieta, há uma vida que a maioria das pessoas infelizmente desconhece. (...) Não se precisa falar o tempo todo. O ser humano só poderá melhorar e crescer se o lugar do silêncio for encontrado.


NOTA:

[1] As fontes das respostas são respectivamente as seguintes: 1) “O Rio Grande do Sul e a Ecologia: Crônicas de um Naturalista Contemporâneo”, coletânea de textos de Henrique Roessler publicada pela Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, AGAPAN, em 1986,  219 pp., ver p. 71. 2) “Crônicas...”, obra citada, p. 34.  3) “Crônicas...” obra citada, pp. 35-36. 4) “O Homem do Rio, Biografia Íntima de Henrique Luiz Roessler”, de Maria Luiza Roessler, AGE Editora, Porto Alegre, 1999, 144 pp., ver p. 42.

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O texto acima apareceu pela primeira vez na revista “Planeta”, de São Paulo, e foi escrito segundo a mesma técnica usada no livro “Conversas na Biblioteca”, de Carlos Cardoso Aveline (Edifurb, Blumenau, SC, 169 pp., 2007). Foi publicado também na edição de novembro de 2014 de “O Teosofista”, sob o título de “Henrique Luiz Roessler: o Pioneiro da Ecologia no Brasil” (pp. 12-15).

O trabalho de Roessler é citado na obra “A Vida Secreta da Natureza”, de Carlos Cardoso Aveline (Bodigaya, Porto Alegre, 157 pp., 2007). Sua vida é tema dos livros “Roessler, o Homem que Amava a Natureza”, de Elenita Malta Pereira, e “Roessler: o Primeiro Ecopolítico”, de Ayrton Centeno.

Outro pioneiro do pensamento ecológico no Brasil foi o poeta, ex-governador de Minas Gerais e deputado federal Augusto de Lima (1859-1934).

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Sobre a ecologia da mente e a teosofia do ambiente natural, veja o livro “A Vida Secreta da Natureza”, de Carlos Cardoso Aveline.


A obra foi publicada pela Editora Bodigaya, de Porto Alegre, tem 157 páginas divididas por 18 capítulos, e está na terceira edição, de 2007.

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