16 de outubro de 2016

Nuvens

Afonso Lopes Vieira



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Nota Editorial:

O poema a seguir é um pequeno tratado
sobre a arte de olhar para o céu como um
espelho da alma. Constitui um estudo
sobre o lado transcendente do ciclo das
águas, e aborda a roda da reencarnação como
algo presente em todos os aspectos da natureza.  

(Carlos Cardoso Aveline)

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Nuvens errantes, chusmas vaporosas,
que, nestas tardes do fecundo outono,
pelo ar viajais e, ansiosas,
o vento leva a exílios de abandono:
convosco vão meus olhos, encantados
na cor que o Sol, de longe, ainda vos deu,
ó êxodo de povos desgraçados,
procurando uma pátria pelo céu!

Fostes, na terra de onde vos contemplo,
o rio, a onda, a poça, a fonte aos ais;
para depois, com imortal exemplo,
ascenderes para onde agora estais…

E nos altos do céu, onde, pairando,
lá ides de longada caminhando
por esses campos ermos e vazios,
ainda terrestres sois, no céu profundo,
e povoais o céu com o nosso mundo,
com esculturas de fontes e de rios.

Quem sabe se a preguiça em que se envolve
vosso rosado ser, será saudade
da vossa alma, que ainda à terra volve
os seus olhos mortais da imensidade?

Que bem se entende a vossa nostalgia…

E andais devagarinho, como a gente
que uma vez parte, e volta, e quereria
não partir, - mas tem de ir, forçosamente.

Essas remotas, pálidas viagens
que vos afastam, que vos evaporam,
são as tristes, justíssimas imagens
das almas que de longe vos namoram.

Nós somos, como vós, nuvens…, que apenas
se logram condensar, perdidas vão
efêmeras morrer, menos serenas
do que vós, - borboletas da amplidão…

Nós, homens, somos igualmente feitos
dessa errante matéria vagabunda
desprendida da terra, que aos seus peitos
nos amamenta e embala e leva e afunda.

Por isso os nossos olhos, embalados
na cor que o Sol, de longe, ainda vos deu,
partem convosco e andam, desterrados,
procurando uma pátria pelo céu!

Águas da terra, na maré das vidas,
já da terra partis vaporizadas,
mas embora vos saiba transformadas,
eu vejo-vos entanto enardecidas… [1]

Como vós, que já longe e mal diviso
no cinzento do céu, todo indeciso,
por sobre o mundo aonde vos criais:
como vós, a passar na asa dos ventos,
irão estes nublados pensamentos,

ó nuvens que partis, e não chegais…

NOTA:

[1] “Enardecidas”: do espanhol, “fervorosas, ardentes”.

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Reproduzido da obra “Ar Livre”, de Afonso Lopes Vieira, Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso, Lisboa, Portugal, 1906, 211 pp., pp. 55-58. O poeta viveu de 1878 a 1946 e esteve ligado ao movimento cultural Renascença Portuguesa, na cidade do Porto, no início do século 20. A ortografia foi atualizada.

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