5 de novembro de 2016

Autoconhecimento e Ecologia

Examinando a Realidade da Transição Humana

Maurício Andrés Ribeiro





A atividade humana está, inequivocamente, causando mudanças climáticas e transformações ambientais no planeta, segundo constatou o IPCC - Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas - em seu 4º Relatório, de 2007.

O ser humano provoca tantas alterações no ambiente que este período em que vivemos passou a ser designado como o antropoceno: um período que considera a influência humana no funcionamento do planeta como uma nova era na escala do tempo geológico.

No oráculo de Delfos, na Grécia antiga, estava inscrito:

“Oh, ser humano, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os Deuses!”

O autoconhecimento, valorizado em Delfos, volta a ser crucial diante da crise ecológica, pois as ações que causam forte impacto ambiental e social derivam de pensamentos e sentimentos, de necessidades e carências físicas ou emocionais, desejos e crenças, de qualidades mentais e espirituais. Esse autoconhecimento pode-se dar tanto na escala de um indivíduo, como de um grupo social ou população, e até na escala da espécie e do gênero Homo. As ciências humanas e sociais abordam a questão a partir dos indivíduos e grupos sociais. Uma abordagem ecológica inclui os aspectos biológicos e das ciências da natureza. A inscrição de Delfos sobre o autoconhecimento pode assim ser adaptada para a época atual: “Espécie humana, conhece-te a ti mesma e conhecerás o ambiente e o universo em que vives”.

Como espécie, quem somos nós, quais as nossas características principais? Que imagens e percepções temos dessa espécie? Os seres humanos, com sua consciência, capacidade de percepção e de comunicação, descreveram de várias maneiras o gênero Homo ao qual pertencem. Compilamos cerca de 40 delas, na expressão em latim: academicus, belicosus, beligerans, bellicus, complexus, consulens, consumptor, corruptus, cosmicus, deletabilis, demens, erectus, ergaster, faber, habilis, honestus, idioticus, lixus, ludens, moralis, noologicus, œcologicus, œconomicus, pecuniosus, perfectus, planetaris, proteus, ricus, sapiens, sapiens globalis, sapiens localis, sapiens sapiens, scientificus, simbioticus, sportivus, stressatus, superpredator, sustentabilis, tecnocraticus, universalis.

Fomos designados como Homo demens: “O homem é esse animal louco cuja loucura inventou a razão”, disse Cornelius Castoriadis; como o Homo moralis e o Homo honestus, um primata que coopera e que se comporta com valores éticos; o Homo sportivus e o Homo ludens, pelas características lúdicas, que compartilha com outros animais que jogam, gostam de brincar e fazer humor (Johan Huizinga); o Homo corruptus, uma espécie parasita e predatória.

Temos capacidade de autorreflexão e de saber-nos ignorantes: o Homo idioticus que se deixa enganar e ao mesmo tempo é capaz de fazer humor e de se enxergar criticamente. É conhecida a história de dois planetas que se encontram. Coçando-se, um diz: “Estou incomodado com essa coceira.” Pergunta o outro: “O que pode ser isso?” O primeiro responde: “Acho que é Homo sapiens”. O segundo finaliza a conversa: “Não se preocupe, isso passa logo.”

O Homo bellicus se denomina assim por seu caráter guerreiro. Ao desenvolver a tecnologia somos os Homo tecnocraticus. O Homo economicus e o Homo consumptor representam uma espécie composta de indivíduos egoístas em busca de gratificação pessoal e acumulação material. Já o Homo scientificus valoriza a observação objetiva, a classificação e a mensuração. Edgar Morin fala do Homo complexus, que lida com a complexidade. Hoje podemos nos ver também como o Homo lixus, a única espécie animal que produz lixo: dois milhões de toneladas por dia. E ainda como o Homo stressatus moderno, com as consequências que o estresse acarreta para a saúde, ansioso, com medo e preocupado com o futuro e com ameaças reais ou imaginárias. Diegues imagina o Homo ricus, uma parcela da humanidade que derivará da plutocracia e que se descolará do restante da espécie, beneficiária de onerosos avanços da medicina, que nem todos podem pagar. O Homo Consulens trata com cuidado de sua casa e das demais espécies.

Ao ocuparmos todo o planeta, nos vemos como Homo planetaris; ao viajarmos no espaço, somos os Homo cosmicus e o Homo universalis. Transumanistas, que trabalham com a perspectiva de um ser evolutivo, acenam com o surgimento do Homo perfectus que atua por meio do uso ético das tecnologias para estender as capacidades humanas. Ou o Homo noologicus, que sabe das consequências de seus atos.

Em diferentes momentos, distintas qualidades da espécie foram percebidas e expressas por tais definições ou designações, e cada uma delas corresponde a uma parcela da realidade acerca desse ser que apresenta grandezas e misérias. Cada uma dessas categorias reconhece uma faceta e uma característica e se baseia em atributos variados. Todas expressam uma parte da realidade, mas nenhuma esgota a descrição desse ser complexo e multidimensional. Assim, podemos observar que algumas definições enfatizam nossos defeitos e deficiências, outras realçam nossas boas qualidades e virtudes; outras, ainda, enxergam aspectos físicos, sociais, espirituais. Algumas expressam uma visão crítica e autocrítica. Outras têm uma conotação humorística; outras, ainda, expressam uma percepção das potencialidades, de uma visão ideal ou de um desejo de quem as formula; ainda há aquelas que procuram expressar o que seus proponentes visualizam como a verdade ou a realidade sobre as facetas da espécie. Muitas focam mais nas qualidades da consciência do que em diferenças biológicas ou genéticas. 

A variedade de definições filosóficas parte de distintas concepções e modelos mentais. Algumas definições enfatizam o pensamento (Descartes: “Penso, logo existo”); outras nos definiram como animal racional, enfatizando a razão. Aristóteles nos definiu como animais políticos. Outros, como Hobbes, realçaram nossa característica predatória: “O homem é o lobo do homem”.

A tradição hindu enfatiza nosso caráter divino, como um corpo de luz, com desidentificação e abstração do corpo. Outras explicitam nosso caráter falível: “Errar é humano”. Nossas várias designações como espécie podem espelhar como nos vemos em nossas características e papéis sociais e individuais. Freud observou que “Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”. Assim, quando alguém diz que o ser humano não tem jeito, que é como uma praga e que a natureza humana é vil, aquela pessoa pode estar projetando uma característica que enxerga em si para toda a espécie. Passamos a saber mais sobre quem expressa essa percepção do que sobre a própria espécie humana.

No contexto da evolução, são também variados os papéis que essa espécie tem exercido e pela qual tem sido designada: gestora da evolução, senhora do clima (Tim Flannery); engenheira de manutenção do planeta (James Lovelock), degradadora, exterminadora e predadora de outras espécies; construtora e facilitadora da evolução.

A consciência humana é uma força poderosa. Caso seja colocada a serviço de práticas construtivas e orientada para desenvolver relações ecológicas harmônicas de simbiose e cooperação baseadas em valores éticos, pode ajudar a regenerar e restaurar o oásis Terra em que vivemos. Caso seja colocada a serviço de valores destrutivos e desenvolva relações desarmônicas de predatismo, parasitismo e canibalismo de uns contra os outros, pode acelerar colapsos e destruição ecológica, social, econômica, política.

Cabe à consciência de cada um de nós e à consciência coletiva discernir entre o que deve, pode e precisa ser feito, para a partir disso orientar nossas ações. O rumo que tomará o desenvolvimento e a evolução da matéria e da vida no planeta será influenciado por esse discernimento. A ecologia do ser é um caminho para desenvolver o autoconhecimento e para dar respostas à atual crise da evolução.

000

Maurício Andrés Ribeiro é autor das obras “Ecologizar” e de “Tesouros da Índia”. Visite o website www.ecologizar.com.br. Contato: ecologizar@gmail.com.

000

O texto acima foi publicado pela primeira vez na edição de fevereiro de 2012 de “O Teosofista”.

000

Em setembro de 2016, depois de cuidadosa análise da situação do movimento esotérico internacional, um grupo de estudantes decidiu formar a Loja Independente de Teosofistas, que tem como uma das suas prioridades a construção de um futuro melhor nas diversas dimensões da vida.

000 

O grupo SerAtento oferece um estudo regular da teosofia clássica e intercultural ensinada por Helena Blavatsky (foto). 


Para ingressar no SerAtento, visite a página do e-grupo em YahooGrupos e faça seu ingresso de lá mesmo. O link direto é este:   


000