11 de maio de 2026

Bom, Mas Não Muito

Uma Lenda do Folclore Russo,
Contada Por Um Escritor Brasileiro
 
Malba Tahan


 
Nota Editorial:
 
Durante décadas a história a seguir circulou no Brasil como piada popular, com adaptações livres a cargo de cada narrador do povo. A moral da narrativa - a sua lição prática - é a seguinte:
 
“Os acontecimentos externos oscilam o tempo todo e seus resultados são complexos. Não vale a pena catalogar automaticamente como desejável ou indesejável este ou aquele fato da vida diária. Tudo traz lições. Uma vitória cria perigos, e uma derrota pode tornar-nos mais sábios. Cada um deve fazer o seu melhor, plantando bom carma diante do que parece agradável, e fazendo o mesmo diante do que parece desagradável.”
 
Uma palavra sobre o personagem principal e narrador do conto. Cabe a ele desenvolver a paciência e a impessoalidade, para não ficar a pé na estrada. Sempre é possível aprender, e isso é que é bom.
 
(Carlos Cardoso Aveline)
 
Bom, Mas Não Muito
 
Malba Tahan
 
A diligência, entre nuvens de poeira, rolava aos trancos pela estrada. Alguns passageiros, de braços cruzados, meditavam em silêncio. Ouviam-se, de quando em vez, os gritos estridentes do boleeiro. Na minha frente dois camponeses conversavam. Um deles, que parecia o mais velho, falava desta sorte:
 
- Tenho agora um magnífico pomar em minha casa.
 
- Isso é que é bom! - ajuntou o outro com um sorriso de vulgar e lorpa amabilidade.
 
- Bom, mas não muito - respondeu o velho - pois tenho tido, com o pomar, um trabalho excessivo.
 
- Isso é que é mau!
 
- Mau, mas não muito. Graças ao novo pomar ganhei algum dinheiro e com esse primeiro lucro comprei um porco.
 
- Isso é que é bom!
 
- Bom, mas não muito. O porco fugiu-me de casa, e foi para o quintal do vizinho que se apoderou dele e o matou.
 
- Isso é que foi mau!
 
- Mau, mas não muito. Dei queixa ao juiz e o meu vizinho foi obrigado a me pagar uma boa indenização.
 
- Isso é que foi bom!
 
- Bom mas não muito, pois o tal vizinho, em represália, soltou os cabritos no meu pomar.
 
- Isso é que foi mau!
 
- Mau, mas não muito. Matei os cabritos e vendi as peles na feira.
 
- Isso é que foi bom!
 
- Bom, mas não muito…
 
Aquela conversa já começara a fazer-me mal aos nervos. Resolvi descer da diligência mesmo em movimento; fui, porém, tão infeliz que tropecei numa pedra e caí.
 
Isso é que foi mau! - dirá naturalmente o leitor.
 
Mau, mas não muito. Pois só assim fiquei livre de ouvir, durantes algumas horas, uma história que parecia não ter mais fim.
 
Isso é que foi bom!
 
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O conto acima está disponível nos websites da Loja Independente de Teosofistas desde 11 de maio de 2026.  Ele é reproduzido do livro “Contos de Malba Tahan”, 2ª edição, impresso em dezembro de 1929 em A Encadernadora, S.A., Rio de Janeiro, 236 pp., ver pp. 217-219. Está publicado também, com sua Nota Editorial, na edição de outubro de 2021 de “O Teosofista”, pp. 4-5. A Nota Editorial foi revisada para a publicação de 2026.
 
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